{"id":33006,"date":"2008-07-10T13:02:16","date_gmt":"2008-07-10T13:02:16","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/07\/10\/o-ano-paulino-caminhar-com-coracao\/"},"modified":"2008-07-10T13:02:16","modified_gmt":"2008-07-10T13:02:16","slug":"o-ano-paulino-caminhar-com-coracao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-ano-paulino-caminhar-com-coracao\/","title":{"rendered":"O Ano Paulino: Caminhar com Cora\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>1- Por motivos sobejamente conhecidos, a palavra \u00abcora\u00e7\u00e3o\u00bb assumiu desde Janeiro passado, na minha vida quotidiana e no contacto di\u00e1rio com a B\u00edblia, uma resson\u00e2ncia especial. Eu conhecia j\u00e1 a polissemia da palavra, mas ela tornou-se-me agora mais espont\u00e2nea e consciente.  Cora\u00e7\u00e3o \u00e9 o \u00f3rg\u00e3o que a biologia e a medicina descrevem como respons\u00e1vel pela circula\u00e7\u00e3o do sangue no corpo, \u00e9 quase o moinho da vida, e, nesse sentido, a B\u00edblia diz que, \u00e0s vezes, \u00abo cora\u00e7\u00e3o parece rebentar nas paredes do peito\u00bb; mas o cora\u00e7\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m sin\u00f3nimo do dinamismo mais profundo da pessoa humana: com o cora\u00e7\u00e3o se entende, com o cora\u00e7\u00e3o se decide, com o cora\u00e7\u00e3o se ama, com o cora\u00e7\u00e3o se pratica o bem e o mal, com o cora\u00e7\u00e3o se reza, com o cora\u00e7\u00e3o se faz mem\u00f3ria, com o cora\u00e7\u00e3o se chora, com o cora\u00e7\u00e3o se canta, com o cora\u00e7\u00e3o se cr\u00ea e se espera, com o cora\u00e7\u00e3o se v\u00ea a Deus, com o cora\u00e7\u00e3o se ouve a sua voz, no cora\u00e7\u00e3o se escondem os segredos da vida. O cora\u00e7\u00e3o \u00e9 a profundidade da pessoa, s\u00e3o as ra\u00edzes do ser, de modo que \u00abdar o cora\u00e7\u00e3o\u00bb \u00e9 dar a vida, \u00abdesvi\u00e1-lo de algo\u00bb \u00e9 dar um novo rumo \u00e0 vida, \u00abafast\u00e1-lo\u00bb de algu\u00e9m \u00e9 rejeitar essa pessoa, \u00e9 quase odiar!  Na B\u00edblia todas as nossas rela\u00e7\u00f5es com Deus e com o pr\u00f3ximo s\u00e3o designadas como \u00abobras do cora\u00e7\u00e3o\u00bb, e, para serem aut\u00eanticas, essas rela\u00e7\u00f5es t\u00eam de \u00abpassar pelo cora\u00e7\u00e3o\u00bb. 2- Na cultura europeia, a come\u00e7ar na filosofia grega, fez-se uma separa\u00e7\u00e3o da intelig\u00eancia e do cora\u00e7\u00e3o, e essa ruptura foi crescendo cada vez mais a ponto de se entender a intelig\u00eancia como a faculdade de an\u00e1lise e reflex\u00e3o, fria como m\u00e1quina de calcular e elevada \u00e0 categoria de maior qualidade da pessoa, cujo elogio consiste em dizer que \u00ab\u00e9 uma intelig\u00eancia\u00bb, \u00abum cr\u00e2nio\u00bb, como dizem os jovens; e o sentimento como mera afectividade cega, algo menos v\u00e1lido e quase indigno do homem culto e, por isso, se diz de algu\u00e9m que \u00abtem bons sentimentos mas n\u00e3o passa disso\u00bb.  Essa separa\u00e7\u00e3o acentuou-se no s\u00e9c. XVII com Descartes (o tal do penso, logo existo, ficando tudo dependurado do pensamento frio), e culminou nos fil\u00f3sofos alem\u00e3es Kant e Hegel (a ideia \u00e9 o real). A filosofia de S. Agostinho, que o Papa actual sempre seguiu e segue., ficou fora dessa separa\u00e7\u00e3o. Da\u00ed, a actualidade de S. Agostinho, nomeadamente nas suas Confiss\u00f5es.  Nos nossos dias aquela separa\u00e7\u00e3o da raz\u00e3o e do sentimento incarnou em duas direc\u00e7\u00f5es absolutizadas: a t\u00e9cnica e o hedonismo. A t\u00e9cnica \u00e9 a rainha do chamado mundo do conhecimento, \u00e9 ela que \u00abdecide\u00bb o que verdadeiramente existe, o real &#8211; o que existe \u00e9 o que sabemos fazer e produzir (a f\u00f3rmula dessa atitude pode ser: fa\u00e7o, logo existo); o hedonismo \u00e9 o imp\u00e9rio do sentimento, ouvindo-se dizer por todo o lado, de um modo amolecido, quase oposto ao dito de Descartes: sinto, logo existo.  Tudo fica, assim, dependurado da t\u00e9cnica e do sentimento: \u00abse eu sei fazer isto, porque \u00e9 que n\u00e3o hei-de fazer?\u00bb e \u00abse n\u00e3o gosto disto, desta comida, da missa, dos livros, n\u00e3o gosto do trabalho: porque \u00e9 que n\u00e3o respeitam os meus gostos?\u00bb.  Deste modo, ao lado da atitude racionalista e fria do mundo da tecnologia, campeia hoje o mundo das sensa\u00e7\u00f5es e emo\u00e7\u00f5es, e esses dois mundos a\u00ed est\u00e3o de m\u00e3os dadas a ocupar todo o espa\u00e7o intelectual e do trabalho, e o mundo das discotecas com a droga e as fantasias sensuais escondidas a ocupar os tempos livres.  S\u00e3o as duas partes do homem partido que se reclamam uma \u00e0 outra. 3- Tudo isto \u00e9 trazido para aqui, n\u00e3o para dar li\u00e7\u00f5es de filosofia, mas por causa do Ano Paulino que estamos a viver.  A Igreja prop\u00f5e a todos os crist\u00e3os uma viagem com Paulo de Tarso, estampado na sua vida e nas suas cartas. Nos textos paulinos o homem que aparece \u00e9 o homem b\u00edblico, o homem unido e unificado, cabe\u00e7a e cora\u00e7\u00e3o, embora j\u00e1 surjam alguns sinais da linguagem grega. Neste sentido, a viagem do Ano Paulino faz-se, portanto, com o cora\u00e7\u00e3o b\u00edblico, isto \u00e9, com intelig\u00eancia e afecto unidos, a pensar e a sentir, a estudar e a rezar, connosco e com os outros, de um modo semelhante ao que usamos na liturgia da Palavra na Eucaristia: escutando a leitura, analisando o texto, enriquecendo-os com os lugares paralelos, comparando-o com a vida pessoal e social, rezando e cantando.  A grande tenta\u00e7\u00e3o no uso da B\u00edblia \u00e9 fugir para o comportamento racionalista ocidental, vaidoso e est\u00e9ril, a vaidade de acumular curiosidades sobre Paulo e a sociedade do seu tempo, \u00abpara saber\u00bb e n\u00e3o \u00abpara dar volta \u00e0 vida\u00bb. Tal atitude faz lembrar a cabeleira de Absal\u00e3o que s\u00f3 serviu para o enforcar num carvalho da floresta onde ficou dependurado pelos cabelos ao fugir-lhe o cavalo que ele montava em luta contra o seu pai David (II Sam.18,9).  Nas rela\u00e7\u00f5es com Deus \u00e9 essencial usar o \u00abcora\u00e7\u00e3o b\u00edblico\u00bb, a paix\u00e3o profunda da pessoa, a for\u00e7a interior da reflex\u00e3o encantada, a aud\u00e1cia alegre, a ternura inteligente e a intelig\u00eancia aquecida. Permito-me exemplificar esta \u00abatitude do cora\u00e7\u00e3o\u00bb com o modo como Paulo fala da sua convers\u00e3o: \u00abCristo apanhou-me quando eu ia para Damasco\u00bb. \u00abApanhou-me\u00bb \u00e9 um verbo vivo e inteiri\u00e7o, inclui a pessoa toda (raz\u00e3o, vontade, sensibilidade, vida real, passado e futuro, realismo e sonho). Faz lembrar a express\u00e3o usada pelo profeta Ezequiel para falar da sua voca\u00e7\u00e3o &#8211; \u00abIav\u00e9 apanhou-me pelos cabelos e transportou-me a Jerusal\u00e9m para eu ver as abomina\u00e7\u00f5es que ali se faziam; ou a voca\u00e7\u00e3o de Habacuc &#8211; \u00abIav\u00e9 agarrou Habacuc pelos cabelos e transportou-o a Babil\u00f3nia para que levasse a Daniel as migas de p\u00e3o que estava a preparar para os ceifeiros. (Ez.8,3, Dan. 14,35). \u00c9 esta mesma linguagem, inteiri\u00e7a e vibrante, que Paulo usa na sauda\u00e7\u00e3o inicial de muitas cartas: \u00abPaulo, servo de Jesus Cristo, chamado ao apostolado, escolhido para anunciar o Evangelho de Deus que Este tinha prometido antes pelos seus profetas nas Santas Escrituras\u00bb (Carta aos Romanos), \u00abPaulo, chamado a ser Ap\u00f3stolo de Jesus Cristo por vontade de Deus\u00bb (Carta aos Cor\u00edntios);  \u00abPaulo, Ap\u00f3stolo, n\u00e3o por vontade dos homens nem por interm\u00e9dio de um homem, mas por Jesus Cristo e por Deus Pai\u00bb (Carta aos G\u00e1latas);  \u00abPaulo, Ap\u00f3stolo de Jesus Cristo, por mandato de Deus, Nosso Salvador, e de Jesus Cristo, nossa esperan\u00e7a\u00bb (Carta a Tim\u00f3teo);  \u00abPaulo, Ap\u00f3stolo de Jesus Cristo, para levar aos escolhidos de Deus a f\u00e9 e o conhecimento da verdade que Deus prometeu antes do come\u00e7o dos s\u00e9culos e que manifestou a seu tempo por meio da prega\u00e7\u00e3o que me foi confiada\u00bb (Carta a Tito). A nossa viagem com S. Paulo faz-se com a cabe\u00e7a e o cora\u00e7\u00e3o, com a vida inteira, aceitando dar os tombos que forem precisos.  D. Joaquim Gon\u00e7alves, Bispo de Vila Real  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1- Por motivos sobejamente conhecidos, a palavra \u00abcora\u00e7\u00e3o\u00bb assumiu desde Janeiro passado, na minha vida quotidiana e no contacto di\u00e1rio com a B\u00edblia, uma resson\u00e2ncia especial. Eu conhecia j\u00e1 a polissemia da palavra, mas ela tornou-se-me agora mais espont\u00e2nea e consciente. Cora\u00e7\u00e3o \u00e9 o \u00f3rg\u00e3o que a biologia e a medicina descrevem como respons\u00e1vel pela [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[113,171,183,187,246],"class_list":["post-33006","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-ano-paulino","tag-diocese-de-beja","tag-diocese-de-vila-real","tag-diocese-do-porto","tag-liturgia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33006","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=33006"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33006\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=33006"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=33006"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=33006"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}