{"id":32978,"date":"2008-07-09T11:38:30","date_gmt":"2008-07-09T11:38:30","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/07\/09\/50-anos-da-carta-a-salazar\/"},"modified":"2008-07-09T11:38:30","modified_gmt":"2008-07-09T11:38:30","slug":"50-anos-da-carta-a-salazar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/50-anos-da-carta-a-salazar\/","title":{"rendered":"50 anos da Carta a Salazar"},"content":{"rendered":"<p>A missiva de D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes d\u00e1 a conhecer as mis\u00e9rias da \u00e9poca e aponta solu\u00e7\u00f5es fundamentadas nos documentos pontif\u00edcios <!--more--> Nunca um \u00abpr\u00f3-mem\u00f3ria\u00bb foi objecto de tanta investiga\u00e7\u00e3o como aquele que D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes escreveu a Ant\u00f3nio de Oliveira Salazar. Redigido a 13 de Julho de 1958, este documento est\u00e1 a celebrar o seu cinquenten\u00e1rio. \u00c0 carta-den\u00fancia das injusti\u00e7as sociais, Salazar respondeu, um ano depois, com o ex\u00edlio do bispo do Porto. Depois das elei\u00e7\u00f5es de 1958, cujo vencedor foi Am\u00e9rico Tom\u00e1s, o c\u00e9lebre bispo do Porto remeteu a Salazar a missiva que referenciou como \u00abpr\u00f3-mem\u00f3ria\u00bb para um seu eventual encontro com o presidente do Conselho. \u201cCumpre-me, antes do mais, agradecer a V. Ex\u00aa o ter manifestado a boa disposi\u00e7\u00e3o de me ouvir\u201d \u2013 in\u00edcio do documento de D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes ao Presidente do Conselho.  Depois de explicar as raz\u00f5es da sua vinda a Portugal para votar \u2013 estava \u201clegitimamente ausente em Barcelona\u201d -, D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes considera que o pedido que lhe foi feito, \u201cpor forma t\u00e3o extraordin\u00e1ria e p\u00fablica, n\u00e3o poderia deixar de considerar-se propaganda da Situa\u00e7\u00e3o\u201d \u2013 real\u00e7a o \u00abPr\u00f3-Mem\u00f3ria\u00bb. A \u00abhist\u00f3ria\u00bb dessa carta come\u00e7ou, no exacto momento, em que o bispo do Porto se recusou a servir de bandeira do regime nas elei\u00e7\u00f5es para a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica no m\u00eas transacto. \u201cEm tais condi\u00e7\u00f5es e for\u00e7ado a ser, diametralmente ao contr\u00e1rio do meu desejo, uma bandeira, eu n\u00e3o podia deixar de fazer uma declara\u00e7\u00e3o de voto. Como a n\u00e3o deveria fazer ao p\u00fablico, requeri faz\u00ea-la a V. Ex\u00aa\u201d \u2013 escreveu no documento. Ap\u00f3s as explica\u00e7\u00f5es iniciais, o prelado natural de Milhundos mostrou-se preocupado pelo facto da Igreja em Portugal, como a \u201ccampanha eleitoral revelou de forma irrefrag\u00e1vel e escandalosa\u201d, estar \u201cperdendo a confian\u00e7a dos seus melhores\u201d \u2013 sublinha. Com o intuito de esclarecer a sua afirma\u00e7\u00e3o, D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes apresenta dois casos ao Presidente do Conselho. No Minho &#8211; \u201ccora\u00e7\u00e3o cat\u00f3lico de Portugal\u201d \u2013 \u201cmal os padres come\u00e7avam a falar de elei\u00e7\u00f5es, os homens, sem se importarem como sentido que seria dado ao ensino, retiravam-se afrontosamente da igreja\u201d.  Nas juventudes da Ac\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica, os dirigentes \u201cmais respons\u00e1veis saltam fora dos quadros e da disciplina, para manifestarem a sua inconformidade e desespero, fugindo ao conhecimento dos assistentes (que, apesar de tudo, lhes aconselhariam paci\u00eancia)\u201d.  Estes dois factos causam preocupa\u00e7\u00e3o ao bispo do Porto. \u201cEst\u00e1-se perdendo a causa da Igreja na alma do povo, dos oper\u00e1rios e da juventude; se esta se perde, que poderemos esperar da sorte da na\u00e7\u00e3o?\u201d \u2013 l\u00ea-se no \u00abPr\u00f3-Mem\u00f3ria.  A missiva recorda tamb\u00e9m alguns pontos caricatos da imagem que Portugal tinha no estrangeiro. \u201cH\u00e1 trinta anos estava eu, em Roma, sob o esplendor do sol ascendente do fascismo\u201d, e um jornal humor\u00edstico mostrava Portugal \u201cmendigando \u00e0 porta da S. D. N. e obtinha esta resposta: &#8211; aqui n\u00e3o se entra \u00aba la portoghesa\u00bb\u201d. Como a imagem da P\u00e1tria no exterior n\u00e3o era muito abonat\u00f3ria, D. Ant\u00f3nio confessa: \u201clembro bem a como\u00e7\u00e3o e o entusiasmo, o sobressalto de esperan\u00e7a com que acompanh\u00e1mos os in\u00edcios da carreira\u201d de Ant\u00f3nio Oliveira Salazar. E acrescenta: \u201cmais do que para todos, era para n\u00f3s, afastados da P\u00e1tria, uma esp\u00e9cie de resgate e reabilita\u00e7\u00e3o perante o estrangeiro desprezador\u201d.  <b>Crise nacional<\/b> Nos prim\u00f3rdios do Estado Novo, D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes guardava \u201creligiosamente\u201d as palavras ou as refer\u00eancias que eram feitas ao Presidente do Conselho. Reconhecia-lhe \u201ccompet\u00eancia profissional\u201d e as \u201cactividades no campo cat\u00f3lico\u201d. Passados os anos, o Bispo do Porto frisou que \u201cn\u00e3o diminuiu a minha estima e respeito pela personalidade de V. Ex\u00aa nem a admira\u00e7\u00e3o pela sua intelig\u00eancia\u201d.  A \u201ctremenda crise nacional\u201d que a campanha eleitoral \u201cp\u00f4s a nu\u201d merecia umas palavras de Ant\u00f3nio Oliveira Salazar. Depois de ouvir e ler o discurso do Presidente do Conselho, a 31 de Maio de 1958, o bispo do Porto lembra no documento: \u201cenquanto trata das pol\u00edticas externa e ultramarina e do problema econ\u00f3mico, salvas pequenas diferen\u00e7as, n\u00e3o pude sen\u00e3o admirar a lucidez do racioc\u00ednio e o bem fundamentado das posi\u00e7\u00f5es\u201d. N\u00e3o deixou, por\u00e9m, de discordar das suas doutrinas relativamente ao problema social. \u201cTudo come\u00e7ou a ser dif\u00edcil\u201d \u2013 l\u00ea-se na carta. Ap\u00f3s  fazer um exerc\u00edcio l\u00f3gico \u2013 \u201co qual depois segui conscientemente\u201d -, D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes procurou \u201ca exacta contradit\u00f3ria das posi\u00e7\u00f5es expressas\u201d pelo Presidente do Conselho. Ap\u00f3s analisar o discurso de Ant\u00f3nio Oliveira Salazar, o bispo do Porto escreve que cr\u00ea \u201cbem-estar com a doutrina da Igreja ao discordar de doutrinas que, sendo de V. Ex\u00aa, s\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o\u201d.  Como gosta de explicar as suas posi\u00e7\u00f5es e fundament\u00e1-las, D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes alinha algumas dessas oposi\u00e7\u00f5es \u201ccom um m\u00ednimo de aclara\u00e7\u00f5es\u201d.  Depois de Ant\u00f3nio Salazar referir que \u201ca greve \u00e9 entre n\u00f3s um crime\u201d, o bispo do Porto lamenta tal posi\u00e7\u00e3o do Chefe de Estado. Fazendo refer\u00eancia \u00e0s reivindica\u00e7\u00f5es da campanha de Humberto Delgado \u2013 \u201ca reclama\u00e7\u00e3o de ser reconhecido o direito \u00e0 greve\u201d -, o prelado do Douro afirma: \u201celes est\u00e3o com a doutrina da Igreja\u201d.   <b>Pulsar da sociedade<\/b> D. Ant\u00f3nio sentia o pulsar da sociedade portuguesa e reflecte-o no \u00abpr\u00f3-mem\u00f3ria\u00bb. Apesar da sua forma\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica, o \u00abcelebre bispo do Porto\u00bb olha para os problemas sociais com preocupa\u00e7\u00e3o. \u201cN\u00e3o poderei dizer quanto me aflige o j\u00e1 hoje exclusivo privil\u00e9gio portugu\u00eas do mendigo, do p\u00e9-descal\u00e7o, do maltrapilho, do farrap\u00e3o; nem sequer o nosso triste apan\u00e1gio das mais altas m\u00e9dias de subalimentados, de crian\u00e7as enxovalhadas e exangues  e de rostos p\u00e1lidos\u201d \u2013 sublinha na missiva.  Um documento que analisa a sociedade da \u00e9poca. As tens\u00f5es sociais e pol\u00edticas n\u00e3o paravam de subir. Antes de D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes colocar o dedo nesta ferida social, j\u00e1 o Pe. Abel Varzim, Joaquim Alves Correia e outros tomavam posi\u00e7\u00f5es cr\u00edticas em rela\u00e7\u00e3o ao regime.  O pr\u00f3prio bispo do Porto s\u00f3 avan\u00e7ou com a \u00abcarta\u00bb ao Presidente do Conselho porque a Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa n\u00e3o publicou, tr\u00eas anos antes, um texto sobre a situa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores no nosso pa\u00eds e, nomeadamente a situa\u00e7\u00e3o do corporativismo. Como os seus colegas do episcopado n\u00e3o deram o passo fundamental para denunciar os casos, D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes viu-se \u00abobrigado\u00bb, mas em consci\u00eancia a escrever o que lhe ia na alma. Com este documento exerceu o seu m\u00fanus de pastor.    A missiva d\u00e1 a conhecer as mis\u00e9rias da \u00e9poca e aponta solu\u00e7\u00f5es fundamentadas nos documentos pontif\u00edcios.   <b>O ex\u00edlio<\/b> A conversa entre os dois Ant\u00f3nios n\u00e3o chegou a realizar-se devido a v\u00e1rios factores, mas o bispo condensou em quatro quest\u00f5es aquilo que desejaria perguntar a Ant\u00f3nio de Oliveira Salazar. \u201cTem o Estado qualquer objec\u00e7\u00e3o a que a Igreja ensine livremente e por todos os meios, principalmente atrav\u00e9s das organiza\u00e7\u00f5es e servi\u00e7os da Ac\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica e da Imprensa, a sua doutrina Social?\u201d; \u201cTem o Estado qualquer objec\u00e7\u00e3o a que a Igreja autorize, aconselhe e estimule os cat\u00f3licos a que fa\u00e7am a sua forma\u00e7\u00e3o c\u00edvico-pol\u00edtica, de forma a tomarem plena consci\u00eancia dos problemas da comunidade portuguesa, na concreta conjuntura presente, e estarem aptos a assumir as responsabilidades que lhes podem e devem caber, como cidad\u00e3os cat\u00f3licos?\u201d; \u201cTem o Estado qualquer objec\u00e7\u00e3o a que os cat\u00f3licos definam, publiquem e propaguem o seu programa ou programas, politicamente situados, em concreto hic et nunc, o que evidentemente n\u00e3o pode ir sem o despertar de esperan\u00e7as de muta\u00e7\u00f5es ousadas e substanciais e do seu clima emocional?\u201d e \u201cTem o Estado qualquer objec\u00e7\u00e3o a que os cat\u00f3licos, se assim o entenderem e quando entenderem, iniciem o m\u00ednimo de organiza\u00e7\u00e3o e ac\u00e7\u00e3o pol\u00edticas, a fim de estarem aptos, nas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es legislativas ou quando julgarem oportuno, a concorrer ao sufr\u00e1gio, com programa definido e com os candidatos que preferirem?\u201d. As quest\u00f5es chegaram aos nossos dias. Como resposta teve um ex\u00edlio de dez anos.    <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A missiva de D. 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