{"id":329399,"date":"2024-06-09T05:31:58","date_gmt":"2024-06-09T04:31:58","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=329399"},"modified":"2024-06-06T17:06:12","modified_gmt":"2024-06-06T16:06:12","slug":"religiosidade-popular-os-valores-cristaos-nao-sao-para-estar-fechados-dentro-da-igreja-padre-miguel-neto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/religiosidade-popular-os-valores-cristaos-nao-sao-para-estar-fechados-dentro-da-igreja-padre-miguel-neto\/","title":{"rendered":"Religiosidade Popular: \u00abOs valores crist\u00e3os n\u00e3o s\u00e3o para estar fechados dentro da igreja\u00bb &#8211; padre Miguel Neto"},"content":{"rendered":"<p><em> O m\u00eas de junho traz consigo grandes festejos de norte a sul do pa\u00eds. Nas proximidades da celebra\u00e7\u00e3o dos Santos Populares \u00e9 convidado da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia, o diretor da Pastoral do Turismo-Portugal<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_329388\" aria-describedby=\"caption-attachment-329388\" style=\"width: 1500px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/miguel-neto-mc-2024.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-329388 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/miguel-neto-mc-2024.jpg\" alt=\"\" width=\"1500\" height=\"1022\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/miguel-neto-mc-2024.jpg 1500w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/miguel-neto-mc-2024-382x260.jpg 382w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/miguel-neto-mc-2024-1024x698.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/miguel-neto-mc-2024-768x523.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/miguel-neto-mc-2024-474x324.jpg 474w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-329388\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA\/MC<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Os Santos Populares s\u00e3o uma das maiores manifesta\u00e7\u00f5es coletivas das cren\u00e7as da religiosidade popular no nosso pa\u00eds, com ou sem rela\u00e7\u00e3o com o ritual oficial, at\u00e9 pela sua liga\u00e7\u00e3o com pr\u00e1ticas antigas, que assinalavam a chegada do ver\u00e3o. Pergunto-lhe se esta religiosidade popular deve ser educada e como \u00e9 que devemos olhar para estas celebra\u00e7\u00f5es dos Santos Populares que enchem as nossas cidades<\/em><\/p>\n<p>De facto, a religiosidade popular \u00e9 uma cristianiza\u00e7\u00e3o daquilo que eram as festas que davam in\u00edcio ao ver\u00e3o e aqui no nosso pa\u00eds \u00e9 sempre algo muito caracter\u00edstico e muito identit\u00e1rio at\u00e9 da nossa viv\u00eancia crist\u00e3. H\u00e1 uma mistura entre aquilo que \u00e9 a tradi\u00e7\u00e3o quase civil e a tradi\u00e7\u00e3o religiosa. Um exemplo disso, perfeitamente, \u00e9 as festas de Santo Ant\u00f3nio em Lisboa, onde existe aquela tradi\u00e7\u00e3o dos casamentos, que de um lado s\u00e3o sacramento e do outro lado n\u00e3o s\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 uma face muito vis\u00edvel daquilo que \u00e9 o cristianismo cultural e daquilo que \u00e9 a celebra\u00e7\u00e3o dos nossos valores judaico-crist\u00e3os na nossa cultura. \u00c9 algo que muitas vezes, por uma parte da Igreja mais intelectual ou mais pastoral, no sentido de centrada naquilo que s\u00e3o as estruturas da par\u00f3quia, muitas vezes \u00e9 esquecida, mas \u00e9 uma \u00f3tima forma de aproximar as pessoas daquilo que \u00e9 a vida concreta da comunidade crist\u00e3.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Do ponto de vista da reflex\u00e3o teol\u00f3gica, falta valorizar efetivamente a utiliza\u00e7\u00e3o destes sinais e gestos simb\u00f3licos que expressam uma componente profundamente humana e tamb\u00e9m religiosa? <\/em><\/p>\n<p>Sim, falta. Em muitos casos n\u00e3o \u00e9 determinantemente valorizada, em outros, passa-se at\u00e9 nas par\u00f3quias mais antigas. As pessoas preocupam-se mais com os bailaricos, com as festas, com a parte&#8230; N\u00e3o gosto de usar a palavra pag\u00e3, mas com a parte que mais profana do que com aquilo que \u00e9 a quest\u00e3o da dimens\u00e3o das prociss\u00f5es. E, em muitos espec\u00edficos do nosso pa\u00eds, tamb\u00e9m h\u00e1 uma forma de pessoas que t\u00eam a sua origem naquele povo, naquela terra, mas que vivem noutras terras mais envolvidas ou mesmo at\u00e9 no estrangeiro, virem porque gostam das festas da sua terra, da sua par\u00f3quia, da sua freguesia. \u00c9 uma forma de rever amigos e de n\u00e3o nos esquecermos do s\u00edtio onde nascemos e onde fomos criados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas para valorizar essa dimens\u00e3o de f\u00e9, n\u00e3o pode fazer falta mais criatividade. Usando at\u00e9 uma imagem que foi referida no recente congresso eucar\u00edstico nacional, a f\u00e9 tamb\u00e9m pode cheirar a manjerico? <\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00f3 pode, como deve, porque a f\u00e9 n\u00e3o \u00e9 discurso teol\u00f3gico. Vamos la a ver, s\u00f3 h\u00e1 60 anos \u00e9 que as pessoas come\u00e7am a ter acesso a alguns discursos teol\u00f3gicos e algumas intelectualidades de uma forma mais pr\u00f3xima, quer seja pela quest\u00e3o da literacia, do alfabetismo, quer seja pela quest\u00e3o das tradu\u00e7\u00f5es da Sagrada Escritura no \u00e2mbito cat\u00f3lico. E a f\u00e9 sempre cheirou a manjerico, sempre foi uma quest\u00e3o de pessoas mais populares.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00c9 uma manifesta\u00e7\u00e3o da alegria, n\u00e3o \u00e9? <\/em><\/p>\n<p>\u00c9 uma manifesta\u00e7\u00e3o da alegria, e essa ideia de a f\u00e9 cheirar a manjerico \u00e9 uma imagem interessante e \u00e9 uma forma de ver que os valores crist\u00e3os est\u00e3o l\u00e1. Isso \u00e9 algo que \u00e9 muito importante valorizar cada vez mais, que os valores crist\u00e3os n\u00e3o s\u00e3o para estar fechados dentro da Igreja, n\u00e3o s\u00e3o para s\u00f3 alguns intelectuais crist\u00e3os ou te\u00f3logos os valorizarem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Podemos afirmar que o crescimento do turismo ajudou a recuperar muitas destas pr\u00e1ticas que tinham vindo a perder fulgor por for\u00e7a de um maior interesse nas manifesta\u00e7\u00f5es mais genu\u00ednas das diferentes localidades?<\/em><\/p>\n<p>Sim, isso \u00e9 claro. Aquilo que \u00e9 o turismo, sobretudo o turismo de pessoas que n\u00e3o s\u00e3o portuguesas, gostam muito das festas populares. Eu vejo isso at\u00e9 no Algarve, os turistas acham muito t\u00edpico e muito genu\u00edno as festas populares, sobretudo nas terras menos tur\u00edsticas, ou seja, provavelmente nas terras com mais turismo de sol, praia ou vida noturna, uma festa popular n\u00e3o tem assim tanto impacto. Mas come\u00e7a a haver uma procura por zonas n\u00e3o t\u00e3o exploradas do turismo de massa, que n\u00e3o t\u00e3o dependentes do turismo de massa, mas que utilizam estas festas e esta capacidade de ser genu\u00edno, at\u00e9 pela quest\u00e3o da alimenta\u00e7\u00e3o, porque nessas festas a alimenta\u00e7\u00e3o \u00e9 algo muito importante e que muitas vezes t\u00eam os pratos t\u00edpicos e d\u00e3o aso \u00e0 explora\u00e7\u00e3o da dieta mediterr\u00e2nica que \u00e9 muito valorizada pelos turistas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E olhando tamb\u00e9m para o contexto mais geral, isto que aconteceu \u00e9 um bom exemplo de que \u00e9 poss\u00edvel conciliar a preserva\u00e7\u00e3o das tradi\u00e7\u00f5es e dos ambientes pr\u00f3prios com a chegada de novos p\u00fablicos, por assim dizer?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 a prova e \u00e9 a demonstra\u00e7\u00e3o de que \u00e9 uma necessidade. O turismo sendo uma porta cada vez mais valorizada pelos documentos da Santa S\u00e9,\u00a0 at\u00e9 pela mudan\u00e7a recente do dicast\u00e9rio que foi para o dicast\u00e9rio da nova evangeliza\u00e7\u00e3o; o turismo como porta de entrada na f\u00e9 crist\u00e3, como parte do an\u00fancio da primeira evangeliza\u00e7\u00e3o, \u00e9 muito importante usar estes campos onde h\u00e1 uma mescla entre f\u00e9 e conv\u00edvio, identidade local, para fazer o seu an\u00fancio e demonstrar que a Igreja n\u00e3o \u00e9 uma Igreja fechada, mas \u00e9 uma igreja aberta a todos e que faz parte da nossa identidade, claramente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A reapropria\u00e7\u00e3o destas festas e tradi\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m pode gerar conflitos, quando n\u00e3o se preserva a mem\u00f3ria que lhes d\u00e1 a identidade?<\/em><\/p>\n<p>Sim. H\u00e1 aqui duas quest\u00f5es que s\u00e3o muito complexas. Uma tem a ver com o facto de muitas destas festas precisarem de uma ajuda de pessoas exteriores \u00e0 Igreja, ou seja, pessoas que n\u00f3s&#8230; l\u00e1 est\u00e1 uma linguagem que \u00e9 errada, mas que para todos percebemos, de pessoas, de crist\u00e3os n\u00e3o praticantes, mas que s\u00e3o pessoas muitas vezes associadas \u00e0s juntas de freguesia, \u00e0s c\u00e2maras, a comiss\u00f5es de festas que n\u00e3o t\u00eam um papel ativo na comunidade crist\u00e3, mas que valorizam mais estas festas do que a viv\u00eancia da Eucaristia, pronto. A\u00ed pode entrar em algum conflito porque querem fazer algumas coisas que n\u00e3o est\u00e3o de acordo com aquilo que \u00e9 a f\u00e9 crist\u00e3, e depois essas apropria\u00e7\u00f5es at\u00e9 com outros campos de atividades que podem entrar em choque. \u00a0Mas eu acho que h\u00e1 espa\u00e7o para tudo. H\u00e1 espa\u00e7o para tudo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_329387\" aria-describedby=\"caption-attachment-329387\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/miguel-neto-mc-2024a.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-329387\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/miguel-neto-mc-2024a-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/miguel-neto-mc-2024a-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/miguel-neto-mc-2024a-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/miguel-neto-mc-2024a-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/miguel-neto-mc-2024a-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/miguel-neto-mc-2024a.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-329387\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA\/MC<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>E at\u00e9 que ponto a celebra\u00e7\u00e3o dos Santos Populares tamb\u00e9m ajuda a diversificar os pontos de interesse ligados ao turismo religioso? Continua a ser necess\u00e1rio apostar na diversifica\u00e7\u00e3o de locais, at\u00e9 para que n\u00e3o se diga que o turismo religioso se circunscreve a dois ou tr\u00eas locais? <\/em><\/p>\n<p>Sim, e isso \u00e9 muito importante, sobretudo ao n\u00edvel do interior, fora dos grandes c\u00edrculos de turismo religioso, F\u00e1tima, Braga, que s\u00e3o os c\u00edrculos maiores, mas tamb\u00e9m aproveitar essas festas para mostrar aquilo que as terras mais long\u00ednquas t\u00eam.<\/p>\n<p>Eu acredito que, por exemplo, uma pessoa que v\u00e1 \u00e0s festas de Miranda do Douro, ou mesmo \u00e0s festas dos Tabuleiros a Tomar, depois tem curiosidade em conhecer o templo, tem curiosidade em conhecer o s\u00edtio, h\u00e1 um desenvolvimento do turismo, e a Igreja tem de aproveitar essas festas, para al\u00e9m da quest\u00e3o do an\u00fancio, mas tamb\u00e9m quanto a manter esse cariz tradicional, com as necess\u00e1rias adapta\u00e7\u00f5es\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E a Igreja ainda n\u00e3o deu esse passo?<\/em><\/p>\n<p>Esse passo n\u00e3o depende tanto da Igreja geral, mas depende da capacidade de execu\u00e7\u00e3o local. N\u00f3s podemos incentivar, podemos nas nossas jornadas falar nisso, e fal\u00e1mos nas \u00faltimas, que foi sobre a quest\u00e3o da ecologia, vamos falar nas pr\u00f3ximas que v\u00e3o ser sobre a quest\u00e3o da sustentabilidade e da economia social, mas se n\u00e3o depender do P\u00e1roco, ou do Bispo, ou da quest\u00e3o local, n\u00f3s n\u00e3o conseguimos alterar. \u00c9 um pouco como o Vaticano, que pode emanar os documentos todos e pode falar sobre muitas coisas, mas quem tem o poder executivo e quem est\u00e1 no terreno, \u00e9 que tem de esfor\u00e7ar-se por alterar mentalidades e aproveitar isso.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Falou agora do Vaticano, e ficamos a conhecer recentemente a mensagem para o Dia Mundial do Turismo de 2024. Nesse texto, a Santa S\u00e9 sublinha o potencial do turismo, desta grande movimenta\u00e7\u00e3o de grandes massas humanas para a constru\u00e7\u00e3o da paz, por for\u00e7a do interc\u00e2mbio cultural, do contacto entre povos, \u00e9 uma mensagem necess\u00e1ria no momento que vivemos? <\/em><\/p>\n<p>\u00c9, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria, \u00e9 imprescind\u00edvel. \u00c9 imprescind\u00edvel, porque o turismo \u00e9 a habilidade da ind\u00fastria da paz, porque \u00e9 atrav\u00e9s do turismo que n\u00f3s conseguimos compreender as outras culturas. E repare, h\u00e1 gente que faz muito turismo, mas quer o turismo sem se preocupar em conhecer o outro povo. Isso para j\u00e1 \u00e9 uma quest\u00e3o que a mim perturba-me particularmente. Como \u00e9 que as pessoas v\u00e3o a determinados s\u00edtios, por exemplo, ou passear a determinados locais, e n\u00e3o se interrogam sobre a cultura, ou sobre as festas que est\u00e3o naquela localidade?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Ficam numa esp\u00e9cie de bolha, n\u00e3o \u00e9?<\/em><\/p>\n<p>Por exemplo, eu espanto-me, e j\u00e1 me aconteceu, ver pessoas que v\u00e3o fazer turismo e que a preocupa\u00e7\u00e3o deles \u00e9 saber onde \u00e9 que est\u00e1 o centro comercial mais pr\u00f3ximo. E atualmente, com a globaliza\u00e7\u00e3o que assistimos, h\u00e1 coisas que s\u00e3o iguais, em todos os s\u00edtios; em Lisboa, no Porto, no Algarve, em Espanha, em Fran\u00e7a, ou seja, as mesmas lojas, o mesmo tipo de alimenta\u00e7\u00e3o. Mas cada vez \u00e9 mais valorizado aquilo que \u00e9 o t\u00edpico e o genu\u00edno daquela localidade. Eu dou sempre o exemplo de um senhor que uma vez foi numa viagem comigo \u00e0 It\u00e1lia, e ao final de dois dias reclamou porque n\u00e3o tinha sardinhas assadas e salada \u00e0 montanheira, que \u00e9 uma esp\u00e9cie de salada de gaspacho, que \u00e9 muito t\u00edpica aqui do Algarve. E s\u00f3 comia massa. Eu disse, desculpe, o senhor veio para a It\u00e1lia, em It\u00e1lia come-se massa, n\u00e3o se come sardinhas assadas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Padre Miguel, historicamente a religiosidade crist\u00e3 sempre se expressou com recurso \u00e0s peregrina\u00e7\u00f5es, e estamos a caminho do ano santo, o jubileu de 2025. Ser\u00e1 uma oportunidade para valorizar ainda mais esta dimens\u00e3o da f\u00e9 que chega a cada vez mais pessoas, e muitas vezes por motivos n\u00e3o explicitamente religiosos? <\/em><\/p>\n<p>Sim, e por isso mesmo n\u00f3s estamos a tentar fazer um trabalho em conjunto com o Secretariado Nacional dos Bens Culturais da Igreja e com o Turismo de Portugal, de fornecer alguns subs\u00eddios para as pessoas que v\u00e3o fazer as peregrina\u00e7\u00f5es, e que os caminhos de F\u00e1tima, os caminhos de Santiago, e que querem algum subs\u00eddio mais espiritual. Porque atualmente essas pessoas que fazem esses caminhos, essas peregrina\u00e7\u00f5es, muitas delas n\u00e3o t\u00eam a vida crist\u00e3 comunit\u00e1ria, fazem ou por uma quest\u00e3o esot\u00e9rica, ou por gosto, ou por caminhada, ou por v\u00e1rios motivos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas est\u00e3o a preparar algum gui\u00e3o espiritual para essas pessoas? <\/em><\/p>\n<p>Sim, temos esse projeto com o Secretariado Nacional dos Bens Culturais, sim. J\u00e1 tinha existido, mas n\u00f3s vamos adaptar e sobretudo torn\u00e1-lo em suporte inform\u00e1tico, porque para uma pessoa que faz uma peregrina\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 muito \u00fatil ir com um livro nas m\u00e3os.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Pergunto-lhe, noutro plano, o Pastoral do Turismo tem-se feito apresentar em grandes palcos e em grandes surtamos direcionados para o setor. Recentemente estivemos na BTL (Bolsa de Turismo de Lisboa), onde tamb\u00e9m tivemos a oportunidade de fazer reportagem. Que import\u00e2ncia tem a participa\u00e7\u00e3o nestes eventos? <\/em><\/p>\n<p>Tem uma import\u00e2ncia de fronteira, de a Igreja estar onde se discute o turismo e onde as pessoas que trabalham e pensam em turismo est\u00e3o. A presen\u00e7a da BTL no pavilh\u00e3o do turismo religioso \u00e9 muito importante, essa presen\u00e7a vai ser alargada.<\/p>\n<p>Vamos iniciar um conjunto de reuni\u00f5es com a C\u00e2mara de Our\u00e9m, com o Turismo de Portugal e com outras entidades para alimentar e aumentar a presen\u00e7a nos mesmos moldes este ano e no pr\u00f3ximo ano. Tamb\u00e9m recentemente estivemos na INVTUR, que \u00e9, por assim dizer, do ponto de vista universit\u00e1rio, que se re\u00fane dois em dois anos na Universidade de Aveiro, o maior congresso, o maior evento do \u00e2mbito universit\u00e1rio, do \u00e2mbito acad\u00e9mico sobre turismo, onde a Pastoral do Turismo foi respons\u00e1vel por um ateli\u00ea, entre os v\u00e1rios que estivemos l\u00e1 para discutir a quest\u00e3o do turismo religioso. Fomos convidados a apresentar um apontamento no Brasil, em conjunto com o Pastoral do Turismo brasileira.<\/p>\n<p>Ou seja, \u00e9 essencial essa presen\u00e7a porque sen\u00e3o ficamos enclausurados na Igreja e na Sacristia. E as pessoas que pensam, as entidades que tratam do turismo, como o secret\u00e1rio de Estado, com quem vamos ter uma reuni\u00e3o brevemente, que \u00e9 uma pessoa tamb\u00e9m cat\u00f3lica, praticante, o atual secret\u00e1rio de Estado do Turismo, Pedro Machado, e os \u00e2mbitos acad\u00e9micos e governamentais, \u00e9 muito importante para n\u00f3s tomarmos consci\u00eancia das verdadeiras dificuldades e da realidade onde se decide o turismo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Padre Miguel, tem sido uma preocupa\u00e7\u00e3o da Pastoral do Turismo alertar para os efeitos da chamada pegada tur\u00edstica. Com frequ\u00eancia tem falado da necessidade de uma pastoral \u201cLaudato si\u201d. Encontra tamb\u00e9m essa preocupa\u00e7\u00e3o nas institui\u00e7\u00f5es, nos munic\u00edpios, ou as chamadas taxas tur\u00edsticas s\u00e3o apenas mais uma boa fonte de receita? <\/em><\/p>\n<p>S\u00e3o uma boa fonte de receita, e h\u00e1 outras iniciativas, mas h\u00e1 uma preocupa\u00e7\u00e3o.\u00a0 A n\u00f3s, compete-nos simplesmente alertar aqueles que praticam turismo e aqueles que trabalham no turismo, aqueles que v\u00e3o de f\u00e9rias, a preservar o que encontraram e para quem vier a seguir. Mas, genuinamente, eu noto que h\u00e1 uma preocupa\u00e7\u00e3o. Nesse congresso em que participamos, na INVTUR, cada vez mais se falava do turismo sustent\u00e1vel e ecol\u00f3gico, e at\u00e9 foi citada a pr\u00f3pria \u201cLaudato Si\u201d como um apelo para essa realidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Vamos ao exemplo portugu\u00eas: n\u00f3s estamos a assistir aquilo que se chama um turismo de massa, e temos tido a preocupa\u00e7\u00e3o, a preven\u00e7\u00e3o para que essa pegada n\u00e3o seja t\u00e3o evidente? <\/em><\/p>\n<p>Bem, em algumas cidades \u00e9 dif\u00edcil. Em Portugal, provavelmente, seria mais dif\u00edcil. Em Lisboa, no entanto, a pastoral do turismo local tem feito o poss\u00edvel para chamar a aten\u00e7\u00e3o. Mas esse fen\u00f3meno que se chama \u201cturismofobia\u201d, neste momento, verifica-se sobretudo em Madrid e em Barcelona. Em Barcelona quer-se limitar o turismo, assim como, por exemplo, em Veneza.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E h\u00e1 esse risco de chegar essa \u201cturismofobia\u201d a Portugal? <\/em><\/p>\n<p>H\u00e1, mas em Portugal somos mais resistentes porque, se n\u00e3o for a ind\u00fastria do turismo, a diferen\u00e7a de n\u00fameros da parte econ\u00f3mica da ind\u00fastria do turismo para a ind\u00fastria mais seguinte \u00e9 muito flagrante e se n\u00e3o for a ind\u00fastria do turismo, temos aqui um dilema. Ou seja, se n\u00f3s ostracizarmos o turismo, a partir desse momento, tamb\u00e9m n\u00e3o temos muito mais por onde crescer e para viver.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_329386\" aria-describedby=\"caption-attachment-329386\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/miguel-neto-mc-2024b.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-329386\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/miguel-neto-mc-2024b-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/miguel-neto-mc-2024b-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/miguel-neto-mc-2024b-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/miguel-neto-mc-2024b-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/miguel-neto-mc-2024b-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/miguel-neto-mc-2024b.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-329386\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA\/MC<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>O turismo tem sido a galinha dos ovos de ouro da economia portuguesa, mas este n\u00e3o \u00e9 um recurso inesgot\u00e1vel. Estamos em risco de desbaratar o recurso, at\u00e9 \u00e0 exaust\u00e3o? <\/em><\/p>\n<p>Estamos. Por isso \u00e9 que n\u00f3s, e algumas entidades, fal\u00e1mos, por exemplo, nas \u00faltimas jornadas, sobre a \u201cLaudato Si\u201d, e as pr\u00f3ximas \u00e9 sobre a \u201cFratelli Tutti\u201d. Ou seja, claro que h\u00e1 e h\u00e1 que criar outras quest\u00f5es para n\u00f3s conseguimos viver. E depois tamb\u00e9m h\u00e1 uma outra coisa que tem a ver com a ind\u00fastria do turismo, que \u00e9 a inclus\u00e3o dos imigrantes. Se, pronto, fala-se a pol\u00edtica de imigra\u00e7\u00e3o e \u00e9 importante a quest\u00e3o de uma pol\u00edtica de imigra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas, na regi\u00e3o onde eu vivo, no Algarve, se n\u00e3o fossem os imigrantes n\u00e3o havia trabalhadores para o turismo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Recentrando-nos na quest\u00e3o do facto do turismo ter sido ou ser a galinha dos ovos de ouro, \u00e9 necess\u00e1rio preservar o turismo como setor importante da atividade econ\u00f3mica? E como \u00e9 que se previne a situa\u00e7\u00e3o? <\/em><\/p>\n<p>Eu se tivesse uma solu\u00e7\u00e3o, estava a escrever neste momento um livro. Eu acho que tem a ver, da parte da Igreja, previne-se com a quest\u00e3o do conhecimento e de mostrar e de criar aspetos de sustentabilidade. A igreja tamb\u00e9m se preocupar com a sustentabilidade das pessoas e de mostrar e de falar da quest\u00e3o da ind\u00fastria da paz e de mostrar que as pessoas que v\u00eam de fora n\u00e3o nos maltratam, n\u00e3o s\u00e3o apenas deposit\u00e1rios de dinheiro, mas que v\u00eam conhecer a nossa cultura. A\u00ed, da parte da Igreja, o trabalho que n\u00f3s estamos a fazer at\u00e9 com incentivos a manter as igrejas abertas e tudo mais, tem a ver com uma quest\u00e3o de mostrar a identidade que n\u00f3s temos a quem nos visita. Atrav\u00e9s das festas populares, foi a conversa que n\u00f3s come\u00e7amos e isso \u00e9 important\u00edssimo, atrav\u00e9s do patrim\u00f3nio, atrav\u00e9s de celebra\u00e7\u00f5es em outras l\u00ednguas, h\u00e1 par\u00f3quias que t\u00eam celebra\u00e7\u00f5es em outras l\u00ednguas, que ajuda perfeitamente \u00e0queles que est\u00e3o c\u00e1 a viver e que s\u00e3o turistas a integrarem-se na comunidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O m\u00eas de junho traz consigo grandes festejos de norte a sul do pa\u00eds. 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