{"id":32925,"date":"2008-07-07T11:22:44","date_gmt":"2008-07-07T11:22:44","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/07\/07\/para-uma-cidade-de-paz\/"},"modified":"2008-07-07T11:22:44","modified_gmt":"2008-07-07T11:22:44","slug":"para-uma-cidade-de-paz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/para-uma-cidade-de-paz\/","title":{"rendered":"Para uma cidade de paz"},"content":{"rendered":"<p>Homilia de D. Manuel Clemente nos 425 anos da primeira divis\u00e3o paroquial do Porto <!--more--> Car\u00edssimos irm\u00e3os e concidad\u00e3os do Porto  Re\u00fane-nos nesta vetusta catedral a celebra\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica dominical, no XIV Domingo do Tempo Comum do ano da gra\u00e7a de Nosso Senhor Jesus Cristo de 2008. Mas nela evocamos a senten\u00e7a de D. Frei Marcos de Lisboa, bispo do Porto, de 7 de Julho de 1583, que assim se justificava: \u201cVistos estes autos e sum\u00e1rio que mandamos fazer da muita necessidade que havia de dividir a freguesia da S\u00e9 em mais par\u00f3quias pela falta que havia na cura das almas e administra\u00e7\u00e3o dos sacramentos\u2026\u201d. Consequentemente, o territ\u00f3rio foi repartido em quatro freguesias: S\u00e9, S. Nicolau, Nossa Senhora da Vit\u00f3ria e S. Jo\u00e3o Baptista de Belmonte. At\u00e9 aos nossos dias, com o alargamento da \u00e1rea urbana, novas subdivis\u00f5es se seguiram, sempre por id\u00eanticas raz\u00f5es pastorais. Id\u00eanticas raz\u00f5es pastorais, que se podem resumir na indica\u00e7\u00e3o de D. Frei Marcos, ainda que lhe modernizemos a express\u00e3o. Onde o prelado escrevia \u201ccura de almas e administra\u00e7\u00e3o dos sacramentos\u201d, escrever\u00edamos hoje o acompanhamento integral das pessoas, da inicia\u00e7\u00e3o crist\u00e3 \u00e0 vida sacramental e \u00e0 caridade operosa, dentro e para fora de cada comunidade crist\u00e3. Poder\u00edamos tamb\u00e9m escrever, inspirando-nos em S. Paulo, cuja vida e ensinamento temos agora particularmente presentes: para que em cada uma das par\u00f3quias da nossa cidade palpite e actue a caridade de Cristo, pois que s\u00e3o seu \u201ccorpo\u201d e manifesta\u00e7\u00e3o salvadora no mundo.   A caridade de Cristo, o seu cora\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m, como se traduz no Evangelho escutado: \u201cVinde a Mim, todos os que andais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei. Tomai sobre v\u00f3s o meu jugo e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de cora\u00e7\u00e3o, e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo \u00e9 suave e a minha carga \u00e9 leve\u201d. Pesados e cansativos seriam ent\u00e3o os jugos, pol\u00edticos, sociais e at\u00e9 \u201creligiosos\u201d. Mas Ele trazia-nos outra ideia de Deus e outra pr\u00e1tica social e religiosa. Para estranheza e inc\u00f3modo de alguns, em Cristo, Deus aproximava-se absolutamente dos pobres de todas as pobrezas, dos cansados de todos os cansa\u00e7os e dos oprimidos de todas as opress\u00f5es. N\u00e3o h\u00e1 p\u00e1gina evang\u00e9lica onde n\u00e3o O encontremos \u00e0 nossa procura, qual m\u00e3o estendida, vida partilhada, verdade convivida. E todos os que cabiam no enunciado das bem-aventuran\u00e7as tinham na proximidade de Cristo a sua primeira realiza\u00e7\u00e3o: \u201cFelizes os pobres em esp\u00edrito, os que choram, os mansos, os que t\u00eam fome e sede de justi\u00e7a, os misericordiosos, os puros de cora\u00e7\u00e3o, os pacificadores, os que sofrem persegui\u00e7\u00e3o por causa da justi\u00e7a\u2026\u201d. N\u00e3o estamos longe, estamos pert\u00edssimo do que D. Frei Marcos pretendia com a divis\u00e3o paroquial de 1583: mais e melhor cura das almas, mais e melhor administra\u00e7\u00e3o dos sacramentos, que o mesmo \u00e9 dizer mais patente e activa presen\u00e7a de Cristo na cidade, atrav\u00e9s do seu corpo eclesial (paroquial no caso), como pastor e salvador dos homens.  Sendo essa a inten\u00e7\u00e3o, esse tem igualmente de ser o modo, a maneira de estar e actuar, pastoralmente falando. O Evangelho que escut\u00e1mos, apresentando-se Cristo como \u201cmanso e humilde de cora\u00e7\u00e3o\u201d, ecoa a profecia de Zacarias, ouvida na primeira leitura. Em tempos de opress\u00e3o e guerra, o profeta anunciava a Jerusal\u00e9m a chegada dum rei, em contraste pleno com o usual dos reis de ent\u00e3o; se quisermos, dum \u201cpoder\u201d novo, que desafiava os poderes de sempre.  E di-lo em nome de Deus, pois assim falam os profetas, aut\u00eanticos e autenticados: \u201cExulta de alegria, filha de Si\u00e3o, solta brados de j\u00fabilo, filha de Jerusal\u00e9m. Eis o teu rei, justo e salvador, que vem ao teu encontro, humildemente montado num jumentinho [\u2026]. Anunciar\u00e1 a paz \u00e0s na\u00e7\u00f5es\u2026\u201d.  N\u00e3o costumavam chegar desse modo os reis, nem entrar nas cidades com tal apresenta\u00e7\u00e3o. Mas sabemos que foi assim que Jesus entrou em Jerusal\u00e9m, chegado o seu tempo, o tempo definitivo das coisas. E que assim tamb\u00e9m, na simplicidade da figura e na humildade do servi\u00e7o, quer estar hoje na nossa cidade, em cada comunidade crist\u00e3, em cada par\u00f3quia dela. &#8211; E como a nossa cidade precisa agora, sobretudo no seu centro hist\u00f3rico, de comunidades crist\u00e3s de acolhimento e servi\u00e7o, traduzindo a presen\u00e7a de Cristo, palavra, sacramento e vida! \u2013 Como precisa a cidade e cada um dos que nela circula, mais ou menos apressado, mais ou menos vagabundo, de sinais convidativos daquele \u201ctemplo\u201d novo que Cristo ressuscitado quer abrir a todos, atrav\u00e9s dos realmente seus! A 6 de Janeiro de 2001 o Papa Jo\u00e3o Paulo II, de felic\u00edssima mem\u00f3ria, dirigiu-nos, na carta apost\u00f3lica Novo Millenio Ineunte, um programa para cumprir. Vale a pena record\u00e1-lo, nas suas pr\u00f3prias palavras: \u201cCertamente n\u00e3o nos move a esperan\u00e7a ing\u00e9nua de que possa haver uma f\u00f3rmula m\u00e1gica para os grandes desafios do nosso tempo; n\u00e3o ser\u00e1 uma f\u00f3rmula a salvar-nos, mas uma Pessoa, e a certeza que Ela nos infunde: Eu estarei convosco! Sendo assim, n\u00e3o se trata de inventar um \u2018programa novo\u2019. O programa j\u00e1 existe [\u2026]. Concentra-se, em \u00faltima an\u00e1lise, no pr\u00f3prio Cristo, que temos de conhecer, amar, imitar, para nele viver a vida trinit\u00e1ria e com Ele transformar a hist\u00f3ria at\u00e9 \u00e0 sua plenitude na Jerusal\u00e9m celeste\u201d (NMI, 29). &#8211; Como estamos n\u00f3s a cumprir este programa nas par\u00f3quias da cidade e da diocese inteira? O melhor que podemos, certamente. Mas h\u00e1 ainda o melhor que Deus pode sempre, quando encontra crentes generosos e dispon\u00edveis, para que em cada comunidade se realize o Evangelho de Cristo para salva\u00e7\u00e3o de todos, na completa dimens\u00e3o das respectivas exist\u00eancias, assinalando pela m\u00fatua aten\u00e7\u00e3o e a caridade viva a Jerusal\u00e9m celeste, corpo total de Cristo. Da\u00ed que Jo\u00e3o Paulo II fosse igualmente preciso no que pediu \u00e0 Igreja, em cada comunidade dela: \u201cFazer da Igreja a casa e a escola da comunh\u00e3o: eis o grande desafio que nos espera no mil\u00e9nio que come\u00e7a, se quisermos ser fi\u00e9is ao des\u00edgnio de Deus e corresponder \u00e0s expectativas mais profundas do mundo\u201d (NMI, 43).  E, para n\u00e3o ficar no vago, o grande pont\u00edfice insistia de seguida na promo\u00e7\u00e3o duma espiritualidade de comunh\u00e3o, de acolhimento e entreajuda. Deixai-me propor-vos, a todos quantos nesta altura avaliais o ano pastoral que finda e preparais o pr\u00f3ximo: relede atentamente o n\u00famero 43 da carta apost\u00f3lica Novo Millenio Ineunte, especialmente no que toca \u00e0 \u201cespiritualidade da comunh\u00e3o\u201d, os seus requisitos indispens\u00e1veis e as suas virtualidades totais. &#8211; Que feliz ser\u00e1 o Porto quando contar em cada uma das suas par\u00f3quias com uma verdadeira \u201ccasa e escola de comunh\u00e3o! \u2013 O que nos tolhe, se a garantia \u00e9 do Esp\u00edrito?  Do Esp\u00edrito nos falava a segunda leitura, da ep\u00edstola de S. Paulo aos Romanos. Do Esp\u00edrito e da sua obra em n\u00f3s: \u201cSe o Esp\u00edrito d\u2019Aquele que ressuscitou Jesus de entre os mortos habita em v\u00f3s, Ele, que ressuscitou Cristo Jesus de entre os mortos, tamb\u00e9m dar\u00e1 vida aos vossos corpos mortais, pelo seu Esp\u00edrito que habita em v\u00f3s\u201d.  Nada menos do que isto, amados irm\u00e3os, nada menos do que a ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo a realizar-se em n\u00f3s, pela participa\u00e7\u00e3o no seu Esp\u00edrito. Pouco a pouco, do baptismo \u00e0 gl\u00f3ria, pela Palavra escutada, pelos sacramentos celebrados, pela caridade praticada, a P\u00e1scoa de Cristo realizar-se-\u00e1 na cidade, em cada crente, em cada comunidade crist\u00e3, que o mesmo \u00e9 dizer na express\u00e3o e activa\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria da vit\u00f3ria de Cristo sobre a morte. Porque \u201cmorte\u201d s\u00e3o o ego\u00edsmo e a solid\u00e3o, \u201cmorte\u201d \u00e9 n\u00e3o alimentar corpos e almas, \u201cmorte\u201d \u00e9 n\u00e3o respeitar e promover a exist\u00eancia de cada um como valor essencial e destino eterno. &#8211; Quem integra uma par\u00f3quia do Porto activa a P\u00e1scoa de Cristo, na crescente vit\u00f3ria da partilha e da paz! E ser\u00e1 esta, cada vez mais coerente e total, a contribui\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica \u00e0 cidade de todos!          Catedral do Porto, 6 de Julho de 2008  <i>+ Manuel Clemente, Bispo do Porto<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homilia de D. 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