{"id":328569,"date":"2024-06-02T09:30:45","date_gmt":"2024-06-02T08:30:45","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=328569"},"modified":"2024-06-01T09:03:37","modified_gmt":"2024-06-01T08:03:37","slug":"migracoes-se-trouxerem-as-pessoas-sem-ter-condicoes-e-obvio-que-caem-na-marginalizacao-tania-moreira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/migracoes-se-trouxerem-as-pessoas-sem-ter-condicoes-e-obvio-que-caem-na-marginalizacao-tania-moreira\/","title":{"rendered":"Migra\u00e7\u00f5es: \u00abSe trouxerem as pessoas sem ter condi\u00e7\u00f5es, \u00e9 \u00f3bvio que caem na marginaliza\u00e7\u00e3o\u00bb &#8211; T\u00e2nia Moreira"},"content":{"rendered":"<p><em>Depois de ter estado numa iniciativa em que se falou da problem\u00e1tica dos imigrantes, do seu acesso \u00e0 sa\u00fade e dos seus pedidos de resid\u00eancia tempor\u00e1ria, a coordenadora do Secretariado da Pastoral das Migra\u00e7\u00f5es de Set\u00fabal \u00e9 convidada da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia<\/em><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/Foto-Tania-Moreira.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-328572 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/Foto-Tania-Moreira-178x260.jpg\" alt=\"\" width=\"178\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/Foto-Tania-Moreira-178x260.jpg 178w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/Foto-Tania-Moreira-700x1024.jpg 700w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/Foto-Tania-Moreira-768x1124.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/Foto-Tania-Moreira-1049x1536.jpg 1049w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/Foto-Tania-Moreira.jpg 1093w\" sizes=\"(max-width: 178px) 100vw, 178px\" \/><\/a><\/p>\n<p><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (RR) e Oct\u00e1vio Carmo (Ag\u00eancia Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em>Come\u00e7o por esta inten\u00e7\u00e3o de ora\u00e7\u00e3o do Papa, para o m\u00eas de junho, lembrando aqueles que fogem da sua terra. Ela \u00e9 novamente uma den\u00fancia de Francisco sobre a forma como se acolhem ou n\u00e3o os migrantes. E o que eu lhe pergunto \u00e9 se a nossa maneira, aqui com as dificuldades que surgem em Portugal, se tamb\u00e9m n\u00e3o se est\u00e3o a erguer muros que afastam os migrantes do pa\u00eds? <\/em><\/p>\n<p>Pois, a problem\u00e1tica \u00e9 uma constante. O ano passado, em 2023, com a mensagem do Papa Francisco, fomos lembrados, desta problem\u00e1tica. O tema do Dia era: &#8220;Livres de escolher se migrar ou permanecer&#8221;&#8230;. E aqui o que n\u00f3s temos s\u00e3o pessoas que escolhem, algumas por uma necessidade maior, outras porque simplesmente decidem tentar uma vida melhor, com outras oportunidades, em termos de forma\u00e7\u00e3o, em termos de trabalho. E neste momento s\u00e3o mais os muros do que propriamente as pontes. Queremos construir pontes, n\u00e3o muros, mas neste momento h\u00e1 mais muros do que pontes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Fala da AIMA, fala das filas de espera para se obter um visto, fala da quest\u00e3o da resid\u00eancia? <\/em><\/p>\n<p>Sim, sim, sim. Essa quest\u00e3o, neste momento, o feedback que eu tenho do terreno \u00e9 que a situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 muito, muito pior.\u00a0 Ainda durante a semana passada, ontem no evento, h\u00e1 relatos, as pessoas est\u00e3o h\u00e1 meses, quando digo h\u00e1 meses, h\u00e1 mais de um ano \u00e0 espera de uma resposta, n\u00e3o conseguem estabelecer contato com ningu\u00e9m para esclarecer a situa\u00e7\u00e3o, qual \u00e9 o ponto de situa\u00e7\u00e3o e as pessoas simplesmente ficam penduradas, com as vidas penduradas porque n\u00e3o tendo a resid\u00eancia, n\u00e3o tendo os documentos, afeta em v\u00e1rios pontos. uns querem continuar a estudar e n\u00e3o conseguem, outros querem adquirir uma casa, n\u00e3o podem pedir um empr\u00e9stimo banc\u00e1rio. Quer dizer, h\u00e1 in\u00fameras situa\u00e7\u00f5es que ficam aqui comprometidas por causa disto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E h\u00e1 outras dificuldades a n\u00edvel do acolhimento que se tem manifestado, como por exemplo, aquilo que podemos chamar os alugueres selvagens a migrantes? <\/em><\/p>\n<p>Sim. A quest\u00e3o do aluguer e da falta de habita\u00e7\u00e3o. As pessoas queixam-se que veem um an\u00fancio, fazem um telefonema, a pessoa apercebe-se, ah \u00e9 brasileiro, tem um sotaque diferente, imediatamente o contacto \u00e9 interrompido e j\u00e1 n\u00e3o d\u00e3o essa oportunidade. E as pessoas ficam realmente ali em situa\u00e7\u00f5es em que n\u00e3o conseguem e que n\u00e3o compreendem tamb\u00e9m, n\u00e3o \u00e9? Porque as pessoas v\u00eam a bem, querem estar c\u00e1 e sentem-se, muitas surpreendidas, e dizem, mas o que \u00e9 isto? Porqu\u00ea que n\u00e3o me acolhem? Eu n\u00e3o sou diferente de ningu\u00e9m, eu n\u00e3o sou m\u00e1 pessoa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas isso \u00e9 xenofobia mesmo? <\/em><\/p>\n<p>Eu acho que temos de chamar as coisas pelo nome, n\u00e3o \u00e9? E em alguns casos s\u00f3 pode ser, porque o que eu vejo \u00e9 que mesmo a postura das pessoas \u00e9 completamente diferente com os migrantes que v\u00eam do Norte, com um franc\u00eas, com um belga, como um alem\u00e3o, como um su\u00ed\u00e7o, do que algu\u00e9m que vem da \u00c1frica e qual \u00e9 a diferen\u00e7a? \u00c9 a cor da pele? \u00c9 o n\u00edvel de riqueza ou de pobreza? Quer dizer, o que \u00e9 que estamos aqui a falar? Porque \u00e9 que n\u00f3s acolhemos melhor os ricos, n\u00e3o \u00e9? Os ricos, os caucasianos, porque \u00e9 que acolhemos melhor esses e n\u00e3o acolhemos t\u00e3o bem os outros?<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>A sobrelota\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os \u00e9 tamb\u00e9m uma realidade, ainda na \u00faltima semana a Renascen\u00e7a divulgou uma reportagem em que se prova essa realidade num hostel do Porto. N\u00e3o faltar\u00e1 t\u00e3o bem aqui mais e melhor fiscaliza\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>Sim, sim, tamb\u00e9m e at\u00e9 h\u00e1 um caso, h\u00e1 uns tempos em que houve uma reportagem de uma situa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m no Montijo, em que havia ali algu\u00e9m que constru\u00eda uns anexos e aquilo estava completamente sobrelotado. Agora \u00e9 assim, toda a gente sabe onde \u00e9 que eles est\u00e3o, n\u00e3o \u00e9? Esses migrantes est\u00e3o, as autarquias sabem, as juntas de freguesia sabem e porqu\u00ea que n\u00e3o se faz nada sobre isso, n\u00e3o \u00e9? Porqu\u00ea que se deixa um senhorio fazer esse tipo de arrendamentos e de alugueres sem haver fiscaliza\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas essa pergunta temos de a fazer, porqu\u00ea que se deixa fazer isso? <\/em><\/p>\n<p>Pois, porque realmente h\u00e1 uma necessidade, porque quem vem sujeita-se a esta situa\u00e7\u00e3o.\u00a0 H\u00e1 uns dois, tr\u00eas anos havia aqui no Concelho, n\u00e3o sei se ainda h\u00e1, uma situa\u00e7\u00e3o que era um bispo da Igreja Universal que transformou umas lojas e umas garagens em alojamento. Aquilo tinha uns beliches umas camas e aquilo tinha umas condi\u00e7\u00f5es medonhas. Eu fui l\u00e1 uma vez distribuir uns alimentos a uma fam\u00edlia e quando vi aquilo a minha primeira rea\u00e7\u00e3o foi, tenho de denunciar esta situa\u00e7\u00e3o, isto n\u00e3o pode ficar assim. Mas depois parei e pensei, mas se eu denunciar esta situa\u00e7\u00e3o hoje e algu\u00e9m vier c\u00e1 e fechar isso, para onde \u00e9 que v\u00e3o estas pessoas que est\u00e3o aqui? Se n\u00e3o houver resposta, se n\u00f3s n\u00e3o dermos resposta, e depois agora vou mais al\u00e9m, se n\u00f3s como Igreja tamb\u00e9m n\u00e3o ajudarmos a dar resposta a estas quest\u00f5es; se as autarquias, se a sociedade em geral n\u00e3o d\u00e1 resposta, as pessoas tamb\u00e9m v\u00e3o para onde? Aqui tamb\u00e9m \u00e9 a quest\u00e3o, n\u00e3o \u00e9? \u00c9 mau eles fazerem este tipo de alugueres, mas depois para onde \u00e9 que as pessoas v\u00e3o?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Sim, entendo a quest\u00e3o. Tenho de lhe fazer outra que tem a ver com not\u00edcias que n\u00e3o h\u00e1 muito tempo indignavam o pa\u00eds sobre os casos de explora\u00e7\u00e3o de migrantes, falou-se sobretudo de Odemira e de outras regi\u00f5es do Alentejo. Teme que o problema possa ganhar uma dimens\u00e3o maior agora face a estes anunciados investimentos em Portugal que v\u00e3o precisar de mais m\u00e3o de obra? <\/em><\/p>\n<p>Sim, porque Odemira que aconteceu em tempo de Covid toda a gente ficou a saber o que l\u00e1 se passava, o problema foi expostos; mas a minha quest\u00e3o \u00e9: tudo continua igual? Provavelmente sim. Temos casos no Montijo, em Peg\u00f5es, temos esses casos todos assim. As pessoas sabem, os pol\u00edticos e quem de direito que deve resolver isso, sabe que a situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 assim e se v\u00e3o fazer mais investimentos, se v\u00e3o trazer mais m\u00e3o de obra, e se ningu\u00e9m se preocupa&#8230; Eu n\u00e3o sei de quem \u00e9 que \u00e9 a responsabilidade, se \u00e9 dos investidores ou se \u00e9 do Governo, mas \u00e9 preciso criar condi\u00e7\u00f5es para os trabalhadores que trazem, n\u00e3o \u00e9? E ent\u00e3o, se lhes derem as condi\u00e7\u00f5es, muito bem, se trouxerem as pessoas sem terem condi\u00e7\u00f5es, \u00e9 \u00f3bvio que as pessoas depois caem nessa marginaliza\u00e7\u00e3o. Porque n\u00e3o h\u00e1 como conseguirem habita\u00e7\u00e3o de outra forma e outras condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00c9 ent\u00e3o, portanto, necess\u00e1rio prevenir a montante\u2026<\/em><\/p>\n<p>Sim, eu acho que tem que se prevenir. H\u00e1 uns tempos tamb\u00e9m tive conhecimento, por exemplo, de uma situa\u00e7\u00e3o em Set\u00fabal. Em Set\u00fabal, uma empresa de transportes ganhou um concurso, faltavam motoristas, e foi buscar motoristas a Cabo Verde, vieram para a\u00ed uns 70 homens. E a empresa garantiu o alojamento, deu as condi\u00e7\u00f5es, instalou-os, at\u00e9 ali que eles diziam que estavam muito satisfeitos, tinham boas instala\u00e7\u00f5es, tinham uma boa casa, tinham tudo e condi\u00e7\u00f5es para trazer a fam\u00edlia. Isto sim \u00e9 um exemplo de sucesso, n\u00e3o \u00e9? Criam-se as condi\u00e7\u00f5es, trazem-se as pessoas e decorre tudo bem dentro da normalidade. N\u00e3o h\u00e1 condi\u00e7\u00f5es, as pessoas chegam aqui, muitas vezes, se calhar, at\u00e9 pensando que \u00e9 f\u00e1cil, n\u00e3o conhecem a realidade e podem achar que \u00e9 f\u00e1cil ter um alojamento e tudo, e depois veem que afinal n\u00e3o \u00e9 assim t\u00e3o f\u00e1cil.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/IMG_20240317_104004.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-328574\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/IMG_20240317_104004-195x260.jpg\" alt=\"\" width=\"195\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/IMG_20240317_104004-195x260.jpg 195w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/IMG_20240317_104004-768x1024.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/IMG_20240317_104004-300x400.jpg 300w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/IMG_20240317_104004-1152x1536.jpg 1152w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/IMG_20240317_104004.jpg 1440w\" sizes=\"(max-width: 195px) 100vw, 195px\" \/><\/a>O Papa fala tamb\u00e9m de fantasmas. Esses fantasmas est\u00e3o a ganhar corpo no nosso pa\u00eds, em particular em alguns discursos pol\u00edticos?<\/em><\/p>\n<p>Sim, claramente. O que mais me amedronta e o que mais me surpreende \u00e9 como \u00e9 que esses fantasmas tamb\u00e9m conseguem entrar dentro das nossas comunidades, dentro da Igreja, porque a partir do momento que n\u00f3s temos pessoas crentes, praticantes, que depois se deixam ir em alguns discursos e aceitam certas ideias que s\u00e3o completamente contr\u00e1rias \u00e0quilo que Jesus Cristo prega, os fantasmas existem e n\u00f3s s\u00f3 temos de enfrent\u00e1-los e lutar para encar\u00e1-los e resolver as situa\u00e7\u00f5es, porque sen\u00e3o isso vai ser crescente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Esta mensagem do Papa, ali\u00e1s, diz claramente que os crist\u00e3os n\u00e3o podem partilhar esta mentalidade de exclus\u00e3o. Como diz, \u00e9 uma mensagem que nem sempre tem passado? <\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o, \u00e9 uma mensagem que nem sempre tem passado. N\u00f3s temos as ferramentas dentro da Igreja. N\u00f3s temos o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, em que somos chamados, nem que seja naquele dia ou principalmente naquele dia, h\u00e1 sempre uma mensagem, somos chamados a refletir sobre isso. Somos chamados a acolher e temos esta responsabilidade, n\u00e3o \u00e9? Em 2018 o Papa lan\u00e7ou-nos os quatro verbos, acolher, proteger, promover e entregar, que \u00e9 uma responsabilidade de todos n\u00f3s. N\u00f3s como Igreja ent\u00e3o, quer dizer, nem sequer devia estar em considera\u00e7\u00e3o que a pessoa n\u00e3o tentasse fazer isso, junto do irm\u00e3o. Agora, tudo o resto condiciona bastante depois a mentalidade das pessoas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O bispo de Set\u00fabal, D. Am\u00e9rico Aguiar, lamentou que os migrantes estejam a ser v\u00edtimas de jogos partid\u00e1rios. No terreno, no trabalho di\u00e1rio com os migrantes, sentem que eles se apercebem desta realidade descrita pelo cardeal?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o sei se eles sentem&#8230; no outro dia falava com uma cidad\u00e3 brasileira que teve dificuldades no acesso ao centro de sa\u00fade. Quando lhe perguntei: \u201cmas por que \u00e9 que achas que isto acontece?\u201d, n\u00e3o sei se levam isto para a quest\u00e3o pol\u00edtica, se calhar a maior parte deles nem sequer t\u00eam esse entendimento, n\u00e3o percebem o porqu\u00ea desta postura das pessoas perante eles. Ela dizia-me assim: \u201cah mas isto, da forma como trataram, foi uma grande falta de educa\u00e7\u00e3o\u201d. Quer dizer, a boa educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o conhece cor, n\u00e3o conhece ra\u00e7a, n\u00e3o conhece l\u00edngua, a forma como n\u00f3s acolhemos, tem de ser independente de tudo, relativamente \u00e0 outra pessoa.<\/p>\n<p>Alguns eu sei que sim, que conseguem perceber esta din\u00e2mica e na altura das elei\u00e7\u00f5es falei com alguns que diziam: \u201cah pois, se certo partido ganha terreno, as coisas v\u00e3o ficar pior para n\u00f3s\u201d, mas outros n\u00e3o t\u00eam esta no\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Falando de elei\u00e7\u00f5es, a Europa vai agora a elei\u00e7\u00f5es para o Parlamento. A Uni\u00e3o Europeia aprovou recentemente um pacto para as migra\u00e7\u00f5es, que recebeu cr\u00edticas, fortes cr\u00edticas de alguns setores da Igreja, como o Servi\u00e7o Jesu\u00edta aos Refugiados, que falou num \u201cdia triste para os valores europeus\u201d. Tamb\u00e9m pensa que se est\u00e3o a tratar os migrantes como criminosos?<\/em><\/p>\n<p>A imagem acaba por passar sempre, mas, voltando atr\u00e1s, a quest\u00e3o \u00e9 mais profunda do que isto, porque ningu\u00e9m olha para os migrantes que v\u00eam do norte como criminosos, mas olha para aqueles que v\u00eam do sul, da \u00c1frica, Brasil e tudo como criminosos. \u00c9 esta a imagem que passa e agora os pol\u00edticos pegam nesta quest\u00e3o e dizem: \u201cn\u00f3s estamos a fazer tudo para manter os pa\u00edses mais seguros, por isso \u00e9 que n\u00e3o deixamos entrar as pessoas\u201d. Pegam por a\u00ed, quando h\u00e1 estudos e h\u00e1 provas de que o facto de as pessoas virem para c\u00e1 n\u00e3o faz com que a criminalidade aumente, a maior parte das pessoas s\u00e3o pessoas de bem, as pessoas n\u00e3o v\u00eam para c\u00e1 para causar dist\u00farbios, v\u00eam simplesmente para tentar ter uma vida melhor e v\u00eam em paz. Isso \u00e9 uma falsa quest\u00e3o e \u00e9 uma ideia que os pol\u00edticos lan\u00e7am, para depois aparecerem como salvadores da p\u00e1tria\u2026 \u201co pa\u00eds est\u00e1 muito pior, h\u00e1 muita inseguran\u00e7a, mas n\u00f3s vamos dar conta disto e vamos salvar\u201d\u2026 quando na realidade, n\u00e3o \u00e9 pelo facto de as pessoas estarem c\u00e1 que a criminalidade est\u00e1 a aumentar, n\u00e3o \u00e9 que os migrantes sejam pessoas de mal, que venham para c\u00e1 para cometer crimes, para roubar, para fazer o que \u00e9 que seja, a grande maioria s\u00e3o pessoas de bem. H\u00e1 sempre exce\u00e7\u00f5es, que entra algu\u00e9m que venha com piores inten\u00e7\u00f5es, mas a regra n\u00e3o \u00e9 essa\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Ainda sobre as elei\u00e7\u00f5es europeias, h\u00e1 quem antecipe um aumento da representa\u00e7\u00e3o de for\u00e7as extremistas no Parlamento Europeu, o que pode fazer aumentar a dificuldade dos imigrantes. A T\u00e2nia Partilha deste receio?<\/em><\/p>\n<p>Sim, porque j\u00e1 temos visto nos \u00faltimos tempos que a direita tem ganho cada vez mais for\u00e7a, portanto acredito que isso vai continuar. Vimos o resultado das elei\u00e7\u00f5es em Portugal, vemos nos outros pa\u00edses, vemos It\u00e1lia, a pr\u00f3pria situa\u00e7\u00e3o do \u2018Brexit\u2019 que foi um movimento anti-imigra\u00e7\u00e3o, toda a conjetura da Europa leva a que o receio seja grande, porque eu acho que isto vai piorar bastante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Vamos falar agora um pouco sobre o trabalho do Secretariado Diocesanos das Migra\u00e7\u00f5es de Set\u00fabal, que tem agora a oportunidade de coordenar. Que dificuldades t\u00eam detetado no terreno, quais s\u00e3o as mais dif\u00edceis de superar para os migrantes?<\/em><\/p>\n<p>Neste momento, os migrantes t\u00eam dois grandes problemas, que \u00e9 a documenta\u00e7\u00e3o e a habita\u00e7\u00e3o. Trabalham, a grande maioria consegue, com melhores ou piores condi\u00e7\u00f5es, porque eles v\u00eam sujeitos a tudo, n\u00e3o escolhem\u2026 tudo o que aparece, eles fazem, s\u00e3o pessoas de boa vontade, com genica, sem pregui\u00e7a, como eu costumo dizer, n\u00e3o t\u00eam pregui\u00e7a, mas realmente a habita\u00e7\u00e3o \u00e9 um problema muito grande. Temos muitas fam\u00edlias a viver num quarto, de quatro pessoas, cinco pessoas, a partilharem uma casa e que s\u00e3o 20 l\u00e1 dentro ou assim.<\/p>\n<p>O facto de n\u00e3o terem documenta\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m atrapalha: um casal pediu um empr\u00e9stimo, j\u00e1 est\u00e1 a reunir condi\u00e7\u00f5es monet\u00e1rias para conseguir comprar uma casa, mas a m\u00e3e de fam\u00edlia tem a resid\u00eancia caducada, apesar de ter sido prorrogada at\u00e9 junho\u2026 no banco dizem que est\u00e1 caducada, n\u00e3o h\u00e1 nada a fazer. Estas dificuldades que as pessoas t\u00eam enfrentado, neste momento, \u00e9 o pior.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Como \u00e9 que tem sido este desafio que a diocese lhe lan\u00e7ou, como era a sua rela\u00e7\u00e3o com esta pastoral?<\/em><\/p>\n<p>Eu sou da Par\u00f3quia da Amora, na Diocese de Set\u00fabal, no Concelho do Seixal. N\u00f3s temos, h\u00e1 mais de 50 anos, os mission\u00e1rios Scalabrinianos, respons\u00e1veis por esta par\u00f3quia. Eu nasci aqui, cresci aqui, sou filha de pais cabo-verdianos, senti na pele, durante a minha vida, algumas destas quest\u00f5es relativas \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o; neste momento sou tamb\u00e9m leiga scalabriniana, coordeno o grupo de leigos scalabrinianos da par\u00f3quia, sempre tivemos uma rela\u00e7\u00e3o especial no acolhimento, na aten\u00e7\u00e3o aos migrantes, com o carisma de S\u00e3o Jo\u00e3o Batista Scalabrini. Este convite do bispo chegou por essa via, tendo conhecimento da realidade aqui da par\u00f3quia, fez-lhe sentido. Historicamente tem sido sempre assim, especialmente o padre, os leigos aqui da nossa par\u00f3quia ficam respons\u00e1veis pelo secretariado. Portanto, \u00e9 um desafio, claro, porque a Diocese \u00e9 muito grande, e eu estando numa ponta n\u00e3o consigo chegar a todo lado. Nesta fase inicial, o que estamos a fazer \u00e9 estabelecer contacto com as outras par\u00f3quias, para ver se conseguimos construir umas pontes e depois conseguirmos chegar a todo lado, fazer um reconhecimento do terreno, ver como \u00e9 que \u00e9 a realidade migrat\u00f3ria: que servi\u00e7os existem, que apoio existe. Andamos a fazer aqui, um bocado, um recenseamento da diocese, para depois conseguir agir mais no terreno.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00c9 uma Diocese grande e tamb\u00e9m com um grande fluxo migrat\u00f3rio, nesta altura tamb\u00e9m\u2026<\/em><\/p>\n<p>Sim, muito grande, muito grande.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>J\u00e1 esta segunda-feira vamos ficar a conhecer a mensagem do Papa para o pr\u00f3ximo Dia Mundial do Migrante e do Refugiado. Sabemos que vai estar ligada \u00e0 dimens\u00e3o sinodal e vai apresentar os migrantes como um \u00edcone contempor\u00e2neo da Igreja em Movimento. \u00c9 um sinal importante?<\/em><\/p>\n<p>Sim, sim, muito importante. N\u00f3s sabemos que o t\u00edtulo da mensagem \u00e9 \u2018Deus caminha junto ao seu Povo\u2019 e \u00e9 importante n\u00f3s reconhecermos este povo, estes irm\u00e3os, como parte do nosso povo, sendo parte da nossa Igreja tamb\u00e9m. Sendo parte da nossa Igreja, tamb\u00e9m t\u00eam algo a dizer-nos, t\u00eam de estar connosco nesta dimens\u00e3o sinodal. Portanto, \u00e9 muito importante, nesta quest\u00e3o do acolhimento, tamb\u00e9m ouvirmos e vermos o que \u00e9 que os irm\u00e3os t\u00eam para partilhar connosco.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Tamb\u00e9m \u00e9 preciso promover a viv\u00eancia da f\u00e9 e valorizar, como acabou de dizer, aquilo que as outras pessoas trazem \u00e0 comunidade?<\/em><\/p>\n<p>Sim e o que eu noto \u00e9 que, principalmente os africanos, s\u00e3o pessoas que t\u00eam uma f\u00e9 muito, muito grande, t\u00eam uns h\u00e1bitos, pr\u00e1ticas religiosas\u2026 acho que s\u00f3 mesmo a f\u00e9 \u00e9 que os move e que lhes permite lidar com as adversidades do dia-a-dia. Eu vejo pessoas que n\u00e3o perdem a esperan\u00e7a, que caem e que se voltam a erguer, que dizem sempre: \u201cDeus est\u00e1 comigo e eu vou conseguir\u201d. Isto \u00e9 algo que n\u00f3s temos de aprender com eles, porque nas nossas vidas aqui, um bocado mais facilitadas e mais simples, nem sempre temos necessidade de ter este tipo de postura. Eles, no dia-a-dia, \u00e9 mesmo Deus que os ajuda, \u00e9 mesmo Deus que caminha com eles.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Depois de ter estado numa iniciativa em que se falou da problem\u00e1tica dos imigrantes, do seu acesso \u00e0 sa\u00fade e dos seus pedidos de resid\u00eancia tempor\u00e1ria, a coordenadora do Secretariado da Pastoral das Migra\u00e7\u00f5es de Set\u00fabal \u00e9 convidada da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":328575,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[258],"class_list":["post-328569","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr","tag-migracoes"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/328569","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=328569"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/328569\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/328575"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=328569"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=328569"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=328569"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}