{"id":32777,"date":"2008-06-30T11:04:11","date_gmt":"2008-06-30T11:04:11","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/06\/30\/homilia-do-cardeal-patriarca-na-missa-das-ordenacoes\/"},"modified":"2008-06-30T11:04:11","modified_gmt":"2008-06-30T11:04:11","slug":"homilia-do-cardeal-patriarca-na-missa-das-ordenacoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-cardeal-patriarca-na-missa-das-ordenacoes\/","title":{"rendered":"Homilia do Cardeal-Patriarca  na Missa das Ordena\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p><i>Sei em Quem acreditei<\/i> (2Tim. 1,12) <!--more--> 1. Esta solenidade lit\u00fargica real\u00e7a a unidade que existe entre estes dois grandes Ap\u00f3stolos, Pedro e Paulo. Tanta coisa os distinguiu: no modo como conheceram Jesus Cristo, na cultura, na situa\u00e7\u00e3o social no seio do Povo de Israel, no itiner\u00e1rio da miss\u00e3o. Paulo n\u00e3o esconde algumas diverg\u00eancias, como quando se tratou de acolher os n\u00e3o judeus no novo Israel, o novo Povo de Deus. Mas une-os a fidelidade sem limites a Jesus Cristo, por ambos coroada com o mart\u00edrio; une-os uma consci\u00eancia viva da Igreja, como Cristo a deseja, o que leva Paulo a reconhecer a autoridade de Pedro; ambos terminaram a sua vida de fidelidade em Roma, tornando-se assim as duas colunas insepar\u00e1veis sobre que assenta a Igreja, que, por sua causa, sempre interpretou a sua romanidade como s\u00edmbolo e desafio de universalidade e de unidade. \tEste ano, por vontade expressa do Santo Padre, o Sucessor de Pedro, as aten\u00e7\u00f5es fixam-se no Ap\u00f3stolo Paulo, para celebrarmos, hoje, os dois mil anos do seu nascimento. E para v\u00f3s, queridos ordinandos, \u00e9 uma coincid\u00eancia carregada de significado o receberdes a ordena\u00e7\u00e3o sacerdotal ou diaconal no primeiro dia do Ano Paulino. O Ap\u00f3stolo Paulo e o seu itiner\u00e1rio de fidelidade imp\u00f5em-se, assim, como modelo inspirador do vosso minist\u00e9rio. \tA Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa, na Nota Pastoral sobre o \u201cAno Paulino\u201d, apresenta como sugest\u00e3o pastoral a valoriza\u00e7\u00e3o dos textos de Paulo, o autor sagrado mais lido na Liturgia, nas homilias durante este ano. Sejamos fi\u00e9is a essa sugest\u00e3o desde o primeiro dia.  \t2. O texto da Segunda Carta a Tim\u00f3teo \u00e9 a s\u00edntese de uma vida de fidelidade, no momento em que pressente o fim, o atingir da meta. Oxal\u00e1 pud\u00e9ssemos todos, no fim da nossa corrida e das nossas canseiras fazer uma s\u00edntese t\u00e3o confiante e carregada de esperan\u00e7a. \u201cCombati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a f\u00e9\u201d (2Tim. 4,7). \u00c9 significativo que Paulo sublinhe, no \u00faltimo sentimento que resume a sua vida, o ter mantido a f\u00e9. Isto indica, como ele pr\u00f3prio o sugere, que a fidelidade \u00e0 f\u00e9 foi para ele um combate, o bom combate. Sofreu muito por causa dela, sentiu certamente a obscuridade e, porventura, a confus\u00e3o da d\u00favida. As perip\u00e9cias da miss\u00e3o, as vicissitudes da Igreja nascente, as divis\u00f5es nas comunidades, a deser\u00e7\u00e3o de alguns, devem ter adensado a pertin\u00e1cia de ser fiel \u00e0 escolha da f\u00e9, \u00e0s exig\u00eancias da f\u00e9, \u00e0 \u201cobedi\u00eancia da f\u00e9\u201d. Logo no in\u00edcio desta Carta ele confessa a Tim\u00f3teo: \u201c\u00c9 por isso que experimento mais esta prova\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o me envergonho porque sei em Quem acreditei e estou convencido que Ele \u00e9 capaz de guardar este meu dep\u00f3sito at\u00e9 \u00e0quele dia\u201d (2Tim. 1,12), referindo-se ao encontro definitivo com Cristo. \t\u201cSei em Quem acreditei\u201d! Para Paulo \u00e9 claro: ele n\u00e3o acreditou em qualquer coisa, uma doutrina, um projecto inovador; ele acreditou em Cristo, em Quem confiou totalmente. Est\u00e1 seguro que o Senhor \u00e9 capaz de o manter fiel a essa f\u00e9. Cristo vivo \u00e9 o fundamento s\u00f3lido da f\u00e9 de Paulo, desde o in\u00edcio, a sua convers\u00e3o na Estrada de Damasco, at\u00e9 ao fim, quando lhe ser\u00e1 atribu\u00edda a coroa de justi\u00e7a que o Senhor lhe dar\u00e1 naquele dia, o dia da plena manifesta\u00e7\u00e3o de Cristo. Entre estes dois momentos situa-se a sua vida, o palco do grande combate, em que reconhece: \u201co Senhor esteve a meu lado e deu-me for\u00e7a\u201d (2Tim. 4,17).  \t3. A f\u00e9 foi para Paulo uma aventura de amor e de fidelidade a Jesus Cristo. \u201cPara mim viver \u00e9 Cristo\u201d (Fil. 1,21), \u00e9 o desabafo que o define. \u00c9 atrav\u00e9s da f\u00e9 que mergulha em Jesus Cristo e usufrui da Sua fecundidade redentora. A f\u00e9 \u00e9 um mergulho em Jesus Cristo, que leva a mergulhar em Deus, como ensina aos G\u00e1latas: \u201cV\u00f3s sois todos filhos de Deus pela f\u00e9 em Jesus Cristo. Baptizados em Cristo, todos v\u00f3s vos revestistes de Jesus Cristo\u201d (Gal. 3,26). Paulo ensina-nos que a f\u00e9 \u00e9 uma experi\u00eancia de amor, na dureza de n\u00e3o possuir completamente a pessoa amada, o que aumenta o desejo, mas n\u00e3o diminui a firmeza da fidelidade. Tem uma consci\u00eancia n\u00edtida da unidade entre a f\u00e9 e a caridade. A f\u00e9 \u00e9, neste caminho de peregrinos, o espa\u00e7o da nossa experi\u00eancia de amor, na esperan\u00e7a e no desejo de que o amor um dia seja pleno, anulando a obscuridade da f\u00e9 e satisfazendo todo o desejo. Escreve aos Cor\u00edntios: \u201cHoje vemos como num espelho, de maneira confusa, mas ent\u00e3o veremos face a face. Hoje conhe\u00e7o de maneira imperfeita; ent\u00e3o conhecerei como sou conhecido. Em resumo, a f\u00e9, a esperan\u00e7a e a caridade permanecem as tr\u00eas, mas a maior de entre elas \u00e9 a caridade\u201d (1Co. 13,12-13). \tA densidade da f\u00e9 consiste no facto de ela ter a voragem do amor, na obscuridade da comunh\u00e3o. Esta, que em si mesma \u00e9 frui\u00e7\u00e3o, reveste-se, na f\u00e9, da densidade da confian\u00e7a. Para Paulo, como para n\u00f3s, esta n\u00e3o \u00e9 uma experi\u00eancia f\u00e1cil. Mas o Senhor garantiu-lhe, no meio das suas tribula\u00e7\u00f5es: \u201cbasta-te a minha gra\u00e7a\u201d (2Cor. 12,9).  \t4. Voltando \u00e0 leitura da Segunda Carta a Tim\u00f3teo, Paulo escreve: \u201cO Senhor esteve a meu lado e deu-me for\u00e7a, para que, por meu interm\u00e9dio, a mensagem do Evangelho fosse plenamente proclamada e todos os pag\u00e3os a ouvissem\u201d (2Tim. 4,17). Que grande testemunho de vida! A evangeliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um programa humano, \u00e9 uma paix\u00e3o por Jesus Cristo. Paulo est\u00e1 de tal maneira consciente de que \u00e9 na f\u00e9 que se ama Jesus Cristo, que se nos revela como Salvador, que a maior urg\u00eancia \u00e9 comunicar a f\u00e9, que nasce da Palavra que \u00e9 Cristo vivo, porque Ele \u00e9 a Palavra encarnada. Evangelizar \u00e9 proporcionar aos homens a rela\u00e7\u00e3o vital com Jesus Cristo. Na Carta aos Romanos exclama: \u201cMas como O h\u00e3o-de invocar sem primeiro acreditarem n\u2019Ele? e como h\u00e3o-de acreditar sem primeiro O ouvir? E como ouvir sem pregador? E como pregar sem primeiro ser enviado? (\u2026) A f\u00e9 nasce da prega\u00e7\u00e3o e desta prega\u00e7\u00e3o a Palavra de Cristo \u00e9 o instrumento\u201d (Rom. 10,14-17). Evangelizar \u00e9 fazer ouvir Jesus Cristo, levar a entregar-se a Ele na f\u00e9, na certeza de que a f\u00e9 \u00e9 uma experi\u00eancia de amor.  \t5. E, finalmente, na sua hora definitiva, Paulo transmite a Tim\u00f3teo que a sua f\u00e9 \u00e9 o fundamento da sua esperan\u00e7a. \u201cE agora j\u00e1 me est\u00e1 preparada a coroa de justi\u00e7a, que o Senhor Justo Juiz, me h\u00e1-de dar naquele dia\u201d (2Tim. 4,8); \u201co Senhor me livrar\u00e1 de todo o mal e me dar\u00e1 a salva\u00e7\u00e3o no Seu reino celeste\u201d (2Tim. 4,18). S\u00f3 quem viveu a f\u00e9 como experi\u00eancia de amor, desejando ardentemente a plenitude da comunh\u00e3o, deseja a plenitude da vida, em Deus. A vis\u00e3o ser\u00e1 a plenitude da caridade, que leva \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o a experi\u00eancia da f\u00e9 na dureza da obscuridade. Ou\u00e7amo-lo na Carta aos Cor\u00edntios: \u201cSe eu tiver o dom da profecia e conhecer todos os mist\u00e9rios e toda a ci\u00eancia, se eu tiver a plenitude da f\u00e9, uma f\u00e9 capaz de transportar montanhas, sem a caridade nada sou\u201d (1Co. 13,2).  \t6. Queridos ordinandos! S\u00e3o Paulo ajudar-vos-\u00e1 a descobrir a centralidade decisiva da f\u00e9, na vossa vida crist\u00e3 e no exerc\u00edcio do vosso minist\u00e9rio. Cultivai a vossa f\u00e9, nunca esquecendo que ela \u00e9 um dom de Deus, fruto da ac\u00e7\u00e3o de Deus em n\u00f3s, nos atrai, nos escolhe e nos consagra. N\u00e3o esque\u00e7ais tamb\u00e9m que a f\u00e9 \u00e9 um combate que h\u00e1-de dar forma \u00e0 vossa fidelidade a Cristo, \u00e0 Igreja, ao Povo que Ele ama e a quem vos confia. O sacerdote tem de aprender a acreditar em Jesus Cristo, na Igreja e a amar Jesus Cristo, amando a Igreja. E este caminho de fidelidade \u00e9 percorrido em Igreja, de modo particular na comunh\u00e3o do nosso Presbit\u00e9rio, no qual uns iniciam o caminho, para outros vai j\u00e1 longa a caminhada, para alguns ela aproxima-se da coroa da gl\u00f3ria. Sa\u00fado neste momento todos: os que come\u00e7am, os que h\u00e1 25, 50, 60 anos procuraram amar a Cristo, amando a Igreja. Oxal\u00e1 todos possam exclamar \u00e0 chegada: \u201cCombati o bom combate, guardei a f\u00e9\u201d (2Tim. 4,7).  Solenidade dos Ap\u00f3stolos Pedro e Paulo Mosteiro dos Jer\u00f3nimos, 29 de Junho de 2008   <i>\u2020 JOS\u00c9, Cardeal-Patriarca <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sei em Quem acreditei (2Tim. 1,12)<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[113,147,168,246],"class_list":["post-32777","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-ano-paulino","tag-conferencia-episcopal-portuguesa","tag-diocese-da-guarda","tag-liturgia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32777","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=32777"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32777\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=32777"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=32777"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=32777"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}