{"id":32766,"date":"2008-06-28T12:47:05","date_gmt":"2008-06-28T12:47:05","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/06\/28\/circulo-catolico-de-operarios-do-porto-e-a-batalha-pelo-descanso-dominical\/"},"modified":"2008-06-28T12:47:05","modified_gmt":"2008-06-28T12:47:05","slug":"circulo-catolico-de-operarios-do-porto-e-a-batalha-pelo-descanso-dominical","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/circulo-catolico-de-operarios-do-porto-e-a-batalha-pelo-descanso-dominical\/","title":{"rendered":"Circulo Cat\u00f3lico de Oper\u00e1rios do Porto e a \u201cBatalha\u201d pelo descanso dominical"},"content":{"rendered":"<p>Confer\u00eancia de D. Manuel Clemente no 110\u00ba anivers\u00e1rio do C.C.O.P. <!--more--> 1. O C\u00edrculo Cat\u00f3lico de Oper\u00e1rios do Porto trouxe ao movimento cat\u00f3lico portugu\u00eas um cariz propriamente contempor\u00e2neo. Na verdade, \u00e9 com ele que se ultrapassa a fase \u201cpaternalista\u201d, que, num quadro ainda muito tradicional e pr\u00e9-urbano, procurava resolver a quest\u00e3o social mais pela responsabilidade das elites do que pela movimenta\u00e7\u00e3o aut\u00f3noma dos trabalhadores: \u201cUm movimento social cat\u00f3lico, integrado \u2018por oper\u00e1rios\u2019, e n\u00e3o s\u00f3 \u2018para oper\u00e1rios\u2019, vai surgir apenas com o lan\u00e7amento dos C. C. O. [C\u00edrculos Cat\u00f3licos de Oper\u00e1rios]. O primeiro \u00e9 fundado no Porto, a 9 de Junho de 1898, por Manuel Frutuoso da Fonseca, que ser\u00e1 seu presidente at\u00e9 \u00e0 data da sua morte, em 1908\u201d (CRUZ, Manuel Braga da \u2013 As origens da democracia crist\u00e3 e o salazarismo. Lisboa: Editorial Presen\u00e7a \/ Gabinete de Investiga\u00e7\u00f5es Sociais, 1980, p. 125-126. E ainda, ibidem, p. 134, nota: \u201c\u00c0 excep\u00e7\u00e3o do Porto, quase todos os demais foram fundados por padres e aristocratas conservadores. O C. C. O. do Porto, presidido pelo jornalista M. F. da Fonseca, tinha na sua direc\u00e7\u00e3o n\u00e3o poucos oper\u00e1rios e jornalistas rec\u00e9m-convertidos oriundos do \u2018campo revolucion\u00e1rio\u2019, tais como o ex-socialista \u2018manipulador de tabaco\u2019 Manuel Duarte de Almeida e o ex-dirigente anarco-sindicalista Jos\u00e9 Martins\u201d).  2. No seu programa (publicado n\u2019 O Grito do Povo de 17 de Junho de 1899) surgiram 14 itens elucidativos, que podemos resumir assim: 1\u00ba) descanso dominical; 2\u00ba) ensino religioso; 3\u00ba) diminui\u00e7\u00e3o dos encargos militares, que pesavam mais sobre os pobres; 4\u00ba) reforma do imposto, para que incidisse mais sobre os objectos de luxo do que sobre os g\u00e9neros de primeira necessidade; 5\u00ba) extin\u00e7\u00e3o da agiotagem e da usura; 6\u00ba) diminui\u00e7\u00e3o das despesas de justi\u00e7a; 7\u00ba) representa\u00e7\u00e3o do trabalho e dos interesses profissionais; 8\u00ba) comiss\u00f5es mistas de patr\u00f5es e oper\u00e1rios; 9\u00ba) m\u00e1ximo do dia de trabalho, n\u00e3o mais de onze horas; 10\u00ba) redu\u00e7\u00e3o do trabalho nocturno; 11\u00ba) proibi\u00e7\u00e3o do trabalho de menores de 14 anos e cuidados com o trabalho da mulher; 12\u00ba) sal\u00e1rio m\u00ednimo, come\u00e7ando no sector p\u00fablico; 13\u00ba) caixas de socorro na doen\u00e7a, acidentes e velhice; 14\u00ba) casas para oper\u00e1rios.  3. O C\u00edrculo Cat\u00f3lico de Oper\u00e1rios do Porto nunca desistiu at\u00e9 ver realizado o primeiro item do seu programa, o descanso dominical. \u00c9 ali\u00e1s a melhor demonstra\u00e7\u00e3o da incid\u00eancia social duma convic\u00e7\u00e3o t\u00e3o humanit\u00e1ria como religiosa. Em 1907, o governo de Jo\u00e3o Franco legislou finalmente nesse sentido, com imediato aplauso do C. C. O. portuense (cf. GON\u00c7ALVES, Eduardo C. Cordeiro \u2013 O C\u00edrculo Cat\u00f3lico de Oper\u00e1rios do Porto e o Catolicismo Social em Portugal (1898 \u2013 1910). Porto: CCOP, 1998, p. 34- 35).  Interessante a argumenta\u00e7\u00e3o do C\u00edrculo, ligando a prescri\u00e7\u00e3o religiosa \u00e0 considera\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica. Como neste trecho de Fernandes da Silva, n\u2019 O Grito do Povo de 12 de Agosto de 1899: \u201cO domingo n\u00e3o \u00e9 somente o dia do Senhor, mas tamb\u00e9m do homem. Deus criando o homem dotou-o de corpo e alma, e t\u00e3o intimamente ligada com aquele, que se o corpo descansa a alma tamb\u00e9m descansa. Por\u00e9m Deus para prover a esta necessidade estabeleceu o descanso do domingo, sendo regulado segundo o organismo e for\u00e7as humanas\u201d.     E, se este ponto foi porventura o mais consequente da doutrina e da projec\u00e7\u00e3o do C\u00edrculo Cat\u00f3lico de Oper\u00e1rios do Porto, poder\u00e1 ser hoje o mais actual da sua heran\u00e7a a recolher. De facto, nas actuais condi\u00e7\u00f5es s\u00f3cio-econ\u00f3micas, o descanso dominical, arduamente conseguido h\u00e1 um s\u00e9culo, \u00e9 posto em causa por outros motivos. O modo corrente de viver e descansar, menos comunit\u00e1rio, mais individualizado, faz do \u201cfim-de-semana\u201d o tempo do com\u00e9rcio e dos \u201ccentros comerciais\u201d o espa\u00e7o social mais centr\u00edpeto e convidativo. Ali\u00e1s, os servi\u00e7os de apoio ao lazer exigem cada vez mais trabalho ao s\u00e1bado e Domingo.   4. Neste contexto, a actual doutrina social da Igreja tem retomado e aprofundado muita da argumenta\u00e7\u00e3o de h\u00e1 cem anos. Fundamental neste ponto \u00e9 a carta apost\u00f3lica de Jo\u00e3o Paulo II Dies Domini, sobre a santifica\u00e7\u00e3o do Domingo, de 1998. Por exemplo, no seu n\u00ba 66: \u201cNo contexto hist\u00f3rico actual, <u>permanece a obriga\u00e7\u00e3o de batalhar<\/u> para que todos possam conhecer a liberdade, a calma e o descanso necess\u00e1rios \u00e0 sua dignidade de homens, com as consequentes exig\u00eancias religiosas, familiares, culturais, interpessoais, que dificilmente podem ser satisfeitas, se n\u00e3o ficar salvaguardado pelo menos um dia semanal para gozarem juntos da possibilidade de repousar e fazer festa\u201d. Sem esquecer de acrescentar: \u201cObviamente, este direito do trabalhador ao descanso pressup\u00f5e o seu direito ao trabalho\u201d.   Est\u00e1 em causa uma vis\u00e3o integrada da pessoa humana, a qual, muito mais do que mero \u201cindiv\u00edduo\u201d, \u00e9 sujeito de rela\u00e7\u00f5es m\u00faltiplas, indispens\u00e1veis para a sua realiza\u00e7\u00e3o integral. Isto significa fam\u00edlia, sociedade, cultura e religi\u00e3o, tudo realidades conjuntas que precisam de tempos e espa\u00e7os de encontro, ritmados, de todos para todos. E as reais necessidades de garantir servi\u00e7os p\u00fablicos ou particulares n\u00e3o podem iludir tal realidade essencial, mas proporcion\u00e1-la, tamb\u00e9m \u00e0queles que nem sempre possam descansar ao Domingo. Uma sociedade que se perde como conviv\u00eancia integradora desfaz-se na pulveriza\u00e7\u00e3o dos interesses. Deixa mesmo de ser \u201csociedade\u201d, perde-se como humanidade.  &#8211; H\u00e1 muito a retomar, do que no C\u00edrculo Cat\u00f3lico de Oper\u00e1rios do Porto foi prop\u00f3sito e consequ\u00eancia, h\u00e1 mais de um s\u00e9culo!  <i>Manuel Clemente<\/i>, 27 de Junho de 2008 <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Confer\u00eancia de D. Manuel Clemente no 110\u00ba anivers\u00e1rio do C.C.O.P.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[168,172,187,206,237,261],"class_list":["post-32766","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-diocese-da-guarda","tag-diocese-de-braga","tag-diocese-do-porto","tag-familia","tag-joao-paulo-ii","tag-missoes"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32766","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=32766"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32766\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=32766"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=32766"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=32766"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}