{"id":327216,"date":"2024-05-26T09:31:27","date_gmt":"2024-05-26T08:31:27","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=327216"},"modified":"2024-05-24T10:04:49","modified_gmt":"2024-05-24T09:04:49","slug":"sociedade-violencia-entre-criancas-e-muito-mais-do-que-uma-brincadeira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/sociedade-violencia-entre-criancas-e-muito-mais-do-que-uma-brincadeira\/","title":{"rendered":"Sociedade: \u00abViol\u00eancia entre crian\u00e7as \u00e9 muito mais do que uma brincadeira\u00bb"},"content":{"rendered":"<p><em>Roma acolhe a primeira edi\u00e7\u00e3o da Jornada Mundial das Crian\u00e7as, convocada pelo Papa, uma iniciativa que tamb\u00e9m \u00e9 celebrada a n\u00edvel local em cada diocese. Em Portugal, a semana fica\u00a0 marcada pela indica\u00e7\u00e3o de um aumento de crimes contra crian\u00e7as. Para refletir sobre estes temas, \u00e9 convidada da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia Carla Ferreira, da Associa\u00e7\u00e3o Portuguesa de Apoio \u00e0 V\u00edtima (APAV)<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_327174\" aria-describedby=\"caption-attachment-327174\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/0W1A3161.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-327174 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/0W1A3161.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1280\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/0W1A3161.jpg 1920w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/0W1A3161-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/0W1A3161-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/0W1A3161-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/0W1A3161-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/0W1A3161-1536x1024.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-327174\" class=\"wp-caption-text\">Foto: RR<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em>Comecemos pela Jornada Mundial das Crian\u00e7as, para al\u00e9m da dimens\u00e3o mais religiosa e at\u00e9 formativa, a iniciativa dar\u00e1 tamb\u00e9m visibilidade a uma abordagem aos problemas com que a sociedade se confronta em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s crian\u00e7as.<\/em><\/p>\n<p>Essa tamb\u00e9m \u00e9 a nossa expectativa nestas iniciativas, independentemente da sua natureza: passar a mensagem de que todos n\u00f3s temos um papel absolutamente fulcral na prote\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as e jovens e na garantia de que estas pessoas possam ter um desenvolvimento salutar. E, portanto, nesse aspeto, todas as institui\u00e7\u00f5es, todas as pessoas devem ser chamadas a refletir sobre o lado menos positivo da inf\u00e2ncia, que tamb\u00e9m acontece, e pensarmos de que forma \u00e9 que poderemos fazer algo mais e melhor para detetarmos e agirmos em conformidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E que opini\u00e3o t\u00eam sobre a possibilidade de se passar a organizar uma Jornada Mundial das Crian\u00e7as, id\u00eantica \u00e0 Jornada Mundial da Juventude? Oferece \u00e0s crian\u00e7as uma voz pr\u00f3pria em quest\u00f5es que lhe dizem particularmente respeito?<\/em><\/p>\n<p>As iniciativas que possam ser realizadas, como a Jornada Mundial da Juventude, e transp\u00f4-la aqui para a edi\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as, digamos assim, iniciativas que sejam agregadoras numa mesma miss\u00e3o, num mesmo esp\u00edrito, ser\u00e3o sempre positivas. E se a estas iniciativas pudermos acrescentar a din\u00e2mica de pensar e ajudar tamb\u00e9m as crian\u00e7as a reconhecer-se como sujeito pleno de direitos, com direito a crescer na liberdade e direito a crescer em seguran\u00e7a, diria que temos a\u00ed uma receita muito boa para podermos fazer esse trabalho conjunto.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>A dimens\u00e3o mais dif\u00edcil destas realidades est\u00e1 relacionada com os maus-tratos, mas h\u00e1 outros fatores que \u00e9 importante refletir: um deles \u00e9 o tema da pobreza, da pobreza infantil. Como \u00e9 que se entende a dificuldade de Portugal quebrar estes ciclos ap\u00f3s 50 anos de democracia?<\/em><\/p>\n<p>Eu diria que tudo isso se pode resumir a quest\u00f5es que t\u00eam a ver com as pol\u00edticas p\u00fablicas. \u00c0s vezes existem, a quest\u00e3o \u00e9 depois terem o acompanhamento devido, faz sempre falta esta necessidade de olharmos para as situa\u00e7\u00f5es do quotidiano e percebermos que tem de existir aqui uma a\u00e7\u00e3o concertada. Muitas vezes, aquilo que vemos nesta mat\u00e9ria \u00e9 que cada pessoa vai tentando solucionar \u00e0 sua maneira; isso \u00e9 bom, porque temos todo este esp\u00edrito de solucionar, mas falta depois uma estrat\u00e9gia que seja nacional e transversal. Uma coisa \u00e9 certa, n\u00e3o se deve conceber que num pa\u00eds desenvolvido como Portugal, em pleno s\u00e9culo XXI, haja crian\u00e7as a passar fome. Isso \u00e9 algo que nem devia sequer estar na equa\u00e7\u00e3o, mas sendo essa a realidade, ent\u00e3o n\u00f3s temos de agir proactivamente, como eu acredito que todos ajamos quando sabemos de uma situa\u00e7\u00e3o dessas, mas ter\u00edamos de ter aqui uma estrat\u00e9gia mais concertada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas existe uma estrat\u00e9gia nacional de combate \u00e0 pobreza\u2026<\/em><\/p>\n<p>Existe a estrat\u00e9gia, a quest\u00e3o \u00e9, em termos de pol\u00edtica efetiva e da aplica\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica. A d\u00favida que eu deixo, n\u00e3o sendo a nossa \u00e1rea de interven\u00e7\u00e3o mais especializada \u00e9 se nacionalmente podemos dizer que todas as crian\u00e7as t\u00eam exatamente a mesma capacidade de acesso \u00e0s respostas, ou se algumas t\u00eam mais capacidade porque est\u00e3o numa determinada regi\u00e3o, por exemplo no Litoral, e outras t\u00eam menos porque est\u00e3o no Interior.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Entre 2022 e 2023, a APAV registou mais de 10 mil crimes contra menores, um aumento de 18% em apenas um ano. Uma parte dos n\u00fameros justifica-se com a maior aten\u00e7\u00e3o dada a este tipo de viol\u00eancia?<\/em><\/p>\n<p>Eu diria que sim, essa \u00e9 tamb\u00e9m a nossa convic\u00e7\u00e3o enquanto APAV: este aumento n\u00e3o \u00e9 necessariamente um aumento da criminalidade propriamente dita, at\u00e9 por v\u00e1rias raz\u00f5es. Primeiro porque muitos destes crimes que n\u00f3s registamos, nestes dois anos, n\u00e3o aconteceram necessariamente nestes dois anos: n\u00f3s n\u00e3o nos podemos esquecer que estamos a falar de crian\u00e7as, estamos a falar de seres em desenvolvimento e que, portanto, s\u00e3o pessoas que muitas vezes s\u00f3 se conseguem aperceber de que foram v\u00edtimas de viol\u00eancia alguns anos depois de ela ter acontecido. Segundo, porque n\u00f3s n\u00e3o temos a real no\u00e7\u00e3o, ningu\u00e9m tem a real no\u00e7\u00e3o da criminalidade que efetivamente acontece, n\u00f3s temos uma no\u00e7\u00e3o da criminalidade que \u00e9 reportada e diria que \u00e9 a ponta do icebergue. Portanto, acreditamos que este crescendo \u00e9 a tal consciencializa\u00e7\u00e3o crescente da sociedade, do seu papel como agente promotor da seguran\u00e7a e do bem-estar das crian\u00e7as, mas deve continuar a preocupar-nos um aumento desta natureza, s\u00f3 naquilo que s\u00e3o os pedidos de ajuda.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>E, portanto, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel falarmos da real dimens\u00e3o do problema, at\u00e9 porque h\u00e1 uma outra quest\u00e3o associada que, \u00e0s vezes, tem a ver com o medo da pr\u00f3pria den\u00fancia, n\u00e3o \u00e9?<\/em><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m, sem d\u00favida. O medo da den\u00fancia \u00e9 real e eu diria que \u00e9 real em todas as faixas et\u00e1rias. Nas crian\u00e7as, mais do que o medo da den\u00fancia, muitas vezes temos o desconhecimento e aqui s\u00e3o v\u00e1rios patamares de desconhecimento: temos o desconhecimento de que aquilo que est\u00e3o a passar \u00e9 um crime, muitas crian\u00e7as n\u00e3o t\u00eam esta no\u00e7\u00e3o, sobretudo as mais novas; tamb\u00e9m o desconhecimento de como agir, agora que percebi que estou a ser v\u00edtima de um crime; o receio de pensarem \u201ce agora o que \u00e9 que me vai acontecer?\u2019. Podemos estimar a real dimens\u00e3o, mas ser\u00e1 sempre uma estimativa muito incerta, porque h\u00e1 estat\u00edsticas que nos falam que apenas conhecemos um em cada tr\u00eas crimes, mas nalguns crimes, se calhar, at\u00e9 conhecemos menos. \u00c9 uma estimativa muito, muito incerta, estamos claramente a conhecer muito pouco daquilo que efetivamente acontece.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Daquilo que sabemos, a maior parte dos crimes continua a estar associada \u00e0 viol\u00eancia dom\u00e9stica e aos crimes sexuais?<\/em><\/p>\n<p>Sem d\u00favida. Daquilo que podemos registar, no nosso relat\u00f3rio estat\u00edstico, seis em cada dez crimes s\u00e3o de viol\u00eancia dom\u00e9stica, no caso dos crimes sofridos contra crian\u00e7as, naturalmente. E tr\u00eas em cada dez s\u00e3o crimes de natureza sexual, portanto, maioritariamente as crian\u00e7as continuam a ser v\u00edtimas destas formas de viol\u00eancia, sendo que n\u00e3o nos podemos esquecer que a viol\u00eancia dom\u00e9stica, de uma forma um bocadinho autoexplicativa, acontece entre portas e acontece pelas pessoas que s\u00e3o as figuras de cuidado. No caso da viol\u00eancia sexual, cerca de 50% das situa\u00e7\u00f5es acontece, de facto, por pessoas que s\u00e3o familiares da v\u00edtima e dos outros 50%, diria que 40% a 45% acontecem por pessoas que elas conhecem. Estas s\u00e3o aqui as grandes predomin\u00e2ncias da criminalidade nesta mat\u00e9ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Que tipo de apoio presta a APAV?<\/em><\/p>\n<p>Isso depende muito da situa\u00e7\u00e3o e aquilo que eu queria ressaltar, desde j\u00e1, \u00e9 que estamos a falar de um apoio que \u00e9 gratuito e confidencial. Depois, caso a caso, as situa\u00e7\u00f5es s\u00e3o analisadas com cautela e olhando para v\u00e1rios vetores. Podemos prestar desde apoio psicol\u00f3gico, acompanhamento em dilig\u00eancias processuais, esclarecimento sobre direitos a articula\u00e7\u00e3o com outras entidades, por exemplo, nas mat\u00e9rias da educa\u00e7\u00e3o, do apoio social, entre outros, mas isto tudo decorre de uma an\u00e1lise muito cuidada, quer dos riscos que aquela crian\u00e7a possa estar a correr naquele momento, quer tamb\u00e9m das necessidades que emergem daquele pedido em espec\u00edfico.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>N\u00f3s temos tido mais not\u00edcias de casos de viol\u00eancia, um aumento da intoler\u00e2ncia em contexto escolar. A APAV tem essa perce\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m?<\/em><\/p>\n<p>As not\u00edcias, diria, refletem uma pequena parte. Aquilo que n\u00f3s temos percecionado enquanto APAV \u00e9 que a comunidade escolar est\u00e1 mais atenta \u00e0s situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia que acontecem, quer dentro da pr\u00f3pria comunidade, quer fora. \u00c9 muitas vezes a comunidade escolar que acaba por ser o ponto de partida, para que estas crian\u00e7as possam vir a ter o apoio e que necessitam. H\u00e1 uns meses tivemos um caso medi\u00e1tico de um professor numa escola, no Norte, e foi a escola precisamente que agilizou esse pedido de ajuda. Recentemente tivemos outras not\u00edcias de alguma intoler\u00e2ncia, mesmo entre partes, viol\u00eancia entre pares. \u00c9 importante salientar que a viol\u00eancia entre as pr\u00f3prias crian\u00e7as \u00e9 muito mais do que uma brincadeira e pode ter repercuss\u00f5es muito significativas.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00c9 preciso superar aquele discurso do \u201cisto sempre aconteceu\u201d e \u201cs\u00e3o coisas de crian\u00e7as\u201d?<\/em><\/p>\n<p>Sem d\u00favida, porque se n\u00e3o superarmos esse discurso vamos estar no discurso que t\u00ednhamos h\u00e1 70 ou 80 anos de que \u201cpode bater-se nas crian\u00e7as para as educar\u201d, de que \u201cas crian\u00e7as est\u00e3o s\u00f3 a brincar, \u00e9 uma brincadeira\u201d. Se n\u00e3o superarmos esse tipo de discursos tamb\u00e9m n\u00e3o vamos evoluir enquanto sociedade, com certeza. Mas aquilo que vemos muitas vezes \u00e9 associar-se, sobretudo \u00e0 viol\u00eancia entre pares, a algo que \u00e9 entre mi\u00fados e que ningu\u00e9m se deve intrometer, porque \u00e9 uma forma deles desenvolverem as suas capacidades. Isso n\u00e3o \u00e9 verdade.<\/p>\n<p>Aquilo que n\u00f3s estamos a ensinar \u00e0s crian\u00e7as, com esse tipo de valida\u00e7\u00e3o, \u00e9 dizer-lhes que o comportamento violento \u00e9 certo e \u00e9 uma forma adequada de resolver problemas, e estamos a criar pessoas que usam a viol\u00eancia como resolu\u00e7\u00e3o de problemas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E notam o aumento desse tipo de situa\u00e7\u00f5es?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Temos tido situa\u00e7\u00f5es de bullying, mas as situa\u00e7\u00f5es que n\u00f3s temos eu acredito que s\u00e3o tamb\u00e9m muito pouco reportadas, precisamente porque ainda h\u00e1 esse discurso de normaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia, quer da parte das pr\u00f3prias fam\u00edlias, quer da parte tamb\u00e9m da comunidade que est\u00e1 em redor. E \u00e9 esse discurso tamb\u00e9m que tentamos contrariar todos os dias.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>E tamb\u00e9m da pr\u00f3pria escola?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>As escolas \u00e0s vezes tendem a achar que algumas situa\u00e7\u00f5es s\u00e3o toler\u00e1veis. H\u00e1 outras que n\u00e3o, que j\u00e1 apontam a tal linha vermelha que n\u00e3o se deve passar. Eu acho que se as escolas tiverem a forma\u00e7\u00e3o, os profissionais de educa\u00e7\u00e3o tiverem a forma\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria e maior sensibilidade, at\u00e9 porque isso n\u00e3o \u00e9 uma coisa que nas\u00e7a necessariamente connosco e, portanto, temos de estar aqui abertos para estes momentos formativos; e se houver essa maior sensibilidade acredito que tamb\u00e9m estar\u00e3o muito mais predispostos a agir, porque trata-se de mudar cren\u00e7as e \u00e9 isso que n\u00f3s tamb\u00e9m queremos trabalhar.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Ao n\u00edvel da preven\u00e7\u00e3o do fen\u00f3meno, o que \u00e9 que falta fazer do vosso ponto de vista?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>No in\u00edcio deste ano foi lan\u00e7ado um documento que se chama a Estrat\u00e9gia Nacional para os Direitos das V\u00edtimas de Crime e nesse documento um dos pilares que est\u00e1 assente \u00e9 a exist\u00eancia de um programa de preven\u00e7\u00e3o de forma estruturada, programa de preven\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia. E isso \u00e9 algo que n\u00f3s subscrevemos na \u00edntegra, porque de facto n\u00f3s podemos prevenir certas formas de viol\u00eancia, sim, e que devemos faz\u00ea-lo, mas tamb\u00e9m n\u00e3o nos podemos esquecer que n\u00f3s, para chegarmos ao particular de podemos prevenir a viol\u00eancia dom\u00e9stica, ou de podemos prevenir a viol\u00eancia sexual, temos de come\u00e7ar pelo geral, que \u00e9 prevenir o uso da viol\u00eancia e fazer com que n\u00e3o seja usado a viol\u00eancia de forma recorrente nas rela\u00e7\u00f5es interpessoais. E fazer tamb\u00e9m com que n\u00e3o seja normativo uma crian\u00e7a de sete ou oito anos injuriar um colega porque acha que \u00e9 uma forma carinhosa de tratar. O\u00a0plano est\u00e1 feito, eu diria que \u00e9 preciso haver aqui uma aplica\u00e7\u00e3o transversal e efetiva de uma estrat\u00e9gia nacional, mais uma vez, para que n\u00e3o haja um Portugal a tr\u00eas ou quatro velocidades e haja uma aplica\u00e7\u00e3o nacional desse trabalho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Por exemplo, na situa\u00e7\u00e3o dos abusos sexuais, temos o recente trabalho realizado ao n\u00edvel da igreja, ali\u00e1s com a colabora\u00e7\u00e3o da APAV. Mas, e a sociedade tem refletido seriamente o problema?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 essa a quest\u00e3o, ou seja, n\u00f3s estamos se calhar a olhar para a situa\u00e7\u00e3o da igreja como estamos a olhar para a situa\u00e7\u00e3o das escolas e n\u00f3s temos de pensar isso numa perspetiva geral. N\u00f3s ainda continuamos, consciente ou inconscientemente, com maior ou menor frequ\u00eancia, a dar mostras de que algumas situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia s\u00e3o justific\u00e1veis e n\u00f3s n\u00e3o podemos esquecer que as crian\u00e7as aprendem pelo exemplo, muito pelo exemplo. E se n\u00f3s temos em casa uma fam\u00edlia que at\u00e9 diz que a viol\u00eancia n\u00e3o \u00e9 aceit\u00e1vel, mas depois v\u00ea uma not\u00edcia na televis\u00e3o que tem a ver com uma situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia e diz que at\u00e9 fizeram bem; n\u00f3s estamos a dizer \u00e0 crian\u00e7a que a viol\u00eancia \u00e9 positiva. E, portanto, n\u00f3s temos de pensar na preven\u00e7\u00e3o como n\u00e3o sendo apenas algo que tem de ser direcionado para as crian\u00e7as. Tem de ser direcionado tamb\u00e9m para quem est\u00e1 em redor delas, porque sen\u00e3o estamos a p\u00f4r a t\u00f3nica nas crian\u00e7as na preven\u00e7\u00e3o exclusivamente e estamos a esquecer de quem est\u00e1 em redor que tem um papel absolutamente fulcral como ponto de partida de muitos pedidos de ajuda.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>No caso dos abusos, a sociedade tem muito a fazer ainda?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Eu diria que j\u00e1 fizemos um bonito caminho at\u00e9 aqui, j\u00e1 fizemos um caminho muito importante, j\u00e1 fizemos um caminho que nos levou a tirar conclus\u00f5es significativas, j\u00e1 fizemos muito trabalho, mas n\u00e3o est\u00e1 tudo feito de todo.\u00a0 N\u00e3o est\u00e1 tudo feito quando n\u00f3s no nosso quotidiano recebemos situa\u00e7\u00f5es de crian\u00e7as que s\u00e3o abusadas durante praticamente toda a sua inf\u00e2ncia e isso tem de fazer-nos refletir, porque quando falamos de abusos sexuais n\u00f3s n\u00e3o podemos esquecer que estamos a falar de situa\u00e7\u00f5es que normalmente s\u00e3o continuadas no tempo. N\u00e3o est\u00e1 tudo bem e n\u00f3s temos de pensar que enquanto sociedade temos de fazer algo melhor, quando eu recebo uma situa\u00e7\u00e3o de uma crian\u00e7a que tem 15 anos e que foi abusada desde os 4. Isto tem de nos levar a refletir, e isso acontece, e \u00e9 isto que tem que nos levar aqui a alguma reflex\u00e3o. Isto n\u00e3o \u00e9 ut\u00f3pico. N\u00f3s podemos de facto ter um papel muito ativo nisto. N\u00e3o \u00e9 um problema que seja s\u00f3 dos outros, n\u00f3s h\u00e1 uns meses lan\u00e7amos uma campanha que lembra que n\u00e3o h\u00e1 crian\u00e7as imunes \u00e0 viol\u00eancia. Qualquer crian\u00e7a que existe pode ser v\u00edtima de viol\u00eancia, s\u00f3 aquelas que n\u00e3o existem, que s\u00e3o criadas por intelig\u00eancia artificial, que foi o modo dessa campanha, \u00e9 que n\u00e3o podem ser.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>No in\u00edcio fal\u00e1vamos da pobreza, eu pergunto-lhe tamb\u00e9m, at\u00e9 porque se est\u00e1 a aproximar o Dia da Crian\u00e7a, o dia 1 de junho, em que toda a gente vai falar do tema, vai falar da inf\u00e2ncia. Perante o atual cen\u00e1rio de crise econ\u00f3mica, h\u00e1 o risco de voltarmos a ter de enfrentar em Portugal especificamente o problema do trabalho infantil, ou \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o que j\u00e1 se vai verificando?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Eu diria que espero que esse risco n\u00e3o exista, porque n\u00f3s tamb\u00e9m temos uma sociedade muito mais consciente agora, relativamente \u00e0s quest\u00f5es e \u00e0s implica\u00e7\u00f5es que existem no trabalho infantil. A minha expectativa e a nossa expectativa \u00e9 que isso n\u00e3o exista, porque se isso existisse significa um retrocesso, e \u00e9 aquilo que n\u00f3s n\u00e3o queremos, \u00e9 um retrocesso nos direitos, nas liberdades e nas garantias das pessoas. Portanto, espero que n\u00e3o, embora o risco possa existir, se de facto entrarmos aqui numa espiral complexa, mas tamb\u00e9m espero que aquilo que n\u00f3s aprendemos at\u00e9 agora, enquanto sociedade e o quanto j\u00e1 evolu\u00edmos, acabe por pesar nessas eventuais decis\u00f5es.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Outro tema que tem grande impacto na vida das crian\u00e7as \u00e9 a viol\u00eancia dom\u00e9stica, mesmo quando n\u00e3o s\u00e3o v\u00edtimas diretas, mas vivem num ambiente marcado pelo trauma e pelo medo. A sociedade est\u00e1 a fazer o suficiente?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N\u00e3o costumamos usar muita a terminologia das v\u00edtimas diretas, porque neste momento para a lei, o simples facto de a crian\u00e7a estar num ambiente dom\u00e9stico, considera-a automaticamente v\u00edtima, como se fosse diretamente agredida. E \u00e9 importante que as pessoas tenham esta no\u00e7\u00e3o, porque \u00e9 altamente nefasto para uma crian\u00e7a crescer num ambiente de viol\u00eancia, ainda que esteja, entre aspas, apenas a assistir.<\/p>\n<p>Eu diria que, relativamente \u00e0 viol\u00eancia dom\u00e9stica, n\u00f3s temos uma consciencializa\u00e7\u00e3o muito mais clara, e para a sociedade \u00e9 muito mais claro que n\u00e3o \u00e9 vi\u00e1vel que uma crian\u00e7a possa estar a crescer neste ambiente. J\u00e1 h\u00e1 uma maior intoler\u00e2ncia tamb\u00e9m, porque em termos p\u00fablicos e em termos da sociedade em geral, tem havido uma t\u00f3nica muito substantiva na viol\u00eancia dom\u00e9stica. Portanto, eu diria que esse caminho \u00e9 um caminho relativamente trilhado. Ainda temos muitas vezes \u00e9 discursos que nos preocupam de achar que as crian\u00e7as n\u00e3o est\u00e3o a prestar aten\u00e7\u00e3o ao que est\u00e1 a acontecer em redor delas.\u00a0 N\u00e3o ouviu, n\u00e3o viu, n\u00e3o estava em casa, mas as crian\u00e7as sabem e, portanto, \u00e9 importante termos esta no\u00e7\u00e3o de que as crian\u00e7as sabem bem do que est\u00e1 a acontecer, mesmo que n\u00e3o estejam a olhar para o que est\u00e1 a acontecer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A este n\u00edvel, s\u00e3o precisas parcerias que ajudem a sensibilizar, por exemplo, j\u00e1 desde a fase do namoro?<\/em><\/p>\n<p>Essas parcerias j\u00e1 v\u00e3o existindo e n\u00f3s temos programas muito bem estabelecidos, um pouco por todo o pa\u00eds. N\u00f3s temos os trabalhos feitos quer por n\u00f3s, que vamos regularmente \u00e0s escolas e \u00e0s comunidades fazer esse trabalho de sensibiliza\u00e7\u00e3o, e s\u00f3 entre 2022 e 2023 foram cerca de 42 mil participantes em a\u00e7\u00f5es nossas, no caso crian\u00e7as e jovens, mas tamb\u00e9m j\u00e1 existem outros trabalhos feitos, como por exemplo os programas da Escola Segura, da PSP, os programas de proximidade da GNR e, portanto, esse trabalho j\u00e1 vai sendo feito mesmo as pr\u00f3prias equipas de sa\u00fade, as CPCJ.<\/p>\n<p>Eu diria que essa sensibiliza\u00e7\u00e3o, voltamos \u00e0 quest\u00e3o de a preven\u00e7\u00e3o ter de existir como um todo. N\u00f3s temos que come\u00e7ar muito cedo, e quando eu digo muito cedo \u00e9 com as crian\u00e7as com cerca de 3 anos de idade, e isso \u00e9 poss\u00edvel, a prevenir e a ensinar a exist\u00eancia de situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia, que n\u00e3o \u00e9 toler\u00e1vel a viol\u00eancia e a quem \u00e9 que elas podem pedir ajuda. E desde muito cedo, se formos cultivando essa semente, se calhar vamos ter um bonito fruto no fim.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A solu\u00e7\u00e3o para as v\u00edtimas passa muitas vezes por deixar tudo e procurar recome\u00e7ar a vida num outro lugar. Pensando sobretudo nas m\u00e3es com crian\u00e7as, n\u00e3o seria necess\u00e1rio repensar esta, vou dizer, dupla penaliza\u00e7\u00e3o?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 de facto uma dupla vitimiza\u00e7\u00e3o porque estamos a falar de algu\u00e9m que foi v\u00edtima se calhar durante v\u00e1rios anos, que tem crian\u00e7as e que de repente tem de largar tudo e ir para outra cidade. N\u00e3o \u00e9 para ir para a porta ao lado, \u00e9 ir para outra cidade, para outra parte do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Aquilo que n\u00f3s temos visto tamb\u00e9m, e justi\u00e7a seja feita, \u00e9 tamb\u00e9m uma maior aten\u00e7\u00e3o nesse sentido para que as a\u00e7\u00f5es que se tomam sejam cada vez mais a\u00e7\u00f5es que visem promover o afastamento da pessoa que praticou o crime, em detrimento de se afastar a v\u00edtima. E que cada vez mais esta solu\u00e7\u00e3o da sa\u00edda de casa sem nada, ou praticamente sem nada, seja o \u00faltimo r\u00e1cio. Mas eu diria que ainda n\u00e3o estamos totalmente a\u00ed, que se vai fazendo aquilo que \u00e9 poss\u00edvel consoante as situa\u00e7\u00f5es, mas ainda n\u00e3o estamos totalmente l\u00e1.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Roma acolhe a primeira edi\u00e7\u00e3o da Jornada Mundial das Crian\u00e7as, convocada pelo Papa, uma iniciativa que tamb\u00e9m \u00e9 celebrada a n\u00edvel local em cada diocese. Em Portugal, a semana fica\u00a0 marcada pela indica\u00e7\u00e3o de um aumento de crimes contra crian\u00e7as. Para refletir sobre estes temas, \u00e9 convidada da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia Carla Ferreira, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":327174,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[154],"class_list":["post-327216","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr","tag-crianca"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/327216","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=327216"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/327216\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/327174"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=327216"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=327216"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=327216"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}