{"id":32707,"date":"2008-06-26T12:44:07","date_gmt":"2008-06-26T12:44:07","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/06\/26\/bispo-de-vila-real-escreve-sobre-desafios-do-ano-paulino\/"},"modified":"2008-06-26T12:44:07","modified_gmt":"2008-06-26T12:44:07","slug":"bispo-de-vila-real-escreve-sobre-desafios-do-ano-paulino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/bispo-de-vila-real-escreve-sobre-desafios-do-ano-paulino\/","title":{"rendered":"Bispo de Vila Real escreve sobre desafios do Ano Paulino"},"content":{"rendered":"<p>D. Joaquim Gon\u00e7ales mostra preocupa\u00e7\u00e3o porque \u00abmuitas pessoas t\u00eam a B\u00edblia em casa mas n\u00e3o a sabem usar\u00bb <!--more--> <u>O Ano Paulino e os seus desafios<\/u>  1- \u00c9 j\u00e1 no pr\u00f3ximo dia 29, dia de S. Pedro e S. Paulo, que se inicia em todo o mundo cat\u00f3lico o \u00abAno Paulino\u00bb, ou seja, o jubileu dos 2000 anos do nascimento de S. Paulo. Todo o crist\u00e3o traz este nome gravado no ouvido, de tanto o haver escutado na proclama\u00e7\u00e3o dos seus textos na liturgia. Dessa proclama\u00e7\u00e3o ou mesmo da leitura pessoal dos escritos paulinos duas notas ressaltam imediatamente \u2013 a paix\u00e3o pela pessoa de Jesus e a reflex\u00e3o de Paulo algo dif\u00edcil.  De facto, em S. Paulo andam sempre juntos o afecto e a reflex\u00e3o, fala com o cora\u00e7\u00e3o e a cabe\u00e7a. Nem \u00e9 um sentimental nem um cerebral frio. Sente-se que Paulo fala de algu\u00e9m de quem gosta e fala a um audit\u00f3rio muito variado com um discurso algo complexo. Comparando-o com os Evangelhos, nota-se que, apesar de os destinat\u00e1rios dos quatro evangelistas serem diferentes, a narrativa \u00e9 bastante linear, acess\u00edvel a toda a gente, ao passo que os escritos de Paulo s\u00e3o algo enredados, a indicar grande reflex\u00e3o para fazer entender o seu caso pessoal e para responder a situa\u00e7\u00f5es t\u00edpicas dos judeus e gentios, gregos e romanos: para os primeiros, recorre ao Antigo Testamento; para os gregos recorre ao conceito de sabedoria e argumentos da raz\u00e3o; para os romanos, usa conceitos jur\u00eddicos e a lei da natureza.  Por tudo isto, pela evolu\u00e7\u00e3o religiosa de si mesmo e pela encruzilhada cultural em viveu, Paulo de Tarso \u00e9 uma figura b\u00edblica extraordinariamente rica e motivadora.   2- Culturalmente Paulo \u00e9 um homem de fronteira. Judeu fiel nascido fora da Palestina, re\u00fane na sua pessoa a cultura judaica herdada da fam\u00edlia e cuidadosamente estudada por si pr\u00f3prio, a perspectiva crist\u00e3 dessa cultura feita a partir da sua convers\u00e3o, a cultura grega helenista pr\u00f3pria do meio onde nasceu, viveu e trabalhou, e a cultura romana das estruturas pol\u00edticas do Imp\u00e9rio do qual era cidad\u00e3o de pleno direito. Para sublinhar que a mudan\u00e7a radical da sua vida se deve ao acontecimento da estrada de Damasco e n\u00e3o a uma reflex\u00e3o acad\u00e9mica, os estudiosos chamam- -lhe hoje \u00abhomem de um \u00abevento\u00bb, isto \u00e9, a mudan\u00e7a do seu mundo interior e cultural baseia-se num facto hist\u00f3rico, uma interven\u00e7\u00e3o pessoal do pr\u00f3prio Jesus Cristo e n\u00e3o \u00e9 a conclus\u00e3o l\u00f3gica de longo estudo de gabinete. Paulo repete isso constantemente. Paulo transforma-se num homem de ruptura com o esquema judaico do antigo Israel e da lei de Mois\u00e9s, ruptura que n\u00e3o significa desafei\u00e7\u00e3o e muito menos desprezo das suas ra\u00edzes, mas uma leitura nova feita \u00e0 luz do Messias. Paulo sente-se um homem novo perante o juda\u00edsmo oficial, e, apesar disso, um homem apaixonado pela hist\u00f3ria do seu povo, o que o levaria a reflectir sobre o mist\u00e9rio da voca\u00e7\u00e3o do povo de Israel.  O caso de Paulo constitui um rico fil\u00e3o para uma reflex\u00e3o sobre a novidade e a alegria de ser crist\u00e3o, sobre a f\u00e9 como rela\u00e7\u00e3o pessoal com Jesus e geradora de um compromisso apost\u00f3lico, sobre o di\u00e1logo da f\u00e9 crist\u00e3 com o juda\u00edsmo, com as outras culturas e para o estudo das primeiras ra\u00edzes crist\u00e3s da Europa.   3- Ao proclamar o Ano Paulino, o Papa n\u00e3o nos convida propriamente a um estudo acad\u00e9mico, n\u00e3o se tem em vista a forma\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, ainda que ela se suponha nos respons\u00e1veis para ajudar a compreender os textos, mas uma ac\u00e7\u00e3o pastoral em sintonia com o \u00abS\u00ednodo dos Bispos sobre a Palavra na vida e miss\u00e3o da Igreja\u00bb a realizar em Roma no pr\u00f3ximo m\u00eas de Outubro, e que os Bispos de Portugal concretizaram num conjunto de ac\u00e7\u00f5es tendo como base de trabalho o texto de um livro encomendado para isso: Um ano a caminhar com S. Paulo.  \u00c9 uma proposta oficial que representa uma ocasi\u00e3o oportun\u00edssima para iniciar os fi\u00e9is na medita\u00e7\u00e3o e revis\u00e3o de vida a partir dos textos de Paulo. Muitas pessoas t\u00eam a B\u00edblia em casa mas n\u00e3o a sabem usar, continuando a ser um livro herm\u00e9tico. Deseja-se, portanto, aproveitar a ocasi\u00e3o para, a partir do caso de Paulo, fazer uma experi\u00eancia de como usar espiritualmente a B\u00edblia, fazer a chamada \u00ablectio divina\u00bb com as etapas da leitura, reflex\u00e3o, confronto com a vida actual, ora\u00e7\u00e3o pessoal ou em forma de salmo. Todos os p\u00e1rocos e demais agentes de pastoral s\u00e3o convidados a um empenho especial na sua execu\u00e7\u00e3o. N\u00e3o ser\u00e1 sempre f\u00e1cil, quer por falta de h\u00e1bito de estudo e de leitura, quer por falta de pessoas orientadoras. De qualquer modo, os catequistas, os leitores, os cantores, os ministros da comunh\u00e3o, os jovens crismados e a crismar, os escuteiros, os que frequentam a catequese nos anos mais adiantados, devem ser estimulados a constitu\u00edrem um ou mais grupos que re\u00fanam uma vez por semana. Os pais que se sentirem capazes poder\u00e3o em casa fazer esse trabalho com os seus filhos mais novos num dia de cada semana.   <b>Temas paulinos para os encontros<\/b>  4- Os textos seleccionados conduzem a uma s\u00e9rie de catequeses cujos temas s\u00e3o indicados logo no in\u00edcio de cada texto. Conv\u00e9m ter presente que S. Paulo n\u00e3o desenvolve nenhum tema como um conferencista, com princ\u00edpio, meio e fim, mas responde a situa\u00e7\u00f5es concretas da sua ac\u00e7\u00e3o pastoral, e responde com a cabe\u00e7a e cora\u00e7\u00e3o, sempre com afecto a Jesus Cristo e ao povo. \u00c9 este clima de afecto e de aten\u00e7\u00e3o \u00e0 vida real, \u00e0s situa\u00e7\u00f5es de desgosto, de alegria, de surpresa, de des\u00e2nimo, de contrariedades e de choques, que deve ser cultivado na medita\u00e7\u00e3o e ora\u00e7\u00e3o dos textos, evitando a fuga para a mera especula\u00e7\u00e3o intelectual. Os textos paulinos transportam-nos \u00e0 madrugada da f\u00e9, ao clima de surpresa do mundo pag\u00e3o perante um mensagem que parece um sonho. Tudo neles cheira ainda \u00e0 novidade, quer da parte do mundo judeu quer do mundo grego e romano. Indicam-se alguns t\u00f3picos das catequeses paulinas: \u2013 A leitura das circunst\u00e2ncias da vida pessoal como caminho providencial para a compreens\u00e3o da voca\u00e7\u00e3o de cada um; \u2013 O leg\u00edtimo semitismo e o semitismo ultrapassado, sem que isso justifique o anti-semitismo pol\u00edtico; \u2013 A f\u00e9 como rela\u00e7\u00e3o pessoal com Jesus, e como um processo din\u00e2mico: a interven\u00e7\u00e3o divina, a humildade de pessoa (a c\u00e9lebre queda do cavalo), e o baptismo como entrada na comunidade j\u00e1 organizada; \u2013 O sentido da Justifica\u00e7\u00e3o crist\u00e3, nascida de uma iniciativa divina; &#8211; O apostolado como reflexo dessa amizade interior e diaconia aos outros, e n\u00e3o mera propaganda; \u2013 A forma\u00e7\u00e3o das comunidades eclesiais e sua irradia\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria, a escolha e a forma\u00e7\u00e3o de colaboradores  \u2013 As prova\u00e7\u00f5es na vida crist\u00e3: a f\u00e9 n\u00e3o \u00e9 um \u00eaxtase nem garantia de sucesso. \u2013 O dinheiro e o voluntariado nos ap\u00f3stolos do Evangelho; \u2013 A estrutura da fam\u00edlia na transmiss\u00e3o da f\u00e9: sentido antigo e actual \u2013 A estrutura fundamental das Cartas de Paulo. \u2013 O homem sem Deus ou o drama humano da descren\u00e7a \u2013 A insufici\u00eancia da f\u00e9 gen\u00e9rica em Deus se faltar o \u00abcaminho\u00bb de Jesus Cristo \u2013 Antropologia Paulina ou o drama interior do homem, mais tarde chamado \u00abpecado original\u00bb. \u2013 A reden\u00e7\u00e3o, obra do amor de Deus trino. \u2013 A liberdade em S. Paulo: dispensa das leis de Mois\u00e9s mas n\u00e3o da \u00e9tica pessoal.  \u2013 O baptismo como \u00abparticipa\u00e7\u00e3o na P\u00e1scoa\u00bb e como \u00abilumina\u00e7\u00e3o\u00bb. \u2013 A hist\u00f3ria da celebra\u00e7\u00e3o da Eucaristia: nomes, \u00e1gape e Eucaristia, celebra\u00e7\u00e3o do sacrif\u00edcio pascal, comunh\u00e3o com Deus e com os outros. \u2013 A Ordena\u00e7\u00e3o de homens para servi\u00e7o da comunidade \u2013 O Matrim\u00f3nio crist\u00e3o: imagem do amor de Cristo pela Igreja \u2013 A Mulher na Igreja e feminismo crist\u00e3o \u2013 A Igreja como mist\u00e9rio: ac\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito, carismas e minist\u00e9rios, Cristo cabe\u00e7a da Igreja; \u2013 Notas da Igreja: apost\u00f3lica, cat\u00f3lica, una e santa. \u2013 A B\u00edblia e a Comunidade crente. Sendo fundamental na f\u00e9 da Igreja, a B\u00edblia nasceu da Comunidade e n\u00e3o o contr\u00e1rio, de modo que o Cristianismo n\u00e3o \u00e9 uma \u00abreligi\u00e3o do livro\u00bb mas fruto de um encontro com Jesus dentro da comunidade.  \u2013 A ora\u00e7\u00e3o crist\u00e3, suas notas caracter\u00edsticas \u2013 A Igreja no mundo: povo orante e instrumento de salva\u00e7\u00e3o, de novas rela\u00e7\u00f5es humanas, de caridade e de justi\u00e7a.  \u2013 A entreajuda das v\u00e1rias igrejas ou dioceses, o di\u00e1logo inter religioso \u2013 As virtudes crist\u00e3s e o trabalho na perspectiva crist\u00e3,  \u2013 A sexualidade humana e a escatologia \u2013 O crist\u00e3o e as organiza\u00e7\u00f5es do Estado  \u2013 A Salva\u00e7\u00e3o, a Morte e a Esperan\u00e7a crist\u00e3.  5- Dentro do mesmo tema, cada grupo far\u00e1 caminhos algo diferentes, conforme a sua situa\u00e7\u00e3o e capacidade.  O trabalho pastoral neste ano de 2008-2009 pode conduzir a iniciativas complementares, tais como \u00abCursos de inicia\u00e7\u00e3o \u00e0 B\u00edblia\u00bb, \u00abCursos de leitores\u00bb, havendo para ambos eles textos editados h\u00e1 anos pela Diocese, dinamiza\u00e7\u00e3o das \u00abOficinas de Ora\u00e7\u00e3o\u00bb. Encena\u00e7\u00f5es da pessoa e discursos de Paulo na Catequese, visitas tur\u00edsticas \u00e0s igrejas hist\u00f3ricas de Paulo.  <i>Joaquim Gon\u00e7alves, Bispo de Vila Real  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>D. 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