{"id":32683,"date":"2008-06-25T12:12:34","date_gmt":"2008-06-25T12:12:34","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/06\/25\/a-teologia-de-s-paulo\/"},"modified":"2008-06-25T12:12:34","modified_gmt":"2008-06-25T12:12:34","slug":"a-teologia-de-s-paulo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-teologia-de-s-paulo\/","title":{"rendered":"A Teologia de S. Paulo"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o dissequemos S. Paulo em tranquilas ideias teol\u00f3gicas, seguramente redutoras, mas acompanhemos os caminhos poeirentos e tortuosos da sua vida <!--more--> 1. A Igreja prepara-se para viver intensamente o Ano Paulino, que o Papa Bento XVI anunciou publicamente no passado dia 28 de Junho de 2007, na Homilia da Celebra\u00e7\u00e3o das Primeiras V\u00e9speras da Solenidade dos Ap\u00f3stolos S. Pedro e S. Paulo, e que decorrer\u00e1 de 28 de Junho de 2008 a 29 de Junho de 2009, para comemorar os 2000 anos do nascimento de S. Paulo, que os historiadores situam entre os anos 7 e 10 d. C.  2. Foi-me proposto tratar sumariamente o tema \u00abA Teologia de S. Paulo\u00bb. Devo confessar, antes de mais, que n\u00e3o \u00e9 por aqui, em tempos modernos, que os estudiosos se abeiram de S. Paulo. Outros o fizeram em tempos idos, e as propostas de p\u00f3rticos de entrada no mundo teol\u00f3gico de S. Paulo foram v\u00e1rias: a tens\u00e3o entre judeo-cristianismo e gentio-cristianismo (Baur), a justifica\u00e7\u00e3o pela f\u00e9 (Bultmann, K\u00e4semann), a participa\u00e7\u00e3o em Cristo (Schweitzer), a teologia da Cruz (Wilckens), alguns temas fundamentais da antropologia Paulina (Braun), a hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o Cullmann), e muitos outros. Os estudos mais recentes procuram evitar a armadilha do fixismo patente nos exerc\u00edcios atr\u00e1s mencionados e sugerem que se entre no mundo teol\u00f3gico de S. Paulo atrav\u00e9s de uma lente ou objectiva hermen\u00eautica, focada a partir da apocal\u00edptica, da vida da comunidade, da pr\u00f3pria experi\u00eancia de Paulo (Krentz, Hays, Bassler). O \u00faltimo grande estudo que tenho sobre a mesa de trabalho \u00e9 \u00abA Teologia de Paulo, o Ap\u00f3stolo\u00bb (The Theology of Paul the Apostle), de James Dunn, T &#038; T Clark, de 1998 (808 p.), que, para fugir \u00e0 armadilha do fixismo e da abstrac\u00e7\u00e3o, elegeu como p\u00f3rtico de entrada a Carta aos Romanos.  3. \u00c9 do dom\u00ednio p\u00fablico que Paulo n\u00e3o nos deixou tratados teol\u00f3gicos. Deixounos Cartas, que s\u00e3o sempre escritos de circunst\u00e2ncia, endere\u00e7ados a comunidades concretas ou a pessoas concretas. \u00c9 igualmente sabido que as Cartas endere\u00e7adas de Paulo surgem quase todas (a excep\u00e7\u00e3o \u00e9 a Carta aos Romanos) depois do contacto pessoal de Paulo com as comunidades ou com as pessoas a que a Carta \u00e9 enviada. \u00c9, portanto, inquestion\u00e1vel que as Cartas de Paulo n\u00e3o s\u00e3o tratados teol\u00f3gicos tem\u00e1ticos abstractos, mas teologia \u00abactiva\u00bb e \u00abinteractiva\u00bb, que deixam ver Paulo como te\u00f3logo, mas sempre tamb\u00e9m como apaixonado mission\u00e1rio, pastor, pai, ap\u00f3stolo. \u00c9, por isso, absolutamente de evitar dissociar o Paulo te\u00f3logo da sua vida real, das suas comunidades concretas, dos seus caminhos poeirentos. Uma vida t\u00e3o intensa n\u00e3o pode ser simplesmente anestesiada e dissecada. E \u00e9 imperioso visitar e revisitar, frequentar, uma e outra vez, com redobrada aten\u00e7\u00e3o e amor, a paisagem epistolar (n\u00e3o paisagem lunar!) Paulina, em ordem a podermos compreender e receber o forte impacto da mensagem crist\u00e3 vivida e endere\u00e7ada que a atravessa.  4. Dado que na teologia de Paulo se entra por caminhos concretos e por Cartas endere\u00e7adas, conv\u00e9m come\u00e7ar por enumerar as sete Cartas aut\u00eanticas de Paulo, aquelas que consensualmente se atribuem a Paulo: 1 Tessalonicenses, 1 e 2 Cor\u00edntios, G\u00e1latas, Filipenses, Fil\u00e9mon e Romanos, sendo que a primeira (1 Tessalonicenses) ter\u00e1 sido escrita de Corinto no ano 50 ou 51, e a \u00faltima (Romanos) ter\u00e1 sido escrita tamb\u00e9m de Corinto, talvez no Inverno de 55-56. A Segunda Carta aos Tessalonicenses, e as Cartas aos Ef\u00e9sios e Colossenses s\u00e3o hoje consideradas Cartas editadas tardiamente, depois da morte do Ap\u00f3stolo, pelos seus disc\u00edpulos. Mais tardias ainda ser\u00e3o as chamadas Cartas Pastorais (duas a Tim\u00f3teo e uma a Tito).   5. Nota-se, neste elenco, o lugar privilegiado que ocupa a Carta aos Romanos. \u00c9 a \u00faltima Carta aut\u00eantica de Paulo, e a \u00fanica que escreve a uma comunidade que ainda n\u00e3o conhece pessoalmente. O que escreve n\u00e3o tem, por isso, tanto a ver com a situa\u00e7\u00e3o da comunidade crist\u00e3 de Roma, mas com as preocupa\u00e7\u00f5es e anseios que Paulo vive nessa altura, depois de dar por terminada a sua miss\u00e3o na parte oriental do imp\u00e9rio romano (Rm 15,19 e 23), e antes de partir para Jerusal\u00e9m na mais arriscada das suas viagens, a viagem da comunh\u00e3o das Igrejas em Cristo, a viagem da unidade, a verdadeira viagem da sua vida. A Carta aos Romanos \u00e9 o \u00faltimo escrito sa\u00eddo da m\u00e3o de Paulo, obra madura, amadurecida nas esperan\u00e7as e nas dores, s\u00famula das suas cartas anteriores e de todas elas a mais extensa (7101 palavras) e completa, que bem podemos considerar o testamento espiritual do Ap\u00f3stolo. De facto, Paulo vive, anuncia, ensina e escreve a unidade e a liberdade de todos em Cristo, e \u00e9 por esta realidade que dar\u00e1 a vida.   6. \u00c9 quase um aforismo dizer-se que a hist\u00f3ria da teologia crist\u00e3 se rev\u00ea na hist\u00f3ria da interpreta\u00e7\u00e3o da Carta aos Romanos. Ou que \u00abas grandes horas da hist\u00f3ria \u00bb s\u00e3o as da Carta aos Romanos (P. Althaus). \u00c9 sabido que Agostinho consumou a sua convers\u00e3o quando, como ele conta nas Confiss\u00f5es VIII, 12, motivado pelo canto de uma crian\u00e7a que repetia \u00abToma e l\u00ea! Toma e l\u00ea!\u00bb, pegou nas Cartas do Ap\u00f3stolo, abriu \u00e0 sorte e \u00e0 sorte leu Rm 13,13b-14: \u00abN\u00e3o em orgias e bebedeiras, n\u00e3o em devassid\u00e3o e libertinagem, n\u00e3o em rixas e ci\u00fames, mas revestivos do Senhor Jesus Cristo e n\u00e3o presteis aten\u00e7\u00e3o \u00e0 carne atrav\u00e9s da concupisc\u00eancia \u00bb. Nascia assim um dos te\u00f3logos mais influentes da hist\u00f3ria do cristianismo. Grande impacto para o cristianismo e para a civiliza\u00e7\u00e3o ocidental teve outra vez a Carta aos Romanos, quando Lutero come\u00e7ou a proferir sobre ela as suas primeiras li\u00e7\u00f5es, na Universidade de Wittenberg, em 1515-1516. \u00abUma bomba no recinto de recreio dos te\u00f3logos\u00bb: foi com estas palavras que Karl Adams definiu o enorme impacto do grande Coment\u00e1rio sobre a Carta aos Romanos de Karl Barth, publicado em 1918 (2.\u00aa ed. Muito melhorada em 1022), e que inaugurou uma nova era na teologia do s\u00e9culo XX. A Carta aos Romanos marcou indelevelmente a Igreja primitiva, mas tamb\u00e9m a Idade M\u00e9dia e a Idade Moderna. E marcar\u00e1 tamb\u00e9m seguramente todos aqueles que ousarem confrontar-se com ela de forma s\u00e9ria. Um pouco como confessa o conhecido exegeta Lagrange que, em 1916, publicou Saint Paul, \u00c9p\u00eetre aux Romains, e confessa: \u00abO primeiro contacto foi arrasador\u00bb (Avant-propos, III).   7. Salta \u00e0 vista que n\u00e3o se pode anestesiar tamanho impacto, sob pena de ficarmos com uma ideias sobre S. Paulo, mas de n\u00e3o o recebermos correctamente. Proponho, pois, que n\u00e3o dissequemos S. Paulo em tranquilas ideias teol\u00f3gicas, seguramente redutoras, mas o acompanhemos nos caminhos poeirentos e tortuosos da sua vida.   7.1. Que tesouro transporta, com orgulho, este judeu piedoso, organizado, determinado e apaixonado? (2 Cor 11,22; Rm 11,1; Fl 3,5-6; Gl 1,13-14).   7.2. A \u00abreviravolta\u00bb ou o novo come\u00e7o de Paulo, imprevis\u00edvel e n\u00e3o program\u00e1vel, operada por uma luz que vem de fora, por Cristo, dita com dois verbos de Revela\u00e7\u00e3o (1 Cor 15,3-5.8-10; Gl 1,11-12.15-16) e um de Luta (Fl 3,12-13).   7.3. A experi\u00eancia da Gra\u00e7a e do Amor novo, que n\u00e3o pode mais deixar de dizer: \u00e9 assim que abre e fecha todas as suas cartas.   7.4. O cora\u00e7\u00e3o e os olhos de uma testemunha, com um Amor perfeito e um Ver perfeito (1 Cor 9,1), o que significa que Paulo n\u00e3o deixar\u00e1 mais de amar e ver Cristo Ressuscitado. Paulo sabe que Outro morreu por ele, por amor. \u00c9, por isso, que \u00e9 um bom te\u00f3logo, para usar as palavras de Soren Kierkegaard.   7.5. A necessidade de anunciar esta imensa not\u00edcia de Cristo, que n\u00e3o pode conter, porque transvaza dele (1 Cor 9,16).   7.6. A Igreja como ekkl\u00eas\u00eda, obra de um Deus que chama e ama.   7.7. A metodologia maternal e paternal da Evangeliza\u00e7\u00e3o que Paulo vive e efectua: gerar, dar \u00e0 luz, acalentar, tratar com ternura e afecto entranhado (1 Cor 4,14- 15; Flm 10; Gl 4,19; 1 Ts 2,2-12; Fl 1,7-8).   7.8. A outra rede da miss\u00e3o feita de muitos e bons cooperadores (Rm 16,1-15).   <i>D. Ant\u00f3nio Couto Bispo Auxiliar de Braga  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o dissequemos S. 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