{"id":326088,"date":"2024-05-19T09:31:31","date_gmt":"2024-05-19T08:31:31","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=326088"},"modified":"2024-05-17T20:22:13","modified_gmt":"2024-05-17T19:22:13","slug":"ad-limina-2024-vamos-com-vontade-de-ouvir-mas-tambem-levamos-a-nossa-experiencia-de-igreja-d-jose-ornelas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/ad-limina-2024-vamos-com-vontade-de-ouvir-mas-tambem-levamos-a-nossa-experiencia-de-igreja-d-jose-ornelas\/","title":{"rendered":"\u00abAd Limina\u00bb 2024: \u00abVamos com vontade de ouvir, mas tamb\u00e9m levamos a nossa experi\u00eancia de Igreja\u00bb &#8211; D. Jos\u00e9 Ornelas"},"content":{"rendered":"<p><em>Os bispos portugueses v\u00e3o iniciar esta segunda-feira a visita \u00abAd Limina\u00bb, uma s\u00e9rie de encontros com organismos da Santa S\u00e9 e com o Papa Francisco, com apresenta\u00e7\u00f5es de relat\u00f3rios sobre a vida da Igreja Cat\u00f3lica em Portugal. O Presidente da Confer\u00eancia Episcopal, D. Jos\u00e9 Ornelas, \u00e9 o convidado desta semana da entrevista conjunta Ecclesia\/Renascen\u00e7a<\/em><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_303903\" aria-describedby=\"caption-attachment-303903\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/cep-jose-ornelas-novembro2023a.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-303903\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/cep-jose-ornelas-novembro2023a-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/cep-jose-ornelas-novembro2023a-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/cep-jose-ornelas-novembro2023a-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/cep-jose-ornelas-novembro2023a-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/cep-jose-ornelas-novembro2023a-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/cep-jose-ornelas-novembro2023a.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-303903\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA\/MC<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (RR) e Oct\u00e1vio Carmo (Ag\u00eancia Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em>Na \u00faltima visita <\/em>\u201cad Limina\u201d, <em>em 2015, tinha sido nomeado, mas ainda n\u00e3o tinha sido ordenado bispo.\u00a0 Agora vai a Roma como presidente da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa. Eu pergunto com que expectativa \u00e9 que parte para este encontro com os organismos da Santa S\u00e9 e com o Papa Francisco?<\/em><\/p>\n<p>A primeira \u00e9 a expectativa de viver aquilo que se \u00e9, como Igreja. E, sobretudo, o encontro com o Papa Francisco d\u00e1-nos bem esse sentido de ser Igreja juntos. E \u00e9 essa tamb\u00e9m a fun\u00e7\u00e3o dele, de nos juntar. Tenho ouvido muitos t\u00edtulos da comunica\u00e7\u00e3o social que dizem que os bispos v\u00e3o \u201cdar contas\u201d ao Papa, como se isto fosse uma vistoria a uma multinacional. Somos muito mais do que uma multinacional. E \u00e9 um encontro, antes de mais, daquilo que se \u00e9 como Igreja e com aquele que representa a unidade da Igreja, o minist\u00e9rio de Pedro, que o Papa est\u00e1 exercendo de uma forma que constantemente desafia a Igreja a este desafio de comunh\u00e3o, de participa\u00e7\u00e3o. N\u00f3s vamos certamente com vontade de ouvir, mas tamb\u00e9m levamos a nossa experi\u00eancia de Igreja que \u00e9 importante para o Papa, \u00e9 importante para os organismos da Santa S\u00e9 que vamos visitar. E \u00e9 esse encontro de irm\u00e3os que n\u00f3s vamos fazer. Vamos celebrar nas quatro grandes Bas\u00edlicas, as Bas\u00edlicas dos Ap\u00f3stolos e de Nossa Senhora.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Entre os v\u00e1rios acontecimentos que marcaram este per\u00edodo, destaca-se naturalmente a crise provocada pelos casos de abusos sexuais de menores. Ser\u00e1 um tema incontorn\u00e1vel na conversa com o Papa Francisco?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Sim, isso est\u00e1 tamb\u00e9m na nossa viv\u00eancia destes nove anos e n\u00e3o pode deixar de estar em cima da mesa. N\u00e3o seria uma vis\u00e3o realista sem isso.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>E est\u00e1 prevista alguma reuni\u00e3o de trabalho com a Comiss\u00e3o Pontif\u00edcia para a Prote\u00e7\u00e3o de Menores?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>N\u00f3s vamos estar com os dicast\u00e9rios que t\u00eam essa responsabilidade, o dos Bispos e o Dicast\u00e9rio para a Doutrina da F\u00e9, que \u00e9 quem superintende a tudo isso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E espera alguma indica\u00e7\u00e3o para o futuro, ou a valida\u00e7\u00e3o do trabalho que tem vindo a ser feito?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>N\u00f3s, durante este caminho que fizemos sobre este caso, desde h\u00e1 dois anos, tivemos j\u00e1 uma reuni\u00e3o muito importante, na altura. Tivemos em Roma representantes da Confer\u00eancia Episcopal para tratar de detalhes importantes, como o do acesso aos arquivos, e recebemos todo um incentivo dos organismos da Santa S\u00e9 e daqueles que estavam mais ligados a este assunto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Depois do trabalho que tem sido feito e que foi feito em Portugal, h\u00e1 j\u00e1 sinais de alguma melhor compreens\u00e3o e at\u00e9 de alguma pacifica\u00e7\u00e3o com a sociedade em rela\u00e7\u00e3o a este tema?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Eu penso que, quem quer entender, entendeu que n\u00f3s n\u00e3o est\u00e1vamos simplesmente a fazer um faz de conta, um faz de conta que entendemos, faz de conta que escutamos, faz de conta que&#8230;&#8230;n\u00f3s tomamos isto a s\u00e9rio, porque achamos que n\u00e3o se brinca com os sentimentos e a dor das pessoas. Quem quer que tenha contactado com pessoas que sofreram injustamente este drama, sabe muito bem o que isso significa e, portanto, era para tratar a s\u00e9rio e \u00e9 isso que n\u00f3s estamos procurando fazer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Um dos encontros mais significativos neste \u00e2mbito, at\u00e9 com as v\u00edtimas, ocorreu durante a Jornada Mundial da Juventude, quando o Papa Francisco esteve em Lisboa.\u00a0De que a forma \u00e9 que a prepara\u00e7\u00e3o e realiza\u00e7\u00e3o da JMJ pode servir para projetar o futuro da Igreja Cat\u00f3lica em Portugal?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Serve em primeiro lugar a pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00e3o. Serve na metodologia de motiva\u00e7\u00e3o das pessoas, em fazer e permitir e promover uma verdadeira experi\u00eancia de Igreja das pessoas. N\u00f3s estamos habituados a fazer ritos e rituais e s\u00e3o importantes, mas h\u00e1 que fazer festa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Houve muita Igreja na rua, nestes anos?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Houve muita Igreja na rua e muitos jovens, porque quem realmente esteve na linha da frente foram os jovens e isto \u00e9 para n\u00f3s, para mim e para todos com responsabilidade na Igreja, \u00e9 muito importante. N\u00f3s n\u00e3o podemos dizer que isto \u00e9 uma gera\u00e7\u00e3o rasca. Isto \u00e9 uma gera\u00e7\u00e3o que arrisca e \u00e9 uma gera\u00e7\u00e3o que \u00e9 capaz de se deixar motivar. Mas \u00e9 preciso tamb\u00e9m criar as condi\u00e7\u00f5es para isso. N\u00f3s queremos muito os jovens na Igreja, sim senhor, mas \u00e9 preciso na Igreja, quando eles est\u00e3o l\u00e1, dizer para que \u00e9 que l\u00e1 est\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E n\u00e3o lhe parece que est\u00e1 a demorar um pouco para se dar seguimento ao entusiasmo que foi gerado pela JMJ?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Eu acho que em todas as dioceses se est\u00e1 trabalhando. E vejo tamb\u00e9m isso na minha. Mas tamb\u00e9m \u00e9 preciso ter em conta que a grande maioria dos jovens que estiveram presentes na JMJ n\u00e3o foram portugueses. Eu espero que os jovens portugueses, que foram muitos, sejam semente, mas de facto n\u00e3o foi a grande multid\u00e3o de jovens portugueses.<\/p>\n<p>No entanto, dois estudos foram feitos, um pela Universidade de Cat\u00f3lica e o outro pela Funda\u00e7\u00e3o Francisco Manuel Santos, concordavam nesses dados: 60% dos jovens portugueses dizem que t\u00eam refer\u00eancias religiosas que s\u00e3o importantes para a vida deles, e 40% diziam que at\u00e9 tinham a pr\u00e1tica religiosa. Eu n\u00e3o discuto qual \u00e9 o conceito da pr\u00e1tica, mas h\u00e1 uma semente e fala-se de celebra\u00e7\u00f5es e de ora\u00e7\u00e3o. Significa que estas pessoas, estes jovens, no pensar a sua vida, n\u00e3o pensam simplesmente no imediato, mas pensam tamb\u00e9m numa dimens\u00e3o espiritual e religiosa da vida, e isso \u00e9 muito importante. Significa que h\u00e1 um caminho, e um caminho para fazer junto com estes jovens.<\/p>\n<p>Por outro lado, tamb\u00e9m \u00e9 verdade que os jovens n\u00e3o se reveem em tudo o que a Igreja diz. Falta uma linguagem comum, e estas novas linguagens n\u00e3o s\u00e3o simplesmente uma quest\u00e3o da tradu\u00e7\u00e3o, mas s\u00e3o um modo de estar com, de fazer com que os jovens tenham uma palavra a dizer, porque s\u00e3o eles que t\u00eam de retraduzir a linguagem de sempre.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>T\u00eam de ser eles pr\u00f3prios a criar novas linguagens?<\/em><\/p>\n<p>Temos casos muito interessantes, fen\u00f3menos muito interessantes de serem os jovens a encontrar caminhos novos para a Igreja. E isto tem de ser\u2026 estamos a celebrar os 50 anos do 25 de Abril, e eu sou da gera\u00e7\u00e3o que tinha 20 anos no 25 de Abril, tomamos responsabilidade muito cedo. Agora temos dificuldade de passar a bola para a frente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Estes \u00faltimos anos foram marcados por v\u00e1rias mudan\u00e7as a n\u00edvel social e tamb\u00e9m eclesial, com destaque para a pandemia e tamb\u00e9m para os seus impactos. O regresso \u00e0 normalidade est\u00e1 a ser dif\u00edcil nas comunidades cat\u00f3licas?\u00a0 <\/em><\/p>\n<p>Depende do que se entende por dif\u00edcil\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Ao n\u00edvel da pr\u00e1tica, por exemplo?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>A pr\u00e1tica \u00e9 importante, mas, por exemplo, durante a pandemia aprendemos que a presen\u00e7a n\u00e3o \u00e9 simplesmente uma quest\u00e3o f\u00edsica e que h\u00e1 outras maneiras tamb\u00e9m de estar presente. N\u00e3o t\u00ednhamos a possibilidade de vir \u00e0 Igreja, mas fizemos igrejas em tantas casas. Eu lembro-me de ver, com muita emo\u00e7\u00e3o, fam\u00edlias inteiras a rezar o ter\u00e7o, e a muitos quil\u00f3metros de dist\u00e2ncia. Grupos que se conheciam e que encontraram novos modos de estar, de ser presente e de partilhar vida, experi\u00eancia e esperan\u00e7a. E isso n\u00e3o quer dizer que o digital vai substituir a presencialidade. N\u00e3o, a Igreja tem de ser encontro. O Papa diz \u201cn\u00e3o fiquem simplesmente \u00e0 espera da imagem que chega de algu\u00e9m, mas encontrem esse algu\u00e9m, porque isso \u00e9 que vai mudar a vida\u201d. N\u00f3s precisamos disso, mas as duas coisas n\u00e3o se excluem. Depois, \u00e9 preciso tamb\u00e9m entender uma nova forma de comunicar, e isso \u00e9 que \u00e9 importante. \u00c9 verdade que muitas igrejas dizem que n\u00e3o recuperaram o ritmo do passado. E isso n\u00e3o \u00e9 uma coisa que deixe de nos preocupar, mas tamb\u00e9m temos de encontrar hoje uma mobilidade nova. A Igreja sinodal em que estamos a pensar \u00e9 uma Igreja que precisa de inventar, criar para o nosso mundo novos modos de contacto, de partilha, de corresponsabiliza\u00e7\u00e3o, porque isso \u00e9 fundamental. Ou seja, devemos afirmar que esta \u00e9 a minha Igreja e n\u00e3o a Igreja que fazem para mim.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Falou de um tema que \u00e9 fundamental neste pontificado, que seguramente ir\u00e3o levar a Roma, que \u00e9 a quest\u00e3o do S\u00ednodo. Quero falar-lhe de outro tema que est\u00e1 muito no cora\u00e7\u00e3o do Papa, que \u00e9 a quest\u00e3o das migra\u00e7\u00f5es. N\u00f3s vemos nestes anos em Portugal uma mudan\u00e7a no ambiente, penso que isso \u00e9 incontest\u00e1vel. Temos este problema com as filas enormes de migrantes para tentarem regularizar a sua situa\u00e7\u00e3o&#8230; Que efeitos h\u00e1 na sociedade e que a\u00e7\u00f5es \u00e9 que s\u00e3o necess\u00e1rias?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Este \u00e9 um efeito que n\u00e3o se pode normalizar. Costumamos dizer que \u00e9 normal que aconte\u00e7a, mas n\u00e3o \u00e9 normal&#8230; Quer dizer, \u00e9 infelizmente normal que tantas vezes o desconhecido, e sobretudo a pessoa desconhecida, me suscite suspei\u00e7\u00e3o ou at\u00e9 a rejei\u00e7\u00e3o, porque aquela n\u00e3o \u00e9 a minha forma de viver, mas h\u00e1 muita manipula\u00e7\u00e3o nisto tudo. E h\u00e1 pessoas e organiza\u00e7\u00f5es que trabalham nisto, que trabalham nesta diferen\u00e7a para afirmar, como se a minha afirma\u00e7\u00e3o precisasse de ser rejei\u00e7\u00e3o para os outros.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>S\u00e3o consequ\u00eancias tamb\u00e9m de extremismos ideol\u00f3gicos?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Sim s\u00e3o tamb\u00e9m consequ\u00eancias de extremismos ideol\u00f3gicos, porque as crian\u00e7as em si juntas num infant\u00e1rio, no dia seguinte est\u00e3o a brincar e est\u00e3o a comunicar. Mesmo sem se entenderem, no dia seguinte est\u00e3o a brincar. Agora, o pior \u00e9 quando a crian\u00e7a absorveu uma ideia de uma autoidentifica\u00e7\u00e3o, ou identidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Significa, que de facto essas ideias est\u00e3o a penetrar na sociedade, ao ponto de crian\u00e7as da mesma idade terem estas rea\u00e7\u00f5es?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Isso \u00e9 claro que existe, \u00e9 o mais nocivo das coisas. Quando as crian\u00e7as s\u00e3o assim educadas, a temerem e a demarcarem-se daquilo que \u00e9 desconhecido, em vez de terem curiosidade de saber e alegria depois de descobrir a diversidade das coisas com que as rodeiam. E isso essa \u00e9 a cultura que n\u00f3s devemos criar. Nas nossas igrejas, j\u00e1 se v\u00ea, mesmo onde isto n\u00e3o era habitual, e falo por exemplo da Diocese de Leiria- F\u00e1tima, onde n\u00e3o era habitual termos muitos imigrantes. E \u00e9 interessante ver, como agora, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 nas cidades, \u00e9 nas par\u00f3quias tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Este \u00e9 um desafio que implica as comunidades cat\u00f3licas?<\/em><\/p>\n<p>Implica as comunidades, e a\u00ed n\u00f3s temos a experi\u00eancia de acolher e de querer acolher. Eu penso que a Igreja tem um papel, independentemente daquilo que devem fazer &#8211; penso que h\u00e1 muito a fazer &#8211; a sociedade portuguesa e a n\u00edvel das institui\u00e7\u00f5es, para acolher bem estas pessoas. A nossa lei facilita a entrada das pessoas, mas isso n\u00e3o chega. \u00c9 preciso depois que essas pessoas se sintam integradas.\u00a0Eu penso que, quando uma pessoa num banco da igreja se senta ao meu lado, n\u00e3o \u00e9 preciso muitas palavras para falar da inser\u00e7\u00e3o, porque estamos todos dentro da mesma igreja, estamos todos ligados pela mesma f\u00e9, e, portanto, esta capacidade de integrar que a Igreja tem \u00e9 importante.<\/p>\n<p>Depois, tantas vezes, e na minha experi\u00eancia tamb\u00e9m aqui em Portugal nestes tempos, as institui\u00e7\u00f5es da Igreja, tamb\u00e9m estas de solidariedade, mais facilmente t\u00eam acesso \u00e0 situa\u00e7\u00e3o destes imigrantes, que t\u00eam um certo receio de contatar com as entidades oficiais, e, portanto, \u00e9 bom ter um intermedi\u00e1rio e algu\u00e9m que facilite estes contactos. Penso que a Igreja e as institui\u00e7\u00f5es, muitas institui\u00e7\u00f5es da Igreja est\u00e3o a fazer isso, \u00e9 algo muito importante, ao n\u00edvel do acolhimento da pessoa, porque \u00e9 por a\u00ed que come\u00e7a tudo. E depois \u00e9 tamb\u00e9m a partir da\u00ed; da integra\u00e7\u00e3o e da partilha da cultura e das cren\u00e7as que cada um tem que podem ajudar a construir um pa\u00eds melhor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas chegados aqui, e vendo esta realidade, significa que temos de exigir mais dos pol\u00edticos, nomeadamente no combate a estas ideias que v\u00e3o proliferando?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Todos temos uma responsabilidade nisso, e \u00e9 evidente que pol\u00edticos que v\u00e3o ainda acentuar discrep\u00e2ncias dessas, n\u00e3o ajudam. Agora, \u00e9 preciso que tenhamos converg\u00eancias a n\u00edvel do pa\u00eds, porque antes demais \u00e9 preciso sublinhar que precisamos dessas pessoas. E sem essas pessoas o nosso pa\u00eds n\u00e3o seria funcional. N\u00f3s temos todos de trabalhar na integra\u00e7\u00e3o. Sem saber quem \u00e9 que mais ganha com isto, quem \u00e9 que fica melhor na fotografia, todos temos de encontrar caminhos corretos, fraternos, e tamb\u00e9m, ao mesmo tempo, s\u00e9rios, para que as pessoas que v\u00eam e que assumimos, porque precisamos delas, tamb\u00e9m elas possam ter no\u00e7\u00e3o do reconhecimento e da pr\u00f3pria dignidade para viverem neste pa\u00eds.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Volto ao tema do S\u00ednodo. V\u00ea as comunidades cat\u00f3licas em Portugal unidas \u00e0 volta da proposta sinodal lan\u00e7ada pelo Papa? O balan\u00e7o que \u00e9 levado ao Vaticano vai ser bom?<\/em><\/p>\n<p>Eu falo da minha diocese, que \u00e9 aquela que conhe\u00e7o melhor. Sei que todos estamos empenhados nisto, sobre isso n\u00e3o tenho d\u00favida. Sei tamb\u00e9m que a nossa Igreja portuguesa, capilarmente, na maioria das par\u00f3quias, das organiza\u00e7\u00f5es, da vida religiosa, comunidades, etc., toma parte e isto \u00e9 motivo de reflex\u00e3o, \u00e9 motivo de ora\u00e7\u00e3o, \u00e9 motivo de encontros, \u00e9 motivo de programa\u00e7\u00e3o. Na minha diocese estamos a procurar fazer uma reforma mesmo da organiza\u00e7\u00e3o da Igreja, a partir desta sinodalidade. H\u00e1 Igrejas que j\u00e1 est\u00e3o mais \u00e0 frente neste processo de corresponsabiliza\u00e7\u00e3o de leigos, de liga\u00e7\u00e3o entre par\u00f3quias, de fazer caminho em conjunto, que \u00e9 isto que significa sinodalidade, e isto n\u00e3o pode ser simplesmente uma quest\u00e3o de padres. N\u00f3s estamos a trabalhar nisso, e eu acho que as pessoas quando falam disto, falam com um misto de alegria. Tantas pessoas que eu ouvi dizer, \u201cpela primeira vez perguntaram-me o que \u00e9 que eu pensava e fizeram um encontro comigo para eu tamb\u00e9m participar e falar\u201d. Habitualmente os crist\u00e3os s\u00e3o destinat\u00e1rios de uma mensagem e n\u00e3o \u00e9 que isso esteja mal, mas n\u00e3o pode ser s\u00f3 assim. O Esp\u00edrito fala por todos, mas \u00e9 importante destacar a dignidade de todos participarem naquilo que \u00e9 a Igreja.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Alguns processos de nomea\u00e7\u00e3o episcopal t\u00eam sido assumidamente complexos e at\u00e9, segundo alguns, excessivamente lentos. \u00c9 um tema a abordar em Roma?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Este tema est\u00e1 no S\u00ednodo, foi v\u00e1rias vezes mencionado no S\u00ednodo e sei que h\u00e1 uma comiss\u00e3o a trabalhar e nas conversas que tive com o Papa sei que tamb\u00e9m isso o preocupa. Mas isso tem de ser levado tamb\u00e9m com muito cuidado, porque \u00e9 uma coisa importante. N\u00e3o porque sejam simplesmente os bispos que s\u00e3o importantes, mas \u00e9 tamb\u00e9m importante a forma de fazer participar tamb\u00e9m as comunidades no processo de discernimento daqueles que Deus manda para a frente deles. Temos de ter em aten\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m outra coisa. N\u00e3o pode ser simplesmente uma comunidade s\u00f3 que escolhe os seus. As coisas importantes da nossa vida, por exemplo os nossos pais, e os nossos irm\u00e3os n\u00e3o foram escolhidos por n\u00f3s. Foram aqueles que nos foram dados como dom. Agora, trata-se de sabermos como \u00e9 que nos organizamos e como \u00e9 que reconhecemos esse dom e o fazemos funcionar de uma forma verdadeiramente \u00fatil para todos. E \u00e9 isso que temos de fazer tamb\u00e9m na Igreja. E temos de saber que tamb\u00e9m a Igreja e aqueles que est\u00e3o \u00e0 frente da Igreja para o servi\u00e7o dela s\u00e3o pessoas que t\u00eam de ser, por um lado, sens\u00edveis e pr\u00f3ximas desta Igreja, mas ao mesmo tempo t\u00eam de ser elementos de liga\u00e7\u00e3o com a Igreja na sua totalidade.\u00a0E, portanto, o papel que o Papa concretamente tem, a igreja no seu todo, tem na escolha dos respons\u00e1veis de cada Igreja, isso n\u00e3o pode deixar de ser, isso n\u00e3o pode terminar. Isto n\u00e3o \u00e9 simplesmente uma coisa que se p\u00f5e na pra\u00e7a p\u00fablica, mas temos de encontrar maneiras sinodais, mais participativas e mais \u00e1geis tamb\u00e9m, porque o tempo que passa uma diocese sem bispo \u00e9 sempre penalizador. \u00c9 certo que o Esp\u00edrito Santo est\u00e1 l\u00e1 sempre, mas n\u00e3o tenho d\u00favidas de que para a organiza\u00e7\u00e3o da Igreja \u00e9 sempre penalizador.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Volto \u00e0 quest\u00e3o social para terminar. Sabemos que em muitas situa\u00e7\u00f5es a Igreja Cat\u00f3lica e as suas institui\u00e7\u00f5es funcionam como uma almofada para pessoas em muita dificuldade. Por\u00e9m as pr\u00f3prias institui\u00e7\u00f5es t\u00eam vindo a p\u00fablico falar da dificuldade que est\u00e3o a ter na sua sustentabilidade. Pergunto se esta \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o que levam a Roma e se espera uma maior articula\u00e7\u00e3o e um apoio mais efetivo a n\u00edvel estatal?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Bom, esta \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o aqui t\u00edpica de Portugal, isto tem diversas express\u00f5es, e \u00e9 o sentir da Igreja em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s necessidades de um pa\u00eds e particularmente dos mais fr\u00e1geis, mas \u00e9 sobretudo a nossa situa\u00e7\u00e3o aqui. E a realidade, entre IPSS diretamente detidas por par\u00f3quias, ou institui\u00e7\u00f5es religiosas e as miseric\u00f3rdias, mostra que mais de 60% das institui\u00e7\u00f5es de assist\u00eancia no campo da solidariedade em Portugal t\u00eam liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Igreja.\u00a0Recordo que o Estado tinha como seu prop\u00f3sito, no m\u00ednimo, colaborar em 50 % dos custos destas institui\u00e7\u00f5es com os seus utentes e neste momento, esse apoio do Estado n\u00e3o passa dos 38 %. Isto significa que estas institui\u00e7\u00f5es est\u00e3o mesmo em grande dificuldade, e que temos de fazer alguma coisa. Lembro tamb\u00e9m que a atitude da presen\u00e7a da Igreja no meio daqueles que sofrem n\u00e3o se resume ao trabalho das IPSS. Em cada par\u00f3quia &#8211; e isto \u00e9 capilar &#8211; as C\u00e1ritas Diocesanas e as Confer\u00eancias Vicentinas revelam mais algumas dezenas de milhares de pessoas que est\u00e3o ao servi\u00e7o dos outros, e isto d\u00e1-me muito gosto de olhar para a Igreja desse ponto de vista.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E do ponto de vista estatal, no que diz respeito \u00e0s institui\u00e7\u00f5es particulares, o que \u00e9 que vai exigir, o que \u00e9 que se deve exigir?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Eu acho que para al\u00e9m de qualquer ideologia, no m\u00ednimo, \u00e9 preciso reconhecer a constata\u00e7\u00e3o do papel destas institui\u00e7\u00f5es para o bom funcionamento do pa\u00eds, e perceber a grande dificuldade em manter todas estas institui\u00e7\u00f5es. O que estas institui\u00e7\u00f5es fazem, e n\u00e3o falo apenas das da Igreja, mas de muitas outras institui\u00e7\u00f5es de solidariedade social: isso tem de ser reconhecido como algo de presente e desej\u00e1vel no contexto da nossa sociedade e tem de ser devidamente sustentado para que n\u00e3o colapsem, como acontece com outras \u00e1reas da nossa vida, como o Sistema Nacional de Sa\u00fade, neste momento.<\/p>\n<p>Se a gente n\u00e3o deita aten\u00e7\u00e3o a que isto possa ser sustent\u00e1vel, amanh\u00e3 vamos ter problemas muito maiores para resolver. E n\u00e3o creio que estas sejam muitas pesadas ao Estado. Se fosse o Estado a ter de fazer tudo isto seria muito mais caro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os bispos portugueses v\u00e3o iniciar esta segunda-feira a visita \u00abAd Limina\u00bb, uma s\u00e9rie de encontros com organismos da Santa S\u00e9 e com o Papa Francisco, com apresenta\u00e7\u00f5es de relat\u00f3rios sobre a vida da Igreja Cat\u00f3lica em Portugal. O Presidente da Confer\u00eancia Episcopal, D. 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