{"id":326,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/educar-para-a-paz\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"educar-para-a-paz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/educar-para-a-paz\/","title":{"rendered":"Educar para a paz"},"content":{"rendered":"<p>Ruben de Freitas Cabral &#8211; Instituto Inter-Universit\u00e1rio de Macau <!--more--> Educar para a paz H\u00e1 cerca de vinte anos fui convidado para falar sobre este mesmo tema a um grupo de jovens, Americanos e Japoneses, estes oriundos das cidades de Hiroshima e de Nagasaki. De s\u00fabito, senti-me pouco \u00e0 vontade. Que dizer? Se bem que a paz n\u00e3o fosse um dado adquirido por alturas da minha adolesc\u00eancia (Hungria, guerras coloniais, Arg\u00e9lia, Vietname, Palestina, Am\u00e9rica do Sul, e um sem n\u00famero de outras viol\u00eancias perpetradas por Estados e por situa\u00e7\u00f5es pol\u00edticas extremadas), parecia-me n\u00e3o haver d\u00favidas sobre o que devia ser a paz. Hiroshima e Nagasaki, todavia, permaneciam como s\u00edmbolos, nessa altura relativamente recentes, de algo que desafiava a imagina\u00e7\u00e3o humana. E eram reais. Que dizer a jovens cujos av\u00f3s, directos ou n\u00e3o, haviam por um lado lan\u00e7ado a Bomba, e, por outro, haviam sofrido as consequ\u00eancias desse acto, na sequ\u00eancia duma pol\u00edtica tamb\u00e9m de grande viol\u00eancia? Um dia, seguia eu no carro, quando na r\u00e1dio surge a entrevista feita a um l\u00edder da comunidade negra norte-americana. Falavam exactamente de paz. As palavras desse homem, todavia, chocaram-me. Para ele a paz n\u00e3o era uma prioridade. A vida humana negra era barata e, portanto, um convite \u00e0 viol\u00eancia, institucionalizada ou n\u00e3o. Para ele a prioridade era a Justi\u00e7a. N\u00e3o era nada que n\u00e3o tivesse j\u00e1 ouvido. De Fanon a Freire, esse tinha sido um dos fundamentos ideol\u00f3gicos dos movimentos de liberta\u00e7\u00e3o colonialista, ou das lutas pelos direitos civis e econ\u00f3micos de milh\u00f5es de pessoas. Uma coisa era, no entanto, ter lido essa postura pol\u00edtica em circunst\u00e2ncias de conforto descontextualizado, outra era ouvi-la naquele momento. De repente, isso de paz n\u00e3o era necessariamente t\u00e3o \u00f3bvio, como tamb\u00e9m nada evidente era essa outra prioridade, a que j\u00e1 se chamava educa\u00e7\u00e3o para a paz. Lembrei-me, tamb\u00e9m, que quando estudante na Alemanha, havia presenciado as famosas marchas para a paz lideradas por esse \u00edcone vener\u00e1vel que era, \u00e0 altura, Bertrand Russell. Lembrei-me tamb\u00e9m de discuss\u00f5es acaloradas que duravam noites inteiras e em que se discutia se o nosso papel devia ser o de pacifistas, ou o de pacificadores. Lembrei-me especialmente duma que tivera com o primeiro hippie, que havia conhecido pessoalmente, e que defendera sem hesita\u00e7\u00f5es a posi\u00e7\u00e3o dum pacifismo extremado. O pano de fundo era, naturalmente, o duma Alemanha que, nos come\u00e7os dos anos sessenta, ainda era um acampamento de armas nucleares dum lado e doutro do checkpoint Charlie. Hoje, passados que s\u00e3o cerca de vinte anos, a situa\u00e7\u00e3o parece n\u00e3o ter mudado. Os Hitlers, os Pol Pots, os Idi Amins do \u00faltimo meio s\u00e9culo, deram lugar aos Saddam Hussein, e a tantos outros senhores do \u00f3dio, da opress\u00e3o e da guerra que ensombram os nossos dias. Talvez seja algo com que tenhamos de viver. Qual, no entanto, deve ser a nossa posi\u00e7\u00e3o \u00e9tica? Que \u00e9 isso de paz? A mera aus\u00eancia de guerra? O conformismo para com situa\u00e7\u00f5es desumanizantes? E n\u00e3o falamos n\u00f3s tanto de solidariedade? Ser\u00e1 que teremos de optar? Ser\u00e1 que poderemos n\u00e3o ter de optar pela situa\u00e7\u00e3o dos palestinianos? Ou pela dos judeus de Auschwitz e Dachau? Ou por tantas outras situa\u00e7\u00f5es? Ser\u00e1 que teremos de acudir a todas? Ser\u00e1 que poderemos justificar a nossa n\u00e3o-ac\u00e7\u00e3o pela enormidade da tarefa?  Confrontados com a guerra no Iraque, com o 11 de Setembro, com os dilemas de tantos Afeganist\u00f5es; com guerras toler\u00e1veis porque juridicamente funda-ment\u00e1veis; por outras que o s\u00e3o por outras l\u00f3gicas; com as guerras contra o terrorismo, contra a droga, contra a escravatura que subsiste ainda em tantas formas, que fazer? Por que optar? Ser\u00e1 que teremos de tolerar a viol\u00eancia dos senhores da droga, da imigra\u00e7\u00e3o clandestina, mesmo ao lado das nossas casas? Ser\u00e1 que deveremos deixar os nossos filhos entregues \u00e0 rapacidade dessa gente? Que fazer da assustadora viol\u00eancia dom\u00e9stica? Dos crimes contra as crian\u00e7as? Interrogo-me hoje como me interroguei h\u00e1 vinte anos. Que dizer aos jovens de hoje? Que educa\u00e7\u00e3o para a paz? O pr\u00f3prio conceito n\u00e3o \u00e9 nada f\u00e1cil. Ser\u00e1 que a educa\u00e7\u00e3o para a paz, \u00e9 a mera educa\u00e7\u00e3o contra a viol\u00eancia? Ou a mera promo\u00e7\u00e3o de atitudes mentais baseadas na coopera\u00e7\u00e3o, no respeito, na compreens\u00e3o? N\u00e3o me parece, pelo menos \u00e0 primeira vista, que qualquer delas, ou em conjunto, nos possam ajudar muito numa tomada de posi\u00e7\u00e3o face ao lado hediondo da vida humana. \u00c9 f\u00e1cil decidirmo-nos emocionalmente por uma ou outra posi\u00e7\u00e3o quando o nosso conhecimento dum determinado contexto de viol\u00eancia se resume ao imediatismo de imagens de crian\u00e7as e mulheres feridas no ecr\u00e3 frio duma televis\u00e3o. Mais dif\u00edcil \u00e9 a tomada de posi\u00e7\u00e3o quando confrontados com a viol\u00eancia \u00e0 nossa porta. Que dizer da fome? N\u00e3o ser\u00e1 essa tamb\u00e9m uma forma de viol\u00eancia? Ser\u00e1 que nos tentamos informar desses contextos de viol\u00eancia comodamente escondida? Ser\u00e1 que somos capazes de desviar os nossos carros para os bairros de lata das nossas cidades? Ser\u00e1 que queremos mesmo confrontar essa realidade? E quando confrontados, que fazer? Parece-me que, como a felicidade, a paz \u00e9 mais um suced\u00e2neo que um objectivo. Se assim \u00e9, a paz \u00e9 a consequ\u00eancia natural de muitas coisas que n\u00f3s fazemos nesse sentido. Tal e qual como a felicidade. Eu n\u00e3o sou feliz porque algures no tempo estabeleci um plano de cinco pontos para o conseguir. A nossa felicidade tem muito mais a ver com as escolhas que fazemos e com as op\u00e7\u00f5es que tomamos. \u00c9 evidente que precisamos de educar os nossos filhos e filhas na multiculturalidade que define o nosso mundo, no respeito pela singularidade de cada pessoa, na compreens\u00e3o da complexidade da vida. \u00c9 imprescind\u00edvel que as nossas filhas e filhos aprendam a tomar decis\u00f5es \u00e9ticas que os comprometam com a vida. Aprende-se fazendo. Parece-me mesmo que se queremos que os nossos filhos e as nossas filhas aprendam a viver a paz, e n\u00e3o somente em paz, teremos de criar nos nossos lares e nas nossas escolas os contextos da democracia, da justi\u00e7a e da liberdade que lhes permitam esse direito prim\u00e1rio da cidadania: o de se constru\u00edrem como cidad\u00e3os conscientes, respons\u00e1veis, livres, corajosos, solid\u00e1rios, profundamente \u00e9ticos. Infelizmente, esse espa\u00e7o da cidadania raramente existe. Urge come\u00e7ar por a\u00ed. Ruben de Freitas Cabral Instituto Inter-Universit\u00e1rio de Macau Mar\u00e7o de 2003  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ruben de Freitas Cabral &#8211; Instituto Inter-Universit\u00e1rio de Macau<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[104,154,193,314],"class_list":["post-326","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-america","tag-crianca","tag-educacao","tag-solidariedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/326","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=326"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/326\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=326"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=326"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=326"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}