{"id":32582,"date":"2008-06-19T18:06:31","date_gmt":"2008-06-19T18:06:31","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/06\/19\/a-biblia-grande-codigo-da-cultura-ocidental\/"},"modified":"2008-06-19T18:06:31","modified_gmt":"2008-06-19T18:06:31","slug":"a-biblia-grande-codigo-da-cultura-ocidental","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-biblia-grande-codigo-da-cultura-ocidental\/","title":{"rendered":"A B\u00edblia, \u00abGrande C\u00f3digo\u00bb da cultura ocidental"},"content":{"rendered":"<p>Confer\u00eancia de D. Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontif\u00edcio para a Cultura, na Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa <!--more--> Revisitaremos apenas dois aspectos de um tema que justamente se arrisca a ser considerado inesgot\u00e1vel. Primeiro, o t\u00f3pico da qualidade \u00abest\u00e9tica\u00bb da B\u00edblia, visto ela ser tamb\u00e9m um texto liter\u00e1rio. A palavra desempenha uma fun\u00e7\u00e3o capital: a Palavra divina est\u00e1, de facto, na raiz da representa\u00e7\u00e3o b\u00edblica da cria\u00e7\u00e3o e da pr\u00f3pria Hist\u00f3ria da Salva\u00e7\u00e3o (pense-se tanto no fen\u00f3meno do profetismo, como na proclama\u00e7\u00e3o do pr\u00f3logo de Jo\u00e3o sobre o Logos, a Palavra divina que \u00e9 Cristo). Esta Palavra encarna-se e exprime-se em palavras humanas que t\u00eam no s\u00edmbolo a sua vida privilegiada.  Abordaremos, em seguida, um outro aspecto talvez mais expl\u00edcito quanto ao tema proposto, e que \u00e9 aquele da presen\u00e7a da B\u00edblia na cultura ocidental, como componente estrutural do dom\u00ednio art\u00edstico, \u00e9tico e social. \u00abAs Sagradas Escrituras s\u00e3o o universo sobre o qual a literatura e a arte ocidentais operaram at\u00e9 ao s\u00e9culo XVIII e, em grande medida, ainda operam\u00bb. Esta afirma\u00e7\u00e3o do conhecido ensaio O grande c\u00f3digo de Northrop Frye (1981), sobre a rela\u00e7\u00e3o entre a B\u00edblia e a Literatura, assenta num facto facilmente comprov\u00e1vel para quem perscrute a hist\u00f3ria cultural do Ocidente: durante s\u00e9culos, a B\u00edblia tem sido uma imensa gram\u00e1tica ou um repert\u00f3rio iconogr\u00e1fico, ideol\u00f3gico e liter\u00e1rio ao qual ela se at\u00e9m constantemente, quer a n\u00edvel da alta cultura, quer a n\u00edvel daquela popular. At\u00e9 Nietzsche, que se tinha por fil\u00f3sofo \u201canticrist\u00e3o\u201d, confessa, na sua obra Aurora (1881), que \u00abpara n\u00f3s Abra\u00e3o \u00e9 mais significativo que qualquer outro personagem da hist\u00f3ria grega ou alem\u00e3. Entre o que sentimos lendo os Salmos e o que experimentamos com a leitura de P\u00edndaro e de Petrarca vai a mesma dist\u00e2ncia que separa a p\u00e1tria de qualquer terra estrangeira\u00bb.  Procurar delimitar esta presen\u00e7a, na multiplicidade das suas formas, ora idealizadas ora manipuladas, \u00e9 uma tarefa cicl\u00f3pica para n\u00e3o dizer desesperada, de tal maneira intermin\u00e1vel e provis\u00f3ria permanece qualquer cataloga\u00e7\u00e3o. Permanecendo numa traject\u00f3ria puramente exemplificativa, indicaremos apenas alguns modelos que possam emblematicamente representar este imenso influxo.  1. Um primeiro modelo poderia ser definido como reinterpretativo ou actualizador: assume-se o texto ou o s\u00edmbolo b\u00edblico que \u00e9 relido no interior de coordenadas historico-culturais novas e diversas. Pensemos na figura de Job que, depois de se ter tornado para a Arte Sacra uma imagem do Cristo paciente, transforma-se no paradigma da condi\u00e7\u00e3o humana em Kierkegaard: no destino de Job ele l\u00ea a sua experi\u00eancia incompleta de amor e a tentativa de recuper\u00e1-lo do passado por obra de Deus. Escrevia o fil\u00f3sofo dinamarqu\u00eas: \u00abEu n\u00e3o leio Job com os olhos como se l\u00ea um outro livro qualquer, mas coloco-o sobre o cora\u00e7\u00e3o&#8230; Cada palavra \u00e9 alimento, agasalho e b\u00e1lsamo para a mis\u00e9ria da minha alma\u00bb. Continuando ainda com este fil\u00f3sofo, pensemos no sacrif\u00edcio de Isaac (Gen 22), tal como nos aparece revisto em Temor e Tremor: o terr\u00edvel e silencioso caminho de tr\u00eas dias percorrido por Abraa\u00e3o at\u00e9 ao monte da grande prova torna-se retrato de todo o itiner\u00e1rio de f\u00e9, mist\u00e9rio de luz e de sombra, no qual o crente deve chegar a desprender-se de todos os apoios humanos, inclusive afectos e rela\u00e7\u00f5es fundamentais. O exegeta Gerhard von Rad, num volume intitulad O sacrif\u00edcio di Isaac, recolher\u00e1 em torno a este texto b\u00edblico, al\u00e9m do coment\u00e1rio de Kierkegaard, as reinterpreta\u00e7\u00f5es actualizadas de Lutero, Rembrandt e Ko&#322;akowski, sabendo que j\u00e1 a tradi\u00e7\u00e3o judaica na \u2018aqedah, isto \u00e9 no \u00abatamento\u00bb sacrificial de Isaac sobre o altar do monte Mori\u00e1, vira o mist\u00e9rio do sofrimento do povo hebraico e se interrogou sobre o sil\u00eancio de Deus (sobretudo em conex\u00e3o com o tr\u00e1gico acontecimento da shoah desencadeada pela persegui\u00e7\u00e3o nazi). 2. H\u00e1 um outro modelo a individuar: esse elabora os dados b\u00edblicos de maneira desconcertante e que podemos definir como degenerativa. Na pr\u00f3pria hist\u00f3ria da teologia e da exegese verificaram-se frequentemente desvios e deforma\u00e7\u00f5es hermen\u00eauticas. O Texto sagrado transforma-se em pretexto para falar de outra coisa (\u00abalegoria\u00bb) ou at\u00e9 para rebater o seu sentido original. Assim acontece tamb\u00e9m na hist\u00f3ria da cultura. Tomemos ainda como prot\u00f3tipo o livro de Job. A tradi\u00e7\u00e3o, ignorando, de facto, o superlativo poema que constitui a subst\u00e2ncia da obra, fixou-se quase exclusivamente sobre o pr\u00f3logo e o ep\u00edlogo. Aqui Job aparece apenas como o homem paciente que supera a prova e \u00e9, por fim, recompensado por Deus. O corpo central da obra apresenta, por\u00e9m, o drama de uma f\u00e9 colocada diante do mist\u00e9rio de Deus e do enigma do mal. O culminar de uma procura dilacerada e exigent\u00edssima est\u00e1 naquela profiss\u00e3o de f\u00e9 que sigila realmente o inteiro escrito: \u00abEu j\u00e1 te conhecia por ouvir falar de ti; mas agora s\u00e3o os meus olhos que te v\u00eaem\u00bb (42,5). \u00c9 verdade que a arte crist\u00e3, no sulco de uma interpreta\u00e7\u00e3o parcelar j\u00e1 presente no Novo Testamento (Tg 5,11) e nos Padres da Igreja, contentar-se-\u00e1 em ilustrar um Job colocado sobre as cinzas da penit\u00eancia, disposto a suportar os sofrimentos mais atrozes, a ironia da mulher e a contesta\u00e7\u00e3o dos amigos, \u00e0 espera da liberta\u00e7\u00e3o final. Mas a \u201cdegenera\u00e7\u00e3o\u201d do significado aut\u00eantico do livro b\u00edblico pode ser ulteriormente ilustrada na infinda retoma liter\u00e1ria que a hist\u00f3ria de Job conheceu (de Goethe a Dostojevskij, de Roth a Singer, de Bloch a Camus, de Morselli a Pomilio etc.). Exemplar neste sentido \u00e9 a Resposta a Job de Carl G. Jung (1952), na qual o c\u00e9lebre sofredor b\u00edblico se ergue como s\u00edmbolo da moralidade e da responsabilidade diante de um Deus indiferente a qualquer \u00e9tica, na sua omnipot\u00eancia e omnisci\u00eancia. Cristo ser\u00e1 aquele que, proveniente de Deus e assumindo a humanidade, conseguir\u00e1 aprender a li\u00e7\u00e3o moral de Job, o que o levar\u00e1 a erguer-se contra a dureza \u201cimoral\u201d e a insondabilidade do Pai celeste. Como \u00e9 evidente, o texto b\u00edblico corre assim o risco de redu\u00e7\u00e3o a um fundo t\u00e9nue sobre o qual se tecem novas tramas e novos significados, fen\u00f3meno que ocorre com muitas outras figuras b\u00edblicas. 3. H\u00e1 que reconhecer, contudo, que, se \u00e9 sinal de fecundidade e de for\u00e7a pl\u00e1stica do original b\u00edblico esta literatura assim \u201cem desvio\u201d,  maior testemunho de for\u00e7a espiritual e cultural a B\u00edblia oferece quando consegue transparecer em toda a sua riqueza simb\u00f3lica e teol\u00f3gica. \u00c9 por isso que queremos ainda falar de um terceiro modelo, o transfigurativo.  A arte consegue frequentemente tornar vis\u00edveis resson\u00e2ncias secretas do texto sagrado,  transcrevendo-o em toda a sua pureza, fazendo germinar potencialidades que a exegese cient\u00edfica s\u00f3 com muita fadiga conquista ou, ent\u00e3o, ignora de todo. Gaston Bachelard dizia , por exemplo, do famoso pintor Marc Chagall que nos seus quadros \u00abele l\u00ea a B\u00edblia e imediatamente os passos b\u00edblicos tornam-se luz\u00bb. Nesta linha emerge como particularmente sugestiva a grande m\u00fasica que, no per\u00edodo hist\u00f3rico que vai de \u2018600 aos in\u00edcios de \u2018800, superou muitas vezes as artes figurativas como int\u00e9rprete da B\u00edblia (Carissimi, Monteverdi, Sch\u00fctz, Pachelbel, Bach, Vivaldi, Buxtehude, Telemann, Couperin, Charpentier, Haendel, Haydn, Mozart, Bruckner etc.). Imagine-se s\u00f3 o que pode significar uma orat\u00f3ria como Jeft\u00e9 de Carissimi ou V\u00e9speras da Bem-Aventurada Virgem de Monteverdi ou uma Paix\u00e3o segundo Mateus de Bach ou ainda, olhando para os nossos dias, a Paix\u00e3o segundo S\u00e3o Lucas de Penderecki ou os Chichester Psalms de Bernstein. Para estudar um caso, espec\u00edfico e existencial, bastaria seguir a suprema releitura que Mozart faz de um salmo literariamente modesto, o brev\u00edssimo 117 (116), caro contudo a Israel porque proclama as duas virtudes fundamentais da alian\u00e7a que liga Deus ao seu povo, isto \u00e9  veritas et misericordia, como diz a vers\u00e3o latina da Vulgata utilizada pelo m\u00fasico, ou o \u00abamor e a fidelidade\u00bb, numa tradu\u00e7\u00e3o mais pr\u00f3xima do original hebraico. E claro, o Laudate Dominum em F\u00e1 menor das V\u00e9speras solenes de um Confessor (K 339) de Mozart consegue recriar toda a carga teol\u00f3gica e espiritual, hebraica e crist\u00e3 do salmo, como n\u00e3o o saberia fazer nenhuma exegese textual directa.  Em conclus\u00e3o: deve-se entender que a B\u00edblia \u00e9 um dos pontos de refer\u00eancia capitais n\u00e3o s\u00f3 para a f\u00e9, mas tamb\u00e9m para a nossa pr\u00f3pria civiliza\u00e7\u00e3o. N\u00e3o por acaso Goethe dizia que o cristianismo \u00e9 \u00aba l\u00edngua materna da Europa\u00bb. <i>GIANFRANCO RAVASI <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Confer\u00eancia de D. 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