{"id":325776,"date":"2024-05-16T09:44:06","date_gmt":"2024-05-16T08:44:06","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=325776"},"modified":"2024-05-14T10:46:01","modified_gmt":"2024-05-14T09:46:01","slug":"culpas-e-reparacoes-sem-deus-e-sem-etica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/culpas-e-reparacoes-sem-deus-e-sem-etica\/","title":{"rendered":"Culpas e repara\u00e7\u00f5es sem Deus e sem \u00e9tica"},"content":{"rendered":"<p><em>Jorge Teixeira da Cunha, Diocese do Porto<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-321545 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Jorge-Teixeira-da-Cunha-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Jorge-Teixeira-da-Cunha-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Jorge-Teixeira-da-Cunha-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Jorge-Teixeira-da-Cunha-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Jorge-Teixeira-da-Cunha-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Jorge-Teixeira-da-Cunha-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Jorge-Teixeira-da-Cunha.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/>A controv\u00e9rsia desencadeada com a proposta de repara\u00e7\u00f5es pela escraviza\u00e7\u00e3o de pessoas no passado colonial portugu\u00eas \u00e9 um assunto de grande complexidade. Mas n\u00e3o podemos deixar de o abordar tamb\u00e9m do ponto de vista teol\u00f3gico. O nosso contributo \u00e9 indispens\u00e1vel e constitui talvez o \u00fanico ponto de vista que pode ir ao centro da quest\u00e3o. \u00c9 que o cristianismo n\u00e3o apenas sabe de culpas e pecados, mas tem no seu n\u00facleo a pr\u00e1xis da reconcilia\u00e7\u00e3o. E isto \u00e9 decisivo para tratar do assunto.<\/p>\n<p>O debate sobre a escravatura, tal como o conduzem, historiadores, soci\u00f3logos e pol\u00edticos, enferma precisamente deste defeito de esquecer o ponto de vista da \u00e9tica e da teologia. Pelo caminho do positivismo das ci\u00eancias humanas, apenas podemos lamentar o que aconteceu, exibir diagn\u00f3sticos que s\u00e3o at\u00e9 bastante certeiros, sobrecarregar de culpas o passado e o presente, mas n\u00e3o vamos al\u00e9m disso. As an\u00e1lises do passado s\u00e3o, depois, atiradas como arma de arremesso entre os diversos agentes pol\u00edticos de hoje. Mas nenhum passo adiante \u00e9 dado e o n\u00edvel de agressividade sobe de intensidade, sem solu\u00e7\u00e3o \u00e0 vista. O que falta ent\u00e3o?<\/p>\n<p>O cristianismo descreve a realidade como reconcilia\u00e7\u00e3o, antes de a descrever como pecado, como inj\u00faria, opress\u00e3o e injusti\u00e7a. No centro de tudo est\u00e1 a doa\u00e7\u00e3o do real como amizade, como diferen\u00e7a em vista da comunh\u00e3o. \u00c9 uma ac\u00e7\u00e3o origin\u00e1ria que tem Deus como autor e actor, antes do fracasso do ser humano e do seu mundo. Esta pr\u00e1xis origin\u00e1ria est\u00e1 sempre dispon\u00edvel como gra\u00e7a acess\u00edvel a quem a aceita, ap\u00f3s a sua queda hist\u00f3rica no pecado. Por isso, o diagn\u00f3stico do mal feito e sofrido n\u00e3o \u00e9 apenas uma mem\u00f3ria opressiva que leva ao desespero, mas uma aceita\u00e7\u00e3o do dom da gra\u00e7a que cura e que salva o ser humano no seu drama hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>A evid\u00eancia da escravatura \u00e9 a mem\u00f3ria mais opressiva que a humanidade leva consigo. O cristianismo tem a sua origem hist\u00f3rica no tempo do Imp\u00e9rio Romano que, como os imp\u00e9rios que o precederam, assentava na ideia de que os seres humanos nasciam uns para a liberdade outros para a servid\u00e3o. Nesse contexto, Jesus inaugurou a amizade que aproxima as diferen\u00e7as homem-mulher, escrava-livre, adulto-crian\u00e7a, aut\u00f3ctone-estrangeiro. A\u00ed se encontra o centro da vida que se faz \u00e9tica da reconcilia\u00e7\u00e3o e da supera\u00e7\u00e3o da escravatura, dos sistemas de casta, do apartheid e de todas as formas de inj\u00faria da comunidade humana. A comunidade hist\u00f3rica dos seguidores de Jesus n\u00e3o foi capaz de curar as feridas da escravatura, pactuou co elas por um tempo demasiado longo. Essa \u00e9 uma ferida que n\u00e3o sara.<\/p>\n<p>O que pode fazer a Igreja de Cristo, dividida contra a vontade do seu Fundador, para curar as feridas da escravatura?<\/p>\n<p>O primeiro que tem a fazer \u00e9 viver a reconcilia\u00e7\u00e3o entre os seus membros como forma de cura das feridas actuais e hist\u00f3ricas. Esta viv\u00eancia ser\u00e1 o testemunho colocado diante de todos, sem paternalismo, sobre a possibilidade de levar \u00e0 prescri\u00e7\u00e3o dos fracassos hist\u00f3ricos. A viv\u00eancia ser\u00e1 tamb\u00e9m fonte da reflex\u00e3o que vai contando, sempre de novo, a hist\u00f3ria da opress\u00e3o, como caminho para curar a alma ferida das gera\u00e7\u00f5es actuais. As eventuais repara\u00e7\u00f5es de que se fala s\u00e3o secund\u00e1rias em rela\u00e7\u00e3o a este trabalho de cura. A mem\u00f3ria purifica-se pelo prop\u00f3sito firme de n\u00e3o repetir as inj\u00farias, por institui\u00e7\u00f5es que hoje garantem a inclus\u00e3o de todos, para l\u00e1 do racismo, da exclus\u00e3o, da hostilidade.<\/p>\n<p>Para que este esfor\u00e7o seja eficaz, a \u00e9tica crist\u00e3 tem outro elemento muito importante a fornecer \u00e0 reflex\u00e3o e \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica de hoje. Trata-se de afirmar que o sujeito da hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 o vencedor, mas o vencido. De um modo geral, pensamos a hist\u00f3ria como hist\u00f3ria de quem ganhou, de quem foi vis\u00edvel, de quem trunfou na vida. Esta esfor\u00e7o de predom\u00ednio est\u00e1 tamb\u00e9m patente nos esfor\u00e7os daqueles que hoje, talvez com boa vontade, tentam escrever hegemonicamente a hist\u00f3ria do passado. A hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 mestra da vida nesse sentido. A hist\u00f3ria ensina quando leva os seus agentes a depor o falso jogo de poder e a aceitar que a perfei\u00e7\u00e3o vem da reconcilia\u00e7\u00e3o e n\u00e3o do triunfo sobre os outros, mesmo que seja um trinfo p\u00f3stumo. O sofrimento das v\u00edtimas nunca prescreve. Talvez seja esse sofrimento, dos que foram escravizados e injuriados, que nos salva, ontem como hoje.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jorge Teixeira da Cunha, Diocese do Porto<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":321545,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-325776","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/325776","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=325776"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/325776\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/321545"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=325776"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=325776"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=325776"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}