{"id":324316,"date":"2024-05-05T09:31:24","date_gmt":"2024-05-05T08:31:24","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=324316"},"modified":"2024-05-03T10:30:48","modified_gmt":"2024-05-03T09:30:48","slug":"dia-da-europa-precisamos-de-uma-europa-que-defenda-a-vida-de-uma-europa-que-defenda-a-possibilidade-de-todos-viverem-com-a-dignidade-que-lhe-e-propria-d-nuno-bras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/dia-da-europa-precisamos-de-uma-europa-que-defenda-a-vida-de-uma-europa-que-defenda-a-possibilidade-de-todos-viverem-com-a-dignidade-que-lhe-e-propria-d-nuno-bras\/","title":{"rendered":"Dia da Europa: \u00abPrecisamos de uma Europa que defenda a vida, de uma Europa que defenda a possibilidade de todos viverem com a dignidade que lhe \u00e9 pr\u00f3pria\u00bb &#8211; D. Nuno Br\u00e1s"},"content":{"rendered":"<p>A celebra\u00e7\u00e3o do Dia da Europa, a 9 de maio, vai voltar a ser marcada este ano pelo contexto de guerra e de crise no continente. A poucas semanas das elei\u00e7\u00f5es europeias, os bispos cat\u00f3licos da Uni\u00e3o Europeia repetem apelos \u00e0 participa\u00e7\u00e3o e \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o dos valores crist\u00e3os. D. Nuno Br\u00e1s, vice-presidente da COMECE e bispo do Funchal, \u00e9 o convidado desta semana da entrevista conjunta Renascen\u00e7a\/Ecclesia<!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_324304\" aria-describedby=\"caption-attachment-324304\" style=\"width: 1500px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/dnuno-bras2024-pr.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-324304 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/dnuno-bras2024-pr.jpg\" alt=\"\" width=\"1500\" height=\"1000\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/dnuno-bras2024-pr.jpg 1500w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/dnuno-bras2024-pr-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/dnuno-bras2024-pr-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/dnuno-bras2024-pr-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/dnuno-bras2024-pr-391x260.jpg 391w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-324304\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA\/PR<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em>A Comiss\u00e3o dos Episcopados Cat\u00f3licos da Uni\u00e3o Europeia manifestou, na sua \u00faltima assembleia plen\u00e1ria, apoio ao alargamento comunit\u00e1rio e disse que seria uma forma de promover estabilidade, paz e seguran\u00e7a perante a \u201cguerra de agress\u00e3o\u201d da R\u00fassia na Ucr\u00e2nia. \u00c9 um momento decisivo, para o futuro da Uni\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>N\u00f3s, na Uni\u00e3o, estamos habituados a ter muitos momentos decisivos e parece que h\u00e1 um momento decisivo e depois logo se segue um outro momento decisivo. Mas sim, a perce\u00e7\u00e3o \u00e9 que a Europa n\u00e3o pode ser simplesmente um clube daqueles que j\u00e1 est\u00e3o integrados, que j\u00e1 vivem na Europa, um clube de pa\u00edses que vivem muito bem na Europa entre si e que excluem todos os outros. At\u00e9 porque a reuni\u00e3o foi na Pol\u00f3nia e teve como base este \u00faltimo grande alargamento e a conclus\u00e3o foi esta. Este \u00faltimo grande alargamento, de h\u00e1 20 anos, tornou a Uni\u00e3o Europeia mais Europa, porque integrou um conjunto de pa\u00edses muito importantes. Agora trata-se, no fundo, de continuar este mesmo ritmo e, portanto, de permitir que a Uni\u00e3o Europeia n\u00e3o seja um clube exclusivo de pa\u00edses, mas seja um clube inclusivo, seja um grupo, uma uni\u00e3o, uma comunidade inclusiva de todos os pa\u00edses europeus que nela queiram participar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E o D. Nuno tem tido conversas com os bispos destes pa\u00edses, dos Balc\u00e3s e do Leste da Europa sobre esta mat\u00e9ria?<\/em><\/p>\n<p>Sim. Eu creio que neste momento, mesmo aqueles pa\u00edses onde a opini\u00e3o p\u00fablica pode ser mais reticente, no fundo \u00e9 reticente eventualmente a um modo de ser Uni\u00e3o Europeia, a uma forma \u00e0s vezes intrusiva, uma certa confus\u00e3o, se quisermos, entre aquilo que poderiam ser os Estados Unidos da Europa e aquilo que \u00e9 a Comunidade Europeia tal como foi pensada e tal como foi idealizada e tal como \u00e9. Ou seja, trata-se de uma comunidade de pa\u00edses, de pa\u00edses independentes, n\u00e3o se trata absolutamente dos Estados Unidos da Europa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O projeto comunit\u00e1rio nasceu num contexto de p\u00f3s-guerra, como ideia de paz. \u00c9 um sonho amea\u00e7ado, neste momento, ou \u00e9 uma intui\u00e7\u00e3o que ganha cada vez mais relev\u00e2ncia?<\/em><\/p>\n<p>As duas coisas, ou seja, precisamente porque se trata de qualquer coisa amea\u00e7ada. Se a Ucr\u00e2nia cair, ficar derrotada nesta guerra, obviamente v\u00e3o seguir-se outros\u2026 em primeiro lugar, a Pol\u00f3nia sente este receio e isso encontrou-se de uma forma muito viva durante esta reuni\u00e3o dos bispos da Uni\u00e3o Europeia. Portanto, sim, o alargamento tamb\u00e9m traz consigo, necessariamente, garantias de paz. O alargamento da Uni\u00e3o Europeia, obviamente, para aqueles pa\u00edses que t\u00eam condi\u00e7\u00f5es para a integrar, traz consigo tamb\u00e9m garantias de maior estabilidade, garantias de paz e de continua\u00e7\u00e3o deste sonho de paz europeu que esteve no in\u00edcio, na intui\u00e7\u00e3o dos pais fundadores da Europa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Os episcopados cat\u00f3licos da Uni\u00e3o Europeia reagiram \u00e0 proposta de inclus\u00e3o do direito ao aborto na Carta dos Direitos Fundamentais, sublinhando que n\u00e3o se est\u00e1 perante um direito. Como se faz a defesa da vida, neste contexto dif\u00edcil?<\/em><\/p>\n<p>N\u00f3s precisamos de ver que a vida humana \u00e9 um todo. Precisamos de defender a vida humana, esteja ela ainda no ventre materno, esteja ela amea\u00e7ada porque as condi\u00e7\u00f5es sociais do pa\u00eds em que vivemos n\u00e3o a respeita, esteja ela amea\u00e7ada por uma guerra e uma guerra injusta. \u00c9 toda esta realidade que n\u00f3s precisamos sempre de ter em conta. E, neste sentido, \u00e9 importante perceber que a vida humana \u00e9 um valor que \u00e9 essencial preservar e sem o qual a pr\u00f3pria Uni\u00e3o Europeia se torna, depois, uma coisa meramente econ\u00f3mica ou uma quest\u00e3o de lugares pol\u00edticos ou quest\u00e3o de economia, simplesmente.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata disso. Precisamente a experi\u00eancia da II Guerra Mundial, com tudo aquilo que ela trouxe &#8211; e n\u00e3o esque\u00e7amos que a II Guerra Mundial n\u00e3o foi s\u00f3 a guerra propriamente, foi tamb\u00e9m tudo aquilo que ela trouxe de ideologias de apuramento da ra\u00e7a, por exemplo, de desrespeito por quem procura humanos quase perfeitos, em termos f\u00edsicos e biol\u00f3gicos. Tudo isto, os horrores da II Guerra Mundial, trouxe consigo a cria\u00e7\u00e3o de uma Uni\u00e3o Europeia baseada n\u00e3o apenas na procura da paz, mas tamb\u00e9m neste respeito pela dignidade do ser humano. E creio que \u00e9 isto que \u00e9 importante manter.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A tomada de posi\u00e7\u00e3o dos episcopados sublinhava que a Uni\u00e3o Europeia n\u00e3o pode impor a outro, dentro e fora das suas fronteiras, posi\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas sobre a pessoa humana, a sexualidade, o g\u00e9nero, o casamento e a fam\u00edlia, entre outros. Esta \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o que pode colocar em risco o projeto comunit\u00e1rio?<\/em><\/p>\n<p>Claro. Se n\u00f3s f\u00f4ssemos os Estados Unidos da Europa, poder\u00edamos eventualmente idealizar uma arquitetura europeia em que, simplesmente, de Bruxelas se mandavam ordens para todos os pa\u00edses e todos os pa\u00edses eram obrigados a cumprir. \u00c9 \u00f3bvio que algumas decis\u00f5es de Bruxelas ter\u00e3o de ser adotadas, n\u00e3o temos d\u00favidas disso, mas depois existem realidades fundamentais em que cada pa\u00eds aparece com uma identidade muito pr\u00f3pria. Ora, estar a colocar o aborto como um direito fundamental e, portanto, obrigar todos os pa\u00edses, indiscriminadamente, a adotar essa legisla\u00e7\u00e3o \u00e9, obviamente, uma viola\u00e7\u00e3o deste esp\u00edrito de comunidade, rumo ao um estilo como os Estados Unidos [da Am\u00e9rica] &#8211; mesmo assim, nos EUA, vemos que nem todos os Estados t\u00eam a mesma legisla\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m a este respeito. \u00c9 uma usurpa\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria ideia de Europa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Este \u00e9 um ano que marca um novo ciclo pol\u00edtico na Uni\u00e3o Europeia e a comiss\u00e3o dos bispos cat\u00f3licos j\u00e1 apelou a um \u201cvoto respons\u00e1vel\u201d, nas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es para o Parlamento Europeu, para promover \u201cos valores crist\u00e3os\u201d e o projeto comunit\u00e1rio. Pensa que \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o que acompanha os eleitores, na hora de decidir o voto?<\/em><\/p>\n<p>Se n\u00e3o \u00e9, devia ser, precisamos de todos entender isto. Neste momento, \u00e9 muito dif\u00edcil imaginar-nos fora desta realidade que \u00e9 a Uni\u00e3o Europeia. Seria uma revolu\u00e7\u00e3o completa e seria, obviamente, uma perda para Portugal, creio que para a Uni\u00e3o e para todos. Penso que este \u00e9 um sentimento comum em todos os pa\u00edses da Uni\u00e3o, at\u00e9 depois de vermos a experi\u00eancia do <em>Brexit<\/em> e todas as dificuldades. Temos esta realidade, muito positiva, que \u00e9 a Uni\u00e3o Europeia, que n\u00f3s n\u00e3o queremos, n\u00e3o podemos querer que seja, simplesmente, uma realidade de contas de Excel \u2013 eu dou-te e tu d\u00e1s &#8211; de economia, simplesmente. Tem de ser uma outra realidade assente em valores, tem de ser uma realidade assente em vida, em comunidade partilhada de vida. E creio que isto \u00e9 o que \u00e9 importante.<\/p>\n<p>Diria, antes de mais nada, para percebermos quais s\u00e3o, verdadeiramente, as for\u00e7as pol\u00edticas dispon\u00edveis para construir para construir um projeto europeu que n\u00e3o seja, simplesmente, economicista, mas que seja um projeto humano e um projeto de comunidade, de comunidade de Estados, respeitando a identidade de cada um, mas ao mesmo tempo trabalhando em conjunto para uma Europa onde cada cidad\u00e3o possa ser mais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Al\u00e9m da quest\u00e3o da vida, que j\u00e1 abordamos, gostaria tamb\u00e9m de trazer aqui a quest\u00e3o da crise migrat\u00f3ria que a Europa est\u00e1 a bra\u00e7os neste momento e que exige respostas comuns. Como \u00e9 que v\u00ea o percurso feito neste sentido? <\/em><\/p>\n<p>Muito mal. No fundo todos t\u00eam declara\u00e7\u00f5es interessantes, depois tudo acaba por ficar nas m\u00e3os da It\u00e1lia e da Espanha, quando muito, e da Gr\u00e9cia. Mas, enfim, a It\u00e1lia n\u00e3o tem sido o pa\u00eds que mais tem sofrido com todas estas crises migrat\u00f3rias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>H\u00e1 falta de solidariedade dos outros Estados Membros?<\/em><\/p>\n<p>Exatamente. Porque todos dizem que queremos acolher todos, de uma forma muito particular os pa\u00edses mais do Norte da Europa, que manifestam uma grande disponibilidade para acolher todos, mas depois \u00e9 a It\u00e1lia que resolve a quest\u00e3o. Creio que, verdadeiramente, a Europa precisava de crescer e de crescer muito mais em termos de acolhimento daqueles que nos procuram, obviamente procurando oferecer-lhes condi\u00e7\u00f5es e procurando tamb\u00e9m que o desenvolvimento se realize nos pa\u00edses de origem, porque creio que \u00e9 muito importante esta realidade. Os migrantes v\u00eam para a Europa porque n\u00e3o encontram em suas casas condi\u00e7\u00f5es de vida dignas e condi\u00e7\u00f5es de vida, muitas vezes simplesmente.<\/p>\n<p><em>Receia que o novo ciclo pol\u00edtico na Europa possa ficar marcado por um aumento das for\u00e7as pol\u00edticas, populistas e extremistas, que de alguma forma condicionam a solu\u00e7\u00e3o para essas crises migrat\u00f3rias? <\/em><\/p>\n<p>Essa \u00e9 a realidade que, de uma forma ou de outra, todos tememos. \u00c9 \u00f3bvio que \u00e9 importante tamb\u00e9m n\u00e3o sermos ing\u00eanuos e, portanto, \u00e9 \u00f3bvio que s\u00e3o necess\u00e1rias as regras, \u00e9 \u00f3bvio que s\u00e3o necess\u00e1rias as condi\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m \u00e9 \u00f3bvio que a Europa precisa de ser cada vez mais uma realidade de acolhimento. \u00c9 \u00f3bvio tamb\u00e9m que \u00e9 muito f\u00e1cil clamar contra Bruxelas e, portanto, dizer que Bruxelas tem todos os defeitos deste mundo, mas o facto \u00e9 que n\u00f3s n\u00e3o conseguimos neste momento, nem queremos conseguir, passar sem esta realidade da Uni\u00e3o Europeia. N\u00e3o se trata de destruir a Uni\u00e3o Europeia, de uma esp\u00e9cie de implos\u00e3o. Creio que, neste momento, seria impens\u00e1vel, mas uma implos\u00e3o da Uni\u00e3o Europeia seria uma desgra\u00e7a para todos, para o mundo inteiro. Precisamos de ter isto bem claro, quer dizer, n\u00e3o queremos uma implos\u00e3o da Uni\u00e3o Europeia, aquilo que queremos \u00e9 melhorar a Uni\u00e3o Europeia. E isso parece-me ser um dos crit\u00e9rios muito importantes na escolha e na elei\u00e7\u00e3o do pr\u00f3ximo dia 9 de junho.<\/p>\n<p><em>Ainda nesse sentido, a COMECE e outras organiza\u00e7\u00f5es representativas de igrejas na Europa assumiram uma posi\u00e7\u00e3o conjunta contra o que chamaram de manipula\u00e7\u00e3o de valores crist\u00e3os por discursos racistas.\u00a0 Esta \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o que tamb\u00e9m preocupa?<br \/>\n<\/em>\u00c9 uma coisa muito interessante, que eu tenho verificado j\u00e1 h\u00e1 algum tempo, e por parte das mais diversas for\u00e7as pol\u00edticas, que \u00e9 usarem linguagem, vocabul\u00e1rio crist\u00e3o, desde as vig\u00edlias at\u00e9 \u00e0s celebra\u00e7\u00f5es, desde a miss\u00e3o at\u00e9 \u00e0 voca\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m, e que n\u00f3s crist\u00e3os usamos com frequ\u00eancia para depois lhe darem um outro conte\u00fado. E creio que devemos todos estar muito atentos a isso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Isso chama-se enganar o eleitorado\u2026<\/em><\/p>\n<p>Sim, chama-se enganar o eleitorado, obviamente. No fundo, usar um vocabul\u00e1rio, palavras crist\u00e3s, para depois lhe dar um outro conte\u00fado, para depois modificar aquilo que \u00e9 a intui\u00e7\u00e3o de base que est\u00e1 no uso destas palavras. E isso \u00e9 feito tanto pela direita como pela esquerda. Por um lado, mostra que o nosso vocabul\u00e1rio \u00e9 um vocabul\u00e1rio acertado, porque todos o escolhem, mas depois faz soar as campainhas de alarme, porque precisamente todos depois lhe um conte\u00fado diferente: estamos de acordo com as palavras, usamos as mesmas palavras, mas depois o conte\u00fado \u00e9 bastante diferente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Vai ser necess\u00e1ria tamb\u00e9m uma aten\u00e7\u00e3o de todos, e em particular dos bispos, ao crescimento de ideologias marcadamente racistas e xen\u00f3fobas?<\/em><\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma realidade e \u00e9 uma realidade importante. Claro que \u00e9 importante tamb\u00e9m depois n\u00e3o cairmos simplesmente na etiqueta e n\u00e3o cairmos simplesmente naquele racioc\u00ednio de que este \u00e9 racista, e o outro n\u00e3o \u00e9. Bom, se calhar tamb\u00e9m \u00e9; talvez de uma outra forma. Precisamos de estar muito atentos a isto, claro que sim. Este \u00e9 um perigo que a Europa corre e \u00e9 um perigo a que n\u00e3o podemos deixar de estar atentos, na escolha dos nossos representantes na Europa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Eu tenho, ao longo da entrevista, citado algumas das interven\u00e7\u00f5es da COMECE e achei interessante uma iniciativa, at\u00e9 pelo contexto da realiza\u00e7\u00e3o da JMJ, que foi o contributo da plataforma juvenil desta Comiss\u00e3o, que elaborou um guia pr\u00e1tico com vista \u00e0s pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es europeias. \u00c9 muito importante promover, junto \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es, esta ideia de participa\u00e7\u00e3o na vida pol\u00edtica como cidad\u00e3os e como crist\u00e3os?<\/em><\/p>\n<p>Sim, eu creio que \u00e9 mesmo essencial. H\u00e1 alguns pa\u00edses em que o direito de voto \u00e9 aos 16 anos e, portanto, fomos confrontados tamb\u00e9m com essa realidade e com essa necessidade de tentar tamb\u00e9m chegar a esse p\u00fablico quase adolescente neste momento e que vai ter direito de voto. E at\u00e9 se criou um desdobr\u00e1vel que est\u00e1 bastante bem feito, a todos os n\u00edveis; seja em termos de conte\u00fado, seja em termos de forma, o desdobr\u00e1vel est\u00e1 bastante equilibrado. Est\u00e1 tamb\u00e9m em portugu\u00eas e, portanto, est\u00e1 acess\u00edvel na p\u00e1gina da COMECE para as v\u00e1rias l\u00ednguas da Uni\u00e3o. Mas \u00e9 um problema at\u00e9 porque, precisamente, notamos que facilmente os jovens s\u00e3o enganados por esse uso de linguagem que, aparentemente, sendo crist\u00e3, depois traz consigo um outro conte\u00fado, tamb\u00e9m, muitas vezes, xen\u00f3fobo, racista, essas coisas todas. Portanto, trata-se de mostrar aquilo que est\u00e1 na base da Uni\u00e3o Europeia, aquilo que a continua a animar e aquilo que n\u00f3s queremos que ela seja e de mostrar que n\u00e3o \u00e9 votando contra a Uni\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 numa atitude de destrui\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o que n\u00f3s encontramos um ponto de sa\u00edda, mas \u00e9, precisamente, ao contr\u00e1rio, numa atitude de constru\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Europeia, de integra\u00e7\u00e3o e de comunidade, desta vida de comunidade de Estados que n\u00f3s precisamos de apontar para o futuro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>J\u00e1 que estamos a falar da participa\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m, dos jovens, pergunto-lhe, porque tem sido, ao longo dos anos, um grave problema relacionado com a absten\u00e7\u00e3o, que apelo \u00e9 que se deve fazer aos eleitores para reverter os n\u00fameros de absten\u00e7\u00e3o em elei\u00e7\u00f5es europeias que, em Portugal, atingem valores muito elevados?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9, e esse \u00e9, de facto, um perigo. E eu, at\u00e9, como bispo do Funchal, sinto isso, at\u00e9, de uma forma mais aguda, porque vamos ter mais umas elei\u00e7\u00f5es agora, em finais de maio, n\u00e3o \u00e9? Portanto, o ciclo eleitoral deste ano \u00e9 um ciclo muito intenso e as pessoas podem ficar cansadas, muito simplesmente, podem ficar cansadas de todo este ritmo eleitoral muito intenso e pensar que a Europa, no fundo, \u00e9 qualquer coisa l\u00e1 longe, em Bruxelas, e n\u00e3o tem nada a ver com a nossa vida. N\u00e3o \u00e9 assim. \u00c9 necess\u00e1rio fazer um apelo, e um apelo muito grande, que todos participem, n\u00e3o caindo naquela armadilha de pensar que a Uni\u00e3o Europeia, como est\u00e1 l\u00e1 longe, em Bruxelas, \u00e9 qualquer coisa que diz menos respeito \u00e0 nossa vida e, portanto, da qual podemos passar. N\u00e3o \u00e9 verdade. A Uni\u00e3o Europeia diz respeito \u00e0 nossa vida, \u00e0 nossa vida muito concreta e, de uma forma muito particular, a esta vida que garante a paz e que garante os valores da vida humana, que quer garantir os valores da vida humana.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Falou das elei\u00e7\u00f5es na Madeira e tamb\u00e9m da sua preocupa\u00e7\u00e3o quanto aos elevados n\u00edveis de absten\u00e7\u00e3o. Receia que nas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es regionais tamb\u00e9m se venha a verificar uma elevada absten\u00e7\u00e3o, at\u00e9 pelo facto da forma como se chega a este processo eleitoral. E j\u00e1 agora se o quadro pol\u00edtico, depois das elei\u00e7\u00f5es regionais, se vai alterar do seu ponto de vista de forma substancial?<\/em><\/p>\n<p>Creio que neste momento ningu\u00e9m pode fazer esse tipo de especula\u00e7\u00e3o. Podemos ter intui\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o deixam de ser isso mesmo intui\u00e7\u00f5es. Eu creio que, de uma forma muito particular, os madeirenses est\u00e3o habituados a participar, est\u00e3o habituados a votar. Eu espero que, de uma forma ordeira e de uma forma como tem sido sempre, todos os madeirenses participem, seja nas elei\u00e7\u00f5es regionais, seja nas elei\u00e7\u00f5es para o Parlamento Europeu. E, portanto, de uma forma muito respons\u00e1vel, porque essa \u00e9 tamb\u00e9m a tradi\u00e7\u00e3o do povo madeirense.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Olhando para este pr\u00f3ximo dia da Europa que preocupa\u00e7\u00f5es \u00e9 que mais o acompanham neste momento e que votos deixa para a celebra\u00e7\u00e3o deste dia?<\/em><\/p>\n<p>Em primeiro lugar, que este dia seja um dia de celebra\u00e7\u00e3o da Europa, de celebra\u00e7\u00e3o desta realidade muito bonita e desta realidade que estamos a construir todos os cidad\u00e3os da Europa. Que estamos a construir com esfor\u00e7o, mas que estamos a construir e que \u00e9 um exemplo na hist\u00f3ria universal de pa\u00edses que se entreajudam para construir qualquer coisa de muito bonito e de muito bom. E, portanto, que este dia seja verdadeiramente de celebra\u00e7\u00e3o e de entusiasmo pela Europa. \u00a0Claramente precisamos de uma Europa que defenda a vida, de uma Europa que defenda a possibilidade de todos viverem com a dignidade que lhe \u00e9 pr\u00f3pria. Os europeus, aqueles que n\u00e3o sendo europeus, chegam e batem \u00e0 nossa porta para que os acolhamos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A celebra\u00e7\u00e3o do Dia da Europa, a 9 de maio, vai voltar a ser marcada este ano pelo contexto de guerra e de crise no continente. A poucas semanas das elei\u00e7\u00f5es europeias, os bispos cat\u00f3licos da Uni\u00e3o Europeia repetem apelos \u00e0 participa\u00e7\u00e3o e \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o dos valores crist\u00e3os. D. 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