{"id":32424,"date":"2008-06-10T22:22:50","date_gmt":"2008-06-10T22:22:50","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/06\/10\/a-arte-de-ser-portugues\/"},"modified":"2008-06-10T22:22:50","modified_gmt":"2008-06-10T22:22:50","slug":"a-arte-de-ser-portugues","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-arte-de-ser-portugues\/","title":{"rendered":"A arte de ser Portugu\u00eas"},"content":{"rendered":"<p>Quest\u00f5es que temos As interroga\u00e7\u00f5es t\u00eam pelo menos mil anos. Quem somos, como povo e como pessoas? Que rela\u00e7\u00e3o temos com Portugal? E se essa rela\u00e7\u00e3o \u00e9 normalmente dif\u00edcil, a verdade \u00e9 que nos deparamos a cada passo com a compara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, com dist\u00e2ncia geogr\u00e1fica dos centros, com o confronto entre as ilus\u00f5es e as desilus\u00f5es, com a ironia e o remorso. Afinal, a quest\u00e3o que temos connosco pr\u00f3prios, de que falava o poeta, come\u00e7ou por ser garantia e defini\u00e7\u00e3o e prosseguiu entre restaura\u00e7\u00f5es e perdas, em ciclos de euforia e de depress\u00e3o, de sucesso e de decaimento. E no entanto a nossa mat\u00e9ria-prima continua a ser a mesma. E \u201colhamos Portugal como uma personalidade colectiva portadora de uma alma, no sentido rom\u00e2ntico do termo, ainda que referido a algo muito anterior ao Romantismo\u201d. E que \u00e9 o Romantismo sen\u00e3o o tentar reviver tempos imemoriais? Povo eleito? Povo enjeitado? O Padre Vieira compreendeu bem esse conflito \u00edntimo. E, como diz o nosso autor(*), a \u201crela\u00e7\u00e3o que mantemos com esse gostoso e custoso colectivo vem na esteira de um outro povo, que se descobriu eleito e portador de uma miss\u00e3o universal\u201d. Ourique e o seu milagre (1139) t\u00eam como ber\u00e7o te\u00f3rico Santa Cruz de Coimbra \u2013 \u201cA partir da profecia de que se fundaria um reino t\u00e3o imortal como a sua origem e com id\u00eantica projec\u00e7\u00e3o religiosa\u201d. E ainda h\u00e1 a sucess\u00e3o de acontecimentos que passa pela promessa dionis\u00edaca, pela afirma\u00e7\u00e3o joanina, pela ambi\u00e7\u00e3o dos Altos Infantes, pela vis\u00e3o do Pr\u00edncipe Perfeito, pelo maravilhoso crist\u00e3o de Cam\u00f5es, pela ilus\u00e3o seb\u00e1stica, pela Restaura\u00e7\u00e3o prof\u00e9tica do Padre Ant\u00f3nio Vieira e, por fim, pelo ouro e pela dissolu\u00e7\u00e3o da na\u00e7\u00e3o antiga. E pass\u00e1mos a viver (se n\u00e3o viv\u00edamos j\u00e1, como mostraram Gil Vicente e S\u00e1 de Miranda) \u201cgeralmente mal connosco pr\u00f3prios, por nos acharmos sempre aqu\u00e9m do que ter\u00edamos sido ou do que poder\u00edamos ser\u2026\u201d. E h\u00e1 nisto (prossegue Manuel Clemente) \u201calgum auto-ressentimento independentemente da nossa extrac\u00e7\u00e3o religiosa ou n\u00e3o-religiosa. Todos nos embebemos de um Portugal que n\u00e3o achamos\u201d.  Biografia geogr\u00e1fica E h\u00e1 a referir a nossa rela\u00e7\u00e3o com a geografia \u2013 estranha biografia geogr\u00e1fica de um continente em miniatura que somos, com mil influ\u00eancias e que nos permite entender as diferen\u00e7as. Afinal, somos criados a partir da diferen\u00e7a \u2013 diferen\u00e7a de povos v\u00e1rios, diferen\u00e7a de paisagens variegadas, l\u00edngua de v\u00e1rias culturas. E os dois epis\u00f3dios que o autor conta do emigrante parisiense que continuava a manter um quintal lusitano e do bispo de Cochim (donde sa\u00edmos h\u00e1 400 anos) que guardava religiosamente a mem\u00f3ria portuguesa (como vi com emo\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m) d\u00e3o-nos bem conta de como somos abertos (e sedentos delas) \u00e0s inesperadas diferen\u00e7as, aventuras, descobertas, achamentos, o que quisermos\u2026 Leia-se, ali\u00e1s, Pero Vaz de Caminha\u2026Ser\u00e1 capacidade de adapta\u00e7\u00e3o ou de compreens\u00e3o? Mais do que aceitar, somos capazes de recriar. \u201cFruto mole na casca e duro por dentro\u201d. Somos assim. Ant\u00f3nio Jos\u00e9 Saraiva tem raz\u00e3o. Tudo junto contribuiu (com a geografia e a hist\u00f3ria \u00e0 mistura) para construirmos e reconstruirmos o novo sobre o velho, com o tecido da saudade, como lembran\u00e7a e desejo e como \u201cdelicioso pungir de acerbo espinho\u201d. E ser\u00e1 a poesia sinal de reconhecimento? Aqui teremos de usar cautelas especiais, pois a poesia tamb\u00e9m \u00e9 c\u00edclica \u2013 desde os trovadores aos roman-ceiros, at\u00e9 S\u00e1 de Miranda e Cam\u00f5es, a Antero, Ces\u00e1rio, Camilo Pessanha, Pessoa, at\u00e9 chegar a Ruy Belo, Ruy Cinatti, Sophia ou Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a. Mas cuidado, a poesia vem e vai, conforme abrimos ou fechamos o nosso cora\u00e7\u00e3o. Mas \u00e9 verdade que \u201cquando nos relacionamos bem com Portugal, fazemo-lo com um pa\u00eds mais sentimental do que mentalmente definido, como se a espuma das ondas nos toldasse a vis\u00e3o\u201d. E Cam\u00f5es soube entender esse maravilhoso no curso hist\u00f3rico (Ourique, Batalha, \u00cdndia) \u2013 como o tinham feito Fern\u00e3o Lopes ou D. Duarte, mas antes deles S. Teot\u00f3nio e os c\u00f3negos de Santa Cruz de Coimbra, de depois deles Bernardim e Garrett. E onde estamos representados? Nos Pain\u00e9is de Nuno Gon\u00e7alves ou na caricatura de Rafael Bordalo Pinhairo? E se virmos bem estamos nos dois lugares e nas duas atitudes \u2013 veja-se as cidades at\u00e9 ao s\u00e9culo XVIII: nobreza e plebe coexistem no mesmo espa\u00e7o citadino. E o certo \u00e9 que \u201cvamos andando, apesar de tudo. E muito \u00e0 portuguesa, \u2018depois se ver\u00e1\u2019, o que tamb\u00e9m \u00e9 j\u00e1 um saber de experi\u00eancia feito\u201d. Oi\u00e7amos, ali\u00e1s, o velho do Restelo e o seu aspecto venerando\u2026  Curios\u00edssima simbiose Que \u00e9 a cultura portuguesa sen\u00e3o esta curios\u00edssima simbiose: de transporte e de fixa\u00e7\u00e3o, de presente e de futuro, de esperan\u00e7a e de resigna\u00e7\u00e3o? Mas, no fundo, o grande tema \u00e9 o do fatalismo do atraso ou da condena\u00e7\u00e3o da dist\u00e2ncia. E \u00e9 aqui mesmo que sentimos a tens\u00e3o forte entre o destino e a raz\u00e3o, entre a vontade e o conformismo, entre o sentimento e a determina\u00e7\u00e3o. Maria de Lourdes Belchior costumava falar de um certo anti-clericalismo muito crist\u00e3o. Os \u00faltimos s\u00e9culos contribu\u00edram para essa mentalidade, que n\u00e3o perturba o Portugal mental onde a raz\u00e3o liga o sentido cr\u00edtico e o sentimento. Herculano fala de uma Igreja nacional, desenvolve a ideia de uma emancipa\u00e7\u00e3o religiosa, que hoje deve ser lida \u00e0 luz da exig\u00eancia de uma supera\u00e7\u00e3o da religiosidade conformista e conservadora, lembrada a prop\u00f3sito da confus\u00e3o arcaica entre poder espiritual e poder secular. Os temas sucedem-se, naturalmente, com as cerejas, saborosos frutos de \u00e9poca. Aos temas do anti-clericalismo e do clericalismo contrap\u00f5e-se o da liberdade religiosa. E assim ganha um sentido novo a interpreta\u00e7\u00e3o actualista da exist\u00eancia de um \u201cpovo eleito\u201d. Esse povo eleito vive confrontado com o paradoxo da vontade e do destino, da determina\u00e7\u00e3o e do fatalismo. O certo \u00e9 que a religiosidade dos tempos hist\u00f3ricos vai exigindo sempre a serenidade da pondera\u00e7\u00e3o de diferentes elementos culturais \u2013 saudade, sebastianismo, o \u201cfia-te na Virgem e n\u00e3o corras\u201d\u2026 &#8211; tudo isso vai construindo uma identidade complexa e aberta, na qual a religi\u00e3o aparece como factor de liga\u00e7\u00e3o (re-ligare) e de coes\u00e3o, mas sempre considerando a racionalidade cr\u00edtica. E \u00e0 medida que procuramos sinais de maturidade, vamos encontrando uma coexist\u00eancia desdra-matizada e serena entre o esp\u00edrito e a raz\u00e3o, entre a f\u00e9 e o sentido cr\u00edtico. Leia-se o ensaio \u201cO culto de Nossa Senhora da funda\u00e7\u00e3o \u00e0 restaura\u00e7\u00e3o da nacionalidade\u201d e poder\u00e1 compreender-se melhor a afirma\u00e7\u00e3o do templo por excel\u00eancia do Esp\u00edrito Santo. E talvez se entenda melhor, desde os alvores da nacionalidade, o espiritualismo agostiniano, joaquimita, franciscano (veja-se Jaime Cortes\u00e3o), a \u00e2nsia de descoberta da natureza e da novidade, o entendimento dos valores no feminino. Releiam-se as \u201cCantigas de Canta Maria\u201d de Afonso X, o S\u00e1bio, escritas em galego portugu\u00eas, e entenda-se a humildade glorificada. E neste Portugal Finisterra, onde a terra acaba e o mar come\u00e7a, temos ainda de encontrar a realidade ribeirinha. O mar \u00e9 o s\u00edmbolo, ponto de uni\u00e3o e sinal de fecundi-dade na pesca milagrosa. E aqui encontramos ainda o \u201cideal viajante\u201d \u2013 de que Portugal \u00e9 paradigma \u2013 Porto, porta, oportunidade\u2026 Paulo Or\u00f3sio dialoga com Santo Agostinho e desenha o nosso c\u00f3digo gen\u00e9tico cultural. E relemos de novo as Viagens de Marco P\u00f3lo, em busca do Presb\u00edtero Jo\u00e3o, o crist\u00e3o desconhecido que se procura descobrir\u2026 \u201cAssim partimos, navegamos e regressamos, para voltar a partir. A hist\u00f3ria crist\u00e3 escreve-se sobre as \u00e1guas e simboliza-se nelas. E o sulco que abriu no mar \u00e9 ainda o sulco por abrir\u201d. E de Europa ainda se fala, como lugar de encontros e de diferen\u00e7as, n\u00e3o como \u201cclube crist\u00e3o\u201d no sentido excludente, mas \u201cinspirando-se no exemplo de Cristo\u201d, garantindo a todos (crist\u00e3os e n\u00e3o crist\u00e3os) \u201co lugar consistente de encontro e projecto\u201d\u2026  Guilherme d&#8217;Oliveira Martins Presidente do Centro Nacional de Cultura (Texto   de apresenta\u00e7\u00e3o do livro de D. Ma-nuel Clemente Portugal e os Portugueses)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quest\u00f5es que temos As interroga\u00e7\u00f5es t\u00eam pelo menos mil anos. 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