{"id":323799,"date":"2024-04-28T09:30:05","date_gmt":"2024-04-28T08:30:05","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=323799"},"modified":"2024-04-28T08:13:10","modified_gmt":"2024-04-28T07:13:10","slug":"1-o-de-maio-nao-encontramos-muitos-movimentos-na-igreja-que-tomem-a-serio-a-vida-dos-trabalhadores-padre-horacio-noronha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/1-o-de-maio-nao-encontramos-muitos-movimentos-na-igreja-que-tomem-a-serio-a-vida-dos-trabalhadores-padre-horacio-noronha\/","title":{"rendered":"1.\u00ba de Maio: \u00abN\u00e3o encontramos muitos movimentos na Igreja que tomem a s\u00e9rio a vida dos trabalhadores\u00bb &#8211; padre Hor\u00e1cio Noronha"},"content":{"rendered":"<p><em>O padre Hor\u00e1cio Noronha, antigo assistente da Liga Oper\u00e1ria Cat\u00f3lica, \u00e9 o convidado da Renascen\u00e7a e da Ecclesia, nesta semana, evocando o hist\u00f3rico 1.\u00ba de Maio de 1974<\/em><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_323806\" aria-describedby=\"caption-attachment-323806\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/IMG_20240424_113316.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-323806 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/IMG_20240424_113316.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1440\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/IMG_20240424_113316.jpg 1920w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/IMG_20240424_113316-347x260.jpg 347w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/IMG_20240424_113316-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/IMG_20240424_113316-768x576.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/IMG_20240424_113316-1536x1152.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-323806\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA\/OC<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia) <\/em><\/p>\n<p><em>Que mem\u00f3rias guarda do 1\u00ba de Maio de 74, daquela grande manifesta\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>Nessa altura vivia em Lisboa, estava como assistente nacional da JOC e, portanto, participei com grande alegria, com grande empenhamento nessa manifesta\u00e7\u00e3o do 1\u00ba de Maio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Tamb\u00e9m saiu \u00e0 rua? <\/em><\/p>\n<p>Sim, sa\u00ed \u00e0 rua, andei por a\u00ed e tenho muito boas recorda\u00e7\u00f5es. Foi uma festa, uma festa enorme, com toda a gente a festejar, com bandeiras, a editar slogans. Foi, realmente, uma comemora\u00e7\u00e3o muito festiva e, digamos que, unit\u00e1ria. Toda a gente, n\u00e3o havia divis\u00f5es, estavam todos unidos. Foi, para mim, uma grande alegria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E como foi viver aqueles primeiros tempos em que tudo se questionava e em que tamb\u00e9m era necess\u00e1rio, a dado momento, apelar \u00e0 serenidade?<\/em><\/p>\n<p>Foram momentos, assim, muito estimulantes, porque eu trabalhava com a JOC, j\u00e1 desde 1969 e, portanto, havia dentro dos militantes da JOC e dos seus dirigentes um grande desejo de que isso acontecesse. N\u00e3o se sabia como, mas que acontecesse uma mudan\u00e7a, no nosso pa\u00eds. Viv\u00edamos, t\u00ednhamos v\u00e1rias experi\u00eancias de falta de liberdade, como, por exemplo, na censura do jornal, como a procura de certas publica\u00e7\u00f5es, como certas reuni\u00f5es que eram tamb\u00e9m, sab\u00edamos que eram vigiadas, tudo isso. De modo que foi, assim, uma grande alegria, um grande al\u00edvio, uma grande festa tamb\u00e9m, essa passagem do dia 24 para o dia 25 de Abril.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Falou do papel da JOC. Sabemos que os movimentos juvenis foram muito importantes para abrir caminho ao que foi a mudan\u00e7a de regime, pelo menos do ponto de vista cultural e de pensamento. Que papel \u00e9 que estava destinado aos movimentos cat\u00f3licos e, particularmente, aos jovens oper\u00e1rios cat\u00f3licos, neste contexto de mudan\u00e7a?<\/em><\/p>\n<p>No contexto de mudan\u00e7a, eu acho que tiveram um papel importante, inclusive nessa altura a JOC era muito solicitada pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o, normalmente pela televis\u00e3o, para entrevistas, porque percebiam que na JOC havia certas sementes que tinham a ver com este mundo novo que estava a despontar. E havia pessoas muito empenhadas que, depois tamb\u00e9m, se implicaram noutras \u00e1reas, sobretudo a n\u00edvel sindical, a n\u00edvel associativo, nalguns casos tamb\u00e9m a n\u00edvel pol\u00edtico. Foi uma passagem muito importante, que n\u00f3s vivemos todos com muito empenhamento e com muita alegria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Chegados aqui, 50 anos depois do 25 de Abril, o 1.\u00ba de Maio tem de ser sempre um dia de festa, de comemora\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m de luta por direitos que s\u00e3o essenciais \u00e0 dignidade dos trabalhadores?<\/em><\/p>\n<p>Quer dizer, o 1\u00ba de Maio, por tradi\u00e7\u00e3o, \u00e9 celebrado mais como um dia de festa, um dia celebrativo, desde aquele 1\u00ba de Maio inicial, que foi a prop\u00f3sito da reivindica\u00e7\u00e3o dos oper\u00e1rios de Chicago, em 1886, e que depois foi assumido como uma celebra\u00e7\u00e3o mundial, alguns anos depois &#8211; mais tarde tamb\u00e9m pela Igreja, que se associou a esta festa dos trabalhadores, instituindo a festa de S\u00e3o Jos\u00e9 Oper\u00e1rio, no dia 1 de maio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>H\u00e1 quest\u00f5es que, se calhar, s\u00e3o mais lembradas nesse dia, at\u00e9 pela origem da celebra\u00e7\u00e3o, mas que est\u00e3o no dia a dia de todas as pessoas, quest\u00f5es dos direitos laborais, da necessidade de trabalhar pela dignidade dos trabalhadores\u2026<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 verdade, que sendo um dia de festa, \u00e9 tamb\u00e9m um dia em que n\u00e3o ficam esquecidos os problemas dos trabalhadores. Hoje ainda se vivem muitos problemas que se viviam naquele tempo, quando isto come\u00e7ou. Por exemplo, hoje vive-se muita precariedade no trabalho, o desemprego, h\u00e1 pessoas que trabalham e s\u00e3o pobres, h\u00e1 as m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es de trabalho, os sal\u00e1rios baixos, mais recentemente tudo o que vem do teletrabalho, da intelig\u00eancia artificial, s\u00e3o realidade novas e que questionam a vida dos trabalhadores. Eles tamb\u00e9m t\u00eam alguma palavra a dizer quanto a isso, e de facto dizem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Essa quest\u00e3o dos trabalhadores pobres, cerca de 10% dos trabalhadores em Portugal ser\u00e3o pobres, \u00e9 das mais preocupantes da realidade atual do trabalho? <\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o sei se ser\u00e1 a mais dif\u00edcil, \u00e9 uma das dif\u00edceis, porque h\u00e1 muitas outras que tamb\u00e9m s\u00e3o dif\u00edceis e complicadas. Essa \u00e9 uma realidade dif\u00edcil que nos questiona, questiona a todos, a Igreja tamb\u00e9m, tamb\u00e9m interv\u00e9m nessa \u00e1rea, procurando em especial uma ajuda fraterna \u00e0queles que mais precisam. Essa ajuda tamb\u00e9m p\u00f5e alguns problemas\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_323804\" aria-describedby=\"caption-attachment-323804\" style=\"width: 347px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/IMG_20240424_112850.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-323804\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/IMG_20240424_112850-347x260.jpg\" alt=\"\" width=\"347\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/IMG_20240424_112850-347x260.jpg 347w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/IMG_20240424_112850-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/IMG_20240424_112850-768x576.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/IMG_20240424_112850-1536x1152.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/IMG_20240424_112850.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 347px) 100vw, 347px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-323804\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA\/OC<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Est\u00e1 preocupado com o teletrabalho?<\/em><\/p>\n<p>Olhe, na hist\u00f3ria da vida dos trabalhadores, passou-se por situa\u00e7\u00f5es que t\u00eam a ver com esta. Quando foi o in\u00edcio da era industrial, os trabalhadores aceitaram muito mal a introdu\u00e7\u00e3o das m\u00e1quinas nas f\u00e1bricas, porque isto ia tirar postos de trabalho. Depois veio a verificar-se que, afinal, a m\u00e1quina n\u00e3o era uma coisa m\u00e1, mas era at\u00e9 um aux\u00edlio muito importante para o trabalho oper\u00e1rio. Hoje, o teletrabalho tem interpreta\u00e7\u00f5es diferentes. H\u00e1 pessoas que apreciam, por exemplo, pessoas que trabalham em casa sentem-se bem, gostam, preferem, mas h\u00e1 outras pessoas que n\u00e3o gostam, sobretudo porque as priva do conv\u00edvio com os outros trabalhadores, porque \u00e9 um trabalho mais isolado, a pessoa est\u00e1 s\u00f3.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E dificulta mais o direito a desligar, n\u00e3o \u00e9? <\/em><\/p>\n<p>Exato.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Tem acompanhado h\u00e1 d\u00e9cadas, como falamos, os movimentos oper\u00e1rios da pastoral desde a Juventude Oper\u00e1ria Cat\u00f3lica, agora durante muito tempo a Liga Oper\u00e1ria Cat\u00f3lica-Movimento dos Trabalhadores Crist\u00e3os. Como tem visto a aten\u00e7\u00e3o destes movimentos, estas realidades em mudan\u00e7a? Sente que esta vigil\u00e2ncia permanente \u00e9 bem acolhida pelo resto das comunidades cat\u00f3licas?<\/em><\/p>\n<p>Sim, tenho acompanhado. Fui assistente nacional primeiro da JOC, depois tamb\u00e9m fui da LOC, no princ\u00edpio deste s\u00e9culo. Agora que a LOC est\u00e1 sem assistente nacional, porque o \u00faltimo assistente faleceu h\u00e1 cerca de dois anos, pediram-me para fazer aquele acompanhamento poss\u00edvel. O que eu verifico \u00e9 que estes movimentos v\u00e3o tamb\u00e9m acompanhando a evolu\u00e7\u00e3o que se passa no mundo de hoje, e os problemas que existem, nomeadamente no mundo do trabalho. N\u00e3o s\u00e3o os mesmos que existiam h\u00e1 anos.<\/p>\n<p>No fundo, h\u00e1 uma realidade que permanece, mas h\u00e1 necessidade de ir acompanhando a evolu\u00e7\u00e3o dos tempos. Hoje, o trabalho da LOC e os objetivos da LOC centram-se muito na dignifica\u00e7\u00e3o do trabalho, um trabalho digno. Quem d\u00e1 dignidade ao trabalho \u00e9 a pessoa, do trabalhador, mas tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio que haja condi\u00e7\u00f5es dignas do trabalho, como eu referia h\u00e1 pouco, a quest\u00e3o dos empregos, as m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es, os sal\u00e1rios, etc.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Relativamente \u00e0 quest\u00e3o da dignidade do trabalho, recentemente o bispo de Set\u00fabal, o cardeal D. Am\u00e9rico, alertava para uma realidade \u201cdura e cruel\u201d, nas suas palavras, vivida pelos mariscadores, na Diocese. Esta realidade de trabalho prec\u00e1rio, por vezes escravo, \u00e9 quase sempre associada \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o. H\u00e1 muito a fazer na defesa destas popula\u00e7\u00f5es desprotegidas?<\/em><\/p>\n<p>Com certeza. Quanto \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o, eu vejo duas faces do problema: um \u00e9 o bom acolhimento que se deve fazer aos imigrantes, quer ao n\u00edvel das rela\u00e7\u00f5es pessoais, quer ao n\u00edvel mesmo da legisla\u00e7\u00e3o, ao n\u00edvel das empresas\u2026 h\u00e1 muita coisa negativa. Por outro lado, \u00e9 um problema mais de fundo, seria importante criar nos pa\u00edses de origem desses imigrantes condi\u00e7\u00f5es para que eles pudessem l\u00e1 ter trabalho e um trabalho digno tamb\u00e9m. Esse \u00e9 um grande problema que n\u00e3o \u00e9 novo, mas que permanece e \u00e9 importante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Padre Hor\u00e1cio tem falado de muitas coisas que permanecem: Celebramos os 50 anos do 25 de Abril, e j\u00e1 nos falou do trabalho que j\u00e1 fazia antes com institui\u00e7\u00f5es cat\u00f3licas nesta \u00e1rea da pastoral oper\u00e1ria, e eu quero perguntar-lhe se, particularmente nos anos antes da Revolu\u00e7\u00e3o, se esse esfor\u00e7o, se essa vis\u00e3o, por exemplo, da juventude oper\u00e1ria cat\u00f3lica era bem vista por toda a gente, ou se essa reflex\u00e3o que era feita em contexto do movimento oper\u00e1rio cat\u00f3lico n\u00e3o criava tamb\u00e9m alguma tens\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>Sim, sempre houve um pouco de tudo, mas a JOC, quando apareceu, nos anos de 35, era um movimento que correspondia a uma necessidade que todos sentiam, e por isso teve uma grande aceita\u00e7\u00e3o. N\u00e3o digo todas as par\u00f3quias, mas uma grande maioria das par\u00f3quias tinham grupos de JOC.\u00a0 Numa certa altura, nos anos 60, houve um grande encontro da juventude em Lisboa, e esse encontro manifestou talvez duas faces do problema. Nessa altura era Salazar que estava no governo, e ele queria impedir a realiza\u00e7\u00e3o desse encontro. E o cardeal Cerejeira disse-lhe que, quem tocar na JOC, toca na Igreja, de modo que s\u00e3o duas posi\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias. Na pr\u00e1tica, havia sempre aqueles que aceitavam com gosto, outros que nem por isso, e alguns achavam que lutar pela justi\u00e7a, pela liberdade, etc., que era assim quase contr\u00e1rio ao esp\u00edrito crist\u00e3o, ao esp\u00edrito evang\u00e9lico; alguns diziam que eram os comunistas. Uma falta de compreens\u00e3o do que \u00e9 a a\u00e7\u00e3o libertadora do Evangelho, do que o Evangelho prop\u00f5e. O Papa Francisco, ainda h\u00e1 pouco tempo, falou na quest\u00e3o do trabalho digno, e dizia n\u00e3o ao abuso do trabalho prec\u00e1rio, promovendo o adiamento das escolhas da vida dos jovens.\u00a0 Ele, em muitas outras ocasi\u00f5es, tem falado nisso, especialmente na Fratelli Tutti, mas j\u00e1 antes, desde a Rerum Novarum, por a\u00ed fora, a Igreja tem uma s\u00e9rie de documenta\u00e7\u00e3o muito abundante sobre os temas de trabalho, s\u00f3 que depois, na pr\u00e1tica, \u00e9 mais dif\u00edcil isso passar.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>E \u00e9 necess\u00e1rio um maior empenho por parte dos movimentos da Igreja, na defesa desses trabalhadores que ainda agora fal\u00e1vamos, sobretudo daqueles mais desprotegidos que est\u00e3o ligados, por vezes, a redes de imigra\u00e7\u00e3o? <\/em><\/p>\n<p>Ah, isso sim. Os movimentos que se dedicam a estas causas permanecem ativos. Eu falo por aqueles que conhe\u00e7o, e nos crist\u00e3os em geral e na Igreja em geral, existe um certo problema dif\u00edcil de analisar, que \u00e9 alguma indiferen\u00e7a e um certo medo de se meter por estes caminhos. N\u00f3s n\u00e3o encontramos muitos movimentos na Igreja que tomem a s\u00e9rio a vida dos trabalhadores, os seus problemas, as suas ang\u00fastias e tamb\u00e9m as suas lutas libertadoras. E nas express\u00f5es p\u00fablicas que ouvimos, \u00e9 raro tamb\u00e9m termos alus\u00f5es a esta \u00e1rea. Existem algumas alus\u00f5es \u00e0 Pastoral do Trabalho, e em alguns pa\u00edses, por exemplo, em Espanha, especialmente a Conferencia Episcopal tem um sector que se chama a Pastoral do Trabalho. Em Portugal n\u00e3o temos.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Temos a Pastoral Social, que engloba tudo.<\/em><\/p>\n<p>Depois engloba tudo e quando \u00e9 tudo, acaba por n\u00e3o ser nada, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas pergunto-lhe especificamente, se sente essa preocupa\u00e7\u00e3o? H\u00e1 uma ideia de que os trabalhadores s\u00e3o pouco ouvidos na Igreja. <\/em><\/p>\n<p>Eu vou-lhe responder isso com uma conversa que tive agora h\u00e1 pouco tempo com um Bispo. N\u00f3s est\u00e1vamos numa forma\u00e7\u00e3o de padres, que temos todos os anos, das dioceses do sul. Houve a interven\u00e7\u00e3o de um padre de Braga que se ocupa da pastoral universit\u00e1ria. Ele, na sua interven\u00e7\u00e3o, referiu que em Portugal, apenas 42% dos jovens, agora falando de jovens, t\u00eam acesso \u00e0 universidade. E eu, no intervalo, perguntei a um dos bispos: E os outros 58%, quem cuida deles? Ele disse, pois, e o mais grave \u00e9 que n\u00e3o foram eles que se afastaram, fomos n\u00f3s que os abandon\u00e1mos. Quer dizer, portanto, que h\u00e1 aqui um certo mal-entendido entre a Igreja e o mundo do trabalho. H\u00e1 assim uma dificuldade em isso ser tomado a s\u00e9rio e a ser assumido.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>E essa dificuldade poderia ser superada, por exemplo, com uma dinamiza\u00e7\u00e3o maior da chamada pastoral do trabalho? <\/em><\/p>\n<p>Pois, acho que \u00e9 isso que faz falta, no plano das ideias, de propor e clarificar essas ideias. inclusivamente a liga\u00e7\u00e3o ao Evangelho, \u00e0 mensagem libertadora de Jesus Cristo, e depois ter meios. H\u00e1 quem diga, por exemplo, que estes movimentos de a\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica est\u00e3o desatualizados. Tudo bem, eu acho que estes movimentos n\u00e3o t\u00eam promessa de vida eterna, s\u00f3 que ainda n\u00e3o encontrei nada que os possa substituir, que possa fazer esse trabalho que era necess\u00e1rio ser feito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Quem est\u00e1 a ouvir esta conversa est\u00e1 a ouvi-la a um domingo, que \u00e9 um tema que tem sido presente na pastoral oper\u00e1ria, sobretudo na Europa, que \u00e9 a quest\u00e3o do domingo livre. \u00c9 uma batalha que est\u00e1 definitivamente perdida?<\/em><\/p>\n<p>Eu n\u00e3o sei. Eu sei que a LOC trabalha muito nessa \u00e1rea e tem v\u00e1rias reflex\u00f5es, inclusive documentos sobre isso, mas eu pessoalmente n\u00e3o fa\u00e7o compras ao domingo. Mas um dia destes, eu vivo em Almada, e fui ao F\u00f3rum de Almada um domingo de manh\u00e3. Estava cheio. Estava cheio. E eu pensei, este problema n\u00e3o se resolve nem com leis, nem com nada disso. Somos n\u00f3s que temos de o resolver. Se n\u00e3o fizermos compras, aquilo fecha, mas enquanto houver gente para comprar aquilo vai estar aberto. \u00c9 uma luta que eu acho que deve continuar, mas n\u00e3o sei como se pode resolver.<\/p>\n<p><em>Porque h\u00e1 muitas quest\u00f5es que est\u00e3o ligadas e que s\u00e3o transversais, n\u00e3o \u00e9? Tamb\u00e9m a possibilidade de trabalhar mais perto de casa, ter mais tempo livre durante a semana para que o domingo seja verdadeiramente um dia livre.\u00a0 S\u00e3o quest\u00f5es da pastoral do trabalho que se cruzam nessa mat\u00e9ria?<\/em><\/p>\n<p>Pois, pois.\u00a0 A Igreja prop\u00f5e que o domingo seja o Dia da Fam\u00edlia, o dia tamb\u00e9m de culto, religioso, e para isso \u00e9 necess\u00e1rio tempo, disponibilidade. A vida de fam\u00edlias tamb\u00e9m, para se poder conviver, etc. \u00c9 verdade tamb\u00e9m que alguns v\u00e3o ao centro comercial para passear. V\u00e3o em fam\u00edlia e aproveitam para passear. \u00c9 um tema um bocado complexo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Padre Hor\u00e1cio, 133 anos depois da sua publica\u00e7\u00e3o, a enc\u00edclica Rerum Novarum, de Le\u00e3o XIII, que tratou das condi\u00e7\u00f5es do trabalho, permanece como um documento muito atual na defesa da dignidade do trabalhador?<\/em><\/p>\n<p>Pois, a Rerum Novarum come\u00e7ava por se referir \u00e0 mis\u00e9ria imerecida dos prolet\u00e1rios, dos trabalhadores, que era fruto da concentra\u00e7\u00e3o da riqueza nas m\u00e3os de um pequeno n\u00famero.\u00a0 Enquanto a grande maioria permanecia na mis\u00e9ria. Acho que assim, tomando isto assim no geral, o problema mant\u00e9m-se. O problema mant\u00e9m-se. Cada vez h\u00e1 menos ricos, mas mais ricos, cada vez h\u00e1 mais pobres e mais pobres, com maior \u00edndice de pobreza.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E o conhecimento deste pensamento social-crist\u00e3o, da doutrina social da Igreja, como \u00e9 tradicionalmente conhecida, poderia ajudar a superar aquilo que falava pouco, de uma certa incompreens\u00e3o entre a Igreja e o mundo do trabalho?<\/em><\/p>\n<p>Sim, se ela fosse bem estudada, bem compreendida e posta em pr\u00e1tica, esse problema nunca estaria totalmente resolvido, mas seria o caminho. Quanto a mim seria o caminho. S\u00f3 que uma coisa \u00e9 a comunica\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a vossa \u00e1rea, uma coisa \u00e9 o emissor, outra coisa \u00e9 o recetor. Portanto, aqui h\u00e1 uma emiss\u00e3o forte de doutrina, de documentos, etc.; agora, a sua rece\u00e7\u00e3o, quanto a mim, permanece fraca.<\/p>\n<p><em>Padre Hor\u00e1cio, vamos terminar a nossa entrevista e deixamos para o final a sua mensagem para este Dia do Trabalhador, o 1\u00ba de Maio? <\/em><\/p>\n<p>O que eu posso dizer \u00e9 que eu desejo que seja um dia de festa, um dia em que pud\u00e9ssemos estar o mais poss\u00edvel unidos, nos mesmos objetivos, nos mesmos trabalhos e que no aspeto da Igreja, pudesse ser -n\u00e3o sei se poder\u00e1 ser, se isso pode ser assim- mas que pudesse ser um est\u00edmulo para encararmos de uma maneira mais objetiva, mais verdadeira tamb\u00e9m, esta \u00e1rea da vida das pessoas, da vida dos trabalhadores, de maneira a haver uma maior compreens\u00e3o, uma maior rece\u00e7\u00e3o dos numerosos documentos que existem sobre o assunto e tamb\u00e9m um esfor\u00e7o para os p\u00f4r em pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O padre Hor\u00e1cio Noronha, antigo assistente da Liga Oper\u00e1ria Cat\u00f3lica, \u00e9 o convidado da Renascen\u00e7a e da Ecclesia, nesta semana, evocando o hist\u00f3rico 1.\u00ba de Maio de 1974<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":323805,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center 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