{"id":322797,"date":"2024-04-21T09:30:15","date_gmt":"2024-04-21T08:30:15","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=322797"},"modified":"2024-04-22T15:41:22","modified_gmt":"2024-04-22T14:41:22","slug":"25-de-abril-havia-da-parte-de-alguns-bispos-uma-consciencia-de-que-o-regime-nao-podia-prosseguir-com-aquele-esforco-de-guerra-antonio-araujo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/25-de-abril-havia-da-parte-de-alguns-bispos-uma-consciencia-de-que-o-regime-nao-podia-prosseguir-com-aquele-esforco-de-guerra-antonio-araujo\/","title":{"rendered":"25 de Abril: \u00abDa parte de alguns bispos havia uma consci\u00eancia de que o regime n\u00e3o podia prosseguir com aquele esfor\u00e7o de guerra\u00bb &#8211; Ant\u00f3nio Ara\u00fajo"},"content":{"rendered":"<p><em>Jurista e investigador, integra a Comiss\u00e3o Executiva e do Conselho de Administra\u00e7\u00e3o da Funda\u00e7\u00e3o Francisco Manuel dos Santos. Com v\u00e1rios livros publicados sobre o per\u00edodo do Estado Novo, \u00e9 autor de uma tese acad\u00e9mica sobre a Vig\u00edlia da Capela do Rato<\/em><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_323083\" aria-describedby=\"caption-attachment-323083\" style=\"width: 1024px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-323083 size-large\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Antonio-Araujo-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Antonio-Araujo-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Antonio-Araujo-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Antonio-Araujo-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Antonio-Araujo-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Antonio-Araujo.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-323083\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em>Esteve na Comiss\u00e3o Organizadora das Celebra\u00e7\u00f5es dos 50 Anos dessa vig\u00edlia. Para quem nos est\u00e1 a ouvir, porque \u00e9 que este momento \u00e9 t\u00e3o significativo para a\u00a0hist\u00f3ria contempor\u00e2nea de Portugal?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil responder muito telegraficamente, porque acho que foi talvez o gesto mais emblem\u00e1tico e mais simb\u00f3lico de manifesta\u00e7\u00e3o de uma esp\u00e9cie de resist\u00eancia cat\u00f3lica ao regime do Estado Novo e de questionamento por parte dos crentes, de uma minoria de crentes, \u00e9 certo, mas apesar de tudo muito ativa; aquilo a que D. Helder C\u00e2mara chamava as minorias abra\u00e2micas. Um questionamento da guerra colonial em nome do lema anunciado por Paulo VI de que a paz \u00e9 poss\u00edvel. Portanto, estamos a falar das comemora\u00e7\u00f5es do Dia Mundial da Paz no in\u00edcio do ano de 73.<\/p>\n<p>E o caso teve uma s\u00e9rie de repercuss\u00f5es pol\u00edticas, como \u00e9 evidente, porque foi uma Vig\u00edlia, uma ocupa\u00e7\u00e3o, apesar de tudo, mais ou menos consentida da Capela do Rato, e seguida de uma greve de fome, de protesto, e depois de uma s\u00e9rie de debates que foram realizados dentro da Capela, com pessoas como por exemplo Sofia de Melo Breyner e Francisco de\u00a0 Sousa Tavares. E em grande parte o impacto dessa vig\u00edlia decorreu da rea\u00e7\u00e3o das autoridades que invadiram o templo e prenderam uma s\u00e9rie de pessoas que l\u00e1 se encontravam. E depois, a partir da\u00ed, tudo isso teve uma repercuss\u00e3o muito grande nos meios pol\u00edticos, por via da chamada ala liberal dos deputados, sobretudo Francisco S\u00e1 Carneiro e Miller Guerra, que levaram a quest\u00e3o da entrada da pol\u00edcia num templo religioso, a debate na Assembleia Nacional. Houve um grave confronto com um deputado dito ultra, que era Francisco Casal Ribeiro, portanto mais ligado, se quisermos, ao legado salazarista.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Sim, quando se fala de aula liberal, para quem n\u00e3o est\u00e1 t\u00e3o familiarizado, vamos dizer que \u00e9 uma esp\u00e9cie de terceira via que ia surgindo&#8230;<\/em><\/p>\n<p>Exatamente, a ala liberal foi um conjunto de jovens deputados que, Marcelo Caetano, por via de Melo e Castro, decidiu abrir, mas faziam parte das listas da Ac\u00e3o Nacional Popular que tinha deixado de ser tratada Uni\u00e3o Nacional, o partido \u00fanico de apoio ao regime. Eles faziam parte do conjunto de deputados que nas\u00a0elei\u00e7\u00f5es de 69 entraram para a Assembleia Nacional. Era um conjunto relativamente reduzido, mas j\u00e1 agora eu tamb\u00e9m estou ligado a algo que foi a celebra\u00e7\u00e3o, e ainda continua, do encontro dos liberais, que foi um encontro tido em julho de 73, e muitos desses liberais pertenciam \u00e0 dita ala liberal, que pouco tem a ver, ou se quisermos, para as pessoas perceberem, a ala liberal n\u00e3o significa a Iniciativa Liberal dos nossos dias. Eram, antes pessoas que queriam a liberaliza\u00e7\u00e3o do regime, e pessoas que estiveram grande parte delas na funda\u00e7\u00e3o do PPD, hoje PPD-PSD.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>O que acontece na Vig\u00edlia da Capela do Rato acaba por ser um sinal de que a ideia de que o regime era reformul\u00e1vel por dentro, sofre a\u00ed um duro golpe, com esta atitude repressiva?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o foi apenas a isto, \u00e9 uma s\u00e9rie de repress\u00f5es, para j\u00e1 desde logo a reelei\u00e7\u00e3o de Am\u00e9rico Tom\u00e1s em 72, \u00e9 talvez o sinal mais emblem\u00e1tico de que o regime era incapaz de se reformar por dentro, porque houve tentativas de candidatura at\u00e9 do general Sp\u00ednola, at\u00e9 de Marcial Caetano. Houve gente que queria que Marcelo Caetano fosse eleito, que se candidatasse ao cargo de Presidente da Rep\u00fablica, mas se quisermos, a reelei\u00e7\u00e3o de Tom\u00e1s, que no fundo Marcelo acaba por aceitar, \u00e9 o sinal mais expressivo de que o regime n\u00e3o se ia reformar e sobretudo que a pol\u00edtica de continua\u00e7\u00e3o da guerra colonial naqueles moldes iria prosseguir.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas isso deu for\u00e7a a que por fora se iniciasse um processo?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Sim, sim, sim, \u00e9 preciso dizer que antes da vig\u00edlia, desta vig\u00edlia de finais de 72, in\u00edcio de 73, j\u00e1 tinha havido uma tentativa de uma outra, a chamada Vig\u00edlia de S\u00e3o Domingos, no final dos anos 60, que n\u00e3o teve a mesma proje\u00e7\u00e3o, talvez por alguma inexperi\u00eancia das pessoas que estavam a organizar, Nuno Teot\u00f3nio Pereira, Lu\u00eds Moita, etc. O cl\u00e9rigo que estava respons\u00e1vel conseguiu dominar os acontecimentos. Aqui n\u00e3o, a escolha da Capela do Rato foi muito feliz, a equipa sacerdotal que estava era bastante alinhada, ainda que tenha tido um conhecimento muito leve do que se ia passar, mas o Padre Alberto de Neto, Ant\u00f3nio Janela, Armindo Garcia, j\u00e1 eram padres, bastante avan\u00e7ados. E,\u00a0portanto, isso ajudou muito ao \u00eaxito da jornada. Mas talvez o fator mais decisivo, como digo, tenha sido a entrada da pol\u00edcia na Capela.<\/p>\n<p>Entrevistas que fiz anos depois mostraram que talvez a pol\u00edcia tenha errado e que a t\u00e9cnica que teria sido mais eficaz para retirar as pessoas da capela tivesse sido cortar a \u00e1gua ou luz. Era isso que os organizadores mais temiam. N\u00e3o foi isso que a PSP fez. A PSP do Capit\u00e3o Malt\u00eas entrou na Capela e \u00e0 for\u00e7a retirou uma s\u00e9rie de pessoas, entre os quais um jovem que n\u00e3o era cat\u00f3lico e que estava ali por solidariedade, o Francisco Lou\u00e7\u00e3. Eles foram presos pouco tempo, talvez 15 dias no m\u00e1ximo. Os principais dinamizadores, os rostos mais vis\u00edveis s\u00e3o presos pouco tempo. Diferente foi a situa\u00e7\u00e3o mais tarde, onde se d\u00e3o pris\u00f5es muito mais graves \u00e9 no final do ano de 73. A\u00ed uma s\u00e9rie de cat\u00f3licos, j\u00e1 por acusa\u00e7\u00e3o de cumplicidade com as Brigadas Revolucion\u00e1rias de Carlos Antunes e Isabel do Carmo, que tamb\u00e9m tiveram uma participa\u00e7\u00e3o na Vig\u00edlia da Capela do Rato no in\u00edcio do ano de 73, tamb\u00e9m s\u00e3o presos. Nesse momento, s\u00e3o acusados do transporte de explosivos, de esconderem explosivos. A\u00ed Nuno Teot\u00f3nio Pereira&#8230;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Contextualizando, aqui o que temos em causa \u00e9 o facto de estes movimentos cat\u00f3licos, ao contr\u00e1rio de outros movimentos de oposi\u00e7\u00e3o ao regime n\u00e3o operavam na clandestinidade. Tinham uma identidade, tinham um reconhecimento. E, portanto, h\u00e1 um impacto muito severo quando h\u00e1 um confronto com o regime por parte destes movimentos que n\u00e3o s\u00e3o clandestinos<\/em>&#8230;.<\/p>\n<p>Alguns deles seriam mais clandestinos, como por exemplo, os cadernos de GEDOC do padre Felicidade Alves e de Nuno Teot\u00f3nio Pereira, mas havia um confronto que se desenhava desde o p\u00f3s-guerra. O Jornal Trabalhador do padre Abel Varzim, o padre Alves Correia, o Congresso dos Homens Cat\u00f3licos em 1950, as atua\u00e7\u00f5es de Francisco Lino Neto, tudo isso era feito ainda, se quisermos, dentro do regime, num certo sentido, e era feito \u00e0s claras. Depois houve uma radicaliza\u00e7\u00e3o, sobretudo nos anos 60, e chegou-se \u00e0 ideia, como dizia Ant\u00f3nio Matos Ferreira, que a chamada oposi\u00e7\u00e3o do stencil e do policopiador, que era dos abaixo-assinados, de distribuir panfletos, era pouco consequente. E por isso envereda-se por caminhos mais ligados \u00e0 a\u00e7\u00e3o direta, a a\u00e7\u00f5es de protesto. As mais vis\u00edveis ter\u00e3o sido essas da Vig\u00edlia de S\u00e3o Domingos, e mesmo assim n\u00e3o muito vis\u00edvel, e sobretudo a Capela do Rato. Mas fizeram-se muitas coisas, como por exemplo distribui\u00e7\u00e3o de propaganda e folhetos clandestinos; esses em F\u00e1tima. Havia j\u00e1 uma rede de oposicionismo cat\u00f3lico muito desenvolvida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>J\u00e1 falou aqui do Dia Mundial da Paz, de Paulo VI. Que papel t\u00eam os documentos do Conselho Vaticano II e os pontificados de Jo\u00e3o XXIII e Paulo VI no desenvolvimento da contesta\u00e7\u00e3o \u00e0 pol\u00edtica colonial portuguesa, e em particular da consciencializa\u00e7\u00e3o de que a guerra era injusta e era tamb\u00e9m in\u00fatil?<\/em><\/p>\n<p>Muito grande, e acho que talvez do ponto de vista eclesial o acontecimento decisivo \u00e9 o Vaticano II e depois os pontificados de Jo\u00e3o XXIII e de Paulo VI.<\/p>\n<p>Recordo que em 73 o Episcopado portugu\u00eas faz uma carta pastoral sobre o d\u00e9cimo anivers\u00e1rio da Pacem in Terris, da Enc\u00edclica que proclamava a paz de 63, de Jo\u00e3o XXIII. Era uma Enc\u00edclica sobre a paz num pa\u00eds que estava em guerra. Vejam o significado de haver uma enc\u00edclica papal a falar da necessidade da paz na terra. Era algo j\u00e1 de si subversivo.<\/p>\n<p>E depois Paulo VI tem, como se sabe, algumas a\u00e7\u00f5es, nomeadamente a ida ao Congresso Eucar\u00edstico de Bombaim em 1964, e depois mesmo a vinda de Paulo VI a F\u00e1tima j\u00e1 no final do regime, ou melhor, j\u00e1 no final do salazarismo, tamb\u00e9m \u00e9 marcada em 67, \u00e9 marcada tamb\u00e9m por algumas notas importantes. Paulo VI n\u00e3o vem a Lisboa. Paulo VI desembarca em Monte Real. Paulo VI faz daquela visita, n\u00e3o uma visita com car\u00e1ter pol\u00edtico, mas uma visita eminentemente pastoral. E diz-se at\u00e9 que o encontro com o Salazar n\u00e3o ter\u00e1 decorrido das menores formas. Porqu\u00ea? Porque o Salazar ter-se-\u00e1 dirigido a Paulo VI como Sua Santidade, e Paulo VI ter\u00e1 replicado: sua eternidade. Isso talvez fa\u00e7a parte da pequena hist\u00f3ria, e n\u00e3o seja real,\u00a0\u00a0mas mais significativo, como \u00e9 evidente, \u00e9 o facto de Paulo VI receber os chamados l\u00edderes dos movimentos de liberta\u00e7\u00e3o, que se encontravam em Roma, portanto no in\u00edcio dos anos 70, e depois, j\u00e1 depois da Vig\u00edlia, h\u00e1 um facto muito significativo, que \u00e9 a den\u00fancia pelo padre Adrian Hastings do massacre de Viriamu, que foi uma tr\u00e1gica coincid\u00eancia com a Capela do Rato, e foi mais ou menos nessa altura, no in\u00edcio de 73, mas n\u00e3o tem liga\u00e7\u00e3o. Isto \u00e9, as pessoas que est\u00e3o na Capela n\u00e3o sequer adivinhavam o que se estava a passar.<\/p>\n<p>Havia, era da parte j\u00e1 de uma s\u00e9rie de sacerdotes e at\u00e9 prelados das ditas col\u00f3nias do ultramar, alguns que se tinham afastado, se quisermos, da matriz do regime. Outros n\u00e3o, como por exemplo Dom Crist\u00f3v\u00e3o Alvim n\u00e3o; era uma pessoa muito afeta ao regime e ao esfor\u00e7o de guerra colonial, mas \u00e9 preciso lembrar, por exemplo, no dia 25 de abril de 1974,\u00a0 o episcopado da metr\u00f3pole est\u00e1 em F\u00e1tima, e em 27 de abril emite uma nota sobre os acontecimentos revolucion\u00e1rios, sobre a revolu\u00e7\u00e3o dos cravos, e ao mesmo tempo tamb\u00e9m manifesta preocupa\u00e7\u00e3o pela situa\u00e7\u00e3o que foi expulso do territ\u00f3rio de Mo\u00e7ambique, Dom Manuel Vieira Pinto, que era bispo de Nampula, e 11 mission\u00e1rios Combonianos. E, portanto, j\u00e1 havia, mesmo no interior da igreja, ao seu mais alto n\u00edvel, n\u00e3o falei ainda da a\u00e7\u00e3o de Dom Ant\u00f3nio Ribeiro, que \u00e9 importante tamb\u00e9m frisar, mas j\u00e1 havia da parte de alguns prelados, alguns bispos, uma consci\u00eancia de que o regime n\u00e3o podia prosseguir com aquele esfor\u00e7o de guerra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00a0Apesar de historiograficamente durante d\u00e9cadas termos tido uma leitura, quase un\u00edvoca, de alinhamento da hierarquia cat\u00f3lica com o regime, o que n\u00f3s vemos \u00e9 que v\u00e1rios respons\u00e1veis cat\u00f3licos e movimentos ajudam a preparar tamb\u00e9m a democracia em Portugal\u2026<\/em><\/p>\n<p>Sem d\u00favida. E acho que h\u00e1 aqui um grande erro, quando abordamos um regime que durou tanto tempo, como o Estado Novo, de procurar colar-lhe etiquetas que tentem durar o tempo todo. \u00c9 o mesmo que se passa com a etiqueta de fascista: isto \u00e9, o regime teve caracteres fascistas e influ\u00eancias e liga\u00e7\u00f5es, at\u00e9 sobretudo a Mussolini, nos anos 30, mas depois, como \u00e9 evidente no p\u00f3s-guerra, sem se tornar uma democracia, d\u00e1 uma esp\u00e9cie de golpe de rins. Salazar at\u00e9 promete, falsamente, elei\u00e7\u00f5es t\u00e3o livres como na livre Inglaterra e o regime aparece como um o\u00e1sis na Guerra Fria, um o\u00e1sis de estabilidade para este lado e como membro fundador da NATO, etc\u2026<\/p>\n<p>O mesmo se passa com a ideia da cumplicidade da Igreja Cat\u00f3lica. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que, durante muito tempo, uma parte substancial da hierarquia foi conivente com o Estado Novo, basta pensar na rela\u00e7\u00e3o Salazar-Cerejeira, embora n\u00e3o t\u00e3o pr\u00f3xima e t\u00e3o c\u00famplice como muitas vezes as pessoas procuram figurar, mas enfim\u2026<\/p>\n<p>Veja-se, por exemplo, tamb\u00e9m a Concordata de 1940: n\u00e3o \u00e9 uma Concordata em que Salazar ceda \u00e0 Igreja, pelo contr\u00e1rio, \u00e9 a Santa S\u00e9 que tem de ceder, se quisermos, ao realismo pol\u00edtico de Salazar, que atuou totalmente com base na sua raz\u00e3o de Estado e n\u00e3o como um crente cat\u00f3lico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Num contexto muito dif\u00edcil, da II Guerra Mundial\u2026<\/em><\/p>\n<p>Exatamente. E depois, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 hierarquia, pode-se dizer que nos anos 50 e nos anos 60 uma parte substancial ainda estava alinhada com o regime, sobretudo a alta hierarquia. Gostaria de deixar tamb\u00e9m uma palavra sobre D. Ant\u00f3nio Ribeiro: a entrada de D. Ant\u00f3nio Ribeiro, que n\u00e3o trouxe imediatamente uma democratiza\u00e7\u00e3o da Igreja, at\u00e9 porque ele n\u00e3o tinha for\u00e7a para isso, nem lhe cabia mudar totalmente a composi\u00e7\u00e3o do episcopado, mas deu sinais muito interessantes, como por exemplo, em 1973, num encontro discreto, para n\u00e3o dizer secreto, com M\u00e1rio Soares, e uma s\u00e9rie de outros sinais.<\/p>\n<p>Mesmo aqui, na Capela do Rato, \u00e9 preciso que as pessoas saibam, no dia 1 de janeiro, os sacerdotes que v\u00e3o celebrar a Missa s\u00e3o detidos pela PIDE, v\u00e3o \u00e0 sede, s\u00e3o levados para Ant\u00f3nio Maria Cardoso, para a sede da PIDE. D. Ant\u00f3nio vai l\u00e1 pessoalmente, dizendo que s\u00f3 sa\u00eda quando os seus padres fossem libertados. Portanto h\u00e1 uma ideia de confronto direto com a PIDE e com o diretor da PIDE.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Noutra geografia tamb\u00e9m \u00e9 muito importante o papel de D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes, n\u00e3o \u00e9?<\/em><\/p>\n<p>Sim, sim, um bocadinho mais recuado, no tempo, porque antecedeu um bocadinho estas convuls\u00f5es, mas o que \u00e9 facto \u00e9 que D. Ant\u00f3nio ficou sempre como uma grande refer\u00eancia do questionamento, outros talvez menos conhecidos, como o padre Alves Correia, s\u00f3 para dar outro exemplo. D. Ant\u00f3nio, at\u00e9 pela atitude persistente que teve, de receber pessoas, e sobretudo pela escrita, a sua poderos\u00edssima escrita foi sempre uma refer\u00eancia, at\u00e9 uma refer\u00eancia moral para um certo oposicionismo cat\u00f3lico do Porto, que tinha algumas conflu\u00eancias com o de Lisboa, mas, apesar de tudo, tinham singularidades pr\u00f3prias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Escreve que o 25 de Abril cultural, como o define, precedeu o militar e o pol\u00edtico. Havia sinais de que o regime do Estado Novo sim encaminhava para o seu fim?<\/em><\/p>\n<p>Sim, sem d\u00favida. Houve um historiador, Paulo Guinote, que fez uma pesquisa sobre os bigodes e as barbas dos deputados \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o de 1911, e concluiu que 99% tinham bigode e barba, porque era a moda do tempo, s\u00f3 um \u00e9 que n\u00e3o tinha, que por acaso era padre ou tinha sido padre\u2026 E n\u00f3s vemos essa revolu\u00e7\u00e3o cultural, mesmo, nas fotografias do 25 de Abril, onde vemos os civis j\u00e1 com os cabelos \u00e0 \u2018Beatles\u2019, ou com os cabelos muito compridos.<\/p>\n<p>O que quero dizer com esta met\u00e1fora capilar, ou quase ir\u00f3nica, \u00e9 que houve mudan\u00e7as ao n\u00edvel da sexualidade, desde logo com a quest\u00e3o da p\u00edlula; ao n\u00edvel da abertura ao mundo, trazida pelo turismo c\u00e1 e pela imigra\u00e7\u00e3o para l\u00e1; do maior contacto dos jovens com aquilo que j\u00e1 se chamou internacional de refer\u00eancias, marxista ou p\u00f3s-marxista, Che Guevara, as grandes figuras m\u00edticas como o Luther King, etc. H\u00e1 toda uma transforma\u00e7\u00e3o da juventude que tem efeito no maio de 68, mas tamb\u00e9m tem efeito nas crises acad\u00e9micas c\u00e1. Isto \u00e9, do ponto de vista social, o 25 de Abril, de certa forma, j\u00e1 tinha acontecido. A rutura de uma parte significativa da juventude com o regime, at\u00e9 por efeito da guerra da \u00c1frica j\u00e1 tinha acontecido.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Fala, ali\u00e1s, do papel da juventude como grupo pol\u00edtico nesta fase\u2026<\/em><\/p>\n<p>Exatamente. Marcelo Caetano tinha at\u00e9 um livro chamado \u2018Por Amor da Juventude\u2019, e n\u00e3o s\u00f3, mas ele pr\u00f3prio tinha consci\u00eancia e disse que a juventude tinha deixado de ser uma idade da vida para se converter num grupo pol\u00edtico ou, se quisermos, num grupo social ou corporativo com reivindica\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias &#8211; do ponto de vista do servi\u00e7o militar e dos anseios pr\u00f3prios da juventude. A juventude j\u00e1 n\u00e3o era apenas um tempo de vida, entre a meninice e a velhice, era tamb\u00e9m um grupo social, um grupo de press\u00e3o espec\u00edfica\u2026.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Que import\u00e2ncia tem recuperar esta mem\u00f3ria hist\u00f3rica e este enquadramento do que foi realmente a Revolu\u00e7\u00e3o de 74, o 25 de Abril, para uma gera\u00e7\u00e3o que nasce em liberdade e que provavelmente nem sempre d\u00e1 valor ao que \u00e9 a democracia?<\/em><\/p>\n<p>Eu acho que \u00e9 muito importante pelo seguinte, e eu digo sempre isto \u00e0s pessoas que ainda falam em saudosismos do anterior regime: se essas pessoas j\u00e1 t\u00eam alguma idade, mais de 64 anos, nesta altura, se viv\u00eassemos naquele tempo, essas pessoas j\u00e1 teriam morrido &#8211; porque a experi\u00eancia m\u00e9dia de vida eram 64 anos; por outro lado, se essas pessoas s\u00e3o jovens e t\u00eam menos de 30 anos, o que tamb\u00e9m se deve dizer \u00e9 que, se calhar, estavam a caminho de morrer na Guerra da \u00c1frica, nos confins do ultramar.<\/p>\n<p>Portanto, n\u00e3o h\u00e1 raz\u00f5es para saudosismo, h\u00e1 raz\u00f5es para uma vis\u00e3o distanciada da hist\u00f3ria, e \u00e9 importante, atualmente, cada vez mais, fazermos uma pedagogia da liberdade e da democracia, porque como n\u00f3s j\u00e1 estamos t\u00e3o habituados a ela, sentimos que \u00e9 como o ar que respiramos. S\u00f3 quando sentimos falta de ar \u00e9 que vemos a import\u00e2ncia\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Enquanto sociedade estamos a enveredar por um caminho perigoso, onde pelo menos de forma aparente, ganha cada vez mais adeptos aquele discurso mais radical e populista. Tamb\u00e9m aqui \u00e9 importante revisitar a nossa hist\u00f3ria recente para combater, de alguma forma, este tipo de ideias?<\/em><\/p>\n<p>Eu acho que sim. Eu n\u00e3o gosto muito de falar do presente, at\u00e9 porque fui convocado aqui para falar como historiador e n\u00e3o sou comentador pol\u00edtico, ali\u00e1s acho que \u00e9 uma profiss\u00e3o bastante de risco\u2026 Marc Twain dizia \u201ca hist\u00f3ria nunca se repete, mas \u00e0s vezes rima\u201d, portanto, ciclicamente, surgem estas puls\u00f5es mais autorit\u00e1rias ou, se quisermos, mais radicais. N\u00e3o deixa de ser paradoxal, num tempo de tantos e t\u00e3o exacerbados nacionalismos, que haja t\u00e3o pouca gente disposta a morrer pela p\u00e1tria e at\u00e9 a cumprir o servi\u00e7o militar. Portanto, para fazer a desconstru\u00e7\u00e3o de uma s\u00e9rie de mitos pol\u00edticos do presente, acho que o passado ajuda muito.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jurista e investigador, integra a Comiss\u00e3o Executiva e do Conselho de Administra\u00e7\u00e3o da Funda\u00e7\u00e3o Francisco Manuel dos Santos. Com v\u00e1rios livros publicados sobre o per\u00edodo do Estado Novo, \u00e9 autor de uma tese acad\u00e9mica sobre a Vig\u00edlia da Capela do Rato<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":323083,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[92],"class_list":["post-322797","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr","tag-25-de-abril"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/322797","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=322797"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/322797\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/323083"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=322797"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=322797"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=322797"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}