{"id":321732,"date":"2024-04-11T08:58:19","date_gmt":"2024-04-11T07:58:19","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=321732"},"modified":"2024-04-11T08:58:19","modified_gmt":"2024-04-11T07:58:19","slug":"negociacao-e-dialogo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/negociacao-e-dialogo\/","title":{"rendered":"Negocia\u00e7\u00e3o e di\u00e1logo"},"content":{"rendered":"<p><em>Ant\u00f3nio Salvado Morgado, Diocese da Guarda<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-271042 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/>Dia 7 de Abril, o Papa Francisco, ap\u00f3s a recita\u00e7\u00e3o da ora\u00e7\u00e3o \u201cRegina Caeli\u201d, evocando as v\u00edtimas da guerra na Ucr\u00e2nia, na Palestina e em Israel, refor\u00e7ou os apelos \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de \u00ab<em>gestos que tornem poss\u00edveis as negocia\u00e7\u00f5es<\/em>\u00bb para uma \u00ab<em>paz justa e duradoura<\/em>\u00bb. E acrescentou: \u00ab<em>Que o Senhor d\u00ea aos dirigentes a capacidade de parar por um pouco para dialogar, para negociar<\/em>.\u00bb \u201dDialogar\u201d e \u201cnegociar\u201d, \u201cdi\u00e1logo\u201d e \u201cnegocia\u00e7\u00e3o\u201d, s\u00e3o palavras que entraram em for\u00e7a no vocabul\u00e1rio corrente, no quadro nacional e internacional, seja no \u00e2mbito religioso, seja no pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Foi nos meus tempos de juventude que me descobri com um mundo a falar de di\u00e1logo. J\u00e1 l\u00e1 v\u00e3o umas boas dezenas de anos. A palavra \u201cneg\u00f3cio\u201d creio t\u00ea-la aprendido mais cedo, ainda em crian\u00e7a.<\/p>\n<p>O conc\u00edlio Vaticano II, na sequ\u00eancia da enc\u00edclica \u201c<em>Ecclesiam suam<\/em>\u201d de Paulo VI de 1964, que dedica ao di\u00e1logo grande parte da sua extens\u00e3o [N.\u00ba 34-68], ter\u00e1 contribu\u00eddo para o \u00eaxito extraordin\u00e1rio que a palavra \u201cdi\u00e1logo\u201d conseguira alcan\u00e7ar na segunda metade do s\u00e9culo passado. O seu \u00eaxito foi tal que ela aparece utilizada em \u00e2mbitos muito diversos e poder\u00e1 ter alcan\u00e7ado significados relativamente diferentes em conformidade com os contextos. E pretextos, tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Aquela Assembleia Conciliar pretendia abrir-se ao di\u00e1logo com a modernidade e tenho presente que o fil\u00f3sofo Roger Garaudy [1913-2012], \u00e0 altura membro do Partido Comunista Franc\u00eas, publicou, ent\u00e3o, um pequeno livro, significativamente intitulado \u201c<em>Do An\u00e1tema ao Di\u00e1logo: um Marxista dirige-se ao Conc\u00edlio<\/em>\u201d. O livrinho do fil\u00f3sofo franc\u00eas foi profusamente divulgado e lido ou, pelo menos, muito referido e citado nos meios culturais e, obviamente, em meios eclesiais. Tamb\u00e9m eu fui um dos seus leitores atentos e recordo agora que ele abria com a \u00ab<em>Necessidade e possibilidade do di\u00e1logo<\/em>\u00bb, que titulava o primeiro cap\u00edtulo.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o estamos em tempo conciliar, os documentos do Vaticano II est\u00e3o a\u00ed repletos de refer\u00eancias e apelos ao di\u00e1logo, o mundo hoje \u00e9 bem diferente e o conte\u00fado do livro de Roger Garaudy j\u00e1 pouco significado poder\u00e1 ter na actualidade, para al\u00e9m do interesse hist\u00f3rico, mas, numa \u00e9poca de crescente polariza\u00e7\u00e3o, como aquela em que vivemos, em que a anatematiza\u00e7\u00e3o parece passear-se livremente nas ruas das nossas cidades da comunica\u00e7\u00e3o, talvez n\u00e3o seja despiciendo acentuar que importar\u00e1 passar \u201cDo An\u00e1tema ao Di\u00e1logo\u201d.<\/p>\n<p>Quando observamos com aten\u00e7\u00e3o o que se vai passando pelo mundo, parece podermos concluir que anatematizar \u00e9 bem humano, demasiadamente humano, que \u00e9 bem mais f\u00e1cil anatematizar do que dialogar, mesmo contando com aqueles are\u00f3pagos mais vocacionados para o di\u00e1logo dos povos e dos cidad\u00e3os. Seja nas lonjuras dos nossos espa\u00e7os geogr\u00e1ficos onde, virtualmente, se deveriam definir horizontes do futuro da Humanidade, seja no interior da nossa min\u00fascula cidadela onde, em vez de di\u00e1logo, parece haver mais interesse em definir fronteiras e construir muros nem que seja necess\u00e1rio, para tal, elaborar uma l\u00edngua pr\u00f3pria feita de terminologia adequada \u00e0 situa\u00e7\u00e3o. Parece, \u00e0s vezes, que se vive mais para anatematizar quando dever\u00edamos viver para dialogar, embora andem por a\u00ed, no espa\u00e7o p\u00fablico, usadas a gosto ou a contragosto, as palavras \u201cnegocia\u00e7\u00e3o\u201d e \u201cdi\u00e1logo\u201d, a que tamb\u00e9m o Papa Francisco faz apelo.<\/p>\n<p>Sempre as palavras possuem uma beleza pr\u00f3pria, aquela que os poetas bem sabem cantar, conjugando-as como o compositor conjuga as notas numa pauta musical, mas, para os menos poetas que n\u00e3o sabem conjugar t\u00e3o bem as palavras, h\u00e1 palavras mais belas que outras. Eu encontro maior sabor em \u201cdi\u00e1logo\u201d do que em \u201cnegocia\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Desde cedo ouvi falar em \u201cneg\u00f3cio\u201d e em \u201cnegocia\u00e7\u00e3o\u201d, em \u201cnegociar\u201d. Era uma terminologia sempre associada ao ganho material, ao lucro, na compra e venda de produtos locais, em tempos de agricultura de subsist\u00eancia. Depois, o \u201cneg\u00f3cio\u201d, sem perder o sentido de compra e venda, foi-se estendendo a uma actividade ou estabelecimento comercial. Depois, bastante depois, fui entrando pelo Latim, e ent\u00e3o o \u201cneg\u00f3cio\u201d conquistou nova pregn\u00e2ncia no meu esp\u00edrito. Ficando a saber que o \u201cneg\u00f3cio\u201d vinha directamente do termo latino \u201c<em>negotium<\/em>\u201d, soube tamb\u00e9m que este termo latino \u00e9 composto por um prefixo de nega\u00e7\u00e3o e de \u201c<em>otium<\/em>\u201d [\u00f3cio, lazer, folga]. Sendo assim, o \u201cneg\u00f3cio\u201d expressa o \u201cn\u00e3o \u00f3cio\u201d, ou seja, o tempo de ocupa\u00e7\u00e3o, de trabalho, de qualquer actividade orientada para o lucro. Eis porque n\u00e3o aprecio grandemente o termo \u201cneg\u00f3cio\u201d aplicado \u00e0s ideias e realidades eminentemente humanas, como a pol\u00edtica. Mesmo contando com o fen\u00f3meno da metaforiza\u00e7\u00e3o, o \u201cneg\u00f3cio\u201d, a\u00ed, parece tamb\u00e9m reduzir-se ao lucro de quem negoceia. O poder ou a sua partilha, por exemplo. Mas o termo entrou no dicion\u00e1rio do pol\u00edtico dizer.<\/p>\n<p>Outra hist\u00f3ria possui o termo \u201cdi\u00e1logo\u201d. Embora possamos admitir que ele prov\u00e9m directamente do Latim \u201c<em>dialogus<\/em>\u201d, \u00e9 verdade que ele fala grego. Palavra composta pelo prefixo \u201c<em>dia<\/em>\u201d (atrav\u00e9s de, por intermedio de) e \u201c<em>logos<\/em>\u201d, um termo riqu\u00edssimo na cultura grega de outrora, que significa \u201craz\u00e3o\u201d. \u201cpalavra\u201d, \u201cpensamento\u201d, \u201cpropor\u00e7\u00e3o\u201d ou \u201cesp\u00edrito\u201d. O di\u00e1logo n\u00e3o \u00e9 uma simples \u201cconversa\u201d, mas movimento do pensamento do esp\u00edrito entre interlocutores que, divergindo em orienta\u00e7\u00f5es, convergem na afirma\u00e7\u00e3o de determinados valores.<\/p>\n<p>Como facilmente se pode ver, e como teremos disso experi\u00eancia pr\u00f3pria, o di\u00e1logo, rela\u00e7\u00e3o entre pessoas mais do que rela\u00e7\u00e3o entre doutrinas ou sistemas, \u00e9 fen\u00f3meno complexo que n\u00e3o se deixa resumir numa simples defini\u00e7\u00e3o. Mas, se tent\u00e1ssemos uma defini\u00e7\u00e3o meramente descritiva, haver\u00edamos de invocar a ideia de forma particular de col\u00f3quio ordenado \u00e0 compreens\u00e3o m\u00fatua, aproxima\u00e7\u00e3o e enriquecimento rec\u00edproco, realizado em clima de liberdade e total sinceridade, de boa vontade, confian\u00e7a e exigindo capacidade de os interlocutores se situarem no ponto de vista do outro, atrav\u00e9s de um movimento de simpatia e processo de identifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Da\u00ed a riqueza do conceito de di\u00e1logo. E das suas exig\u00eancias. Di\u00e1logo exigente, quer nos coloquemos no plano intelectual, quer pensemos no plano existencial, situemo-nos n\u00f3s no plano cultural e doutrinal como base de verdade, ou no plano operativo que exige estabelecer as condi\u00e7\u00f5es de colabora\u00e7\u00e3o com os objectivos determinados, desfazendo eventuais diverg\u00eancias doutrinais de fundo.<\/p>\n<p>Dif\u00edcil di\u00e1logo, este, assim pensado, l\u00e1 mais longe, onde se discutem os princ\u00edpios da vida internacional, ou c\u00e1, onde se fazem as leis do pa\u00eds? Quem duvidar\u00e1? Di\u00e1logo necess\u00e1rio, este, assim descrito, l\u00e1 onde se fazem as guerras de fogo real e se pinta a terra de sangue, ou c\u00e1, onde as guerras de vanil\u00f3quios e conversas de v\u00e3s ret\u00f3ricas se fazem ecoar num pal\u00e1cio com o nome do patrono da Europa, S\u00e3o Bento? Quem n\u00e3o achar\u00e1?<\/p>\n<p>Dif\u00edcil di\u00e1logo este, tamb\u00e9m na Igreja em tempo de aprender a sinodalidade. Quem n\u00e3o o saber\u00e1? Di\u00e1logo necess\u00e1rio, por\u00e9m, na Igreja e para al\u00e9m dela. Quem duvidar\u00e1?<\/p>\n<p>Contrariando, embora, toda a normalidade l\u00f3gica, apetece levantar bem alto a voz e gritar aos quatros ventos: se o di\u00e1logo \u00e9 uma necessidade, ele tem que ser uma possibilidade e, se \u00e9 uma possibilidade, ele tem de ser uma realidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ant\u00f3nio Salvado Morgado, Diocese da Guarda<\/p>\n","protected":false},"author":17,"featured_media":271042,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[274],"class_list":["post-321732","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao","tag-papa-francisco"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/321732","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/17"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=321732"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/321732\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/271042"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=321732"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=321732"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=321732"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}