{"id":32153,"date":"2008-05-27T11:58:31","date_gmt":"2008-05-27T11:58:31","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/05\/27\/uma-estranha-geografia\/"},"modified":"2008-05-27T11:58:31","modified_gmt":"2008-05-27T11:58:31","slug":"uma-estranha-geografia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/uma-estranha-geografia\/","title":{"rendered":"Uma estranha geografia"},"content":{"rendered":"<p>A nossa rela\u00e7\u00e3o com Portugal n\u00e3o \u00e9 verdadeiramente geogr\u00e1fica. Ainda aqui contar\u00e1 a fort\u00edssima heran\u00e7a judaica, n\u00f3mada por excel\u00eancia. Antes de mais, na sua pr\u00f3pria consci\u00eancia circunscrita. \u00c9 frequent\u00edssimo encontrar portugueses sem ideia precisa da localiza\u00e7\u00e3o de terras, rios ou montanhas nossas. Frequent\u00edssimas as confus\u00f5es de caminhos e dist\u00e2ncias, n\u00e3o sendo estas as mesmas no Minho e no Alentejo. E isto mesmo seria de estranhar num povo que t\u00e3o habilmente se instala em qualquer parte do mundo, como se j\u00e1 fosse casa sua. Digo seria, porque realmente n\u00e3o o \u00e9. Mais do que o &#8220;Brasil mental&#8221; de que falava Bruno, &#8220;mental&#8221; \u00e9 o Portugal em que idealmente nos figuramos, depressa suportando qualquer geografia f\u00edsica. Em meados de Duzentos reconquistou-se o territ\u00f3rio b\u00e1sico, &#8220;onde a terra acaba e o mar come\u00e7a&#8221;. Mas nem esse nem as ilhas atl\u00e2nticas nos conclu\u00edram nunca. Ainda hoje temos outra geografia: quinze milh\u00f5es repartidos em cinco al\u00edneas: (a) da cordilheira central para Norte; (b) da\u00ed para Sul; (c) A\u00e7ores; (d) Madeira; (e) emigra\u00e7\u00e3o. E cada uma destas muito subdivididas, obviamente. S\u00f3 que, qualquer beir\u00e3o ou a\u00e7oriano, qualquer alentejano ou madeirense, pode ter a sua geografia verdadeiramente p\u00e1tria noutro recanto do mundo, coberto ou descoberto pela bandeira nacional. Dois epis\u00f3dios, entre tantos de geografia portuguesa: em Paris, na casa de um emigrante abastado e bem-sucedido e bem integrado na sociedade francesa, quando a \u00fanica coisa que me quis verdadeiramente mostrar foi a horta que cultivava no quintal, absolutamente lusitana; em Cochim, onde n\u00e3o estamos politicamente h\u00e1 tanto tempo, quando o seu falecido bispo, sem uma gota de sangue nosso e nenhuma palavra nossa tamb\u00e9m, me mostrou embevecido o arquivo que conseguira montar, cheio de documenta\u00e7\u00e3o portuguesa, que obviamente n\u00e3o lia. Naquele quintal parisiense ou nesta costa do \u00cdndico, foi com Portugal que me relacionei, fora da geografia convencional. \u00c9 habitual insistir-se na nossa infinita capacidade de adapta\u00e7\u00e3o, seja aonde for. Pergunto-me se n\u00e3o se trata antes do contr\u00e1rio. Se n\u00e3o dev\u00edamos falar at\u00e9 da impossibilidade de deixarmos de ser quem somos, tal a densidade interior que acumul\u00e1mos. N\u00e3o temos de nos adaptar por a\u00ed al\u00e9m, porque j\u00e1 temos dentro e acumulados os infinitos al\u00e9ns que nos formaram. Aqui, neste recanto ocidental do Continente, sedimentaram-se, mil\u00e9nio ap\u00f3s mil\u00e9nio, os variados povos que, do Norte de \u00c1frica ou do Leste da Europa, tiveram for\u00e7osamente de parar numa praia que s\u00f3 no s\u00e9culo xv se transformou em cais de embarque. Aqui chegaram outros, que depois vieram e continuam a vir das mais diversas proced\u00eancias. Tanta gente em t\u00e3o pouco espa\u00e7o s\u00f3 pode espraiar-se numa geografia universal. Assim foi e assim \u00e9. Por isso tamb\u00e9m, se \u00e9 verdade que muitos outros povos manifestam capacidade vari\u00e1vel de adapta\u00e7\u00e3o fora da sua terra, n\u00f3s manifestamos algo de end\u00f3geno que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 propriamente adapta\u00e7\u00e3o, antes conaturalidade. Ant\u00f3nio Jos\u00e9 Saraiva comparou-nos a um fruto mole na casca e duro por dentro. Tinha raz\u00e3o: temos por dentro muit\u00edssimo mundo, consolidado em sucessivas experi\u00eancias, em que a conviv\u00eancia acabou por ganhar \u00e0s lutas. Por isso concentr\u00e1mos geografias, para as maleabilizar depois. E ser\u00e1 talvez sob este aspecto que melhor nos damos com Portugal. <i>D. Manuel Clemente, in Portugal e os Portugueses (Ass\u00edrio &#038; Alvim, 2008)<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A nossa rela\u00e7\u00e3o com Portugal n\u00e3o \u00e9 verdadeiramente geogr\u00e1fica. Ainda aqui contar\u00e1 a fort\u00edssima heran\u00e7a judaica, n\u00f3mada por excel\u00eancia. Antes de mais, na sua pr\u00f3pria consci\u00eancia circunscrita. \u00c9 frequent\u00edssimo encontrar portugueses sem ideia precisa da localiza\u00e7\u00e3o de terras, rios ou montanhas nossas. 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