{"id":32145,"date":"2008-05-27T11:28:44","date_gmt":"2008-05-27T11:28:44","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/05\/27\/sinto-me-povo-e-portugues-porque-universal\/"},"modified":"2008-05-27T11:28:44","modified_gmt":"2008-05-27T11:28:44","slug":"sinto-me-povo-e-portugues-porque-universal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/sinto-me-povo-e-portugues-porque-universal\/","title":{"rendered":"Sinto-me povo e portugu\u00eas porque universal"},"content":{"rendered":"<p>Ser portugu\u00eas hoje n\u00e3o se reduz unicamente ao acto de ter nascido no solo p\u00e1trio! &#8211; real\u00e7a o Pe. Rui Pedro <!--more--> Como acontece visivelmente nas sociedades europeias hodiernas tamb\u00e9m o pa\u00eds se encontra envolvido num r\u00e1pido, global e diversificado processo de \u201cmesti\u00e7agem\u201d cultural, musical, religiosa, social e, mais recentemente tamb\u00e9m ortogr\u00e1fica! E, a novidade a reter \u00e9: o processo em curso n\u00e3o se d\u00e1 mais apenas e somente fora das fronteiras \u2013 como sempre aconteceu, quer nos territ\u00f3rios coloniais, quer nas Comunidades emigradas \u2013 mas, nos \u00faltimos trinta anos, acontece naturalmente dentro do pr\u00f3prio territ\u00f3rio nacional: continental e insular. Ser portugu\u00eas hoje n\u00e3o se reduz unicamente ao acto de ter nascido no solo p\u00e1trio!  Com efeito, com a Revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica de Abril &#8211; fruto tardio do Maio de 68 &#8211; as di\u00e1sporas portuguesas e crioulas do mundo voltaram fielmente a casa e sentaram-se \u00e0 mesa comum. Muitas, como o filho pr\u00f3digo do Evangelho, voltaram ao adro da casa de onde partiram h\u00e1 s\u00e9culos em busca de um Portugal mais farto, sorridente e livre. Umas retornadas, outras refugiadas, outras ainda violentadas no percurso de felicidade, todas foram acolhidas como irm\u00e3s leg\u00edtimas empobrecidas porque sangue da mesma carne, alma da mesma imortalidade lusa, l\u00edngua da \u00fanica hist\u00f3ria intercultural. Mas, todos considerados portugueses porque filhos e netos daquela mobilidade humana colectiva, fruto da singular expans\u00e3o mar\u00edtima, militar e pol\u00edtica, produto da nacionalidade global profundamente baseada na ideia de um \u201cpovo de muitas ra\u00e7as\u201d. Um povo que, pelo mundo, honra a l\u00edngua do ilustre Lu\u00eds de Cam\u00f5es, a cruz libertadora de Cristo, o fado encantado que lamenta destinos e o logotipo das quinas do estandarte luso. Ser portugu\u00eas \u00e9 partilhar uma hist\u00f3ria de universalidade alimentada por encontros e desencontros com outros povos!  Portugal sempre teve portugueses em di\u00e1spora! Sempre foi tamb\u00e9m o Portugal das Comunidades! E, ao que me \u00e9 dado constatar, nos \u00faltimos anos, aumenta o fluxo de sa\u00edda favorecido pelas novas mobilidades do espa\u00e7o europeu e pela crise econ\u00f3mica e familiar \u2013 desemprego, endividamentos e div\u00f3rcios \u2013 que o pa\u00eds atravessa sem estrat\u00e9gias eficazes. Os \u201cnovos\u201d emigrantes s\u00e3o sinal do lugar fundamental que as di\u00e1sporas sempre ocupararam no seio da vida e sustentabilidade nacional ao longo dos v\u00e1rios momentos hist\u00f3ricos. O pa\u00eds n\u00e3o se auto-compreende, n\u00e3o se afirma no estrangeiro, nem se auto-sustenta econ\u00f3mica e culturalmente como povo sem os portugueses ausentes: sejam emigrantes por raz\u00f5es de trabalho, cultura, diplomacia, solidariedade ou evangeliza\u00e7\u00e3o. Portugal seria, sem d\u00favida, mais pobre sem as grandes figuras: do c\u00f4nsul desobediente Aristides de Sousa Mendes; do bispo de Mariana, D. Ant\u00f3nio Ferreira Vi\u00e7oso, defensor dos direitos dos escravos no Brasil; do desconhecido empres\u00e1rio Ant\u00f3nio F. Pedro, talentoso e honesto homem de neg\u00f3cios assassinado na di\u00e1spora, s\u00f3 para citar tr\u00eas nomes pouco conhecidos do grande p\u00fablico. Mas, quantos por esse mundo al\u00e9m honraram e continuam a honrar com o testemunho de vida o nome e a l\u00edngua do pa\u00eds no maior anonimato, longe das medalhas de m\u00e9rito que o pa\u00eds vai atribuindo simbolicamente a alguns! Ser portugu\u00eas \u00e9 celebrar Portugal com patriotismo e gratid\u00e3o pelas fa\u00e7anhas dos homens e mulheres das m\u00faltiplas di\u00e1sporas! Nas minhas itiner\u00e2ncias mission\u00e1rias tenho constatado que certos dias \u201cnacionais\u201d s\u00e3o vividos com maior intensidade afectiva e euforia patri\u00f3tica pelos portugueses das Comunidades do que pelos compatriotas que residem no Pa\u00eds. Incomoda-me a indiferen\u00e7a irrespons\u00e1vel e burguesa, assim como a cr\u00edtica f\u00e1cil e distante de alguns compatriotas perante certos eventos e decis\u00f5es hist\u00f3ricas do Pa\u00eds. Ao n\u00e3o se identificarem com a hist\u00f3ria e progresso do pa\u00eds buscam, no entanto, um lugar ao sol isentando-se da nova epopeia colectiva na qual Portugal se encontra irmanado com outros parceiros no seio da Uni\u00e3o Europeia e CPLP. Encontro tamb\u00e9m pessoas que passam a vida a lamentar-se de ter nascido no lado ocidental da pen\u00ednsula ib\u00e9rica. Preferiam ter nascido no vizinho Reino de Espanha para, numa qualquer comunidade aut\u00f3noma, serem mais ricos e parte de uma na\u00e7\u00e3o com poder superior, apesar de menos unida como identidade nacional.  O dia de Portugal e das Comunidades, vivido sob a inspira\u00e7\u00e3o e lusitanidade do padroeiro Cam\u00f5es, convida todos os portugueses: com passaporte e bilhete de identidade, os portugueses de cora\u00e7\u00e3o e cultura; os descendentes com nacionalidade ou n\u00e3o, os \u201cnovos\u201d portugueses brancos eslavos, negros ou indianos crioulos, mesti\u00e7os do mundo lus\u00f3fono, os ciganos; os portugueses com diversificados sotaques e apelidos; os portugueses que pagam impostos e os ainda castigados pela dupla tributa\u00e7\u00e3o porque emigrantes; os portugueses de credo cat\u00f3lico e de outras religi\u00f5es no pleno uso da liberdade; os portugueses do continente e os das regi\u00f5es aut\u00f3nomas da Madeira e A\u00e7ores, a comprometerem-se, de forma colectiva, na constru\u00e7\u00e3o participada de um pa\u00eds mais justo socialmente, igual economicamente, dialogante culturalmente, inovador tecnologicamente, tolerante religiosamente, acolhedor para quem at\u00e9 n\u00f3s emigra ou visita, seguro, n\u00e3o violento, e \u00e9tico a n\u00edvel da pol\u00edtica e da legitima laicidade. Com esta consci\u00eancia aberta \u00e9 preciso, portanto, continuar a \u201cdesmistificar\u201d nacionalismos, separatismos e laicismos exacerbados, tacanhos, demag\u00f3gicos e advers\u00e1rios que reinvidicam identidades ressuscitando fantasmas que s\u00f3 alimentam racismo, xenofobia e viol\u00eancia mon\u00f3logas. Ser portugu\u00eas \u00e9 n\u00e3o aceitar ser encerrado num esteri\u00f3tipo do passado, mas entender-se como plural, ecum\u00e9nico, aberto, curioso: pessoa de diversas e contempor\u00e2neas perten\u00e7as!  Quem como eu \u00e9 portugu\u00eas na di\u00e1spora \u2013 e somos mais de 5 milh\u00f5es! &#8211; sente esta data com grande emo\u00e7\u00e3o e orgulho. Na verdade, quando se est\u00e1 longe da p\u00e1tria por op\u00e7\u00e3o, miss\u00e3o ou ex\u00edlio todos os s\u00edmbolos da na\u00e7\u00e3o amada \u2013 a bandeira nacional, a religiosidade popular, o desporto, a gastronomia, a m\u00fasica, as tradi\u00e7\u00f5es alde\u00e3s, a literatura, entre outros \u2013 assumem uma import\u00e2ncia incomensur\u00e1vel. De facto, sem eles, a identidade das ra\u00edzes faz de n\u00f3s uma \u00e1rvore ao sabor do vento que n\u00e3o partilha a sombra e frutos com ningu\u00e9m. A \u201cintegra\u00e7\u00e3o\u201d, exigida pela maioria quando n\u00e3o se vive na pr\u00f3pria terra, mais que processo social, administrativo e lingu\u00edstico \u00e9, antes de tudo, viagem simb\u00f3lica e existencial integrada num processo de participa\u00e7\u00e3o gradual e biun\u00edvoca assente em adequadas pontes de comunica\u00e7\u00e3o e interac\u00e7\u00e3o de partes iguais que aceitam o di\u00e1logo da vida, trabalho, ambi\u00e7\u00e3o, fam\u00edlia, religi\u00e3o, tradi\u00e7\u00f5es e valores. E, porque \u201cPortugal ser\u00e1 o que fizermos dele\u201d, para iluminar o compromisso dos crist\u00e3os neste Ano europeu do Di\u00e1logo cultural, termino com as palavras ousadas e abrangentes dos nossos bispos que conhecem as di\u00e1sporas cat\u00f3licas portuguesas porque as visitam e as apoiam com mission\u00e1rios: \u201c (&#8230;) ser portugu\u00eas \u00e9 mais que uma realidade pol\u00edtica, \u00e9tnica, ou geoecon\u00f3mica; \u00e9 uma alma que nos identifica, uma maneira de estar no mundo que nos define, um projecto que nos galvaniza, apesar da sua utopia. Portugal \u00e9 a ousadia de um Povo (\u2026). Um futuro para Portugal h\u00e1-de medir-se pela capacidade de construir pontes entre as culturas, de p\u00f4r os homens em di\u00e1logo, de contribuir para o progresso da humanidade concebida como uma \u00fanica fam\u00edlia humana\u201d. (cfr. Carta Pastoral da CEP, Responsabilidade solid\u00e1ria pelo bem comum, 33). <i>Pe. Rui Pedro Mission\u00e1rio Scalabriniano<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ser portugu\u00eas hoje n\u00e3o se reduz unicamente ao acto de ter nascido no solo p\u00e1trio! &#8211; real\u00e7a o Pe. 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