{"id":32144,"date":"2008-05-27T11:17:59","date_gmt":"2008-05-27T11:17:59","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/05\/27\/acordo-ortografico-desfaz-ambiguidades\/"},"modified":"2008-05-27T11:17:59","modified_gmt":"2008-05-27T11:17:59","slug":"acordo-ortografico-desfaz-ambiguidades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/acordo-ortografico-desfaz-ambiguidades\/","title":{"rendered":"Acordo ortogr\u00e1fico desfaz ambiguidades"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o h\u00e1 unanimidade sobre o novo acordo. Mas algu\u00e9m conhece ter havido unanimidade a respeito de qualquer proposta ou lei?  <!--more--> Que ter\u00e1 esta ortografia, ainda em vigor, de t\u00e3o dogmaticamente divino que n\u00e3o pode ser alterada? \u00c9 estranho tanto apego, at\u00e9 porque nenhum, das muitas centenas de escritores que publicaram as suas obras durante s\u00e9culos, at\u00e9 1945 (nem Gil Vicente, nem Cam\u00f5es, nem Vieira, nem Camilo, nem E\u00e7a, nem Pessoa&#8230;), escreveu nesta \u201cintang\u00edvel\u201d ortografia que, ali\u00e1s, sucedeu a outras, e teve uma guerrilha semelhante \u00e0 de 1990. Al\u00e9m disso, a de 1990 j\u00e1 foi ratificada e decretada pelo Presidente da Rep\u00fablica M\u00e1rio Soares, e publicada no \u201dDi\u00e1rio da Rep\u00fablica\u201c (n\u00ba 193, de 23-8-1991). N\u00e3o h\u00e1 unanimidade sobre o novo acordo. Mas algu\u00e9m conhece ter havido unanimidade a respeito de qualquer proposta ou lei nos dom\u00ednios da pol\u00edtica, da religi\u00e3o, da ci\u00eancia, das leis do trabalho, da cultura ou da educa\u00e7\u00e3o, do que quer que seja?  Uma coisa positiva existe em toda esta controv\u00e9rsia: a evid\u00eancia de que a l\u00edngua \u00e9 qualquer coisa que pertence a todos n\u00f3s, que tem muito a ver com a nossa identidade, e dai o receio fundado\/infundado de estar a ser ofendida. Acontece, por\u00e9m, que a ortografia n\u00e3o modifica a l\u00edngua e, infelizmente, muita gente, mesmo culta, ainda n\u00e3o se apercebeu disto. Como \u00e9 sabido, e n\u00e3o \u00e9 demais repeti-lo, l\u00ednguas houve (turco, alban\u00eas, vietnamita) que substitu\u00edram completamente a sua ortografia (\u00e1rabe, grega, chinesa) pela do alfabeto latino, sem qualquer drama de vulto, e com grandes vantagens, sobretudo para a comunica\u00e7\u00e3o internacional e expans\u00e3o das suas culturas. Que medo ent\u00e3o da pequena cosm\u00e9tica do novo acordo, ali\u00e1s muito inferior \u00e0 radical altera\u00e7\u00e3o que fez o t\u00e3o \u201cestimado\u201d acordo de 45 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ortografia anterior? At\u00e9 porque a escrita ortogr\u00e1fica actualizada \u00e9 a melhor garante da conserva\u00e7\u00e3o das m\u00faltiplas variedades de pron\u00fancias nacionais e regionais (maximamente de uma l\u00edngua, como a portuguesa, espalhada pelas culturas do mundo inteiro). Se n\u00e3o se entender uma determinada variedade pros\u00f3dica, entende-se, certamente, a sua escrita. Exemplo disso \u00e9 o que ocorre, n\u00e3o poucas vezes, nas grandes assembleias internacionais, em que o tradutor\/int\u00e9rprete traduz para os auscultadores dos delegados os discursos, em ingl\u00eas, ou outra l\u00edngua. Acontece, por\u00e9m, com frequ\u00eancia, que a sua pron\u00fancia \u00e9 tal que muitos, de diversificados pa\u00edses, embora sabendo essas l\u00ednguas, n\u00e3o entendem tudo o que ele diz. A quest\u00e3o s\u00f3 fica resolvida quando \u00e9 fornecido o texto escrito&#8230; Assim, a escrita ortogr\u00e1fica comum respeitou essa e quaisquer outras pron\u00fancias, mais, ajudou-as a manterem-se, e evitou confus\u00f5es. E n\u00e3o se replique com o argumento ing\u00e9nuo de que certas palavras ou acentua\u00e7\u00f5es est\u00e3o de tal maneira radicadas, que seria viol\u00eancia cultural inadmiss\u00edvel alter\u00e1-las&#8230; Mas, para resolver isso \u00e9 que j\u00e1 h\u00e1 muito existem na ortografia, at\u00e9 na actual, as formas duplas como \u201couro\u201d e \u201coiro\u201d, \u201ccota\u201d e \u201cquota\u201d, etc., e que outras novas (s\u00e3o necess\u00e1rias poucas), passem a existir, como acontece tamb\u00e9m em outras l\u00ednguas. O inexplic\u00e1vel ci\u00fame em rela\u00e7\u00e3o aos brasileiros, que chegou a acusar os membros da delega\u00e7\u00e3o portuguesa de \u201ctraidores\u201d por ced\u00eancias ao Brasil, por exemplo na quest\u00e3o da supress\u00e3o das consoantes mudas, ignora (?) que j\u00e1 em 1746, o portugu\u00eas Lu\u00eds Ant\u00f3nio Verney no\u201d Verdadeiro M\u00e9todo de Estudar\u201d em carta-cap\u00edtulo dedicada \u00e0 ortografia defende, como nos acordos ortogr\u00e1ficos modernos, que a ortografia deve seguir a pron\u00fancia, embora com excep\u00e7\u00f5es. Seguindo esse mesmo crit\u00e9rio, ele j\u00e1 era da opini\u00e3o de que se deviam suprimir as consoantes duplas quando uma n\u00e3o de pronunciava, a come\u00e7ar pelas dobradas; e que essa regra se aplicava tamb\u00e9m aos grupos: \u201cpassando o B, digo que esta n\u00e3o se deve conservar sen\u00e3o naqueles nomes que especialmente a t\u00eam na pron\u00fancia, como \u201dobst\u00e1culo\u201d,\u201dobstante\u201d, etc., mas naqueles que hoje se pronunciam sem ela, parece-me escr\u00fapulo demasiado\u201d.  E quanto ao t\u00e3o falado caso do ato, palavra em que a ditonga\u00e7\u00e3o n\u00e3o se ouve (e a situa\u00e7\u00e3o de acto \u00e9 semelhante) sentencia: \u201cAto \u00e9 mui boa palavra e todos a entendem\u201d. E que dizer, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 hip\u00f3tese que foi muito discutida e objecto de grande g\u00e1udio humor\u00edstico, em 1986, de v\u00e1rias supress\u00f5es do H incluindo a palavra homem (a honra machista!)? Verney afirma: \u201cn\u00e3o condeno quem escreve Homero, Her\u00f3doto, Herodes etc. ainda que estes tr\u00eas e outros semelhantes que est\u00e3o j\u00e1 muito em uso, podem mui bem escrever-se sem H, o que at\u00e9 os nossos italianos j\u00e1 fazem\u201d.  Servem estes exemplos do\u201d Verdadeiro M\u00e9todo\u201d para mostrar que os brasileiros n\u00e3o podiam antecipar-se aos portugueses sobre os aspectos ortogr\u00e1ficos em apre\u00e7o, pois a sua Literatura, (e o mesmo se dir\u00e1 das suas Sociedades e Academias Filol\u00f3gicas), segundo a mais abalizada opini\u00e3o, a de Ant\u00f3nio C\u00e2ndido, come\u00e7ou por volta de 1750, e a primeira gram\u00e1tica que elaboraram, \u201cL\u00edngua Nacional\u201d, de Ant\u00f3nio Pereira Coruja, \u00e9 de 1835, bem posterior \u00e0s propostas de Verney. Se a cronologia servisse para esta guerrilha, haveria que afirmar-se que, afinal, foram os brasileiros a aprenderam alguma coisa de Verney e dos debates filol\u00f3gicos portugueses. Acrescente-se que \u00e9 dif\u00edcil entender a desconfian\u00e7a, ou ci\u00fame, em rela\u00e7\u00e3o ao Brasil, pois o mais l\u00f3gico e proveitoso seria tomar a atitude contr\u00e1ria, a do orgulho de ter sido poss\u00edvel que a nossa l\u00edngua se tenha ali constitu\u00eddo uma variedade enriquecedora, como, certamente, com o tempo, ir\u00e1 acontecer com Angola, Mo\u00e7ambique, etc. Variedades estas que n\u00e3o prejudicam a unidade, antes a ampliam e enobrecem. Da\u00ed a import\u00e2ncia de uma escrita comum unificada, respeitadora dessas e de outras variedades da l\u00edngua.  Raz\u00e3o tinha o linguista Celso Cunha para afirmar \u201cChega-se assim \u00e0 evid\u00eancia de que, para a gera\u00e7\u00e3o atual dos brasileiros, cabo-verdianos, angolanos, etc., o portugu\u00eas \u00e9 uma l\u00edngua t\u00e3o pr\u00f3pria, exatamente t\u00e3o pr\u00f3pria, como para os portugueses (&#8230;) A luta pela pureza do idioma foi o anseio do s\u00e9culo XIX: hoje, n\u00e3o pode ser mais o nosso principal objetivo: nossa luta tem que ser para impedir a fragmenta\u00e7\u00e3o do idioma comum\u201d (\u201cUma Pol\u00edtica do Idioma\u201d, p. 33).  <i>Fernando Crist\u00f3v\u00e3o Prof. da Faculdade de Letras de Lisboa; Membro da Com. Negociadora do Acordo<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o h\u00e1 unanimidade sobre o novo acordo. 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