{"id":32073,"date":"2008-05-23T10:08:39","date_gmt":"2008-05-23T10:08:39","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/05\/23\/homilia-do-cardeal-patriarca-na-solenidade-do-santissimo-corpo-e-sangue-de-cristo\/"},"modified":"2008-05-23T10:08:39","modified_gmt":"2008-05-23T10:08:39","slug":"homilia-do-cardeal-patriarca-na-solenidade-do-santissimo-corpo-e-sangue-de-cristo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-cardeal-patriarca-na-solenidade-do-santissimo-corpo-e-sangue-de-cristo\/","title":{"rendered":"Homilia do Cardeal-Patriarca na Solenidade do Sant\u00edssimo Corpo e Sangue de Cristo"},"content":{"rendered":"<p>\u00abAdorar\u00e1s o Senhor teu Deus\u00bb <!--more--> 1. A Solenidade lit\u00fargica de hoje \u00e9 celebra\u00e7\u00e3o da Eucaristia, n\u00e3o apenas comunit\u00e1ria, mas do seu prolongamento na adora\u00e7\u00e3o de Nosso Senhor Jesus Cristo, realmente presente nas esp\u00e9cies eucar\u00edsticas. Ela \u00e9 um convite a prolongar a celebra\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica na adora\u00e7\u00e3o de Jesus, Filho de Deus e nosso Salvador, realmente presente, em Corpo, alma e divindade. A valoriza\u00e7\u00e3o da adora\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica \u00e9 a \u00faltima consequ\u00eancia da Reforma Lit\u00fargica realizada pelo Conc\u00edlio Vaticano II. A celebra\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica, momento central da ora\u00e7\u00e3o da Igreja, exprime-se na adora\u00e7\u00e3o que a prolonga, a continua, a torna presente na nossa fidelidade e na nossa busca de santidade. Na Solenidade de hoje, esse continuar da celebra\u00e7\u00e3o na adora\u00e7\u00e3o, concretiza-se numa das mais tradicionais express\u00f5es da Cidade de Lisboa, a prociss\u00e3o eucar\u00edstica que percorrer\u00e1 as ruas da nossa Cidade. Se \u00e9 certo que na aplica\u00e7\u00e3o da Reforma Lit\u00fargica e no entusiasmo pelo novo dinamismo da celebra\u00e7\u00e3o, houve momentos de relativiza\u00e7\u00e3o da adora\u00e7\u00e3o como celebra\u00e7\u00e3o continuada, tamb\u00e9m \u00e9 certo que s\u00f3 o esp\u00edrito da Reforma Lit\u00fargica nos garante a percep\u00e7\u00e3o da adora\u00e7\u00e3o em unidade estreita com a celebra\u00e7\u00e3o. Na celebra\u00e7\u00e3o e na adora\u00e7\u00e3o a Igreja reconhece-se como um Povo centrado na Eucaristia, em todo o tempo e em todas as express\u00f5es da vida. Ali\u00e1s, a pr\u00f3pria celebra\u00e7\u00e3o est\u00e1 recheada do esp\u00edrito e de momentos de adora\u00e7\u00e3o: no levantar das esp\u00e9cies eucar\u00edsticas para a adora\u00e7\u00e3o da assembleia, nos sinais e nos gestos, como a genuflex\u00e3o ou a posi\u00e7\u00e3o de joelhos, o \u00f3sculo do altar, gestos de adora\u00e7\u00e3o consagrados desde o Antigo Testamento. A reserva eucar\u00edstica silenciosamente guardada nos nossos sacr\u00e1rios, a continuidade da luz que iluminou o altar eucar\u00edstico, \u00e9 um convite \u00e0 adora\u00e7\u00e3o permanente, tantas vezes posto em causa pela falta de respeito com que se convive com a Eucaristia presente, e at\u00e9 pelas Igrejas longamente fechadas. Esquecemos facilmente que a genuflex\u00e3o diante do sacr\u00e1rio \u00e9 um acto de adora\u00e7\u00e3o e que a reserva eucar\u00edstica s\u00f3 se deve manter onde h\u00e1 a garantia de ela ser adorada.  2. A adora\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica \u00e9, antes de mais, a manifesta\u00e7\u00e3o da nossa f\u00e9 na presen\u00e7a real e pessoal de Cristo nas esp\u00e9cies eucar\u00edsticas. Esta f\u00e9 recebemo-la dos Ap\u00f3stolos: \u201cN\u00e3o \u00e9 o c\u00e1lice de b\u00ean\u00e7\u00e3o que aben\u00e7oamos a comunh\u00e3o com o Sangue de Cristo? N\u00e3o \u00e9 o p\u00e3o que partimos a comunh\u00e3o com o Corpo de Cristo?\u201d (1Co. 10,16-17). A presen\u00e7a real de Cristo na Eucaristia \u00e9 a express\u00e3o mais completa daquilo que Cristo \u00e9 na totalidade do Seu mist\u00e9rio: Deus connosco, Deus ao nosso alcance a propor intimidade na proximidade dessa presen\u00e7a. Nessa proximidade, Ele \u00e9 Deus, exprime-Se na Palavra que nos toca o cora\u00e7\u00e3o, no amor que nos atrai e nos transforma, na for\u00e7a que nos permite vencer dificuldades e ousar viver de modo a sermos semelhantes a Jesus. A adora\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica \u00e9 o mais forte conv\u00edvio com a divindade. A\u00ed sentimos que Deus \u00e9 Deus para n\u00f3s e n\u00f3s somos d\u2019Ele, somos suas criaturas e seus Filhos. Adorar \u00e9 reconhecer Deus no que Ele \u00e9, na transcend\u00eancia do Seu mist\u00e9rio, e aceitarmo-nos na nossa pequenez e fragilidade, sentindo que a nossa grandeza nos vem de Jesus Cristo e que s\u00f3 n\u2019Ele venceremos o nosso pecado. As express\u00f5es tradicionais da adora\u00e7\u00e3o, que envolvem todo o nosso ser, corpo e esp\u00edrito, exprimem essa verdade de Deus perante n\u00f3s e de n\u00f3s perante Deus: a prostra\u00e7\u00e3o, o dobrar os joelhos, o abandono de todo o nosso ser \u00e0 majestade de Deus. Nesse abandono confiante, reconhecemos nessa presen\u00e7a real a exclusividade do nosso Deus, como \u00fanico Deus verdadeiro. J\u00e1 no \u00caxodo Deus disse a Mois\u00e9s: \u201cEu Sou Yahw\u00e9, o teu Deus, que te fez sair da terra do Egipto (\u2026). N\u00e3o ter\u00e1s outros deuses (\u2026), n\u00e3o te prostrar\u00e1s diante de imagens\u201d (Ex. 20,1-5). Prostrados ou de joelhos s\u00f3 diante do verdadeiro Deus, que n\u00f3s reconhecemos em Jesus Cristo.  3. S\u00f3 adora quem tem f\u00e9 viva, quem fez a experi\u00eancia da salva\u00e7\u00e3o e reconhece em Deus o seu Salvador. Ouv\u00edamo-lo h\u00e1 pouco no livro do Deuteron\u00f3mio: \u201cRecorda-te de todo o caminho que o Senhor teu Deus te fez percorrer\u2026\u201d (Dt. 8,2-3). Assim abandonados diante da presen\u00e7a do Deus vivo, relembramos em sil\u00eancio a nossa hist\u00f3ria de miseric\u00f3rdia e de gra\u00e7a, o que aumenta em n\u00f3s a confian\u00e7a em que o Senhor continuar\u00e1 a acompanhar-nos nos caminhos da nossa vida at\u00e9 O vermos face a face. Mas a adora\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica \u00e9 tamb\u00e9m momento da manifesta\u00e7\u00e3o de Deus. J\u00e1 aconteceu assim com Mois\u00e9s, no Monte Sinai: \u201cEle invocou o nome de Yahw\u00e9. O Senhor passou em frente dele e exclamou: o Senhor, Deus de ternura e de piedade, lento na c\u00f3lera, rico em gra\u00e7a e fidelidade (\u2026). Mois\u00e9s caiu de joelhos em terra e prostrou-se\u201d (Ex. 34, 6-8). \u00c9 semelhante a reac\u00e7\u00e3o de Pedro no Tabor: \u201cMestre, como \u00e9 bom estarmos aqui! Fa\u00e7amos tr\u00eas tendas: uma para Ti, outra para Mois\u00e9s, outra para Elias\u201d (Mc. 9,4). Quantos crist\u00e3os fizeram experi\u00eancia semelhante adorando a Eucaristia: deixarem-se envolver pela presen\u00e7a amorosa de Deus e n\u00e3o desejarem afastar-se dali. A Eucaristia afirma-se, nesses momentos, como a antec\u00e2mara da eternidade. Na adora\u00e7\u00e3o, a Eucaristia continua a ser o nosso alimento e prolonga aquela uni\u00e3o misteriosa com Cristo ao comungarmos o Seu corpo e sangue. Tamb\u00e9m a\u00ed s\u00e3o verdadeiras as palavras de Jesus: \u201cEu Sou o p\u00e3o vivo descido do C\u00e9u. Quem comer deste p\u00e3o viver\u00e1 eternamente\u201d (Jo. 6,51). \u201cQuem come a Minha carne e bebe o Meu sangue tem a vida eterna e Eu o ressuscitarei no \u00faltimo dia\u201d (Jo. 6,54). \u00c9 por isso que, na espiritualidade da Igreja, a comunh\u00e3o sacramental se prolonga espontaneamente num tempo de adora\u00e7\u00e3o silenciosa. Adorar Cristo na Eucaristia \u00e9, realmente, continuar a receb\u00ea-l\u2019O como alimento e como experi\u00eancia de eternidade. Foi nesse sagrado conv\u00edvio que, ao longo dos s\u00e9culos, homens e mulheres se deixaram incendiar pelo amor, foram devorados pelo zelo e pela urg\u00eancia da miss\u00e3o, consagraram a totalidade do seu ser a Cristo e ao Reino, perceberam a exig\u00eancia da caridade. A Eucaristia conduz sempre aqueles que a adoram \u00e0s atitudes fundamentais da convers\u00e3o crist\u00e3: escutar a Palavra, ouvir o que o Senhor nos quer dizer, deixar-se amar por Ele, tantas vezes na obscuridade silenciosa da f\u00e9; partir para a vida, amando como Cristo nos ama; dar a vida pela implanta\u00e7\u00e3o do Reino de Deus; e em tudo isso a avivar a chama da esperan\u00e7a na vida eterna. A Eucaristia ensina a viver e ajuda a morrer.  4. A adora\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica \u00e9 atitude profundamente pessoal, mas tem sempre dimens\u00e3o comunit\u00e1ria. Talvez mais do que em qualquer outra circunst\u00e2ncia, \u00e9 a pessoa concreta, no concreto da sua vida, cujo \u00edntimo s\u00f3 Deus conhece, que est\u00e1 diante do Senhor. A dimens\u00e3o comunit\u00e1ria n\u00e3o significa, nem exige, que se fa\u00e7a da adora\u00e7\u00e3o uma ora\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria. Esta dimens\u00e3o exprime-se, sobretudo, no facto de a pessoa que adora sentir e saber que nela \u00e9 a Igreja que adora, que ela adora, por aqueles que n\u00e3o adoram. A pedagogia pastoral da adora\u00e7\u00e3o deve valorizar o sil\u00eancio, at\u00e9 que a pessoa entre, atrav\u00e9s da ora\u00e7\u00e3o, no sil\u00eancio de Deus, que n\u00e3o \u00e9 aus\u00eancia, mas presen\u00e7a devoradora. O sil\u00eancio de Deus est\u00e1 repleto de vida. Todos os meios que pastoralmente se proporcionarem, devem apenas propiciar elementos para ajudar cada um a ser pessoal, individual, como o Tu de Jesus Cristo.  5. Maria, M\u00e3e de Jesus e M\u00e3e da Igreja pode estar sempre presente na nossa adora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o contrapondo ao encontro com Jesus Cristo a nossa devo\u00e7\u00e3o a Maria, mas porque ela foi e continua a ser a grande adoradora. Os seus sil\u00eancios, com que guardava tudo no seu cora\u00e7\u00e3o, guardam tamb\u00e9m esse seu segredo: a sua experi\u00eancia de adora\u00e7\u00e3o. Quando O trouxe no seu seio, sobretudo naqueles meses em que ningu\u00e9m sabia, s\u00f3 ela e Deus; quando O contemplou em Bel\u00e9m, como qualquer m\u00e3e contempla embevecida o seu Filho rec\u00e9m-nascido; no Calv\u00e1rio, ao mergulhar confiante no drama da reden\u00e7\u00e3o; quando, reunida com os Ap\u00f3stolos, esperou a vinda do Esp\u00edrito Santo; e elevada \u00e0 Gl\u00f3ria, continua a ador\u00e1-l\u2019O, a Ele que \u00e9 o seu Filho, por Quem tamb\u00e9m ela foi at\u00e9 ao Pai. Maria adora sempre, adora de uma maneira perfeita, est\u00e1 sempre com quem adora, devemos orar sempre com ela. S\u00e9 Patriarcal, 22 de Maio de 2008  <i>\u2020 JOS\u00c9, Cardeal-Patriarca  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00abAdorar\u00e1s o Senhor teu Deus\u00bb<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[144,168,199],"class_list":["post-32073","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-concilio-vaticano-ii","tag-diocese-da-guarda","tag-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32073","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=32073"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32073\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=32073"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=32073"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=32073"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}