{"id":320709,"date":"2024-04-07T09:31:22","date_gmt":"2024-04-07T08:31:22","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=320709"},"modified":"2024-04-03T13:45:28","modified_gmt":"2024-04-03T12:45:28","slug":"igreja-portugal-nos-cristaos-nao-devemos-ter-vergonha-de-sermos-amigos-dos-ciganos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/igreja-portugal-nos-cristaos-nao-devemos-ter-vergonha-de-sermos-amigos-dos-ciganos\/","title":{"rendered":"Igreja\/Portugal: \u00abN\u00f3s, crist\u00e3os, n\u00e3o devemos ter vergonha de ser amigos dos ciganos\u00bb"},"content":{"rendered":"<p><em>Em v\u00e9speras do Dia Internacional do Cigano, \u00e9 convidado da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecl\u00e9sia, H\u00e9lder Afonso, diretor nacional da Pastoral dos Ciganos, organismo (da Igreja Cat\u00f3lica, que visa promover o desenvolvimento espiritual, humano e social desta popula\u00e7\u00e3o e a sua inclus\u00e3o na sociedade portuguesa<\/em><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_320585\" aria-describedby=\"caption-attachment-320585\" style=\"width: 1034px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/helder_afonso_rr-2.jpeg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-320585 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/helder_afonso_rr-2.jpeg\" alt=\"\" width=\"1034\" height=\"690\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/helder_afonso_rr-2.jpeg 1034w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/helder_afonso_rr-2-390x260.jpeg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/helder_afonso_rr-2-1024x683.jpeg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/helder_afonso_rr-2-768x512.jpeg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/helder_afonso_rr-2-391x260.jpeg 391w\" sizes=\"(max-width: 1034px) 100vw, 1034px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-320585\" class=\"wp-caption-text\">Foto: RR\/Henrique Cunha<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em>Ap\u00f3s a sua nomea\u00e7\u00e3o, em novembro de 2023, manifestou a inten\u00e7\u00e3o de visitar todas as comunidades de etnia cigana espalhadas pelas nossas dioceses.\u00a0J\u00e1 iniciou esse p\u00e9riplo? <\/em><\/p>\n<p>Vai ser de facto uma miss\u00e3o bastante dif\u00edcil, n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel, mas \u00e9 uma miss\u00e3o dif\u00edcil porque cada realidade em cada diocese, em cada regi\u00e3o \u00e9 diferente. J\u00e1 iniciei e j\u00e1 visitei algumas comunidades na diocese de Bragan\u00e7a. Tive a oportunidade, agora em fevereiro \u00faltimo, de estar com a pastoral dedicada aos ciganos da diocese de Bragan\u00e7a. Ali\u00e1s, a Cristina tamb\u00e9m \u00e9 um dos membros da dire\u00e7\u00e3o, e tive a oportunidade de reunir com ela, de ver o trabalho deles, de ver o trabalho daquela diocese; um trabalho muito v\u00e1lido tamb\u00e9m. Um trabalho com caracter\u00edsticas diferentes, se calhar, daquelas que vemos no Alentejo, ou em Lisboa, daquela que vemos at\u00e9 em Vila Real, mas um trabalho de grande proximidade, juntamente tamb\u00e9m com alguns elementos que j\u00e1 fazem daquela pastoral no seu dia-a-dia. E estou-me a lembrar de alguns professores que se dedicam integralmente ao ensino de jovens e de mi\u00fados ciganos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Falou tamb\u00e9m da import\u00e2ncia de implementar em cada diocese um secretariado ou uma val\u00eancia ligada esta pastoral.<\/em><\/p>\n<p>Sim, esse secretariado, se calhar, em grande parte das dioceses at\u00e9 j\u00e1 existe. Est\u00e1 \u00e9 inativo ou est\u00e1 sem um grande trabalho pastoral. Grande parte dos secretariados da C\u00e1ritas j\u00e1 fazem esse trabalho de proximidade e n\u00f3s \u00e0s vezes fazemos uma jun\u00e7\u00e3o, e misturamos aquilo que \u00e9 o trabalho com a etnia cigana, com aquilo que s\u00e3o os apoios sociais. E por isso \u00e9 que grande parte das dioceses juntam a pastoral social \u00e0 pastoral das migra\u00e7\u00f5es, com a pastoral das minorias \u00e9tnicas ou a pastoral dos ciganos: Se calhar seria importante, e vai ser essa tamb\u00e9m a nossa miss\u00e3o enquanto Dire\u00e7\u00e3o Nacional, mostrar \u00e0 hierarquia, mostrar aos senhores bispos que de facto podemos fazer diferente. A C\u00e1ritas faz o trabalho dela, e bem, um trabalho muito v\u00e1lido, mas a pastoral dos ciganos ou o que queriam chamar, se calhar, minorias \u00e9tnicas, e h\u00e1 dioceses que lhe chamam minorias \u00e9tnicas, e outras que lhe chamam pastoral dos ciganos e n\u00e3o temos de ter medo, n\u00e3o temos de ter receio de dizer: Pastoral diocesana dos Ciganos. \u00c9 um trabalho que as dioceses podem fazer de grande proximidade. N\u00f3s ao querer implementar ou querer reiniciar esse trabalho nas dioceses estamos a dizer que queremos estar pr\u00f3ximos. A Dire\u00e7\u00e3o Nacional n\u00e3o tem qualquer supervis\u00e3o sobre as dioceses; pois cada diocese tem a sua autonomia e assim \u00e9 que deve ser, mas devemos trabalhar em colabora\u00e7\u00e3o e trabalhar em proximidade, s\u00f3 assim conseguimos na Igreja fazer um trabalho v\u00e1lido e um trabalho que v\u00e1 ao encontro dos nossos irm\u00e3os ciganos.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Pessoalmente, como \u00e9 que \u00e9 a sua experi\u00eancia neste campo?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 uma experi\u00eancia muito v\u00e1lida. Na minha comunidade, em Vila Real, na freguesia onde vivo, tenho uma comunidade de ciganos, tenho uma aldeia de Lagares que 80% s\u00e3o ciganos. Portanto eu estou nesta miss\u00e3o j\u00e1 h\u00e1 algum tempo. Ali\u00e1s entrei com o Padre Francisco Sales em 2013, embora de uma forma informal para a Dire\u00e7\u00e3o Nacional, e colaborava com eles, mas depois tive sempre uma liga\u00e7\u00e3o muito pr\u00f3xima com a comunidade cigana. Ali\u00e1s sou padrinho de tr\u00eas ciganos, fruto tamb\u00e9m da minha liga\u00e7\u00e3o e do meu envolvimento com eles no meu dia-a-dia. E de facto a comunidade cigana tem de sentir em n\u00f3s alguma proximidade e algum afeto e algum carinho por aquilo que \u00e9 a comunidade e a cultura deles. N\u00e3o nos podemos imiscuir daquilo que \u00e9 a cultura deles e temos de estar com eles naquilo que \u00e9 bom, nos anivers\u00e1rios, na doen\u00e7a, como na visita ao hospital, ou at\u00e9 tamb\u00e9m na morte e naquilo que s\u00e3o as festas deles.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Para quem est\u00e1 a ouvir e talvez n\u00e3o esteja t\u00e3o por dentro do assunto, do que \u00e9 que estamos a falar, como \u00e9 que se pode caracterizar a realidade da etnia em Portugal?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>N\u00f3s neste momento temos realidades diferentes. N\u00f3s estamos a falar de ciganos com baixa escolaridade, e que no interior vivem essencialmente daquilo que \u00e9 a agricultura, daquilo que \u00e9 a pastor\u00edcia. Eu diria que l\u00e1 por Vila Real grande parte da comunidade tem animais, dedica-se \u00e0 agricultura. Depois estamos a falar de uma realidade de ciganos ligada ao com\u00e9rcio, essencialmente cal\u00e7ado, vestu\u00e1rio. Por norma dedicam-se exclusivamente a isso. E estamos a falar de um grupo de ciganos com outro poder econ\u00f3mico e que estava enraizado na sociedade portuguesa. E n\u00f3s podemos ver agora uma realidade que nos \u00faltimos anos tem surgido, que \u00e9 a realidade da m\u00fasica da etnia cigana, e que podemos tamb\u00e9m aproveitar e devemos tamb\u00e9m fazer esta liga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00c9 uma forma de inclus\u00e3o tamb\u00e9m?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 uma forma de inclus\u00e3o e uma forma de proximidade \u00e0 restante sociedade, porqu\u00ea? N\u00f3s hoje ouvimos sempre, pela negativa, a falar dos ciganos. Estamos sempre a ouvir falar que s\u00e3o subsidiodependentes, que s\u00e3o parasitas da sociedade, mas n\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Tem ideia de quantos s\u00e3o e onde vivem a maior parte dos ciganos?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Por aquilo que eu pude perceber no Observat\u00f3rio das Comunidades Ciganas, n\u00f3s estamos a falar de cerca de 60 a 70 mil ciganos. At\u00e9 dezembro, esteve um concurso na Funda\u00e7\u00e3o Ci\u00eancia e Tecnologia, para se fazer um estudo aprofundado sobre as comunidades ciganas em Portugal. Portanto, est\u00e1 neste momento em fase de t\u00e9rminos esse concurso, para que seja poss\u00edvel apurar quantos s\u00e3o, como \u00e9 que vivem, a sua escolaridade. Ali\u00e1s, uma das minhas primeiras reuni\u00f5es foi com o Observat\u00f3rio das Comunidades Ciganas, porque tamb\u00e9m queremos estar com eles neste trabalho de proximidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Voltando \u00e0 sua sauda\u00e7\u00e3o, deixou tamb\u00e9m um sublinhado \u00e0s palavras de Francisco, de que na igreja h\u00e1 espa\u00e7o para todos. Esse desafio de encontrar solu\u00e7\u00f5es e estrat\u00e9gias com todos os agentes que trabalham nas institui\u00e7\u00f5es e de fazer esse esfor\u00e7o de estar pr\u00f3ximos dos mais fr\u00e1geis e exclu\u00eddos da nossa sociedade, j\u00e1 est\u00e1 de alguma forma a ser cumprido, ou n\u00e3o?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Eu tamb\u00e9m quis usar aquela express\u00e3o do Papa Francisco, todos, todos, porque n\u00f3s queremos uma sociedade inclusiva, mas depois s\u00f3 a queremos para alguns. E quando se fala das comunidades ciganas, h\u00e1 sempre um torcer de cara daquilo que s\u00e3o as suas viv\u00eancias e daquilo que \u00e9 a sua cultura. As institui\u00e7\u00f5es acolhem todos, e eu estou a lembrar-me das institui\u00e7\u00f5es de solidariedade social, que n\u00e3o fazem exce\u00e7\u00e3o de pessoas.\u00a0Estou a falar tamb\u00e9m da escola, estou a falar da parte da sa\u00fade. Se calhar na habita\u00e7\u00e3o nem sempre isso acontece. Quando h\u00e1 uma comunidade cigana que quer ir para uma habita\u00e7\u00e3o social, se calhar, provavelmente existir\u00e1 aqui alguma resist\u00eancia por parte das institui\u00e7\u00f5es, mas este trabalho tem que ser feito de muita proximidade com eles. Perceber a cultura deles.\u00a0N\u00f3s n\u00e3o podemos arranjar estrat\u00e9gias para os ciganos, para a comunidade cigana, sem perceber a cultura deles. E foi uma pena que a estrat\u00e9gia que terminou agora em 2023 n\u00e3o tenha sido renovada. Existia a estrat\u00e9gia da integra\u00e7\u00e3o da comunidade cigana que terminou em 2020, mas que depois devido \u00e0 pandemia foi prorrogada at\u00e9 2023, e agora essa estrat\u00e9gia terminou e n\u00e3o surgiu uma nova, tendo em conta aquilo que correu bem, tendo em conta aquilo que correu tamb\u00e9m menos bem at\u00e9 \u00e0 data, e aquilo que poderemos fazer numa nova estrat\u00e9gia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Isso pode ser um desafio para o novo governo?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Sim, penso que sim, ali\u00e1s, uma das minhas propostas na dire\u00e7\u00e3o \u00e9 que a breve prazo possamos tamb\u00e9m, junto do novo governo, fazer esta marca\u00e7\u00e3o. Queremos pedir uma reuni\u00e3o, para tamb\u00e9m sermos parte integrante dessa estrat\u00e9gia, porque conhecemos a realidade, conhecemos as comunidades, conhecemos a cultura cigana e queremos tamb\u00e9m ser parte da solu\u00e7\u00e3o. E conseguir que a estrat\u00e9gia possa tamb\u00e9m ter frutos positivos. \u00c0s vezes fazem-se grandes estrat\u00e9gias, fazem-se grandes tratados, mas depois na pr\u00e1tica eles n\u00e3o s\u00e3o executados, ou uma \u00ednfima parte \u00e9 que \u00e9 executada e grande parte ningu\u00e9m conhece, e se calhar os ciganos n\u00e3o conhecem a estrat\u00e9gia.<\/p>\n<p>Eu digo-lhes muitas vezes, v\u00f3s n\u00e3o podeis s\u00f3 olhar para aquilo que s\u00e3o os vossos direitos, tamb\u00e9m tendes de olhar para aquilo que s\u00e3o os vossos deveres, porque aqui est\u00e1 uma solu\u00e7\u00e3o e aqui est\u00e1 uma estrat\u00e9gia para que n\u00f3s consigamos estar com eles.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Como \u00e9 que a estrutura que dirige olha para a realidade portuguesa, onde algumas ideias racistas e xen\u00f3fobas parecem ganhar adeptos?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 muito f\u00e1cil ter essas atitudes contra uma comunidade &#8211; embora possa ser a maior comunidade das minorias \u00e9tnicas, mas \u00e9 uma minoria muito, muito pequena, estamos a falar de 60, 70 mil pessoas -, \u00e9 muito f\u00e1cil os partidos, \u00e9 muito f\u00e1cil a sociedade atirarem a pedra. H\u00e1 dias estive no ISCTE, a falar sobre a comunidade cigana, em Lisboa, e os nossos alunos aquilo que atiram sempre \u00e9 que as \u201ccomunidades ciganas n\u00e3o gostam de trabalhar e vivem de subsidiodepend\u00eancia\u201d. E eu lembro-me sempre daquela passagem do Evangelho de S\u00e3o Jo\u00e3o que \u00e9 quem n\u00e3o tiver pecados, quem n\u00e3o tiver nada, que atire a primeira pedra. Ou seja, n\u00f3s n\u00e3o podemos s\u00f3 olhar para os ciganos como ca\u00e7adores de direitos, de subs\u00eddios. N\u00e3o, estamos a falar de uma comunidade que tem os mesmos direitos que a restante sociedade. Eles n\u00e3o est\u00e3o desprovidos dos seus direitos por serem ciganos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas do ponto de vista pol\u00edtico, a avaliar pelos resultados eleitorais, pelo menos dos \u00faltimos, n\u00e3o h\u00e1 algo que est\u00e1 aqui a falhar? Certas ideias, do ponto de vista racista e xen\u00f3fobo, ganharam muita proje\u00e7\u00e3o no Parlamento que se constituiu\u2026<\/em><\/p>\n<p>Sim, ganharam, porque \u00e9 f\u00e1cil ter esse discurso, o discurso de \u00f3dio, o discurso de que eles s\u00e3o os parasitas da sociedade, isso \u00e9 f\u00e1cil de dizer. Agora, dif\u00edcil \u00e9 ter estrat\u00e9gias e implementar estrat\u00e9gias que os fa\u00e7am, eu n\u00e3o diria que os fa\u00e7am mudar, mas que tenham outro tipo de mentalidade e outro tipo de abordagem ao assunto. Ou seja, n\u00f3s quando vemos alguns partidos pol\u00edticos atirar que os culpados de tudo e mais alguma coisa s\u00e3o os ciganos, n\u00e3o podemos conceber isso.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, eu pretendo tamb\u00e9m, junto da nova Assembleia da Rep\u00fablica, tamb\u00e9m tentar alguns encontros, algumas reuni\u00f5es, para desmistificar esse conceito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas com todos os partidos?<\/em><\/p>\n<p>Com todos os partidos, \u00e9 evidente. N\u00e3o podemos fazer aqui ace\u00e7\u00e3o de partidos, nomeadamente aqueles que, se calhar, s\u00e3o um pouco mais contra a etnia cigana, contra as minorias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas tem de haver alguma veem\u00eancia a\u00ed da sua parte, nomeadamente com esse partido que est\u00e1 a falar agora?<\/em><\/p>\n<p>Tem de haver, tem de haver disponibilidade e temos de lev\u00e1-los a compreender aquilo que \u00e9 a comunidade cigana e, se calhar no \u00e2mbito da nova estrat\u00e9gia para as pessoas ciganas, \u00e9 preciso perceber o que \u00e9 que ali podemos colocar para que esse conceito, para que essa ideia, para que esse preconceito possa desaparecer ou possa diminuir da sociedade e de alguns partidos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>J\u00e1 percebi que, do seu ponto de vista, pensa que \u00e9 importante que a Igreja se empenhe a contrariar o sucesso destes pensamentos de car\u00e1ter populista e racista\u2026<\/em><\/p>\n<p>Sim, claro, a Igreja tamb\u00e9m tem de ser aqui um ponto de proximidade com os partidos. D. Manuel Linda falava no Domingo de P\u00e1scoa acerca dos crist\u00e3os na pol\u00edtica. Claro, n\u00f3s devemos tamb\u00e9m envolver-nos, enquanto crist\u00e3os, naquilo que \u00e9 pol\u00edtica, pol\u00edtica ativa, junto dos partidos, junto da Assembleia, junto dos nossos governantes, para mostrar o nosso acordo ou o nosso desacordo com aquilo que s\u00e3o as pol\u00edticas para as minorias \u00e9tnicas e, nomeadamente, para os ciganos. E devemos ter aqui uma palavra a dizer, e a Igreja aqui n\u00e3o deve ter receio de se envolver, de mostrar que est\u00e1 atenta, de mostrar que est\u00e1 atenta aos ciganos, de mostrar que est\u00e1 atenta \u00e0s minorias \u00e9tnicas, de mostrar que quer fazer acontecer algo nestas comunidades.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>J\u00e1 teve a oportunidade de conversar com o presidente da Ag\u00eancia para a Integra\u00e7\u00e3o, Migra\u00e7\u00f5es e Asilo, o organismo que substituiu o Servi\u00e7o de Estrangeiros e Fronteiras. Qual a import\u00e2ncia de manter estes canais de di\u00e1logo com as institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, tendo em conta at\u00e9 o conhecimento do terreno por parte das institui\u00e7\u00f5es cat\u00f3licas?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 muito importante n\u00f3s, enquanto Dire\u00e7\u00e3o Nacional da Pastoral dos Ciganos, podermos envolver-nos com as institui\u00e7\u00f5es que est\u00e3o na frente de combate destas situa\u00e7\u00f5es, nomeadamente a AIMA. Eu pedi uma reuni\u00e3o ao Dr. Lu\u00eds Pinheiro, que \u00e9 o presidente do Conselho Diretivo da AIMA, e que se mostrou logo dispon\u00edvel para reunir connosco, at\u00e9 porque com a jun\u00e7\u00e3o do SEF e do Alto Comissariado para as Migra\u00e7\u00f5es, a AIMA ficou aqui com todos os recursos humanos e tamb\u00e9m com toda a disponibilidade para trabalhar esta problem\u00e1tica, para trabalhar este desafio. E, de facto, fiquei muito contente, reunimo-nos na sede da Confer\u00eancia Episcopal, em Lisboa, onde ele se mostrou dispon\u00edvel para novos projetos, para apoiar novos projetos, para apoiar novas din\u00e2micas, para nos apoiar naquilo que \u00e9 tamb\u00e9m o nosso interesse, enquanto Estrat\u00e9gia Nacional para os Ciganos, a quest\u00e3o da habita\u00e7\u00e3o, da educa\u00e7\u00e3o, da sa\u00fade, e levar-nos a conhecer melhor tamb\u00e9m a realidade dos Ciganos a n\u00edvel do pa\u00eds, que como eu disse h\u00e1 pouco, \u00e9 totalmente diferente no interior, no litoral, em Lisboa, em Vila Real, no Alentejo &#8211; e estamos a falar, no Alentejo, numa comunidade bastante desprotegida. Estamos a falar de uma comunidade que vive num pr\u00e9dio abandonado e tivemos a oportunidade de ver isso em agosto de 2023, de ver aquela realidade daquela comunidade que vive toda isolada naquele pr\u00e9dio, totalmente desprovido de condi\u00e7\u00f5es dignas para um ser humano. E n\u00f3s, enquanto crist\u00e3os, n\u00e3o podemos fechar os olhos \u00e0 realidade do povo cigano. N\u00f3s, crist\u00e3os, temos a obriga\u00e7\u00e3o de nos envolvermos, costumo dizer sujar as m\u00e3os, n\u00e3o \u00e9 o termo mais correto&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas o Papa tamb\u00e9m o usa, sim.<\/em><\/p>\n<p>Sim, mas envolver-nos naquilo que \u00e9 o trabalho com a etnia cigana. \u00c9 dif\u00edcil? Sim, n\u00e3o \u00e9 um trabalho f\u00e1cil, mas todos os trabalhos que envolvem pessoas, que envolvem indiv\u00edduos, muitas vezes desprotegidos, muitas vezes at\u00e9 colocados de parte, isso d\u00e1 trabalho. E esse trabalho deve ser feito por crist\u00e3os e n\u00e3o devemos ter medo de o fazer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Em 2021, muito simbolicamente, o Papa, quando esteve na Eslov\u00e1quia, encontrou-se com membros da comunidade cigana. Sabemos que representam a maior minoria \u00e9tnica na Europa e, ao mesmo tempo, tamb\u00e9m a mais discriminada. O que \u00e9 que est\u00e1 a falhar na Uni\u00e3o Europeia?<\/em><\/p>\n<p>N\u00f3s nos \u00faltimos 3, 4 anos envolvemo-nos muito, a Uni\u00e3o Europeia envolveu-se muito na quest\u00e3o dos refugiados, e bem, mas esqueceu-se um pouco dos nossos ciganos, da maior minoria, que \u00e9 a comunidade cigana. E a Europa esqueceu-se &#8211; fruto tamb\u00e9m, se calhar, de alguns partidos europeus que p\u00f5em de parte essa etnia \u2013 dos nossos ciganos, com uma hist\u00f3ria de mais de 500 anos\u2026 o Papa em 2015, num encontro em Roma, onde eu estive presente, falou isso, que devemos ser crist\u00e3os pr\u00f3ximos destas minorias, crist\u00e3os pr\u00f3ximos dos nossos ciganos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Ir ao encontro de todas as periferias\u2026<\/em><\/p>\n<p>De todas as periferias, para os trazer, e como eu disse h\u00e1 pouco, entender aquilo que \u00e9 a cultura. Uma Europa mais inclusiva, uma Europa mais capaz de mostrar junto dos pa\u00edses-membros. Ali\u00e1s, temo-lo visto com alguns projetos de integra\u00e7\u00e3o a n\u00edvel europeu, se calhar muitas vezes n\u00e3o t\u00e3o bem aproveitados. Eu vou estar agora no encontro anual do Comit\u00e9 Cat\u00f3lico Internacional para os Ciganos (CCIT), [12 a 14 de abril] em Lyon [Fran\u00e7a], onde vamos tamb\u00e9m abordar as fronteiras&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Atravessar fronteiras \u00e9 o tema, n\u00e3o \u00e9?<\/em><\/p>\n<p>Os nossos ciganos no atravessamento de fronteiras e a liga\u00e7\u00e3o com todos os povos, em todos os pa\u00edses.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Atravessar fronteiras \u00e9 o tema, como dizia, mas n\u00e3o ser\u00e1 necess\u00e1rio agora, perante o atual contexto, a montante, derrubar certas e determinadas fronteiras que se v\u00e3o formando?<\/em><\/p>\n<p>Se calhar eu diria atravessar cora\u00e7\u00f5es. \u00c9 importante que n\u00f3s, enquanto crist\u00e3os, derrubemos essas fronteiras, derrubar aquilo que est\u00e1 dentro do nosso cora\u00e7\u00e3o, relativamente a uma minoria \u00e9tnica, algum preconceito, derrubar esse preconceito que est\u00e1 no nosso cora\u00e7\u00e3o, derrubar essa falta de proximidade, derrubar tamb\u00e9m a vergonha. E n\u00f3s, crist\u00e3os, n\u00e3o devemos ter vergonha de sermos amigos dos ciganos, porque \u00e0s vezes h\u00e1 muito isso: quando se fala da comunidade cigana, fala-se baixinho, tem-se receio que os que est\u00e3o ao nosso lado hoje&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas para falar mal, fala-se alto\u2026<\/em><\/p>\n<p>Porque \u00e9 mais f\u00e1cil, \u00e9 muito mais f\u00e1cil falar mal, e quando se fala dos ciganos \u00e9 muito amplamente ouvido. E n\u00f3s, enquanto crist\u00e3os, devemos ter essa proximidade, devemos derrubar o que nos impede de falar com os ciganos, derrubar aquilo que nos deixa indiferentes &#8211; e n\u00f3s muitas vezes somos indiferentes \u00e0s problem\u00e1ticas dos ciganos, que s\u00e3o muitas, e s\u00e3o diversas -, ter essa capacidade de derrubar a fronteira e derrubar problemas que est\u00e3o intrinsecamente no nosso cora\u00e7\u00e3o, e que n\u00f3s, enquanto crist\u00e3os, n\u00e3o devemos ter medo de o fazer.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em v\u00e9speras do Dia Internacional do Cigano, \u00e9 convidado da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecl\u00e9sia, H\u00e9lder Afonso, diretor nacional da Pastoral dos Ciganos, organismo (da Igreja Cat\u00f3lica, que visa promover o desenvolvimento espiritual, humano e social desta popula\u00e7\u00e3o e a sua inclus\u00e3o na sociedade portuguesa<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":320585,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[279],"class_list":["post-320709","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr","tag-pastoral-dos-ciganos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/320709","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=320709"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/320709\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/320585"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=320709"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=320709"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=320709"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}