{"id":320684,"date":"2024-04-03T10:08:54","date_gmt":"2024-04-03T09:08:54","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=320684"},"modified":"2024-04-03T10:11:53","modified_gmt":"2024-04-03T09:11:53","slug":"um-sonho-de-uma-sociedade-de-conflitos-a-uma-sociedade-de-cooperacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/um-sonho-de-uma-sociedade-de-conflitos-a-uma-sociedade-de-cooperacao\/","title":{"rendered":"Um sonho: de uma sociedade de conflitos a uma sociedade de coopera\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Alinhavos para uma <em>agapocracia<\/em> sustentada numa <em>eleuterologia<\/em> crist\u00e3<!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/LuisSilva-Aveiro.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-266200 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/LuisSilva-Aveiro-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/LuisSilva-Aveiro-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/LuisSilva-Aveiro-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/LuisSilva-Aveiro-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/LuisSilva-Aveiro-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/LuisSilva-Aveiro.jpg 900w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a><\/p>\n<p><em>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva, Diocese de Aveiro<\/em><\/p>\n<p>As altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas parecem ter descido da atmosfera para as rela\u00e7\u00f5es humanas. Sente-se um encrespar do mar dos encontros entre os seres humanos, para o que muito se tem invocado como causa a pandemia e os seus \u2018misteriosos\u2019 efeitos.<\/p>\n<p>Ouso arriscar uma outra leitura, mais profunda e menos circunstancial: deix\u00e1mo-nos tomar por um modo de pensar que nos faz viver em estado de permanente conflito e conflitualidade.<\/p>\n<p>Percebamos porqu\u00ea e propunhamo-nos uma \u2018terap\u00eautica\u2019\u2026<\/p>\n<p>O mundo viveu em tens\u00e3o, no per\u00edodo da \u2018guerra fria\u2019, express\u00e3o cujo significado contempor\u00e2neo devemos a George Orwell. O fim dos regimes de leste fizera crer que esse estado de tens\u00e3o seria suplantado por uma esp\u00e9cie de \u2018fim da hist\u00f3ria\u2019, assente no modelo liberal da democracia.<\/p>\n<p>Marx parecia ter sido, portanto, definitivamente derrotado quando, em 1989, desabaram, sob extensa nuvem de p\u00f3, os regimes coletivistas de Leste\u2026<\/p>\n<p>Pura ilus\u00e3o!<\/p>\n<p>Na economia, Marx fracassou, tal como (eventualmente) na geopol\u00edtica, e isso deveria ter sido raz\u00e3o suficiente para se declinar qualquer novo \u2018contrato\u2019 com o seu modo de organizar a sociedade, mas Marx deixou o seu <em>modus cogitandi<\/em>, que repousa nas mentes ocidentais.<\/p>\n<p>Parece que o derrotado se anichou na mente dos vencedores, ganhando numa batalha j\u00e1 sem ex\u00e9rcitos\u2026<\/p>\n<p>Urge, por isso, evidenciar esse <em>modus cogitandi<\/em>, para lhe dar resposta e suplant\u00e1-lo, sob pena de nova nuvem de p\u00f3 se vir a erguer, talvez com surpresas maiores do que as que nos revelara a de Leste\u2026<\/p>\n<p><strong>Uma sociedade assente na ideia de \u2018luta de classes\u2019<\/strong><\/p>\n<p>Do seu \u2018modus cogitandi\u2019 importa-nos, para o assunto aqui em an\u00e1lise, reter, de imediato, o seu axioma de que a sociedade, para se configurar como lugar da realiza\u00e7\u00e3o da utopia, se estrutura como espa\u00e7o de \u2018luta de classes\u2019.<\/p>\n<p>E se, na sua vis\u00e3o original, tal deveria promover-se em nome da suplanta\u00e7\u00e3o da economia de matriz capitalista, constatado, por\u00e9m, o erro de diagn\u00f3stico, a \u2018mat\u00e9ria\u2019 em causa deixou de ser a economia, mas o modo de pensar permaneceu. J\u00e1 n\u00e3o para se promover a suplanta\u00e7\u00e3o da economia de tipo capitalista, mas para promover a emerg\u00eancia de um \u2018homem novo\u2019.<\/p>\n<p>A matriz permanecia: a luta de classes.<\/p>\n<p>As rela\u00e7\u00f5es passaram a estar assentes, n\u00e3o na confian\u00e7a rec\u00edproca, mas na suspeita.<\/p>\n<p>Veja-se como, hoje, um simples conflito entre um homem e uma mulher, prontamente se torna um conflito entre \u2018O\u2019 Homem\u2019 e \u2018A\u2019 Mulher; um conflito entre vizinhos logo se avoluma para uma luta de \u2018religi\u00f5es\u2019 ou de \u2018ra\u00e7as\u2019, etc\u2026.<\/p>\n<p>Como recorda, com a pertin\u00eancia que o caracteriza, Roger Scruton, no seu livro <em>Tolos, impostores e incendi\u00e1rios<\/em>, traduzido para portugu\u00eas, pela Quetzal, em 2018 (edi\u00e7\u00e3o que iremos citar, ao longo deste artigo), \u2018a Hist\u00f3ria foi reescrita como um conflito entre o bem o mal, entre as for\u00e7as da luz e as for\u00e7as da escurid\u00e3o.\u2019 (<em>Op. Cit., <\/em>p.18) Marx recuperou o modo de pensar maniqueu e deu-lhe a for\u00e7a revolucion\u00e1ria que faltava ao pensamento de Manes (Maniqueu).<\/p>\n<p>\u00c9 o mesmo Scruton que recorda, j\u00e1 muito perto do fim do livro citado, que \u2018aqueles que imaginaram, em 1989, que nunca mais um intelectual seria apanhado a defender o partido de Lenine, ou a advogar os m\u00e9todos de Estaline, n\u00e3o tiveram em conta o arrebatador poder do absurdo. Na necessidade urgente de acreditar, de encontrar um mist\u00e9rio central que seja o verdadeiro sentido das coisas e ao qual a vida de algu\u00e9m possa ser dedicada, o absurdo \u00e9 muito prefer\u00edvel ao sentido; porque constr\u00f3i uma forma de vida \u00e0 volta de algo que n\u00e3o pode ser questionado. Nenhum ataque racional \u00e9 poss\u00edvel contra aquilo que nega a possibilidade de um ataque racional. [\u2026] Uma nova gera\u00e7\u00e3o redescobriu a voz aut\u00eantica do proletariado, que fala a l\u00edngua da m\u00e1quina de absurdo.\u2019 (p. 361)<\/p>\n<p><strong>A verdade e o humano concreto d\u00e3o lugar ao \u2018ideol\u00f3gico\u2019 e ao Homem abstrato<\/strong><\/p>\n<p>Acrescentamos, assim, \u00e0 l\u00f3gica de que tudo est\u00e1 em din\u00e2mica de \u2018luta de classes\u2019, um segundo elemento do <em>modus cogitandi <\/em>de Marx: a substitui\u00e7\u00e3o da \u2018verdade\u2019 pelo \u2018ideol\u00f3gico\u2019, que R. Scruton define, aqui, como sendo \u2018absurdo\u2019, na mesma linha, ali\u00e1s, de Braunstein, no seu luminoso \u2018a religi\u00e3o woke\u2019 (um guia para sobreviver \u00e0 l\u00f3gica de cancelamento em que est\u00e1 \u2018enfarinhada\u2019 a cultura ocidental. Veja-se como a ideologia de g\u00e9nero, hoje t\u00e3o disseminada, assenta nesta matriz\u2026<\/p>\n<p>Um terceiro elemento deste <em>modus cogitandi<\/em> \u00e9 a desloca\u00e7\u00e3o da preocupa\u00e7\u00e3o com a pessoa concreta, na situa\u00e7\u00e3o concreta, na realidade concreta, para um abstrato ser humano em nome do qual tudo se pode fazer e defender.<\/p>\n<p>\u2018O mundo da Novil\u00edngua \u00e9 um mundo de for\u00e7as abstratas, no qual os indiv\u00edduos s\u00e3o meras personifica\u00e7\u00f5es dos \u00abismos\u00bb que se revelam neles. Por consequ\u00eancia \u00e9 um mundo sem a\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o \u00e9 um mundo sem movimento. Pelo contr\u00e1rio, tudo est\u00e1 em constante movimento, empurrado para diante pelas for\u00e7as do progresso, ou puxado para tr\u00e1s pelas for\u00e7as da rea\u00e7\u00e3o. N\u00e3o existe equil\u00edbrio, estagna\u00e7\u00e3o ou pausa no mundo da Novil\u00edngua. Toda a tranquilidade \u00e9 uma ilus\u00e3o, a quietude de um vulc\u00e3o que pode irromper a qualquer momento. A paz nunca aparece na Novil\u00edngua como condi\u00e7\u00e3o de sossego e normalidade. H\u00e1 sempre qualquer coisa para \u00ablutar por\u00bb, e ideias como \u00abLuta pela Paz!\u00bb e \u00abDefende a Paz!\u00bb encontraram o seu espa\u00e7o dentro dos slogans oficiais do Partido Comunista.\u2019 (P. 22-23)<\/p>\n<p>E Scruton especifica, ainda mais. \u2018Os seres humanos aparecem na Hist\u00f3ria marxista apenas como \u00abfor\u00e7as\u00bb, \u00abclasses\u00bb e \u00abismos\u00bb. Institui\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas, morais e espirituais s\u00f3 t\u00eam um lugar marginal ou s\u00e3o chamadas para discuss\u00e3o apenas quando pode ser facilmente vistas em termos das abstra\u00e7\u00f5es que falam atrav\u00e9s delas. As categorias mortas, impostas \u00e0 mat\u00e9ria viva da Hist\u00f3ria, reduzem tudo a f\u00f3rmulas e estere\u00f3tipos.\u2019 (p. 58-59)<\/p>\n<p>Como t\u00e3o mordazmente recorda o mesmo Scruton (ao analisar o pensamento do marxista Luk\u00e1cs), \u2018se os factos servem para refutar a teoria \u00abtotal\u00bb do marxismo, ent\u00e3o \u00abpior para os factos\u00bb.\u2019 (p. 169)<\/p>\n<p>Neste registo, como tudo se reduz a abstra\u00e7\u00f5es, a linguagem, pela qual se veicula o modo exclusivo de acesso ao real, passa a ser um alvo privilegiado da an\u00e1lise e manipula\u00e7\u00e3o deste <em>modus cogitandi<\/em>. \u2018Como entendeu Orwell, o primeiro alvo de toda a revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 a linguagem. O objetivo \u00e9 criar uma Novil\u00edngua que coloca o poder no lugar previamente ocupado pela verdade e, feito isto, apresentar o resultado como uma \u00abpol\u00edtica de verdade\u00bb.\u2019 (P. 216)<\/p>\n<p>Naturalmente, a partir do momento em que o crit\u00e9rio deixa de ser a realidade, os factos, a verdade, urge impor a ideologia. A melhor estrat\u00e9gia \u00e9 evitar a discuss\u00e3o e promover o consenso, muitas vezes apenas presumido. \u2018Em lugar de objetividade, temos apenas \u00abintersubjetividade\u00bb &#8211; noutras, palavras, consenso. Verdade, significados, factos e valores que s\u00e3o agora vistos como negoci\u00e1veis. O curioso, no entanto, \u00e9 que esse subjetivismo vago \u00e9 acompanhado por uma vigorosa censura. Aqueles que colocam o consenso no lugar da verdade, em breve d\u00e3o por si a distinguir a verdade do falso consenso. [\u2026] A conclus\u00e3o inescap\u00e1vel \u00e9 que a subjetividade, o relativismo e o irracionalismo s\u00e3o defendidos n\u00e3o para acolher todas as opini\u00f5es, mas precisamente para excluir as opini\u00f5es de pessoas que acreditam em velhas autoridades e verdades objetivas.\u2019 (p. 315)<\/p>\n<p>A conclus\u00e3o est\u00e1 \u00e0 vista\u2026<\/p>\n<p>Para aqueles que defendem a exist\u00eancia de crit\u00e9rios de justi\u00e7a, de verdade, de respeito pela realidade, est\u00e1 reservado o lugar indicado pela censura, pois quando tudo \u00e9 arbitr\u00e1rio, sobra a a \u2018ditadura da opini\u00e3o\u2019, como denunciava, em finais de 90, Giovanni Sartori, no seu \u2018prof\u00e9tico\u2019 <em>homo videns: televis\u00e3o e p\u00f3s-pensamento <\/em>(Edi\u00e7\u00e3o da Terramar: 2000).<\/p>\n<p>\u2018Por conseguinte, quase todos os que abra\u00e7am os \u00abm\u00e9todos\u00bb relativistas introduzidos nas humanidades por Foucault, Derrida e Rorty s\u00e3o adeptos ferrenhos de um c\u00f3digo do \u00abpoliticamente correto\u00bb que condena em absoluto o desvio em termos intransigentes. A teoria relativista existe para apoiar uma doutrina absolutista.\u2019 (p. 315)<\/p>\n<p>Redunda, daqui que \u2018quando tudo \u00e9 permitido, \u00e9 essencial proibir o proibidor.\u2019 (p. 317)<\/p>\n<p>Restar\u00e1, perante isto, o sil\u00eancio e a rendi\u00e7\u00e3o dos que defendem que \u00e9 poss\u00edvel continuar a buscar e participar da verdade? E que continuam a existir verdade e erro?<\/p>\n<p><strong>O que resta? O sil\u00eancio e a rendi\u00e7\u00e3o?<br \/>\n<\/strong><strong>Proposta de uma agapocracia sustentada numa eleuterologia de matriz crist\u00e3<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 em resposta a este desafio que proponho uma <em>agapocracia<\/em> sustentada numa <em>eleuterologia<\/em> de matriz crist\u00e3.<\/p>\n<p>Definamos o conte\u00fado dos termos, neologismos que n\u00e3o pretendo que sejam mais uns \u2018ismos\u2019 na selva da manipula\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica t\u00e3o t\u00edpica da matriz denunciada, mas luminosos termos de um modo distinto de pensar e agir. Socorro-me, para tal, da etimologia para os construir.<\/p>\n<p>Os gregos enunciavam tr\u00eas modos de viv\u00eancia do amor (magnificamente retratados na enc\u00edclica de Bento XVI, \u2018Deus caritas est\u2019).<\/p>\n<p>O primeiro deles, mais f\u00edsico e assente na reciprocidade esperada, era descrito como \u2018eros\u2019.<\/p>\n<p>O segundo era o que se evidenciava na rela\u00e7\u00e3o entre dois amigos: gratuito e desprendido, mas sem compromisso nem exig\u00eancia. O amor descrito como \u2018filia\u2019 (infelizmente, a cria\u00e7\u00e3o do termo \u2018pedofilia\u2019 denegriu o termo (e o conceito) original. Melhor seria ter-se chamado \u2018pedomania\u2019 ou \u2018pedopatologia\u2019, mas j\u00e1 pouco poderemos fazer\u2026). Este \u00e9 o termo que se \u2018aninha\u2019 nas palavras \u2018filosofia\u2019, \u2018filantropia\u2019, etc. O amor genu\u00edno, mas ainda descomprometido.<\/p>\n<p>Por fim, o amor gratuito, doado, sem esperar retorno, dedicado ao outro at\u00e9 ao ponto de dar a vida por ele. \u00c9 um ideal, bem certo, mas assente numa vis\u00e3o confiante em rela\u00e7\u00e3o ao outro. Descreve-se como \u2018ag\u00e1p\u00ea\u2019.<\/p>\n<p>A <em>agapocracia <\/em>\u00e9 a defesa de uma sociedade em que o poder (que existe e n\u00e3o pode sen\u00e3o existir, nas rela\u00e7\u00f5es societ\u00e1rias, ao contr\u00e1rio do que pensam os anarquistas, encavalitados na vis\u00e3o marxista\u2026) existe, mas \u00e9 gerido com a matriz que lhe confere a presun\u00e7\u00e3o de que o outro \u00e9 humano, fr\u00e1gil na sua condi\u00e7\u00e3o, mas digno e merecedor de respeito e acolhimento. O outro, mesmo quando pensa de modo diferente, n\u00e3o \u00e9 um inimigo, um ser a abater, mas um outro a acolher. A amar!&#8230; (Numa cr\u00edtica a Michel Foucalt, tamb\u00e9m ele marxista, Roger Scruton recorda que \u2018ao levar as posi\u00e7\u00f5es das mulheres e das crian\u00e7as a s\u00e9rio, chega quase a reconhecer a verdade: n\u00e3o \u00e9 o poder, mas sim o amor que faz o mundo girar.\u2019 (P. 156)<\/p>\n<p>O fundamento desta vis\u00e3o que aqui proponho n\u00e3o \u00e9 uma utopia, mas uma abordagem realista da igual condi\u00e7\u00e3o fr\u00e1gil, vulner\u00e1vel, d\u00e9bil, de todos os humanos que, por n\u00e3o serem absolutos, n\u00e3o podem nem devem ter todo o poder sobre a vida dos demais. (Quanta repercuss\u00e3o na vis\u00e3o sobre os limites autoimpostos da democracia que, como bem lembra G. Zagrebelsky, n\u00e3o deveria admitir-se decidir sobre a vida e a morte dos cidad\u00e3os!)<\/p>\n<p>Esta conce\u00e7\u00e3o tem como pressuposto um entendimento de liberdade (em grego \u2018eleuter\u00eda\u2019, donde o termo \u2018eleuterologia\u2019) n\u00e3o absoluta (ao contr\u00e1rio da vis\u00e3o marxista que a pressup\u00f5e absoluta e n\u00e3o condicionada\u2026), sempre condicionada e realizada, necessariamente, no encontro com o outro. Ao contr\u00e1rio da vis\u00e3o marxista, que funde a liberdade num abstrato humano (mas depois de a conceber como a-hist\u00f3rica e solipsista, sem v\u00ednculos ao passado e \u00e0 mem\u00f3ria), a liberdade desta vis\u00e3o \u00e9 sempre a do ser humano concreto, feito do encontro com os demais, pensada como realidade constru\u00edda com os outros. Esta perspetiva pressup\u00f5e que ser livre \u00e9 procurar libertar-se de tudo o que aprisiona, podendo esses aprisionamentos ocorrer no pr\u00f3prio interior do ser humano, sempre que a sua realiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o se faz na busca do que mais o realiza. A liberdade n\u00e3o \u00e9, aqui, identificada com mero exerc\u00edcio da \u2018vontade que quer\u2019, mas como discernimento e necess\u00e1ria busca da verdade. Repercute, ali\u00e1s, a ideia da \u2018libra\u2019, a balan\u00e7a que os romanos pensavam como um objeto que deveria, permanentemente, equilibrar-se, pois o risco do desequil\u00edbrio era constante.<\/p>\n<p>Nesta vis\u00e3o, os seres humanos n\u00e3o s\u00e3o, j\u00e1, primeiramente indiv\u00edduos (a fundir, num segundo momento, numa massa an\u00f3nima e abstrata), mas pessoas, conceito distinto da mera quantifica\u00e7\u00e3o que se exprime na ideia de \u2018indiv\u00edduo\u2019. Ser-se pessoa (conceito que o mundo deve ao cristianismo e que nasce no contexto das discuss\u00f5es trinit\u00e1rias \u2013 como poderia conceber-se Deus como \u00fanico e uno e, ao mesmo tempo, como diverso em si mesmo? O conceito de indiv\u00edduo n\u00e3o servia. O de \u2018pessoa\u2019 \u00e9 a resposta.) define-nos como raz\u00e3o e rela\u00e7\u00e3o. O ser humano define-se, assim, como intrinsecamente projetado para a verdade (Raz\u00e3o), mas n\u00e3o conceb\u00edvel de forma solipsista ou mon\u00e1dica (n\u00e3o \u00e9 uma m\u00f3nada fechada sobre si): \u00e9 primeiramente \u2018rela\u00e7\u00e3o\u2019. Ali\u00e1s, como tantas vezes fomos afirmando (recordamo-lo no livro \u2018ensaios de liberdade\u2019, editado em 2023, pela Editora Tempo novo), o ser humano desperta em si a autoconsci\u00eancia (em si em pot\u00eancia) pela a\u00e7\u00e3o dos outros que fazem emergir a consci\u00eancia de si mesmo. Sem os outros, n\u00e3o ser\u00edamos consci\u00eancia de n\u00f3s. Eles s\u00e3o, por isso, a condi\u00e7\u00e3o de possibilidade da nossa pr\u00f3pria consci\u00eancia. Logo, as liberdades que somos n\u00e3o se anulam, mas projetam-se umas \u00e0s outras. Esta \u00e9 a nova eleuterologia: n\u00e3o uma em que as liberdades se estorvam e conflituam, mas em que as liberdades s\u00f3 s\u00e3o pens\u00e1veis como condi\u00e7\u00e3o de gera\u00e7\u00e3o das liberdades dos demais.<\/p>\n<p>N\u00e3o somos, por isso, apenas realidades coexistentes: somos a condi\u00e7\u00e3o da realiza\u00e7\u00e3o dos demais.<\/p>\n<p>Sen\u00e3o, o que sobrar\u00e1: o conflito at\u00e9 \u00e0 extin\u00e7\u00e3o ou at\u00e9 \u00e0 sobreviv\u00eancia dos que t\u00eam poder, dos que podem?<\/p>\n<p>Esta nova eleuterologia presume que a liberdade n\u00e3o \u00e9 mat\u00e9ria de vontade, mas, como condi\u00e7\u00e3o exclusivamente humana (e divina, certamente!), mas n\u00e3o animal, n\u00e3o \u00e9 exerc\u00edcio do querer: \u00e9 a\u00e7\u00e3o da intelig\u00eancia concreta e hist\u00f3rica que ilumina os desejos e os afetos.<\/p>\n<p>Liberdade n\u00e3o \u00e9, assim, fazer o que \u2018se quer\u2019, mas a capacidade de iluminar o que se quer e agir em conformidade.<\/p>\n<p>E se as vontades (por serem absolutas e indeterminadas, tudo querem!) se estorvam umas \u00e0s outras, as intelig\u00eancias iluminam-se, reciprocamente, e porque apontadas para a verdade, elevam-se umas \u00e0s outras.<\/p>\n<p>De forma brilhante, \u00e9 isso que preconiza Scruton, focando a verdade na busca da justi\u00e7a: \u2018A nossa preocupa\u00e7\u00e3o enquanto seres pol\u00edticos devia ser, n\u00e3o a aboli\u00e7\u00e3o dos poderes que unem a sociedade, mas a mitiga\u00e7\u00e3o do seu exerc\u00edcio. N\u00e3o dever\u00edamos pretender um mundo sem poder, mas um mundo em que o poder \u00e9 consentido, e onde os conflitos s\u00e3o resolvidos de acordo com uma conce\u00e7\u00e3o partilhada de justi\u00e7a.\u2019 (P. 369)<\/p>\n<p>Como em outros tempos da hist\u00f3ria, muito se espera do Cristianismo. E hoje, como sempre, ao longo destes 2000 anos, o desafio n\u00e3o est\u00e1 na \u2018fuga do mundo\u2019, mas na ousadia de permanecer fiel, quando a tempestade se abate, prestando o contributo \u00edmpar que da vis\u00e3o crist\u00e3 se espera\u2026 \u00c9 o humano que est\u00e1 em causa e considerando (em par\u00e1frase do pensamento de Ter\u00eancio) que \u2018nada do que \u00e9 humano nos \u00e9 estranho\u2019, cabe identificar o verme que corr\u00f3i a raiz, extirp\u00e1-lo, para que a \u00e1rvore se agigante para o alto. Porque a salva\u00e7\u00e3o \u00e9 concedida aos homens e mulheres concretos, n\u00e3o \u00e0s abstra\u00e7\u00f5es do Humano. E porque os humanos que somos nascem d\u2019Aquele que faz deles muito mais do que o casual resultado da fria e an\u00f3nima evolu\u00e7\u00e3o: faz deles irm\u00e3os!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alinhavos para uma agapocracia sustentada numa eleuterologia crist\u00e3<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":266200,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[170],"class_list":["post-320684","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao","tag-diocese-de-aveiro"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/320684","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=320684"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/320684\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/266200"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=320684"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=320684"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=320684"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}