{"id":31983,"date":"2008-05-18T17:14:45","date_gmt":"2008-05-18T17:14:45","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/05\/18\/carta-pastoral-do-cardeal-patriarca-a-igreja-de-lisboa\/"},"modified":"2008-05-18T17:14:45","modified_gmt":"2008-05-18T17:14:45","slug":"carta-pastoral-do-cardeal-patriarca-a-igreja-de-lisboa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/carta-pastoral-do-cardeal-patriarca-a-igreja-de-lisboa\/","title":{"rendered":"Carta Pastoral do Cardeal-Patriarca \u00e0 Igreja de Lisboa"},"content":{"rendered":"<p><b>A Igreja no tempo e em cada tempo<\/b> <!--more--> <b>Introdu\u00e7\u00e3o<\/b> 1. Quando se completam trinta anos do meu minist\u00e9rio episcopal ao servi\u00e7o da Igreja de Lisboa, os \u00faltimos dez como Patriarca, resolvi escrever-vos esta Carta, talvez inspirado pelo Ap\u00f3stolo Paulo, de quem vamos celebrar os 2000 anos de nascimento e que escrevia frequentemente cartas \u00e0s Igrejas nascidas do seu minist\u00e9rio apost\u00f3lico. Nela, quero falar-vos da nossa Igreja diocesana, como eu a vejo, como eu a desejo, como eu a amo, na firme certeza de que \u00e9 o Senhor, atrav\u00e9s do Seu Esp\u00edrito, quem a ama e constr\u00f3i, atrav\u00e9s do nosso minist\u00e9rio e da fidelidade de todos os crist\u00e3os.  Porque estamos j\u00e1 em ambiente do \u201cAno Paulino\u201d, permiti que vos sa\u00fade como Paulo saudava as Igrejas no in\u00edcio das suas Cartas: \u201cPaulo, Ap\u00f3stolo de Jesus Cristo pela vontade de Deus, e o irm\u00e3o Tim\u00f3teo, \u00e0 Igreja de Deus, que est\u00e1 em Corinto, e tamb\u00e9m a todos os crist\u00e3os que se encontram por toda a Acaia. A gra\u00e7a e a paz vos sejam dadas da parte de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo\u201d (2Co. 1,1-2). E como Paulo sa\u00fada os crist\u00e3os de Corinto tamb\u00e9m em nome de Tim\u00f3teo, seu colaborador, muito estimado por aquela comunidade, sa\u00fado-vos tamb\u00e9m em nome dos Senhores Bispos Auxiliares, que comigo exercem o minist\u00e9rio episcopal, para bem desta Igreja. Saudamos todos os sacerdotes, os di\u00e1conos, os religiosos e religiosas, os crist\u00e3os leigos, espalhados nesta vasta Diocese, de Lisboa a Alcoba\u00e7a, da Azambuja a Torres Vedras, de Cascais \u00e0 Nazar\u00e9. Sa\u00fado com particular ternura as fam\u00edlias, as crian\u00e7as, os jovens, os doentes e todos aqueles que sofrem bem como os que chegaram ao ocaso da vida, que d\u00e3o testemunho de coragem e de esperan\u00e7a. Sa\u00fado, as nossas irm\u00e3s mulheres, que s\u00e3o chamadas a ser, na Igreja, a express\u00e3o da principal novidade do Evangelho: a primazia absoluta do amor sobre a l\u00f3gica das situa\u00e7\u00f5es e das conveni\u00eancias.  <b>O Conc\u00edlio Vaticano II tamb\u00e9m aconteceu para n\u00f3s<\/b> 2. Iniciei o meu minist\u00e9rio sacerdotal nesta Diocese, pelas m\u00e3os do saudoso Cardeal Cerejeira, em pleno entusiasmo da renova\u00e7\u00e3o conciliar. Havia dois anos, o Papa Jo\u00e3o XXIII surpreendera a Igreja com a convoca\u00e7\u00e3o de um Conc\u00edlio Ecum\u00e9nico. Eram passados quase cem anos do encerramento precipitado do \u00faltimo, interrompido bruscamente pelas muta\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edticas em Roma e em toda a It\u00e1lia. Na Bas\u00edlica de S\u00e3o Paulo fora de Muros, no dia 25 de Janeiro de 1959, Festa da Convers\u00e3o de S\u00e3o Paulo, o Papa explicou as raz\u00f5es da sua decis\u00e3o: o mundo mudou; a Igreja, para continuar a ser fiel \u00e0 sua miss\u00e3o de enviada ao mundo, como mensageira da salva\u00e7\u00e3o, precisa de mudar, de se adaptar \u00e0s exig\u00eancias dessa miss\u00e3o. O desafio \u00e0 mudan\u00e7a aparece como exig\u00eancia da fidelidade da Igreja. \u201cAggiornamento\u201d, o p\u00f4r-se em dia para a miss\u00e3o, tornou-se a palavra de ordem. Foi uma ousadia corajosa convidar a Igreja \u00e0 mudan\u00e7a. Mas, afinal, a Igreja tamb\u00e9m pode mudar? Tanto na Igreja, como na sociedade, quando os acontecimentos marcantes convidam \u00e0 mudan\u00e7a, desencadeiam-se processos hist\u00f3ricos incontorn\u00e1veis: uns querem mudar rapidamente aquilo com que n\u00e3o concordam, e lan\u00e7am-se em aventuras de cariz revolucion\u00e1rio, do mudar por mudar, em que a mudan\u00e7a \u00e9 a \u00fanica coisa que interessa; outros procuram generosamente intuir o futuro das institui\u00e7\u00f5es, redescobrir a sua verdade profunda, porque est\u00e1 em quest\u00e3o o futuro do homem e da humanidade. Isto tamb\u00e9m aconteceu na Igreja. Enquanto a Assembleia Conciliar rezava e trabalhava para perceber, \u00e0 luz da F\u00e9 e da Tradi\u00e7\u00e3o, esse novo rosto da Igreja, preparada para a miss\u00e3o, para ser enviada de novo, muitos, por toda a parte, entusiasmados com esse ambiente de mudan\u00e7a, lan\u00e7aram-se numa \u201ceuforia conciliar\u201d, em que era leg\u00edtimo tudo mudar em nome do Conc\u00edlio, talvez sem nunca terem escutado os ensinamentos conciliares, esse monumento, belo e harmonioso, de doutrina e desafios pastorais, dos mais not\u00e1veis que a Igreja produziu em toda a sua hist\u00f3ria. Este duplo dinamismo, melhor, esta maneira diferente de entender o convite \u00e0 mudan\u00e7a, est\u00e1 ainda hoje na origem de muitos problemas na Igreja. Os que n\u00e3o perceberam que a mudan\u00e7a era exigida pela fidelidade \u00e0 miss\u00e3o, que \u00e9 manifesta\u00e7\u00e3o de f\u00e9 na Igreja e no Esp\u00edrito que a conduz, quiseram mudar por mudar, ao sabor de vis\u00f5es subjectivas e provocaram tens\u00f5es, e levaram outros \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de regressar aos tempos antes do Conc\u00edlio, como se todo ele tivesse sido uma aventura. Por outro lado, a Igreja, conduzida pelos seus pastores, \u00e0 cabe\u00e7a dos quais est\u00e1 o Sucessor de Pedro, procuraram, bebendo na verdadeira fonte os ensinamentos conciliares, conduzir a Igreja \u00e0 necess\u00e1ria e s\u00f3lida mudan\u00e7a para a miss\u00e3o.  3. Todos estes ventos conciliares agitaram, tamb\u00e9m, a Igreja de Lisboa. Senti-os na carne, porque vivi, durante meio s\u00e9culo, esta busca da fidelidade em tempos de mudan\u00e7a, na Igreja e na sociedade. Esta acelerou o ritmo das mudan\u00e7as e a essa acelera\u00e7\u00e3o da mudan\u00e7a a Igreja n\u00e3o pode responder caso a caso, sector a sector. A Igreja n\u00e3o muda porque o mundo muda; a Igreja muda para poder ser mensageira da esperan\u00e7a num mundo em mudan\u00e7a. Este n\u00e3o lhe \u00e9 indiferente, pode mesmo sugerir-lhe, no ritmo alucinante da aventura humana, sinais para a adapta\u00e7\u00e3o da Igreja \u00e0 sua miss\u00e3o. Foi o desafio lan\u00e7ado a toda a Igreja pelo Conc\u00edlio, saber discernir, na actual aventura humana, \u201csinais dos tempos\u201d, sugest\u00f5es \u00e0 mudan\u00e7a na Igreja, exigida pela miss\u00e3o. Quero dizer claramente \u00e0 Igreja de Lisboa que n\u00e3o mudamos por mudar, mas que protagonizaremos e apoiaremos todas as mudan\u00e7as, compat\u00edveis com a f\u00e9 que recebemos dos Ap\u00f3stolos, e que sejam exigidas pela miss\u00e3o, pelo servi\u00e7o da Igreja \u00e0 sociedade, em nome de Jesus Cristo. N\u00e3o vemos que o caminho sugerido pelo Esp\u00edrito seja, em nenhum aspecto, um regresso ao antes do Conc\u00edlio, mas sim continuar a aprofundar os seus ensinamentos, completados e iluminados pelo Magist\u00e9rio posterior, para sermos fi\u00e9is, hoje, \u00e0 renova\u00e7\u00e3o exigida \u00e0 Igreja pela complexidade do mundo. A intui\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o XXIII, em 1959, ao convocar o Conc\u00edlio, mant\u00e9m uma actualidade impressionante: o mundo mudou, continua a mudar, e a Igreja precisa de estar atenta \u00e0s mudan\u00e7as dentro dela pr\u00f3pria, sugerida pela sua miss\u00e3o no mundo. A Igreja n\u00e3o copia as mudan\u00e7as do mundo, por vezes tem mesmo de denunci\u00e1-las: s\u00f3 a sua verdade interna e o imperativo da sua miss\u00e3o a podem fazer mudar.  <b>O mundo mudou<\/b> 4. A mudan\u00e7a do mundo a que Jo\u00e3o XXIII foi sens\u00edvel aprofundou-se e acelerou. A Gaudium et Spes assumiu-o claramente: \u201cverificam-se transforma\u00e7\u00f5es profundas nos nossos dias, nas estruturas e nas institui\u00e7\u00f5es dos povos, que acompanham a sua evolu\u00e7\u00e3o cultural, econ\u00f3mica e social\u201d (G.S. n\u00ba 73). Meio s\u00e9culo depois, os efeitos da mudan\u00e7a cont\u00ednua alteraram o rosto da comunidade humana, mudaram os valores das civiliza\u00e7\u00f5es e tra\u00e7aram um novo quadro para o sentido da vida, individual e colectiva. E os crist\u00e3os n\u00e3o ficaram imunes a esta transforma\u00e7\u00e3o. Mudaram ao ritmo da sociedade, encontrando, em geral, a chave da interpreta\u00e7\u00e3o da vida e da hist\u00f3ria na mudan\u00e7a da sociedade e n\u00e3o no Evangelho e na f\u00e9 como fonte de uma compreens\u00e3o global da exist\u00eancia. Tudo isto levou progressivamente a uma ruptura entre a religiosidade praticada e o sentido \u00e9tico que inspira os comportamentos pessoais e fornece os crit\u00e9rios da busca do sentido, do discernimento dos acontecimentos e da hist\u00f3ria. A Igreja, pela mudan\u00e7a global e pela mudan\u00e7a interna com crit\u00e9rios culturais profanos, foi perdendo espa\u00e7o na sociedade como principal fonte inspiradora de valores da humanidade. Ao contr\u00e1rio, a sua palavra e doutrina \u00e9 frequentemente vista com desconfian\u00e7a ou mesmo rejeitada por uma sociedade que considera ter encontrado a sua autonomia na constru\u00e7\u00e3o da verdade. Neste quadro, de pouco servem \u00e0 Igreja, na realiza\u00e7\u00e3o da sua miss\u00e3o no mundo, lutas frontais com poderes estabelecidos ou outras compreens\u00f5es estruturadas da sociedade. Tais reac\u00e7\u00f5es da Igreja n\u00e3o est\u00e3o isentas do que resta de uma l\u00f3gica de poder na sociedade. Ela n\u00e3o pode cruzar os bra\u00e7os e renunciar \u00e0 sua mensagem, mas deve faz\u00ea-lo por outro caminho: o da fidelidade interna a Jesus Cristo e ao Seu Evangelho e o do servi\u00e7o \u00e0 sociedade, \u00e0 pessoa humana, suscitando pelo amor e pelo servi\u00e7o, as sementes de esperan\u00e7a que ainda n\u00e3o morreram no cora\u00e7\u00e3o dos homens. A autenticidade do seu servi\u00e7o \u00e0 humanidade deve impor-se por si, e n\u00e3o por mera l\u00f3gica de poder.   <b>A muta\u00e7\u00e3o cultural<\/b> 5. Todas estas profundas altera\u00e7\u00f5es na comunidade humana se repercutem na cultura, concebida esta como sabedoria, isto \u00e9, como quadro de princ\u00edpios e de intui\u00e7\u00f5es, que se constr\u00f3i, n\u00e3o no plano de cada indiv\u00edduo, mas ao n\u00edvel das comunidades, e que inspira espontaneamente a evolu\u00e7\u00e3o das sociedades e o exerc\u00edcio individual da liberdade. \u00c9 um erro considerar a f\u00e9 crist\u00e3 como uma atitude estritamente individual. Quer no seu dinamismo interno, quer na sua miss\u00e3o no mundo, a Igreja situa-se necessariamente num quadro cultural. H\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o inevit\u00e1vel entre cristianismo e cultura: a experi\u00eancia crist\u00e3 veicula uma antropologia, prop\u00f5e uma viv\u00eancia humana que acentua valores fundamentais de humanidade, constitutivos da cultura. Esta \u00e9 a experi\u00eancia de 2000 anos: a f\u00e9 crist\u00e3 transformou-se em cultura, encontrou converg\u00eancias entre os seus valores e os de outras culturas, foi elemento importante de muta\u00e7\u00e3o cultural, porque as culturas podem mudar ao ritmo da muta\u00e7\u00e3o das sociedades. Na acelerada muta\u00e7\u00e3o cultural do nosso tempo, a Igreja pode ser v\u00edtima ou interveniente activo, se n\u00e3o permanecer numa atitude fixista e intransigente sobre a cultura, mas lutar conscientemente pela presen\u00e7a da dimens\u00e3o crist\u00e3 na evolu\u00e7\u00e3o da cultura que hoje se processa e se decide ao n\u00edvel do todo da sociedade, cada vez mais plural e mais interdependente de outras culturas, em horizonte global. Sem descurar a import\u00e2ncia do di\u00e1logo inter-cultural e da participa\u00e7\u00e3o no debate cultural, \u00e9 sobretudo atrav\u00e9s da autenticidade do testemunho crist\u00e3o das op\u00e7\u00f5es de vida, em tudo, mas sobretudo acerca das grandes quest\u00f5es hoje em debate, que a Igreja se torna elemento activo e interveniente no processo din\u00e2mico da evolu\u00e7\u00e3o cultural. Sem a radicalidade evang\u00e9lica aut\u00eantica da vida, a Igreja ser\u00e1, sobretudo, v\u00edtima da muta\u00e7\u00e3o cultural. S\u00f3 isso lhe dar\u00e1 autoridade para, no inevit\u00e1vel debate cultural, afirmar a diferen\u00e7a de modo a interpelar e rasgar novos horizontes de esperan\u00e7a.   <b>As grandes quest\u00f5es em debate na muta\u00e7\u00e3o cultural<\/b> 6. Verifica-se que as grandes quest\u00f5es em debate na evolu\u00e7\u00e3o cultural dos \u00faltimos dois s\u00e9culos, sobretudo no Ocidente, s\u00e3o aquelas em que a Igreja marcou a sua influ\u00eancia cultural, o que faz aparecer as altera\u00e7\u00f5es culturais como uma luta contra a Igreja e a sua marca decisiva na cultura. N\u00e3o nego que por vezes o tenha sido, mas \u00e9 tamb\u00e9m preciso reconhecer que muitas vezes a Igreja lidou mal com a evolu\u00e7\u00e3o cultural. Essas grandes quest\u00f5es andam \u00e0 volta do homem e da sua dignidade, da sua rela\u00e7\u00e3o com Deus, da autonomia da sua raz\u00e3o como caminho de verdade, do car\u00e1cter absoluto da sua liberdade, em todas as suas express\u00f5es. Ao desenvolver os direitos da liberdade, caiu-se numa dimens\u00e3o individualista do homem, relativizando a sua inevit\u00e1vel dimens\u00e3o dialogal e comunit\u00e1ria, \u00fanico quadro em que se podem compatibilizar liberdade e responsabilidade para com os outros. A esse triunfalismo da raz\u00e3o, \u00fanica fonte da verdade, chamou-se modernidade, o que levou \u00e0 altera\u00e7\u00e3o da maneira de compreender e assumir a rela\u00e7\u00e3o do homem com Deus. Este come\u00e7ou por ser combatido e negado, em nome da autonomia do homem e acabou por ser circunscrito a um espa\u00e7o de inutilidade, porque n\u00e3o decisivamente interveniente na vida do homem e da sua hist\u00f3ria. Este Deus \u201cin\u00fatil\u201d daqueles que, mesmo admitindo que Ele existe, vivem como se n\u00e3o existisse, \u00e9 um est\u00e1dio da evolu\u00e7\u00e3o cultural mais grave do que o ate\u00edsmo racional e militante. Retirado Deus da vida do homem, em termos culturais, este ficou dependente de si mesmo, da sua intelig\u00eancia, da sua liberdade, da sua criatividade e perdeu algo de muito importante na auto-compreens\u00e3o de si mesmo, que \u00e9 a consci\u00eancia da sua precariedade e incapacidade. O poder do homem n\u00e3o \u00e9 absoluto, no seu cora\u00e7\u00e3o coexistem o desejo do bem e a inclina\u00e7\u00e3o para o mal e para vencer o mal e realizar o bem que deseja, o homem precisa da for\u00e7a do Alto e da ajuda dos irm\u00e3os, em comunidade. Quando o homem rejeitou a exig\u00eancia de viver a sua vida com Deus, sem medo de que Este lhe atrofie a raz\u00e3o e diminua a liberdade, perdeu, pouco a pouco, o horizonte de transcend\u00eancia e de eternidade da sua pr\u00f3pria exist\u00eancia. A vida neste mundo valer por si, vale o que vale, mas n\u00e3o \u00e9 concebida como um aprender a saborear a beleza e a plenitude da vida. A absolutiza\u00e7\u00e3o da liberdade individual levou ao relativismo \u00e9tico. Cada um decide a orienta\u00e7\u00e3o da sua vida, o que \u00e9 bem e o que \u00e9 mal, progressivamente insens\u00edvel aos valores de uma cultura comunit\u00e1ria. A chamada \u201cpost-modernidade\u201d, afirma\u00e7\u00e3o radical da perspectiva individual no dom\u00ednio \u00e9tico e da precariedade do presente, deixou de ser cultura e transformou-se em anti-cultura.  <b>A maneira de estar da Igreja na muta\u00e7\u00e3o cultural<\/b> 7. Antes de mais, a Igreja tem de assumir claramente que n\u00e3o coincide com a sociedade, embora, entre n\u00f3s, o elevado n\u00famero de baptizados n\u00e3o praticantes ou, porventura, n\u00e3o crentes, possa ainda alimentar essa confus\u00e3o. Isso n\u00e3o deve levar os crist\u00e3os a relativizar a sua perten\u00e7a \u00e0 sociedade e a empenhar-se, com todos os outros, na constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade mais digna do homem, reconhecendo-se como for\u00e7a significativa de humaniza\u00e7\u00e3o da sociedade. Os crist\u00e3os s\u00e3o membros de duas cidades, o Povo de Deus e a Cidade dos homens, cuja densidade se cruza na busca da transforma\u00e7\u00e3o da sociedade. S\u00f3 porque a sociedade n\u00e3o se identifica com a Igreja, esta n\u00e3o pode ser condenada no seu todo; deve aprender-se a reconhecer os caminhos de bem, objecto das mais nobres lutas da humanidade: a busca da paz, a procura da justi\u00e7a, a afirma\u00e7\u00e3o da dignidade do homem, a defesa da vida humana, a solidariedade como express\u00e3o da conviv\u00eancia fraterna, a defesa da natureza. S\u00e3o tomadas de consci\u00eancia colectiva, sinal positivo da evolu\u00e7\u00e3o da cultura, com as quais a Igreja se identifica e em cuja luta pode participar, acrescentando-lhe, porventura, como contributo espec\u00edfico, a radicalidade do Evangelho e de toda a Palavra de Deus. Este quadro de valores constitui um \u201cuniversal humano\u201d que se tem vindo a afirmar na pr\u00f3pria evolu\u00e7\u00e3o da humanidade, o melhor fruto da transforma\u00e7\u00e3o cultural, e que a Igreja assume como express\u00f5es do seu universo \u00e9tico. Eles n\u00e3o s\u00e3o, necessariamente, valores religiosos, mas valores humanos que o cristianismo sempre prop\u00f4s e cultivou. Esta vis\u00e3o clara do rosto positivo da sociedade levar\u00e1 a Igreja a ter uma consci\u00eancia clara de dinamismos e realidades que na sociedade contempor\u00e2nea s\u00e3o contra o homem: a viol\u00eancia e a guerra escolhidos conscientemente como caminhos para alcan\u00e7ar certos objectivos; os ego\u00edsmos e a primazia do lucro nos processos de desenvolvimento econ\u00f3mico; a relativiza\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia moral; o relativismo da verdade; a altera\u00e7\u00e3o dos modelos de felicidade, marcada pelo hedonismo, o consumismo e a incapacidade de integrar as dificuldades e o sofrimento. Porque n\u00e3o coincide com a sociedade, a Igreja tem de aprender a viver numa sociedade que n\u00e3o se identifica com ela. A Igreja deve anunciar a esperan\u00e7a e marcar a diferen\u00e7a pela maneira como vive. Ela n\u00e3o domina a sociedade, mas acredita que pode ajudar a transform\u00e1-la. N\u00e3o pode esquecer que as sociedades democr\u00e1ticas e pluralistas, como a nossa, se organizam a partir da evolu\u00e7\u00e3o cultural que descrevemos. A Igreja deve afirmar-se pela for\u00e7a do seu testemunho e pela qualidade do seu servi\u00e7o. \u00c9 atrav\u00e9s da Igreja que resplandece, para toda a sociedade, a verdade do Evangelho e do Senhor Jesus Cristo como resposta para todas as buscas e inquieta\u00e7\u00f5es do homem. Homem divino ou Deus humanizado, Cristo \u00e9 o testemunho vivo de que o homem n\u00e3o encontrar\u00e1 a plenitude sem Deus e de que Ele \u00e9 um Deus connosco, a caminhar connosco na luta da vida. A Igreja deve ser o testemunho vivo de que Deus n\u00e3o ofusca a grandeza e a dignidade do homem, n\u00e3o diminui a sua liberdade, nem p\u00f5e em quest\u00e3o o seu direito de procurar a verdade. A viv\u00eancia crist\u00e3 aut\u00eantica testemunha que s\u00f3 com a for\u00e7a de Deus o homem pode desenvolver todas as suas capacidades de busca da verdade, de exerc\u00edcio da sua liberdade, de constru\u00e7\u00e3o da sua felicidade, porque em Jesus Cristo Deus manifestou-Se como aliado do homem, com um amor infinito.  <b>O natural e o sobrenatural<\/b> 8. Com a nega\u00e7\u00e3o ou relativiza\u00e7\u00e3o de Deus na vida, na busca da verdade e no exerc\u00edcio da liberdade, o homem fica reduzido \u00e0s suas capacidades naturais. Da evolu\u00e7\u00e3o cultural j\u00e1 descrita, faz parte uma euforia por tudo o que \u00e9 capacidade da natureza, ali\u00e1s melhor conhecida atrav\u00e9s do progresso da ci\u00eancia. Tudo o que \u00e9 natural \u00e9 bom e, portanto, leg\u00edtimo. \u00c9 um facto que a natureza \u00e9 bela, dotada de capacidades maravilhosas. \u00c0 luz da nossa f\u00e9 em Deus criador, essa beleza da natureza \u00e9 indeslig\u00e1vel da maravilha de Deus. Toda a natureza, em n\u00f3s e \u00e0 nossa volta, proclama as maravilhas de Deus criador. S\u00f3 Ele, agindo connosco, nos pode ajudar a levar \u00e0 plenitude todas essas capacidades naturais. Mas \u00e9 tamb\u00e9m um facto que a natureza ficou ferida pelo pecado do homem, mais uma manifesta\u00e7\u00e3o da unidade profunda entre o homem e a cria\u00e7\u00e3o, para o bem e para o mal. E nesse quadro de desvio e de decad\u00eancia, s\u00f3 com a gra\u00e7a redentora de Jesus Cristo o homem pode viver plenamente os dons naturais de que foi dotado por Deus criador. Este ensinamento \u00e9 j\u00e1 claro na Carta do Ap\u00f3stolo Paulo aos Romanos: \u201cA cria\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m ser\u00e1 liberta da escravid\u00e3o da corrup\u00e7\u00e3o para participar da liberdade e da gl\u00f3ria dos filhos de Deus\u201d (Rom. 8,21). A compreens\u00e3o da exist\u00eancia crist\u00e3 \u00e9 essa: s\u00f3 com a ac\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito de Jesus ressuscitado, o homem pode viver plenamente as suas capacidades naturais, de amar, de criar e construir, de buscar a verdade, de viver o presente, sabendo que est\u00e1 j\u00e1 a construir o futuro, pleno e definitivo. Ser disc\u00edpulo de Cristo \u00e9 viver com Ele, p\u00f4r em pr\u00e1tica, momento a momento, esta interac\u00e7\u00e3o de Deus e do homem na realiza\u00e7\u00e3o da vida e da felicidade. \u00c9 por isso que a Igreja, na sua ac\u00e7\u00e3o pastoral, d\u00e1 uma prioridade absoluta a esta interven\u00e7\u00e3o de Deus na nossa vida, dons sobrenaturais que levam \u00e0 plenitude dos dons naturais. Esta complementaridade entre a ordem natural e a sobrenatural est\u00e1 a desaparecer da cultura envolvente, mesmo entre alguns crist\u00e3os. Esquecemos a afirma\u00e7\u00e3o de Cristo: sem Mim nada podereis (cf. Jo. 15,5). A abertura \u00e0 ac\u00e7\u00e3o de Deus, na vida pessoal e comunit\u00e1ria, \u00e9 componente essencial de uma cultura crist\u00e3. Desconhec\u00ea-la ou desvaloriz\u00e1-la \u00e9 introduzir na vis\u00e3o crist\u00e3 do homem elementos da cultura profana.   <b>A Igreja tamb\u00e9m mudou<\/b> 9. Neste meio s\u00e9culo decorrido depois do Conc\u00edlio Vaticano II, a Igreja tamb\u00e9m mudou. Trata-se de saber se mudou bem e se mudou o suficiente, naquilo que era exigido pelo exerc\u00edcio da sua miss\u00e3o neste mundo em mudan\u00e7a acelerada. As grandes transforma\u00e7\u00f5es no rosto vis\u00edvel da Igreja t\u00eam a sua origem no esp\u00edrito de renova\u00e7\u00e3o proposto pelo Conc\u00edlio, cuja vis\u00e3o da Igreja, embora tendo em conta as caracter\u00edsticas e os problemas do mundo contempor\u00e2neos, se inspira especialmente na Igreja apost\u00f3lica e do primeiro mil\u00e9nio do cristianismo. A modernidade levou a Igreja a um regresso \u00e0s fontes, sugerindo assim o caminho a seguir para se transformar para a miss\u00e3o. S\u00f3 regressando ao seu mist\u00e9rio a Igreja encontrar\u00e1 a forma, a for\u00e7a e a linguagem para anunciar ao mundo de hoje, o Evangelho da esperan\u00e7a. A incultura\u00e7\u00e3o, na Igreja, n\u00e3o pode significar, para ela, a perda do seu mist\u00e9rio, do vigor da sua f\u00e9, valores que a cultura secularizada perdeu. Incultura\u00e7\u00e3o s\u00f3 pode significar melhor conhecimento dos homens aos quais anuncia a salva\u00e7\u00e3o, esfor\u00e7o de proximidade amorosa, sem o qual a Igreja se distancia inevitavelmente.  Mas houve mudan\u00e7as na Igreja que significaram ced\u00eancia ao esp\u00edrito do mundo. Adoptar, para estar pr\u00f3xima dos homens, os crit\u00e9rios do mundo \u00e9, para a Igreja, o caminho menos indicado para mudar ao ritmo das exig\u00eancias da miss\u00e3o. E a sociedade pressiona-a continuamente a mudan\u00e7as segundo as exig\u00eancias da cultura secularizada: casamento dos padres, ordena\u00e7\u00e3o de mulheres, aceita\u00e7\u00e3o de segundos casamentos, etc. E h\u00e1, hoje, dentro da Igreja, vozes a exigir essas e outras mudan\u00e7as, sob press\u00e3o da cultura envolvente. Essas ou outras grandes mudan\u00e7as s\u00f3 poderiam acontecer na Igreja, ao ritmo do Esp\u00edrito, porque o Senhor, que dirige a Igreja, a desafiava a mudar para anunciar melhor a mensagem de salva\u00e7\u00e3o. Em tudo, mesmo na mudan\u00e7a, a Igreja \u00e9 chamada a agir com crit\u00e9rios de f\u00e9, ouvindo a Palavra de Deus, escutando o Magist\u00e9rio e fiel \u00e0 Tradi\u00e7\u00e3o cont\u00ednua da Igreja ao longo de 2000 anos de confronto com as mais variadas situa\u00e7\u00f5es humanas. Mas esta rejei\u00e7\u00e3o da mudan\u00e7a por motiva\u00e7\u00f5es profanas da cultura envolvente, n\u00e3o deve significar, para a Igreja, a recusa de toda e qualquer mudan\u00e7a. Ela \u00e9 exigida pela natureza da sua miss\u00e3o, foi sugerida pelo Conc\u00edlio Vaticano II, continuamente lembrada pelos Papas de ent\u00e3o para c\u00e1. A Igreja de Lisboa tem o direito de escutar do seu Pastor orienta\u00e7\u00f5es claras dos caminhos da miss\u00e3o, nestes tempos exigentes para a sociedade e para a pr\u00f3pria Igreja.  <b>Prioridade clara aos meios sobrenaturais da gra\u00e7a<\/b> 10. A Igreja \u00e9 um Povo de crentes. Pertencem a ela aqueles e aquelas que acreditam em Cristo morto e ressuscitado, se uniram a Ele e com Ele querem viver a vida. A f\u00e9 \u00e9 a atitude constitutiva da Igreja, por ela nos deixamos possuir por Jesus Cristo, acreditando que Ele nos enriquece continuamente com a for\u00e7a transformadora do Seu Esp\u00edrito, que nos fez renascer e nos faz viver a vida nova. Todo o dinamismo da Igreja, de mudan\u00e7a e transforma\u00e7\u00e3o, de an\u00fancio e de evangeliza\u00e7\u00e3o, de caridade fraterna, de comportamentos dignos de Jesus Cristo, de di\u00e1logo e conviv\u00eancia com toda a sociedade, tem a sua motiva\u00e7\u00e3o na f\u00e9, s\u00f3 pode ser inspirado pela f\u00e9. A ac\u00e7\u00e3o transformadora do Esp\u00edrito realiza-se, na Igreja, atrav\u00e9s do seu poder sacramental, ou seja, a capacidade que lhe foi dada por Jesus Cristo de, atrav\u00e9s da sua ac\u00e7\u00e3o, realizar o poder transformador do pr\u00f3prio Deus. Na Igreja os instrumentos da ac\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito s\u00e3o a Palavra de Deus, continuamente proclamada; os sete sacramentos; os sacramentais. A esta ac\u00e7\u00e3o de Deus, a Igreja e cada crist\u00e3o respondem adorando e vivendo segundo a vontade do Senhor, dando gl\u00f3ria a Deus em tudo o que s\u00e3o e fazem. Para responder a uma cultura imanentista, em que o homem decide o seu caminho e conta s\u00f3 com as for\u00e7as humanas, pessoais e sociais, a nossa ac\u00e7\u00e3o pastoral tem de dar prioridade a estes meios da gra\u00e7a, em que nos abrimos \u00e0 ac\u00e7\u00e3o de Deus em n\u00f3s. Faz\u00ea-lo \u00e9 acreditar que a renova\u00e7\u00e3o da Igreja que procuramos e \u00e0 qual dedic\u00e1mos as nossas vidas, n\u00e3o \u00e9 o efeito da nossa ac\u00e7\u00e3o humana, mas obra maravilhosa de Deus, que ama e conduz o Seu Povo. Esta prioridade pastoral aos meios sobrenaturais da gra\u00e7a exige, porventura, correc\u00e7\u00f5es de rota. Foram, sobretudo, elementos da cultura ambiente que influenciaram as altera\u00e7\u00f5es na pr\u00e1tica sacramental. Para al\u00e9m do abandono dos sacramentos, mesmo na maneira de os celebrar introduziram-se elementos humanos, que n\u00e3o ajudam a viv\u00ea-los como momentos da ac\u00e7\u00e3o de Deus em n\u00f3s, e lhe enfraquecem a densidade sobrenatural do encontro do homem com Deus.  <b>A Palavra de Deus<\/b> 11. N\u00e3o sendo um dos sete sinais sacramentais, a Palavra de Deus, sobretudo a Palavra inspirada da Escritura, continuamente proclamada pela Igreja, tem dinamismo sacramental. \u00c9 um meio humano atrav\u00e9s do qual podemos escutar a Palavra do Deus vivo. \u00c9 maravilhosa a intimidade que se gera entre n\u00f3s e Deus quando escutamos a Sua Palavra. O inqu\u00e9rito feito \u00e0 Diocese, preparat\u00f3rio do pr\u00f3ximo S\u00ednodo dos Bispos, que ter\u00e1 como tema \u201cA Palavra de Deus na vida e na miss\u00e3o da Igreja\u201d, d\u00e1-nos indicadores preocupantes. Embora muitos crist\u00e3os declarem ter a B\u00edblia em casa, s\u00e3o poucos os que a l\u00eaem frequentemente; na Liturgia a proclama\u00e7\u00e3o da Palavra \u00e9 uma parte do rito, e nem sempre tem a densidade de uma escuta do Senhor. Porque a f\u00e9 \u00e9 uma ades\u00e3o confiante a Deus que Se nos revela, o n\u00e3o escutar a Palavra viva de Deus compromete toda a autenticidade crist\u00e3. A escuta da Palavra \u00e9 a experi\u00eancia que torna poss\u00edvel tudo: a celebra\u00e7\u00e3o dos sacramentos, a fidelidade de viver segundo os mandamentos de Deus, a busca da ora\u00e7\u00e3o e da adora\u00e7\u00e3o, a sinceridade do an\u00fancio do Evangelho, a for\u00e7a para viver profundamente em uni\u00e3o com Jesus Cristo. O S\u00ednodo dos Bispos e o Ano Paulino convidam-nos a cuidar desta escuta da Palavra. Que quem a proclama na Liturgia procure primeiro escut\u00e1-la pessoalmente; que os diversos itiner\u00e1rios de catequese sejam conduzidos pela Palavra; que quem se prepara para os sacramentos, o fa\u00e7a escutando a Palavra do Senhor. Ajudemos os doentes a escut\u00e1-la, pois a doen\u00e7a \u00e9 uma circunst\u00e2ncia em que o Senhor tem muito para nos dizer, se n\u00f3s aprendermos a escut\u00e1-l\u2019O. A Palavra \u00e9 o princ\u00edpio de uma intimidade a construir, e prepara-nos para desejar a ac\u00e7\u00e3o de Deus em n\u00f3s atrav\u00e9s dos sacramentos.  <b>Os sacramentos da inicia\u00e7\u00e3o crist\u00e3<\/b> 12. Para sublinhar e promover esta dimens\u00e3o sobrenatural da vida crist\u00e3, a Igreja deve, na sua ac\u00e7\u00e3o pastoral, redescobrir o ritmo da inicia\u00e7\u00e3o crist\u00e3 e dos tr\u00eas sacramentos que a objectivam como descoberta de Jesus Cristo: o Baptismo, a Confirma\u00e7\u00e3o, a Eucaristia. Chama-se inicia\u00e7\u00e3o crist\u00e3 ao in\u00edcio da vida da f\u00e9. \u00c9 aquele \u201cnascer de novo\u201d de que fala Jesus a Nicodemos (cf. Jo. 3,3). \u00c9 in\u00edcio, n\u00e3o apenas no sentido temporal do termo, mas porque significa a tal mudan\u00e7a radical, em que ao nosso desejo e disposi\u00e7\u00e3o de vontade, corresponde a ac\u00e7\u00e3o de Deus em n\u00f3s, enriquecendo-nos com uma nova capacidade vital de viver a nossa vida, seguindo e imitando Jesus Cristo. N\u00f3s queremos, e Deus torna poss\u00edvel a realiza\u00e7\u00e3o da nossa decis\u00e3o, que Deus tamb\u00e9m quer, porque a nossa vontade \u00e9 fruto de uma voca\u00e7\u00e3o, de um chamamento do Senhor. Esta nova capacidade sobrenatural \u00e9-nos conferida pelos tr\u00eas sacramentos da inicia\u00e7\u00e3o: no Baptismo, Deus identifica-nos com o Seu Filho Jesus Cristo, numa uni\u00e3o para a vida e para a morte; na Confirma\u00e7\u00e3o, confere-nos o Esp\u00edrito Santo, experi\u00eancia pessoal de Jesus que encontrava no facto de Se saber amado por Deus a for\u00e7a para a miss\u00e3o que o Pai Lhe confiou; na Eucaristia, participamos no acto decisivo de Jesus Cristo, a Sua morte e ressurrei\u00e7\u00e3o e descobrimo-nos membros da Igreja, Povo sacerdotal, que louva a Sant\u00edssima Trindade em un\u00edssono com Jesus Cristo, o verdadeiro adorador de quem brota o louvor perfeito. Toda a caminhada da inicia\u00e7\u00e3o crist\u00e3 \u00e9 dinamizada pela f\u00e9. Esta \u00e9 uma atitude decisiva na vida crist\u00e3, e sendo atitude humana, \u00e9 dom de Deus. Se desejamos acreditar, Deus d\u00e1-nos a for\u00e7a para acreditar, porque nos atrai, nos ensina e nos ama. Os tr\u00eas sacramentos, sem a f\u00e9, n\u00e3o fazem a inicia\u00e7\u00e3o crist\u00e3, porque toda a ac\u00e7\u00e3o de Deus sup\u00f5e a procura do homem.  13. Na nossa Diocese, \u00e9 urgente redescobrir este dinamismo da inicia\u00e7\u00e3o crist\u00e3. Muitos dos nossos crist\u00e3os baptizados nunca percorreram esse caminho que \u00e9 in\u00edcio de uma vida nova. Muitos nem sequer se confirmaram, n\u00e3o celebram a Eucaristia e os actos religiosos que ainda procuram t\u00eam outras motiva\u00e7\u00f5es e n\u00e3o o desejo de fidelidade a viver com Cristo, a vida nova segundo o Esp\u00edrito. A sua f\u00e9 \u00e9 express\u00e3o de religiosidade, mas n\u00e3o \u00e9 decis\u00e3o firme e apaixonada por Jesus Cristo. O verdadeiro encontro pessoal com Jesus Cristo ressuscitado ainda n\u00e3o se deu, de modo a mudar o rumo da sua vida, como aconteceu a Saulo de Tarso na Estrada de Damasco. Esta poder\u00e1 a ser a grande revolu\u00e7\u00e3o da nossa Igreja diocesana: encontrar caminhos novos, inventivos e, porventura, ousados, de anunciar Jesus Cristo aos que nunca se encontraram com Ele e fazer com eles, com o ritmo sugerido pelas suas vidas, essa caminhada fundamental de enraizamento em Jesus Cristo e na Sua Igreja. Este caminho pode concretizar-se em iniciativas pastorais j\u00e1 em curso: catequese de adultos, catecumenado para os adultos n\u00e3o baptizados, prepara\u00e7\u00e3o s\u00e9ria para os sacramentos, como a Confirma\u00e7\u00e3o e o Matrim\u00f3nio, os pais e padrinhos dos beb\u00e9s que v\u00e3o baptizar-se, Movimentos que valorizam o ritmo catecumenal na sua proposta de evangeliza\u00e7\u00e3o, etc. Mas \u00e9 poss\u00edvel inventar caminhos novos. Em todos eles \u00e9 preciso valorizar o an\u00fancio querigm\u00e1tico de Cristo, nosso Redentor, aquele primeiro an\u00fancio que desencadeira a op\u00e7\u00e3o da f\u00e9 e muda radicalmente a perspectiva da vida. Muitas das crian\u00e7as que frequentam as nossas catequeses, a grande maioria dos jovens, muitos adultos que ainda se apresentam como crist\u00e3os, precisam desse primeiro an\u00fancio, pr\u00e9vio \u00e0 caminhada de inicia\u00e7\u00e3o crist\u00e3. E este \u00e9, sobretudo, testemunhal, feito por aqueles que encontraram o Senhor e decidiram segui-l\u2019O, fortalecidos com a gra\u00e7a de Deus atrav\u00e9s dos sacramentos. Quanto menos forem os crist\u00e3os verdadeiramente possu\u00eddos por Jesus Cristo, menos ser\u00e3o os que O podem anunciar. Poucos ou muitos, \u00e9 preciso fortalecer neles o desejo de anunciar, a tempo e a contratempo. Na nossa Diocese est\u00e3o j\u00e1 a ser preparados alguns documentos que ajudar\u00e3o a aprofundar os caminhos da inicia\u00e7\u00e3o crist\u00e3. Desde h\u00e1 muito pedidas, est\u00e3o em prepara\u00e7\u00e3o as Normas Pastorais para a celebra\u00e7\u00e3o dos Sacramentos e Sacramentais. A primeira parte deste documento sobre os sacramentos da inicia\u00e7\u00e3o crist\u00e3, est\u00e1 pronta e dada a sua urg\u00eancia, ser\u00e1 j\u00e1 publicada. Faz parte de um documento global que, assim o esperamos, estar\u00e1 pronto durante o pr\u00f3ximo Ano Pastoral. \u00c9 mais do que um resumo das normas can\u00f3nicas, claramente expressas no C\u00f3digo de Direito Can\u00f3nico e nos diversos Rituais. Pretende-se, isso sim, aplicar essas Normas no contexto de uma criatividade pastoral, na verdade teologal que elas sup\u00f5em, assumindo-as, n\u00e3o como preceitos frios, mas como garantias da qualidade din\u00e2mica de um processo de crescimento da f\u00e9 e da identifica\u00e7\u00e3o com Cristo. O nosso Departamento da Evangeliza\u00e7\u00e3o tem em prepara\u00e7\u00e3o alguns instrumentos de trabalho, na linha do aprofundamento dos caminhos da inicia\u00e7\u00e3o crist\u00e3, particularmente o ritmo da caminhada catecumenal dos adultos que se preparam para os sacramentos da inicia\u00e7\u00e3o crist\u00e3.  <b>A Liturgia como viv\u00eancia e express\u00e3o do mist\u00e9rio de Cristo<\/b> 14. A Liturgia \u00e9 sempre a celebra\u00e7\u00e3o, pela comunidade dos crentes, do mist\u00e9rio de Cristo Redentor. Ela deve exprimir esse mist\u00e9rio e envolver os participantes no seu car\u00e1cter sagrado. O Santo Padre Bento XVI, na Carta que dirigiu aos Bispos de todo o mundo a prop\u00f3sito do Motu Pr\u00f3prio \u201cSummorum Pontificum Cura\u201d, que define as condi\u00e7\u00f5es em que se poder\u00e1 celebrar a Sagrada Liturgia pelo Missal e Rituais anteriores \u00e0 Reforma Lit\u00fargica do Conc\u00edlio Vaticano II, aponta como motiva\u00e7\u00e3o para esse regressar aos antigos textos lit\u00fargicos, os crist\u00e3os sentirem neles mais afirmada a sacralidade e o car\u00e1cter transcendente do mist\u00e9rio que se celebra, e considera que isto pode alertar-nos para a maneira de celebrar a Liturgia segundo os actuais textos oficiais, tamb\u00e9m eles capazes e preparados para transmitir esse car\u00e1cter sagrado dos sagrados mist\u00e9rios. Este \u00e9 um desejo que n\u00e3o pode deixar de nos interpelar e levar-nos a n\u00e3o abrandar o esfor\u00e7o pela renova\u00e7\u00e3o da Liturgia. Identificamos facilmente aqueles elementos que empobrecem algumas das nossas celebra\u00e7\u00f5es, tornando-as demasiadamente ac\u00e7\u00e3o humana e ofuscando o car\u00e1cter de ac\u00e7\u00e3o de Deus a favor do Seu Povo: m\u00e1 proclama\u00e7\u00e3o da Palavra de Deus; demasiados discursos durante a celebra\u00e7\u00e3o, abund\u00e2ncia de palavra humana que ofusca a Palavra de Deus; isto inclui, por vezes, a pr\u00f3pria homilia, destinada a ajudar a escutar a Palavra do Deus vivo e a descobrir os caminhos de resposta, na fidelidade; m\u00e1 qualidade e a falta de mensagem religiosa dos c\u00e2nticos, que deveriam ser uma express\u00e3o da ora\u00e7\u00e3o e do louvor; a aus\u00eancia quase total de sil\u00eancios; o exagero de gestos simb\u00f3licos de m\u00e1 qualidade, como \u00e9 o caso de certos ofert\u00f3rios; a introdu\u00e7\u00e3o de textos profanos durante a pr\u00f3pria ac\u00e7\u00e3o lit\u00fargica. Que os sacerdotes tenham consci\u00eancia que aquele que preside \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o \u00e9 o principal respons\u00e1vel da sua qualidade.  15. A Liturgia \u00e9 a ora\u00e7\u00e3o da comunidade e, por isso mesmo, a principal escola de ora\u00e7\u00e3o pessoal. Um dos elementos que nos permite aferir da qualidade da Liturgia que celebramos \u00e9 verificar se ela \u00e9, em si mesma, momento de ora\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria e se motiva os crist\u00e3os para a pr\u00e1tica da ora\u00e7\u00e3o pessoal. Uma Igreja onde os crist\u00e3os n\u00e3o rezam, n\u00e3o \u00e9 a Igreja que Deus quer e torna-se incapaz de ser sinal de esperan\u00e7a no mundo de hoje. O Esp\u00edrito fez surgir na Igreja de hoje um conjunto de dinamismos e movimentos que t\u00eam como carisma pr\u00f3prio a inicia\u00e7\u00e3o \u00e1 ora\u00e7\u00e3o e a pr\u00e1tica da ora\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso garantir nessas pedagogias da ora\u00e7\u00e3o a rela\u00e7\u00e3o fundamental entre a ora\u00e7\u00e3o pessoal e a ora\u00e7\u00e3o lit\u00fargica comunit\u00e1ria e de ambas com a Palavra de Deus. Das tradicionais formas de ora\u00e7\u00e3o pessoal a que melhor garante a rela\u00e7\u00e3o entre a ora\u00e7\u00e3o pessoal e a ora\u00e7\u00e3o lit\u00fargica comunit\u00e1ria \u00e9 a adora\u00e7\u00e3o, sobretudo a adora\u00e7\u00e3o do Sant\u00edssimo Sacramento. Forma sacramental da presen\u00e7a real de Cristo vivo, ela prolonga a celebra\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica, onde o Senhor se tornou realmente presente sob as esp\u00e9cies do p\u00e3o e do vinho. Ador\u00e1-l\u2019O \u00e9 express\u00e3o espont\u00e2nea da nossa f\u00e9 na Sua presen\u00e7a real. A adora\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica tem uma longa tradi\u00e7\u00e3o na piedade do povo portugu\u00eas. Ao ter ca\u00eddo em desuso ou diminu\u00eddo em intensidade n\u00e3o foi, certamente, um resultado positivo da Reforma Lit\u00fargica. N\u00e3o hesitemos: a adora\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica ensina as pessoas e as comunidades a bem celebrarem a Eucaristia. \u00c9 a forma de ora\u00e7\u00e3o onde a dimens\u00e3o pessoal e comunit\u00e1ria se cruzam espontaneamente.  <b>A Igreja \u00e9 o Povo de Deus<\/b> 16. Esta foi uma das riquezas doutrinais do Conc\u00edlio Vaticano II: retomar a compreens\u00e3o da Igreja da \u00e9poca apost\u00f3lica e dos primeiros s\u00e9culos como o \u201cnovo Povo de Deus\u201d, povo escolhido e adquirido por alto pre\u00e7o, o sangue de Cristo. Este Povo participa de todas as dimens\u00f5es da miss\u00e3o de Jesus Cristo: \u00e9 um Povo de profetas, \u00e9 um Povo sacerdotal e participa da realeza de Jesus Cristo. Todos os seus membros, leigos, religiosos e sacerdotes, os \u201cfi\u00e9is em Cristo\u201d, est\u00e3o revestidos da mesma dignidade fundamental e partilham a responsabilidade da miss\u00e3o. A Igreja, Povo de Deus, \u00e9 o verdadeiro sujeito da miss\u00e3o, foi a ela que o Senhor enviou a anunciar o Evangelho a toda a criatura. Esta vis\u00e3o da Igreja, um pouco esquecida pelas vicissitudes hist\u00f3ricas da mesma Igreja, vem corrigir um rosto demasiadamente clerical da Igreja, sobretudo em termos de miss\u00e3o. Houve um longo per\u00edodo em que a vitalidade da Igreja, da sua miss\u00e3o e da sua estrutura interna, se ficou muito a dever ao servi\u00e7o dos sacerdotes, seculares e religiosos, o que acabou por relativizar a participa\u00e7\u00e3o dos outros membros da Igreja na estrutura interna e na miss\u00e3o. Quem via a Igreja de fora, sobretudo os seus inimigos, via a Igreja como assunto de padres e de bispos. Ainda hoje \u00e9 frequente ver na linguagem da comunica\u00e7\u00e3o social a identifica\u00e7\u00e3o da Igreja com os bispos e os padres. O anti-clericalismo foi tamb\u00e9m uma reac\u00e7\u00e3o contra um rosto clerical da Igreja. \u00c9 preciso reconhecer que, na sequ\u00eancia do Conc\u00edlio, muita coisa mudou. Hoje \u00e9 preciso andar distra\u00eddo ou n\u00e3o conhecer a Igreja para a identificar com o clero. A Ac\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica e outros Movimentos laicais tornaram a Igreja vis\u00edvel e activa no seio da sociedade atrav\u00e9s dos seus membros leigos. E mesmo na miss\u00e3o interna da Igreja os leigos ganharam uma preponder\u00e2ncia crescente: basta pensar na catequese, no ensino da religi\u00e3o nas escolas, nas estruturas sociais de viv\u00eancia da caridade, nos movimentos de espiritualidade, na participa\u00e7\u00e3o activa na Liturgia. Ser\u00e1 isso suficiente para construir o modelo de Igreja protagonizado pelo Conc\u00edlio? \u00c9 que n\u00e3o se trata apenas de os leigos fazerem aquilo que faziam os sacerdotes e tantas vezes \u00e0 maneira deles. Trata-se de uma fisionomia nova do rosto da Igreja, que sup\u00f5e, disse Bento XVI aos Bispos Portugueses, uma cont\u00ednua mudan\u00e7a de mentalidade. Neste aspecto h\u00e1, tamb\u00e9m para a Igreja de Lisboa, um caminho a percorrer. E se isso depende dos sacerdotes na forma de exercerem o seu minist\u00e9rio de pastores, depende tamb\u00e9m dos crist\u00e3os leigos, na medida da sua capacidade, tomarem iniciativas e levarem-nas por diante, em comunh\u00e3o com toda a Igreja, a que preside o Bispo diocesano, unido aos seus presb\u00edteros. Enquanto os leigos s\u00f3 fizerem aquilo que os sacerdotes mandam e nada fizerem sem o Senhor Prior dizer como \u00e9, pouco se avan\u00e7a na desclericaliza\u00e7\u00e3o da Igreja. Penso no vasto campo da presen\u00e7a da Igreja no seio das realidades terrestres, da interpreta\u00e7\u00e3o e busca de sentido dessas realidades, campo pr\u00f3prio das iniciativas apost\u00f3licas dos leigos. Mas tamb\u00e9m na estrutura interna da Igreja e na criatividade da sua miss\u00e3o \u00e9 preciso continuar a valorizar o carisma laical, atrav\u00e9s da corresponsabilidade e da constru\u00e7\u00e3o da comunh\u00e3o.  <b>A comunh\u00e3o deve ser o rosto vis\u00edvel da Igreja<\/b> 17. A Igreja concebida como um Povo, exige que a comunh\u00e3o seja o seu rosto vis\u00edvel. \u201cVede como eles se amam\u201d (Tertuliano, Apol. 39,9), deveria continuar a ser a reac\u00e7\u00e3o de quem olha a Igreja de fora, como o foi nos primeiros s\u00e9culos. A comunh\u00e3o p\u00f5e no centro o amor-caridade, exige uma primazia absoluta da caridade. E a caridade n\u00e3o \u00e9, nem natural, nem espont\u00e2nea. \u00c9 dom de Deus, ac\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo na Igreja e no cora\u00e7\u00e3o de cada crist\u00e3o. Conhecemos bem as express\u00f5es naturais do amor, fruto das capacidades da natureza e conhecemos tamb\u00e9m as suas fragilidades e precariedade. S\u00f3 a viv\u00eancia sobrenatural da gra\u00e7a leva os crist\u00e3os a transformar todo o amor em caridade e a amar aqueles que nenhuma for\u00e7a humana nos levaria a amar: os nossos inimigos, os que dizem mal de n\u00f3s, os mais marginalizados da sociedade. A Igreja s\u00f3 \u00e9 a \u201ccasa da comunh\u00e3o\u201d, porque \u00e9 o \u201cTemplo do Esp\u00edrito Santo\u201d. A caridade \u00e9 o grande desafio para a vida interna da Igreja. A sua primeira express\u00e3o \u00e9 o amor a Deus e ao Seu Filho Jesus Cristo, o que nos levar\u00e1 a amar todos os homens como nossos irm\u00e3os. \u00c9 a caridade que nos leva a anunciar o amor, Evangelho da vida, a respeitar as diferen\u00e7as, a escutar os que pensam de maneira diferente de n\u00f3s, a perdoar os que nos ofendem, a considerar os dons dos outros complementares dos nossos pr\u00f3prios dons. Sem a caridade, a Igreja torna-se um simples fen\u00f3meno de conviv\u00eancia humana, com as fragilidades e limites de toda a conviv\u00eancia humana. Nesta viv\u00eancia da caridade, a Igreja dar\u00e1 prioridade aos mais pobres, aos mais fr\u00e1geis da sociedade. Desde a publica\u00e7\u00e3o do nosso <b>Plano de Ac\u00e7\u00e3o Pastoral<\/b>, h\u00e1 trinta anos, que a Igreja de Lisboa elegeu como uma das suas op\u00e7\u00f5es fundamentais a <b>op\u00e7\u00e3o pelos pobres<\/b>. Esta op\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser te\u00f3rica, exige que se conhe\u00e7a, em cada tempo, a realidade da pobreza na nossa Diocese e que se v\u00e1 ao seu encontro, atrav\u00e9s das pessoas e das institui\u00e7\u00f5es. Esse ser\u00e1 o nosso t\u00edtulo de gl\u00f3ria: fazer dos pobres o nosso tesouro.  <b>A Igreja neste tempo<\/b> 18. A Igreja vive e realiza a sua miss\u00e3o, n\u00e3o numa situa\u00e7\u00e3o ideal, mas num tempo concreto, a sociedade actual, com as suas caracter\u00edsticas muito marcadas, como vimos, pela muta\u00e7\u00e3o cultural. Embora a rela\u00e7\u00e3o primordial da Igreja seja com a sociedade, a quem \u00e9 enviada, ela n\u00e3o coincide com a sociedade. Esta \u00e9 plural, variada, aceitando cada vez mais dificilmente qualquer primazia da Igreja, quer na afirma\u00e7\u00e3o dos valores morais, quer mesmo na proposta da verdade. A Igreja mestra da verdade, princ\u00edpio que inspirou, durante s\u00e9culos, a rela\u00e7\u00e3o da Igreja com a sociedade, \u00e9 cada vez menos aceite. O mais claro e essencial do seu Magist\u00e9rio \u00e9 facilmente relegado para o n\u00edvel da opini\u00e3o. Duas atitudes da Igreja s\u00e3o, hoje, melhor aceites: a generosidade do servi\u00e7o, sobretudo dos mais pobres, e a for\u00e7a do testemunho. Neste quadro, a Igreja n\u00e3o deve relacionar-se com a sociedade em termos de poder. A sua autenticidade crist\u00e3 e a consci\u00eancia viva da miss\u00e3o s\u00e3o as atitudes que devem prevalecer na rela\u00e7\u00e3o da Igreja com a sociedade. A sua mensagem \u00e9 de esperan\u00e7a e de salva\u00e7\u00e3o, e a sua viv\u00eancia sincera do Evangelho e do amor fraterno s\u00e3o for\u00e7as humanizantes de toda a sociedade. Hoje h\u00e1 uma fronteira de tens\u00e3o entre a Igreja e a sociedade na afirma\u00e7\u00e3o dos valores morais, inspiradores da dignidade do homem e do sentido \u00faltimo da exist\u00eancia humana. A sociedade pressiona a Igreja para que adopte a sua dimens\u00e3o secular de valores, evolutiva e pouco sens\u00edvel \u00e0 dimens\u00e3o perene da vida humana. Esta tens\u00e3o faz-se sentir mesmo entre os crist\u00e3os. Os valores da Igreja n\u00e3o s\u00e3o os da sociedade; s\u00e3o inspirados no Evangelho e na dignidade do homem restaurada em Jesus Cristo. \u00c9 certo que os valores que a Igreja defende n\u00e3o s\u00e3o apenas os valores religiosos, mas tamb\u00e9m os valores universais humanos, a que a viv\u00eancia crist\u00e3 acrescentar\u00e1 profundidade e radicalidade. Quando a Igreja se bate pela defesa desses valores, como, por exemplo, a dignidade inviol\u00e1vel da pessoa humana, a defesa da vida, desde o seu in\u00edcio at\u00e9 \u00e0 morte natural, a defesa da estabilidade da fam\u00edlia, a Igreja n\u00e3o o faz por serem valores estritamente religiosos, mas por serem valores universais humanos profundamente radicados nas tradi\u00e7\u00f5es culturais da humanidade. H\u00e1 um combate inevit\u00e1vel na defesa desses valores e esse combate a Igreja trava-o porque \u00e9 um combate pelo futuro do homem. Mas a for\u00e7a da Igreja \u00e9 a viv\u00eancia coerente desses valores, a convers\u00e3o \u00e9 exig\u00eancia cont\u00ednua, o an\u00fancio do Evangelho e de toda a doutrina crist\u00e3 acerca do homem em sociedade \u00e9 desafio a aceitar continuamente. A Igreja n\u00e3o exige que os poderes p\u00fablicos protejam ou imponham os seus valores espec\u00edficos. Mas espera que esses mesmos poderes defendam e promovam tais valores universais. E nesse campo, frente a esses poderes, a Igreja tanto pode ser for\u00e7a de colabora\u00e7\u00e3o como voz de den\u00fancia. No nosso caso nunca podemos esquecer que os membros da Igreja s\u00e3o parte significativa da sociedade, o que faz com que os desvios desta signifiquem tamb\u00e9m fragilidade da pr\u00f3pria Igreja. Esta deve estar atenta aos dinamismos positivos que surgem na sociedade e reconhecer a converg\u00eancia entre esses dinamismos e a miss\u00e3o da Igreja. \u00c9 o que significa o desafio lan\u00e7ado pelo Conc\u00edlio, de ler continuamente \u201cos sinais dos tempos\u201d e de identificar neles portas abertas ao Reino de Deus. Tamb\u00e9m assim a Igreja realizar\u00e1 a sua miss\u00e3o na sociedade, de a ir transformando pelo an\u00fancio da mensagem de Jesus Cristo.  <b>A Igreja e o Estado<\/b> 19. O Estado \u00e9 uma estrutura ao servi\u00e7o da sociedade, mas tamb\u00e9m n\u00e3o se identifica com ela. Qualquer tentativa de identifica\u00e7\u00e3o entre o Estado e a sociedade \u00e9 g\u00e9nese de poder ditatorial, anti-democr\u00e1tico. Cada um na sua esfera espec\u00edfica, a Igreja e o Estado t\u00eam em comum o estarem ao servi\u00e7o da sociedade. Os pontos de converg\u00eancia e de poss\u00edvel colabora\u00e7\u00e3o entre o Estado e a Igreja, procurando o bem-comum, s\u00e3o de assumir positivamente pelo Estado e pela Igreja. Esse \u00e9 o esp\u00edrito da Concordata recentemente celebrada entre a Santa S\u00e9 e o Estado Portugu\u00eas. A sociedade portuguesa \u00e9 uma sociedade democr\u00e1tica, regida pela Constitui\u00e7\u00e3o, que obriga toda a sociedade e, por conseguinte, tamb\u00e9m a Igreja. Esta respeita a Constitui\u00e7\u00e3o, reconhece que ela se aplica a todos os portugueses e respeita e colabora com todos os \u00f3rg\u00e3os do Estado leg\u00edtimos, isto \u00e9, constitu\u00eddos segundo as normas constitucionais. Lembro aos crist\u00e3os da Diocese de Lisboa que a Igreja aceita as principais caracter\u00edsticas de que se reveste, hoje, o Estado democr\u00e1tico:  * <b>A sua laicidade<\/b>. Longe v\u00e3o os tempos em que o Estado portugu\u00eas se afirmava como cat\u00f3lico e reconhecia no catolicismo a sua religi\u00e3o. A sociedade \u00e9 plural do ponto de vista religioso e, por isso, o Estado n\u00e3o pode ter religi\u00e3o, respeita todas, reconhece-lhe os seus direitos, e reconhece tamb\u00e9m os que n\u00e3o t\u00eam religi\u00e3o. A <b>laicidade<\/b> afirma-se, assim, como uma neutralidade em mat\u00e9ria religiosa, neutralidade que exige tamb\u00e9m que a n\u00e3o religi\u00e3o ou o laicismo n\u00e3o se transformem em doutrina do Estado.  * <b>A separa\u00e7\u00e3o entre a Igreja e o Estado<\/b>. \u00c9 uma exig\u00eancia da laicidade e p\u00f4s termos \u00e0 mistura de esferas, frequente no estatuto de Estado confessional. \u201cDai a C\u00e9sar o que \u00e9 de C\u00e9sar e a Deus o que \u00e9 de Deus\u201d, ensinou Jesus (Mt. 22,21). As \u00fanicas \u00e1reas de converg\u00eancia, que n\u00e3o podem ser de confus\u00e3o, entre a ac\u00e7\u00e3o da Igreja e do Estado, s\u00e3o o servi\u00e7o da sociedade e a busca do bem-comum. Embora a Lei de 1911 fosse uma m\u00e1 Lei, a Igreja aceita e respeita este estatuto de separa\u00e7\u00e3o.  * <b>A sua democraticidade<\/b>. O Estado Portugu\u00eas \u00e9 democr\u00e1tico. As regras da democracia participativa repercutem-se no Estado, quer na sua composi\u00e7\u00e3o, quer na defini\u00e7\u00e3o e exerc\u00edcio dos seus poderes. A sociedade democr\u00e1tica, na qual a Igreja se integra, \u00e9 o sujeito supremo dessa defini\u00e7\u00e3o. No que aos \u00f3rg\u00e3os eleitos diz respeito, \u00e9 a sociedade no seu todo, na pluralidade da sua realidade, que os elege. Os cat\u00f3licos devem assumir a responsabilidade c\u00edvica de participarem conscientemente nessa elei\u00e7\u00e3o. O \u00fanico caminho democraticamente leg\u00edtimo de a Igreja influir nas estruturas do Estado \u00e9 a participa\u00e7\u00e3o consciente dos membros da Igreja nos processos democr\u00e1ticos. A Hierarquia respeita a pluralidade de op\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias por parte dos cat\u00f3licos. Deve entretanto ajud\u00e1-los a formar a sua consci\u00eancia c\u00edvica e a vis\u00e3o dos problemas da sociedade em chave crist\u00e3. Tamb\u00e9m aqui o caminho da Igreja \u00e9 a evangeliza\u00e7\u00e3o, em ordem a uma vis\u00e3o de todas as coisas iluminada pela f\u00e9. A Hierarquia n\u00e3o deve intervir no processo democr\u00e1tico com os m\u00e9todos do confronto. Os cat\u00f3licos sim, esses podem e devem faz\u00ea-lo.  20. A Constitui\u00e7\u00e3o do nosso Estado democr\u00e1tico garante \u00e0 Igreja as condi\u00e7\u00f5es fundamentais para o exerc\u00edcio da sua miss\u00e3o:  * <b>A liberdade de consci\u00eancia<\/b>, cujo \u00e2mbito \u00e9 mais vasto que a pr\u00e1tica de uma religi\u00e3o e que garante que nenhum cidad\u00e3o pode ser violentado na sua consci\u00eancia, quer pelas leis, quer pela pr\u00e1tica processual da governa\u00e7\u00e3o.  * <b>A liberdade religiosa e de culto<\/b>. No que \u00e0 Igreja Cat\u00f3lica diz respeito, esta liberdade nunca esteve em quest\u00e3o. Ela deve incluir, e isso est\u00e1 explicitamente expresso na Concordata, a liberdade de exercer a sua miss\u00e3o, que n\u00e3o se reduz ao culto. Mas a natureza da miss\u00e3o da Igreja na sociedade \u00e9 a Igreja que a define e n\u00e3o o Estado. Neste aspecto podem surgir diverg\u00eancias, pois h\u00e1 quem considere interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da Igreja ou exig\u00eancia de privil\u00e9gios, o que na nossa \u00f3ptica \u00e9 apenas exerc\u00edcio da miss\u00e3o da Igreja e que, segundo o Conc\u00edlio, pode incluir, em certos casos, a den\u00fancia da forma como o poder pol\u00edtico \u00e9 exercido. Todos os \u201cdossiers\u201d presentemente em an\u00e1lise no di\u00e1logo da Hierarquia com o Governo Portugu\u00eas, dizem exactamente respeito \u00e0s condi\u00e7\u00f5es dadas \u00e0 Igreja para o exerc\u00edcio da sua miss\u00e3o: \u00e9 o caso das capelanias, hospitalares e prisionais, nas for\u00e7as armadas e de seguran\u00e7a, o ensino da religi\u00e3o nas escolas p\u00fablicas, a escola cat\u00f3lica. Neste di\u00e1logo, a Igreja n\u00e3o reivindica privil\u00e9gios, mas reconhecimento da sua miss\u00e3o e espa\u00e7o de liberdade. Temos consci\u00eancia de que em democracia os valores fundamentais s\u00e3o a compet\u00eancia, a disposi\u00e7\u00e3o para servir e o di\u00e1logo. Este deve ser persistente, competente, aberto \u00e0s raz\u00f5es dos interlocutores. \u00c9 o espa\u00e7o da insist\u00eancia e da persuas\u00e3o. A Hierarquia cat\u00f3lica n\u00e3o segue normalmente o caminho de pressionar o Estado na pra\u00e7a p\u00fablica, embora esse seja um meio utilizado em democracia por outras for\u00e7as sociais.  <b>O quadro legal das rela\u00e7\u00f5es da Igreja com o Estado<\/b> 21. Al\u00e9m da Constitui\u00e7\u00e3o, o principal instrumento legal \u00e9 a Concordata celebrada entre o Estado Portugu\u00eas e a Santa S\u00e9. Para as outras confiss\u00f5es religiosas existe a <b>Lei da Liberdade Religiosa<\/b>. Tem-se verificado ultimamente, a tend\u00eancia de reger \u00e0 base desta Lei as rela\u00e7\u00f5es da Igreja Cat\u00f3lica com o Estado. Assim seria se n\u00e3o houvesse Concordata. E esta foi t\u00e3o querida pelo Estado como pela Igreja. Instituto legal de grande tradi\u00e7\u00e3o na Hist\u00f3ria de Portugal, praticamente desde o in\u00edcio da nacionalidade, decorre das rela\u00e7\u00f5es bilaterais entre o Estado Portugu\u00eas e a Santa S\u00e9 tendo, por isso, o estatuto de Tratado Internacional, reconhece a internacionalidade da Igreja Cat\u00f3lica e tem em considera\u00e7\u00e3o a presen\u00e7a particularmente significativa da Igreja Cat\u00f3lica em Portugal, quer pelo n\u00famero de fi\u00e9is, quer pela quantidade de servi\u00e7os que a Igreja presta \u00e0 sociedade. \u00c9 por isso que a actual Concordata consagra o princ\u00edpio da coopera\u00e7\u00e3o entre a Igreja e o Estado, ao servi\u00e7o da sociedade, e que preside a todo o articulado do documento. A Concordata de 2004, tal como j\u00e1 tinha acontecido com a de 1940, precisa de legisla\u00e7\u00e3o complementar da compet\u00eancia da Assembleia da Rep\u00fablica ou do Governo, atrav\u00e9s de Decretos-Lei, processo agora em curso e que deve respeitar o esp\u00edrito inspirador de toda a Concordata. Enquanto esses novos diplomas n\u00e3o entrarem em vigor, a actual legisla\u00e7\u00e3o aplicativa da Concordata de 1940, nos assuntos que permanecerem na presente Concordata, continua v\u00e1lida. Isso decorre de um princ\u00edpio legal, segundo o qual as leis s\u00f3 cessam quando s\u00e3o explicitamente revogadas por quem de direito ou substitu\u00eddas por outras que as revogam. Este princ\u00edpio foi explicitado e aceite como garantia, pela Comiss\u00e3o negocial e pelo Governo de ent\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 vazio legal nem espa\u00e7o para as ambiguidades que t\u00eam surgido, aqui e acol\u00e1, nas diversas estruturas do Estado.   <b>O desafio da santidade<\/b> 22. Neste tempo e em todos os tempos, o grande desafio posto \u00e0 Igreja \u00e9 o da santidade e esta tem na identifica\u00e7\u00e3o com Cristo, o grande Servo e nosso Bom Pastor, o seu princ\u00edpio. A Igreja \u00e9 Santa porque participa da santidade de Jesus Cristo. Torn\u00e1-l\u2019O presente, proclamar a Sua Palavra, deixar-se conduzir por Ele, fazer com Ele a caminhada da vida, manifestar em n\u00f3s o Seu poder de salvar e de transformar, eis o desafio da Igreja. Jesus Cristo \u00e9 a verdade da Igreja, a sua for\u00e7a e a sua promessa.  Lisboa, 18 de Maio de 2008, Solenidade da Sant\u00edssima Trindade, Dia da Igreja Diocesana \u2020 JOS\u00c9, Cardeal-Patriarca <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Igreja no tempo e em cada tempo<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[95,113,120,127,144,146,154,188,199,206,238,246,294,297,311,314],"class_list":["post-31983","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-accao-catolica","tag-ano-paulino","tag-bento-xvi","tag-catequese","tag-concilio-vaticano-ii","tag-concordata","tag-crianca","tag-direito-canonico","tag-espiritualidade","tag-familia","tag-joao-xxiii","tag-liturgia","tag-sacramentos","tag-santa-se","tag-sinodo-dos-bispos","tag-solidariedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31983","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=31983"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31983\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=31983"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=31983"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=31983"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}