{"id":319362,"date":"2024-03-31T09:31:54","date_gmt":"2024-03-31T08:31:54","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=319362"},"modified":"2024-03-31T10:25:04","modified_gmt":"2024-03-31T09:25:04","slug":"igreja-visita-pascal-pode-ser-uma-bonita-expressao-daquilo-que-o-papa-francisco-chama-uma-igreja-em-saida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/igreja-visita-pascal-pode-ser-uma-bonita-expressao-daquilo-que-o-papa-francisco-chama-uma-igreja-em-saida\/","title":{"rendered":"Igreja: Visita Pascal \u00abpode ser uma bonita express\u00e3o daquilo que o Papa Francisco chama uma Igreja em sa\u00edda\u00bb"},"content":{"rendered":"<p><em>A tradicional visita pascal, o \u201cCompasso\u201d, com que se anuncia a ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus nas ruas e casas de muitas localidades portuguesas, regressa este domingo \u00e0s ruas do pa\u00eds, anunciando a ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo com s\u00edmbolos como a cruz, a m\u00fasica, as campainhas e a \u00e1gua que \u00e9 aspergida nas casas. Neste Domingo de P\u00e1scoa, \u00e9 convidado da Renascen\u00e7a e da Ecclesia o padre Amaro Gon\u00e7alo, secret\u00e1rio diocesano para a Coordena\u00e7\u00e3o Pastoral do Porto<\/em><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_319330\" aria-describedby=\"caption-attachment-319330\" style=\"width: 347px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/amaro_goncalo_pascoa.jpeg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-319330\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/amaro_goncalo_pascoa-347x260.jpeg\" alt=\"\" width=\"347\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/amaro_goncalo_pascoa-347x260.jpeg 347w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/amaro_goncalo_pascoa-1024x768.jpeg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/amaro_goncalo_pascoa-768x576.jpeg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/amaro_goncalo_pascoa-1536x1152.jpeg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/amaro_goncalo_pascoa.jpeg 1600w\" sizes=\"(max-width: 347px) 100vw, 347px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-319330\" class=\"wp-caption-text\">Foto: RR\/Henrique Cunha<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em>O an\u00fancio da ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus, que se traduz nesta manifesta\u00e7\u00e3o p\u00fablica do compasso \u00e0 visita pascal, ainda \u00e9 uma marca da P\u00e1scoa em Portugal?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Eu creio que pelo menos no Norte de Portugal, nas par\u00f3quias que eu conhe\u00e7o &#8211; estive em Amarante, estou em Matosinhos, em duas par\u00f3quias, Senhora da Hora e Guif\u00f5es &#8211; \u00e9 de facto uma marca. Inclusive, eu recordo que nas primeiras par\u00f3quias, num ano em que se colocava a quest\u00e3o de haver gente para integrar as equipas, algumas pessoas me perguntaram: este ano n\u00e3o h\u00e1 P\u00e1scoa? E a pergunta assim, dita desse modo&#8230;. eu tive de responder: P\u00e1scoa h\u00e1. E a\u00ed eu percebi que P\u00e1scoa era sin\u00f3nimo de Visita Pascal. Portanto, isso diz muito da associa\u00e7\u00e3o popular entre a celebra\u00e7\u00e3o da P\u00e1scoa e a pr\u00f3pria visita pascal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas esta \u00e9 uma realidade que est\u00e1 em desaparecimento, em particular no contexto urbano, que implica provavelmente tamb\u00e9m maiores desafios?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>No contexto urbano \u00e9 mais dif\u00edcil porque as comunidades est\u00e3o mais marcadas pelo anonimato. H\u00e1 uma grande mobilidade tamb\u00e9m de pessoas que saem da cidade para o campo para celebrarem a visita pascal. Mas eu sinto numa par\u00f3quia muito urbana, como \u00e9 da Senhora da Hora, que as pessoas prezam muito a visita pascal e fazem disso uma refer\u00eancia fundamental do tr\u00edduo pascal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O Padre Amaral tem falado desta experi\u00eancia da Senhora da Hora, que \u00e9 uma par\u00f3quia citadina, mas j\u00e1 falou da sua experi\u00eancia na cidade de Amarante, onde apesar de ser uma cidade tamb\u00e9m h\u00e1 um espa\u00e7o em que ainda predomina alguma ruralidade. Nestas experi\u00eancias encontra facilmente as raz\u00f5es que explicam um progressivo desaparecimento do compasso nas cidades?<\/em><\/p>\n<p>Eu tenho d\u00favidas que nas cidades haja um progressivo desaparecimento. Eu at\u00e9 sei de alguns casos em que h\u00e1 um recrudescimento. Isto \u00e9, as comunidades tentam salvar a Visita Pascal e tentam mant\u00ea-la ou at\u00e9 mesmo reativ\u00e1-la. Em Matosinhos at\u00e9 houve casos de par\u00f3quias que a retomaram depois daquela crise um pouco do movimento contr\u00e1rio \u00e0 religiosidade popular dos anos 70, 80. Depois houve uma retoma em v\u00e1rias par\u00f3quias. Agora, \u00e9 mais dif\u00edcil fazer esta visita quando pensares que tens muitas urbaniza\u00e7\u00f5es, muitos pr\u00e9dios, alguns de constru\u00e7\u00e3o mais antiga sem elevadores, em que n\u00f3s, por exemplo, desde a pandemia, propusemos para amenizar o peso e o custo da Visita Pascal que as pessoas des\u00e7am \u00e0 rua ou \u00e0s entradas dos seus pr\u00e9dios e a visita domicili\u00e1ria faz-se apenas \u00e0queles que expressamente o pedirem.<\/p>\n<p>N\u00f3s tivemos esta discuss\u00e3o p\u00f3s-pandemia, se volt\u00e1vamos ao esquema tradicional de visita domicili\u00e1ria. E, pelo menos na par\u00f3quia da Senhora da Hora, entendemos manter uma forma mista.\u00a0 Por regra, essa visita \u00e9 feita nas ruas, as pessoas descem. As equipas v\u00e3o a passar. As pessoas rezam em comum, fazem um pequenino grupo, ou \u00e0s entradas dos pr\u00e9dios, ou nas rotundas, ou nos lugares onde se re\u00fanem pequenos aglomerados, \u00e0s vezes pequenas fam\u00edlias, \u00e0s vezes pequenos grupos de pessoas que v\u00e3o em passeio e param. E, portanto, \u00e9 um modelo misto. Acontece que h\u00e1 doentes, h\u00e1 idosos, h\u00e1 pessoas fr\u00e1geis e h\u00e1 tamb\u00e9m pessoas que dizem que queria que fosse a casa e ent\u00e3o indicam e acompanham a visita e ela acontece. Eu sinto que \u00e9 uma marca muito forte e que n\u00f3s n\u00e3o a devemos descuidar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Admite que possa haver alguns respons\u00e1veis, alguns p\u00e1rocos assutados ou at\u00e9 desinteressados face a outras prioridades num contexto urbano perante esta tradi\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>Admito que sim, eu n\u00e3o conhe\u00e7o assim a realidade da visita pascal em todos os lugares, nem se quer na nossa diocese. Eu creio que na diocese do Porto uma grande maioria &#8211; tenho medo de estar a dizer uma coisa sem fundamento&#8230;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas, por exemplo, padre Amaro, na cidade do Porto contam-se pelos dedos aquelas que ainda t\u00eam a Visita Pascal ao Domingo de P\u00e1scoa?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Pois, \u00e9 prov\u00e1vel, talvez porque \u00e9 mais dif\u00edcil. O cora\u00e7\u00e3o das cidades est\u00e1 despovoado, e s\u00e3o sobretudo marcadas por servi\u00e7os, sem n\u00facleos familiares significativos, e, portanto, \u00e9 mais dif\u00edcil fazer a proposta de uma Visita Pascal. Agora, em meios semiurbanos ainda \u00e9 poss\u00edvel e ainda \u00e9 valoriz\u00e1vel. \u00a0Ali\u00e1s, eu reparo que o fen\u00f3meno da religiosidade popular e das cren\u00e7as populares, e \u00e0s vezes at\u00e9 de alguma supersti\u00e7\u00e3o continuam a prevalecer nos grandes centros. Quando mudei de Amarante para Matosinhos, eu tinha a ideia de que essa religiosidade seria menor numa cidade mais povoada, com outras caracter\u00edsticas, e fui reparando, por exemplo, a prop\u00f3sito do batismo e de outros fen\u00f3menos assim ligados \u00e0 religiosidade popular, que ela \u00e9 intensa, mais intensa. E talvez por uma defesa. E por exemplo, as motiva\u00e7\u00f5es para o batismo de tipo supersticioso encontrei muito mais em Matosinhos, na par\u00f3quia da Senhora da Hora, do que tinha quando estava na outra par\u00f3quia. Talvez porque n\u00f3s tamb\u00e9m nas cidades acolhemos e recolhemos e integramos pessoas que t\u00eam uma proveni\u00eancia rural e que \u00e0s vezes s\u00e3o essas as que mant\u00eam vivas as nossas comunidades. Na par\u00f3quia da Senhora da Hora, quando vou reparar, encontramos muitas pessoas, e as que est\u00e3o at\u00e9 mais ativas na vida paroquial, t\u00eam ra\u00edzes fora do contexto urbano.<\/p>\n<p>Agora, acho que a Visita Pascal, de uma forma ou de outra, na rua ou em casa ou nas duas coisas, pode ser uma bonita express\u00e3o daquilo que o Papa Francisco chama uma Igreja em sa\u00edda. O an\u00fancio Pascal, o encontro com as pessoas, a congrega\u00e7\u00e3o dos vizinhos, s\u00e3o valores que eu acho que devemos lutar, embora eu perceba que em alguns contextos seja praticamente imposs\u00edvel, at\u00e9 pelos recursos humanos, porque nem toda a gente est\u00e1 com vontade de ocupar o seu dia de P\u00e1scoa numa atividade destas&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E \u00e9 preciso uma equipa grande para o fazer?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>\u00c9. Por exemplo, na Senhora da Hora n\u00f3s temos 30 equipas para toda a manh\u00e3.\u00a0 E j\u00e1 foram 33. Tamb\u00e9m se vai verificando uma diminui\u00e7\u00e3o de pessoas que abrem a sua porta ou que pedem a visita a Pascal. Em Guif\u00f5es temos 15 equipas para a manh\u00e3 de P\u00e1scoa. \u00c9 um n\u00famero significativo de pessoas, mas s\u00e3o pessoas que se entusiasmam. N\u00f3s inclusive estamos a incluir imigrantes, pessoas que vieram do Brasil, da Venezuela, da Col\u00f4mbia, que nos aparecem nas celebra\u00e7\u00f5es, que deix\u00e1mos o convite e eles querem fazer essa experi\u00eancia e querem ver como \u00e9, porque acham interessante e v\u00eam e perguntam o que \u00e9.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Porque n\u00e3o conhecem essa realidade?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o conhecem essa realidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_319329\" aria-describedby=\"caption-attachment-319329\" style=\"width: 347px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/amaro_goncalo.jpeg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-319329\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/amaro_goncalo-347x260.jpeg\" alt=\"\" width=\"347\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/amaro_goncalo-347x260.jpeg 347w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/amaro_goncalo-1024x768.jpeg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/amaro_goncalo-768x576.jpeg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/amaro_goncalo-1536x1152.jpeg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/amaro_goncalo.jpeg 1600w\" sizes=\"(max-width: 347px) 100vw, 347px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-319329\" class=\"wp-caption-text\">Foto: RR\/Henrique Cunha<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Do ponto de vista pastoral, qual a import\u00e2ncia de levar esta proclama\u00e7\u00e3o da f\u00e9 para o espa\u00e7o p\u00fablico?<\/em><\/p>\n<p>Eu acho isso muito importante, porque n\u00f3s tendemos a ter comunidades&#8230; As comunidades urbanas, na minha leitura, t\u00eam uma tend\u00eancia autorreferencial, de autoconsola\u00e7\u00e3o, de autopreserva\u00e7\u00e3o. As pessoas gostam da par\u00f3quia como um lugar onde se sentem em casa, mas, habitualmente, \u00e9 uma casa para poucos, no contexto de muitos. A tend\u00eancia \u00e9 fazer o ninho, ali, sentirmo-nos quentinhos; depois, tudo o que seja sair, provocar, anunciar, \u00e9 um passo mais dif\u00edcil. Nesse sentido, a Visita Pascal \u00e9 um esfor\u00e7o de sa\u00edda, de encontro com as pessoas.<\/p>\n<p>Permita aqui fazer uma partilha de uma experi\u00eancia muito simples. Estou h\u00e1 pouco tempo, na par\u00f3quia de Guif\u00f5es, e quando reuni as equipas da Visita Pascal, disseram-me que h\u00e1 uma zona, que \u00e9 uma zona grande da par\u00f3quia, com 37 entradas, de um bairro camar\u00e1rio, que s\u00e3o pessoas, sobretudo, provenientes de Guif\u00f5es, de Matosinhos, e que vieram para ali, onde n\u00e3o havia Visita Pascal. Isso era aceite pacificamente. \u201cEles n\u00e3o t\u00eam l\u00e1 ningu\u00e9m que queira integrar as equipas, eles n\u00e3o ligam, passe a express\u00e3o, \u00e0 par\u00f3quia, aquela zona fica por fazer\u201d. E eu disse que isso n\u00e3o pode ser. Essa zona \u00e9 a que primeiro temos de ir visitar. Essa \u00e9 a zona que primeiro temos de sair ao encontro, porque se eles n\u00e3o se sentem bem em nossa casa, ou n\u00f3s n\u00e3o os integramos, ou eles n\u00e3o se deixaram integrar\u2026 n\u00f3s temos aqui um pequenino sinal de presen\u00e7a da Igreja. E foi por isso, por exemplo, que tamb\u00e9m este ano, numa das vias-sacras p\u00fablicas que realizamos, fomos a uma zona \u201cperif\u00e9rica\u201d da pr\u00f3pria par\u00f3quia. Tamb\u00e9m de bairros, numa par\u00f3quia que n\u00e3o \u00e9, neste caso, urbana, foi uma antiga vila e que tem algumas caracter\u00edsticas urbanas, mas n\u00e3o assim t\u00e3o acentuadamente. Mesmo a\u00ed se verifica que h\u00e1 zonas deprimidas e que est\u00e3o numa rela\u00e7\u00e3o praticamente de indiferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 comunidade paroquial, por raz\u00f5es geogr\u00e1ficas, sociais, de proveni\u00eancia, etc. Ora, n\u00f3s aqui, na visita a Pascal, temos tamb\u00e9m a oportunidade de nos aproximarmos dessas pessoas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E isso \u00e9 uma esp\u00e9cie de catequese que se faz?<\/em><\/p>\n<p>Eu acho que n\u00f3s, do ponto de vista da catequese, n\u00e3o temos grandes hip\u00f3teses. Vamos ser honestos\u2026.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>No sentido de ser uma forma de, at\u00e9 para quem faz a visita, perceber que faz parte da sua miss\u00e3o sair\u2026.<\/em><\/p>\n<p>Isso sim. Do ponto de vista da pedagogia pastoral, \u00e9 as pessoas perceberem que n\u00f3s devemos preferir aqueles que ningu\u00e9m quer. E essa \u00e9 a mensagem que eu estou sempre a dizer aos nossos paroquianos. A voca\u00e7\u00e3o da Igreja \u00e9 tomar conta daqueles de quem ningu\u00e9m quer tomar conta. \u00c9 amar e servir e sair ao encontro daqueles que ningu\u00e9m quer, por raz\u00f5es de xenofobia, por raz\u00f5es de desprezo social, enfim, por v\u00e1rias raz\u00f5es. E este \u00e9 um sinal bonito e educativo para a pr\u00f3pria comunidade, sair da sua zona de conforto. Porque ir a um bairro onde predominantemente est\u00e3o pessoas que t\u00eam origens noutros lugares, que n\u00e3o t\u00eam uma rela\u00e7\u00e3o de grande proximidade com a par\u00f3quia, a pr\u00e1tica dominical \u00e9 reduzid\u00edssima ou quase insignificante\u2026 se n\u00f3s perdemos estes v\u00ednculos, temos de ser n\u00f3s a dar o primeiro passo e aquelas pessoas dizerem assim: \u201calgu\u00e9m se aproximou de n\u00f3s\u201d. E a mensagem que levamos, que \u00e9 muito simples, \u00e0s vezes \u00e9 o gesto que fala por si. \u00c9 aquelas pessoas saberem que algu\u00e9m pensou nelas, algu\u00e9m quis ir \u00e0 casa delas.<\/p>\n<p>N\u00f3s temos a preocupa\u00e7\u00e3o, uma das coisas que fazemos \u2013 fi-lo sempre e agora com mais cuidado &#8211; \u00e9 pedir, por exemplo, \u00e0s pr\u00f3prias equipas que levem uma folhinha para sinalizarem os casos de idosos isolados, os casos de pessoas que est\u00e3o acamadas e que, porventura, poderiam querer algum acompanhamento pastoral do p\u00e1roco ou a visita do ministro extraordin\u00e1rio da Comunh\u00e3o.<\/p>\n<p>Na Senhora da Hora, do universo dos doentes que eu visito, uma grande parte, cerca de 80%, foram sinalizados a partir da Visita Pascal. Isto \u00e9, as equipas v\u00e3o, conversam, \u201cest\u00e1 aqui uma pessoa, est\u00e1 doente, est\u00e1 acamada, gostava que o senhor padre viesse c\u00e1, costumava ir \u00e0 Missa, gostava de ter algum acompanhamento, alguma visita\u201d, e a\u00ed cria-se imediatamente a ponte de contacto. Eu, por exemplo, se conhe\u00e7o a par\u00f3quia da Senhora da Hora e come\u00e7o a conhecer a par\u00f3quia de Guif\u00f5es, \u00e9 \u00e0 custa desta visita geogr\u00e1fica, desta pr\u00e9-visita pascal, que acaba por ser tamb\u00e9m uma ponte de aproxima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Em muitas localidades, quem faz esta visita encontra um cuidado extremo na decora\u00e7\u00e3o do exterior das casas e tamb\u00e9m no seu interior, onde uma mesa \u00e9 posta para receber as equipas, para um momento de ora\u00e7\u00e3o e conv\u00edvio. \u00c9 um momento especial tamb\u00e9m de conv\u00edvio entre gera\u00e7\u00f5es, digo eu. Este sinal \u00e9 importante para uma sociedade que, muitas vezes, esquece alguns daqueles de que falava ainda agora, como os mais velhos?<\/em><\/p>\n<p>Eu acho que esse sinal \u00e9 muito bonito. No meio urbano ele n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o presente como nos meios n\u00e3o t\u00e3o urbanos. N\u00f3s hoje quase temos dificuldade em falar em meios rurais, porque a nossa cultura, mesmo nos meios rurais, j\u00e1 est\u00e1 muito globalizada em v\u00e1rios aspetos, mas \u00e9 um sinal de uma fam\u00edlia que se re\u00fane, que faz uma pequena ora\u00e7\u00e3o e que, pelo menos, percebe que aquele dia n\u00e3o \u00e9 um dia como os outros. E essa marca, encontrar-se para uma pequena partilha, uma brev\u00edssima ora\u00e7\u00e3o que fazemos quase um respons\u00f3rio breve, um pequeno an\u00fancio, eu acho que vale muito pela marca que deixamos daquele dia e vale muito por esta forma de aproxima\u00e7\u00e3o e de comunh\u00e3o. Isto \u00e9, a par\u00f3quia \u00e9 a Igreja que est\u00e1 no meio das casas dos seus filhos e filhas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Sobretudo no norte do pa\u00eds, a P\u00e1scoa \u00e9 vivida num clima muito comunit\u00e1rio. H\u00e1 portas que n\u00e3o se fecham neste dia, fam\u00edlias que v\u00e3o de casa em casa. Fa\u00e7o-lhe uma pergunta talvez um bocadinho filos\u00f3fica, mas esta \u00e9 uma utopia de fraternidade?<\/em><\/p>\n<p>Isso \u00e9 verdade. N\u00f3s temos aqui uma base para tecer um fio de rela\u00e7\u00e3o entre pessoas que, de outro modo, dificilmente ter\u00edamos. E, de facto, as pessoas, mais nuns meios do que noutros, algumas andam de facto a saltar de casa em casa e recebem na sua casa e depois recebem outros na sua. E este \u00e9 realmente um sinal de uma comunh\u00e3o, embora \u00e0s vezes tamb\u00e9m haja dificuldades entre vizinhos e at\u00e9 de pessoas que integram as equipas com os vizinhos. Bom, n\u00e3o estamos num mundo de anjos, estamos num mundo de pessoas\u2026.<\/p>\n<p>Mas, de qualquer maneira, creio que sim, que n\u00f3s&#8230; sobretudo a Visita Pascal pode servir para tecer os fios da rela\u00e7\u00e3o entre as pessoas e a comunidade paroquial.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E como p\u00e1roco, o que \u00e9 que significa este momento de encontro com a sua comunidade? Eu imagino que tenha momentos de grande carinho e afeto\u2026<\/em><\/p>\n<p>Quer onde estive, quer onde estou, j\u00e1 integrei as equipas, vou tamb\u00e9m numa equipa &#8211; este ano ainda n\u00e3o me decidi, vou usar o fator surpresa -, \u00e9 um momento muito bonito de aproxima\u00e7\u00e3o, de comunh\u00e3o e de surpresa. Porque quando entro numa casa e dizem \u201c\u00e9 o senhor padre?\u201d, porque 99% do grupo s\u00e3o leigos, e bem, \u00e9 um milagre, \u00e9 uma coisa inaudita. E eu lembro-me a primeira vez que fiz a Visita Pascal na Senhora da Hora, em 2009, quando entrei nos pr\u00e9dios junto ao Norte Shopping, encontrei uma fam\u00edlia que ficou muito surpreendida com a visita, porque vinha de Celorico de Basto e n\u00e3o contava nada que, naquele contexto, e deparasse com o pr\u00f3prio p\u00e1roco dentro de casa. E a partir da\u00ed se construiu uma rela\u00e7\u00e3o de fam\u00edlia, de perten\u00e7a e de comunh\u00e3o. Eles tratam-me verdadeiramente como um filho. E isso nasceu precisamente dessa visita inesperada, nesse dia de P\u00e1scoa, a um casal que veio no seu \u00eaxodo para a cidade e encontrou ali qualquer coisa que lhe recordou as suas origens.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Que mensagem gostaria de deixar neste dia de P\u00e1scoa?<\/em><\/p>\n<p>Eu gostava de dizer \u00e0s pessoas que vivam a P\u00e1scoa como fonte de alegria. A nossa maior alegria est\u00e1 nesta vit\u00f3ria de Cristo sobre a morte, mesmo que esta alegria tenha ainda as suas chagas vis\u00edveis.<\/p>\n<p>Surpreendo-nos muito que Cristo ressuscitado se manifeste ainda com as suas chagas, mas n\u00f3s acreditamos que \u00e9 poss\u00edvel transformar estas chagas em furos de luz e que a ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus deve ser para n\u00f3s uma fonte de esperan\u00e7a e de confian\u00e7a que \u00e9 poss\u00edvel curar as nossas feridas e \u00e9 poss\u00edvel construir um mundo diferente, um mundo novo, uma utopia de fraternidade, como h\u00e1 pouco referia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A tradicional visita pascal, o \u201cCompasso\u201d, com que se anuncia a ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus nas ruas e casas de muitas localidades portuguesas, regressa este domingo \u00e0s ruas do pa\u00eds, anunciando a ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo com s\u00edmbolos como a cruz, a m\u00fasica, as campainhas e a \u00e1gua que \u00e9 aspergida nas casas. 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