{"id":31904,"date":"2008-05-14T13:15:10","date_gmt":"2008-05-14T13:15:10","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/05\/14\/cada-um-de-nos-pode-fazer-a-diferenca\/"},"modified":"2008-05-14T13:15:10","modified_gmt":"2008-05-14T13:15:10","slug":"cada-um-de-nos-pode-fazer-a-diferenca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/cada-um-de-nos-pode-fazer-a-diferenca\/","title":{"rendered":"Cada um de n\u00f3s pode fazer a diferen\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p>Em resposta aos efeitos da crise alimentar em Portugal \u2013 e ao consequente agravamento da fome, \u201ca vergonha do mundo moderno\u201d, a presidente do Banco Alimentar contra a Fome apela \u00e0 serenidade, para conter a especula\u00e7\u00e3o. Isabel Jonet acredita que, mais do que donativos em dinheiro, as fam\u00edlias carenciadas precisam de servi\u00e7os de apoio e, nessa obra, cada contributo pode fazer a diferen\u00e7a No topo da agenda internacional, a crise alimentar que se adivinhava h\u00e1 meses e fez agora disparar, a n\u00edvel mundial, os pre\u00e7os de alimentos t\u00e3o b\u00e1sicos como as farinhas, o arroz ou o leite, est\u00e1 a preocupar governos e ag\u00eancias mundiais, organiza\u00e7\u00f5es de interven\u00e7\u00e3o social e humanit\u00e1ria e popula\u00e7\u00e3o em geral. Em Portugal, a situa\u00e7\u00e3o pode agravar-se pela conjuntura econ\u00f3mica, que est\u00e1 a gerar novos pobres urbanos, sobreendividados, mas a realidade exige acalmia nas reac\u00e7\u00f5es e \u201cmuita pondera\u00e7\u00e3o\u201d nas medidas estrat\u00e9gicas a adoptar. O VER preparou um mini-dossier sobre o tema, procurando dar conta do contexto internacional e nacional desta crise alimentar, das muitas vozes que se levantaram, nas \u00faltimas semanas, contra o agravamento da fome, e do destino das Ajudas Oficiais ao Desenvolvimento, segundo o mais recente relat\u00f3rio da OCDE. Para avaliar o panorama em Portugal, entrevist\u00e1mos uma das mais profundas conhecedoras da realidade no terreno das fam\u00edlias carenciadas, a presidente da Federa\u00e7\u00e3o de Bancos Alimentares contra a Fome, Isabel Jonet.  <b>O ministro Vieira da Silva j\u00e1 garantiu que \u201cn\u00e3o h\u00e1 risco de fome\u201d em Portugal, se a rede de institui\u00e7\u00f5es de apoio a pessoas carenciadas funcionar eficazmente. Que coment\u00e1rio lhe tece esta afirma\u00e7\u00e3o?<\/b> De facto, existem riscos de car\u00eancias alimentares. As fam\u00edlias carenciadas t\u00eam or\u00e7amentos muito limitados, nos quais a parcela dispendida com a alimenta\u00e7\u00e3o representa um grande peso, a par da factura gasta em medicamentos. Como o pre\u00e7o dos alimentos est\u00e1 mais elevado e como n\u00e3o podem deixar de comprar os medicamentos \u2013 precisam deles para viver \u2013 t\u00eam de comer menos e portanto, pessoas que j\u00e1 tinham uma nutri\u00e7\u00e3o deficiente, muitas vezes alimentando-se apenas com o que lhes \u00e9 fornecido pelas institui\u00e7\u00f5es de car\u00e1cter social, v\u00eaem-se agora confrontadas com uma situa\u00e7\u00e3o muito dificil. Portanto, quando o Governo diz que n\u00e3o h\u00e1 risco de fome, isso depende de qual \u00e9 o conceito de fome. A situa\u00e7\u00e3o nos pa\u00edses desenvolvidos do Ocidente n\u00e3o \u00e9 compar\u00e1vel  com a situa\u00e7\u00e3o em \u00c1frica, mas posso garantir que em Portugal h\u00e1 ainda muitas pessoas que n\u00e3o comem duas refei\u00e7\u00f5es completas por dia e estima-se que existam 35 mil que n\u00e3o comem sequer uma refei\u00e7\u00e3o completa. <b>Os dados mais recentes do INE indicam dois milh\u00f5es de pobres em Portugal&#8230;<\/b> Sim, mas a pobreza n\u00e3o tem nada a ver com a fome, s\u00e3o medidas e conceitos diferentes. \u00c9 preciso ver qual \u00e9 o crit\u00e9rio da pobreza, pois esses dois milh\u00f5es de pobres s\u00e3o pessoas que muitas vezes comem. Agora, neste caso espec\u00edfico em que se d\u00e1 um acr\u00e9scimo no pre\u00e7o dos cereais, o que acontece \u00e9 que as pessoas ficam sem recursos financeiros para adquirir todos os bens de que necessitam para se alimentar.  No caso dos idosos, por exemplo, essa situa\u00e7\u00e3o sente-se de uma forma ainda mais premente, porque a infla\u00e7\u00e3o no pre\u00e7o dos produtos alimentares tem sido muito superior \u00e0 taxa da infla\u00e7\u00e3o nacional e, sobretudo, muito superior aos acr\u00e9scimos nas pens\u00f5es de reforma. Mas esta quest\u00e3o p\u00f5e-se com igual aquidade no caso das fam\u00edlias sobreendividadas, que constituem hoje um novo grupo de pobres. <b>O que deve fazer o Estado, para controlar os pre\u00e7os e o consequente aumento da fome? Nas \u00faltimas semanas, v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es humanit\u00e1rias e de car\u00e1cter social vieram reclamar uma interven\u00e7\u00e3o do Governo, por exemplo, criando fundos de alimentos, dando benef\u00edcios fiscais aos mais carenciados&#8230;<\/b> No meu entender, n\u00e3o \u00e9 dando dinheiro que se resolvem este tipo de situa\u00e7\u00f5es. Eu sou mais adepta do dar servi\u00e7os de apoio do que do dar subs\u00eddios, porque muitas vezes estes n\u00e3o s\u00e3o empregues naquilo a que se destinam. Ao Estado cabe a defini\u00e7\u00e3o de estrat\u00e9gias e a adop\u00e7\u00e3o de medidas que venham potenciar esse tipo de estrat\u00e9gias. N\u00e3o tenho, como ningu\u00e9m tem, f\u00f3rmulas m\u00e1gicas, mas acho que nesta altura \u00e9 fundamental manter a serenidade. Tenho visto pessoas mais velhas (que viveram em tempos com os limites \u00e0 aquisi\u00e7\u00e3o de bens pr\u00f3prios de uma situa\u00e7\u00e3o de guerra) a entrar quase num p\u00e2nico e essa intranquilidade s\u00f3 pode ter efeitos nefastos, porque leva a uma corrida aos supermercados que s\u00f3 produz uma escalada ainda maior dos pre\u00e7os, j\u00e1 que o aumento da procura gera especula\u00e7\u00e3o. H\u00e1 que manter a serenidade e analisar a situa\u00e7\u00e3o das pessoas mais carenciadas com pondera\u00e7\u00e3o.  <b>Mas ent\u00e3o n\u00e3o defende a cria\u00e7\u00e3o de fundos alimentares para fazer face ao agravamento da fome?<\/b> &#8211; Em Portugal ainda n\u00e3o se justifica isso, e acho mesmo que temos de ter calma neste tipo de reac\u00e7\u00f5es que podem at\u00e9, nalguns casos, ser excessivas. Temos de avaliar bem aquilo que \u00e9 poss\u00edvel fazer.  <b>O programa comunit\u00e1rio de ajuda alimentar a carenciados ir\u00e1 distribuir, em 2008, 14 milh\u00f5es de Euros em alimentos, segundo anunciou o ministro. Acha que este valor poder\u00e1 ter de ser revisto, na sequ\u00eancia da crise alimentar?<\/b> Obviamente, se pretendemos ajudar as pessoas e se os produtos alimentares est\u00e3o mais caros, o programa de distribui\u00e7\u00e3o de alimentos a pessoas carenciadas tem de ser refor\u00e7ado, mas tudo isto tem de ser visto numa estrat\u00e9gia mais global. Por exemplo, ao incentivar a cultura em terrenos agr\u00edcolas de plantas que servem para produzir biocombust\u00edveis, em alternativa \u00e0s culturas de cereais para fins alimentares e outros bens, est\u00e1-se a perverter todo o sistema. Quando se arranca o trigo ou o milho para plantar soja ou cana de a\u00e7\u00facar, porque s\u00e3o mais eficientes do ponto de vista do biocarburante, est\u00e1-se a contribuir para que estes produtos agr\u00edcolas encare\u00e7am, obrigando a mais verbas financeiras.  Portanto, h\u00e1 um conjunto de aspectos que t\u00eam de ser analisados e \u00e9 aqui que os Governos t\u00eam de intervir, na defini\u00e7\u00e3o dessas estrat\u00e9gias, o que requer muita pondera\u00e7\u00e3o. <i>\u201cEstima-se que em Portugal existam 35 mil pessoas que n\u00e3o comem sequer uma refei\u00e7\u00e3o completa por dia\u201d<\/i>    <b>E face aos \u201cnovos pobres\u201d, os assalariados da classe m\u00e9dia que est\u00e3o endividados devido ao aumento das taxas de juro (especialmente no cr\u00e9dito \u00e0 habita\u00e7\u00e3o), ao desemprego, aos baixos sal\u00e1rios, ao aumento do custo de vida, em geral&#8230;  \u00e9 necess\u00e1rio incluir no programa de ajuda alimentar apoio a estes casos?<\/b> N\u00e3o, esses casos t\u00eam de ser ajudados de outra maneira, de modo a encontrarem alternativas para a sua vida, pois, na grande maioria, tratam-se de pessoas que est\u00e3o em idade activa e t\u00eam um emprego com uma remunera\u00e7\u00e3o mensal, mas chegam ao final do m\u00eas e os rendimentos que t\u00eam n\u00e3o chegam para fazer face \u00e0s despesas do seu agregado familiar.  <b>Disse recentemente que j\u00e1 receberam no Banco Alimentar pedidos de ajuda por parte de m\u00e9dicos, professores e outros profissionais qualificados&#8230;<\/b> Sim, \u00e9 verdade. Ainda esta manh\u00e3 recebi um e-mail de um senhor que trabalhou como int\u00e9rprete em Bruxelas, teve um acidente, voltou para Portugal e hoje n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es para pagar as suas despesas de alimenta\u00e7\u00e3o e a presta\u00e7\u00e3o da casa. E s\u00e3o pessoas qualificadas&#8230; <b>Que n\u00e3o devem entrar para as estat\u00edsticas do programa de ajuda alimentar?<\/b> Devem entrar, mas com todo um olhar que \u00e9 diferenciado. Por isso \u00e9 que digo que tem de haver toda uma boa defini\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica. O que eu tamb\u00e9m digo \u00e9 que n\u00e3o ir\u00e1 haver escassez de alimentos em Portugal, mas uma subida de pre\u00e7os que afectar\u00e1, de forma mais grave, as popula\u00e7\u00f5es carenciadas. <b>A n\u00e3o ser que sejam agricultores pobres que, segundo o secret\u00e1rio-geral da ONU, representam oitenta por cento da pobreza no mundo, n\u00e3o \u00e9?<\/b> Sim, mas mesmo esses podem retirar mais alguns proveitos, mas isso n\u00e3o chega. Hoje em dia n\u00e3o h\u00e1  em Portugal agricultura de subsist\u00eancia, logo, a partir do momento em que se d\u00e1 um acr\u00e9scimo exponencial nos pre\u00e7os de alimentos b\u00e1sicos, como as farinhas ou o arroz, as popula\u00e7\u00f5es ficam sem flexibilidade or\u00e7amental.   Quem vai sofrer mais com este fen\u00f3meno s\u00e3o as popula\u00e7\u00f5es pobres. A crise alimentar \u00e9, de facto, gravissima, e a maior preocupa\u00e7\u00e3o podem vir a ser os seus reflexos sociais, porque onde n\u00e3o h\u00e1 p\u00e3o, normalmente h\u00e1 grandes disturbios. Mas temos de ter calma. <b>Tem ideia dos n\u00fameros da fome no Pa\u00eds?<\/b> N\u00e3o, mas sei que h\u00e1 muitas, muitas car\u00eancias alimentares. H\u00e1 pessoas que comem muito mal, crian\u00e7as que s\u00f3 comem gra\u00e7as \u00e0s institui\u00e7\u00f5es de apoio e que chegam \u00e0s creches e escolas sem o pequeno almo\u00e7o tomado. Muitos idosos s\u00f3 tomam uma refei\u00e7\u00e3o por dia. \u00c9 claro que a nossa realidade n\u00e3o \u00e9 compar\u00e1vel \u00e0s situa\u00e7\u00f5es que se vivem em \u00c1frica, onde as pessoas est\u00e3o dias seguidos sem comer, mas h\u00e1 graves car\u00eancias alimentares. <b>Face a esta realidade, que press\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria da sociedade civil para proteger as fam\u00edlias mais carenciadas? Que medidas podem tomar as organiza\u00e7\u00f5es humanit\u00e1rias e qual \u00e9, nelas, o papel dos volunt\u00e1rios?<\/b> As organiza\u00e7\u00f5es humanit\u00e1rias podem ter um papel ainda mais importante do que o do Estado, face \u00e0 sua proximidade e ao valor humano do seu trabalho. Sobretudo, a grande mensagem que h\u00e1 aqui a passar \u00e9 que cada um de n\u00f3s pode fazer a diferen\u00e7a. O contributo de cada um, com a sua postura de vida, \u00e9 que distingue a grande interven\u00e7\u00e3o da sociedade civil. \u00c9 fundamental que as pessoas n\u00e3o se fechem em si pr\u00f3prias, no seu individualismo, e percebam que, com a sua maneira de estar, podem realmente fazer a diferen\u00e7a. <b>A \u00faltima recolha do Banco Alimentar reuniu a participa\u00e7\u00e3o de 18 mil volunt\u00e1rios, confirmando que as pessoas se mant\u00e9m, apesar das dificuldades crescentes, dispon\u00edveis para dar. \u00c9 isso que importa, que cada um contribua sempre, ainda que pouco?<\/b> \u00c9, e sobretudo que contribuam com as suas aptid\u00f5es e atitudes pessoais. Por exemplo, fechando a torneira cada vez que lavam os dentes, n\u00e3o para poupar na factura da \u00e1gua, mas porque a \u00e1gua \u00e9 um bem escasso a n\u00edvel planet\u00e1rio. As escolhas de cada um de n\u00f3s reflectem-se no bem estar da comunidade, no seu todo. Em mat\u00e9ria de voluntariado, as pessoas percebem facilmente que \u00e9 f\u00e1cil ajudar e quanto maior for a crise, mais adeptos conseguimos juntar <i>Gabriela Costa<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em resposta aos efeitos da crise alimentar em Portugal \u2013 e ao consequente agravamento da fome, \u201ca vergonha do mundo moderno\u201d, a presidente do Banco Alimentar contra a Fome apela \u00e0 serenidade, para conter a especula\u00e7\u00e3o. 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