{"id":31878,"date":"2008-05-13T10:58:16","date_gmt":"2008-05-13T10:58:16","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/05\/13\/serafina-e-liberdade-uma-resposta-social\/"},"modified":"2018-03-06T16:13:08","modified_gmt":"2018-03-06T16:13:08","slug":"serafina-e-liberdade-uma-resposta-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/serafina-e-liberdade-uma-resposta-social\/","title":{"rendered":"Serafina e Liberdade: uma resposta social"},"content":{"rendered":"<p>Numa das encostas da cidade de Lisboa encontram-se dois bairros que cresceram lado a lado. \u00c0 procura de melhores condi\u00e7\u00f5es de vida no centro urbano que era Lisboa nos anos 20, o Bairro da Liberdade foi sendo desenhado a tijolo e cimento pela necessidade de quem n\u00e3o tinha dinheiro nem tecto onde dormir.  O Bairro da Serafina, de casas edificadas por um poder econ\u00f3mico superior, tem paredes meias e realidades pr\u00f3ximas com a liberdade das ruas e da familiaridade pr\u00f3pria dos primeiros anos do S\u00e9culo passado.   De casas clandestinas e de apropria\u00e7\u00e3o de terrenos se foi construindo a hist\u00f3ria dos dois bairros, onde actualmente vivem cerca de oito mil pessoas. Habita\u00e7\u00f5es \u201cbarracadas\u201d, desordenadas a precisar de uma grande interven\u00e7\u00e3o urban\u00edstica que governo ap\u00f3s governo n\u00e3o encontra solu\u00e7\u00e3o e acordo.  Desde a constru\u00e7\u00e3o da Ponte 25 de Abril que o Bairro da Liberdade tem sido delapidado. Depois da ponte, surgiu a constru\u00e7\u00e3o do Eixo Norte Sul. Sujeito a derrocadas, o Bairro foi sendo alvo de realojamento.  A habita\u00e7\u00e3o continua a ser um dos grandes problemas que encontra aqui o n\u00facleo de outras dificuldades sociais. A falta de condi\u00e7\u00f5es de higiene, a promiscuidade, o desemprego, o alcoolismo, a toxicodepend\u00eancia e algum tr\u00e1fico de droga trazido pelo renovado vizinho Casal Ventoso, a pobreza extrema causada por dificuldades financeiras, fam\u00edlias desagregadas, crian\u00e7as, adolescentes e idosos abandonados s\u00e3o caracter\u00edsticas que revelam uma situa\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica.   Foi para fazer face a esta realidade que nasceu o Centro Social e Paroquial de S\u00e3o Vicente de Paulo, na par\u00f3quia que lhe d\u00e1 nome, na freguesia de Campolide. Uma obra de uma vida, da vida do C\u00f3nego Francisco Crespo, que n\u00e3o teve medo de arrega\u00e7ar as mangas e dizer \u00abEu vou para o Bairro da Liberdade e da Serafina\u00bb. Foi assim h\u00e1 30 anos.   O P\u00e1roco, respons\u00e1vel pelo Centro Social e Paroquial de S\u00e3o Vicente de Paulo e Director do Departamento da Pastoral S\u00f3cio-Caritativa do Patriarcado de Lisboa explica \u00e0 Ag\u00eancia ECCLESIA que a divis\u00e3o entre os dois bairros j\u00e1 foi mais marcante. \u201cH\u00e1 ainda quem seja do Bairro da Serafina e se considere superior ao Bairro da Liberdade, mas apenas a n\u00edvel social ou civil. A n\u00edvel da participa\u00e7\u00e3o na Igreja n\u00e3o reconhe\u00e7o essa divis\u00e3o\u201d. De qualquer forma, quem mais acede aos servi\u00e7os do Centro s\u00e3o os habitantes do Bairro da Liberdade.  A g\u00e9nese da institui\u00e7\u00e3o foi iniciada nos anos 20 pela m\u00e3o dos Vicentinos que se aperceberam da necessidade de uma interven\u00e7\u00e3o social. A Educa\u00e7\u00e3o Popular e a Congrega\u00e7\u00e3o do Amor de Deus foram parceiros de respostas sociais que iam sendo dadas at\u00e9 chegarem os Mission\u00e1rios da Consolata, corria o ano de 1958.   Com o primeiro p\u00e1roco, Jos\u00e9 Gallea, come\u00e7aram os primeiros projectos \u201cposs\u00edveis para a altura\u201d, relembra o C\u00f3nego Crespo. Alcatroar as estradas, trazer a luz el\u00e9ctrica, acompanhar crian\u00e7as, jovens e adolescentes em pr\u00e9-fabricados para as primeiras respostas sociais.  Mas a obra iniciada foi-se degradando e a comunidade foi encontrando sucessivos p\u00e1rocos, \u201ccom mais ou com menos vigor\u201d. Chegado o 25 de Abril, a popula\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a apoderar-se das instala\u00e7\u00f5es do Centro e os muitos sacerdotes que por ali passaram viveram \u201csitua\u00e7\u00f5es dram\u00e1ticas\u201d.  Em 1977 chega o sacerdote Francisco Crespo, dos Mission\u00e1rios da Consolata. Na altura \u201cn\u00e3o havia ningu\u00e9m que aqui quisesse ficar\u201d, lembra. Foi come\u00e7ar do zero.  J\u00e1 existiam algumas instala\u00e7\u00f5es mas encontravam-se degradadas. Com o desejo de mudan\u00e7a, foi surgindo algum equipamento.  <b>Passo a Passo<\/b> Sabendo que as respostas teriam de vir cada uma a seu tempo, o p\u00e1roco come\u00e7ou a preparar o primeiro equipamento \u2013 um pr\u00e9-fabricado para os idosos, dando origem ao primeiro Centro de Dia do pa\u00eds, em 1978.   \u201cN\u00e3o podia fazer o trabalho todo de uma s\u00f3 vez\u201d. Na altura, havia \u201cduas franjas preocupantes\u201d, lembra. Mas os idosos, nos seus 70 anos, andavam pelas tabernas, sem ningu\u00e9m e n\u00e3o tinham respostas. Com a ajuda da Caritas foi constru\u00eddo um pr\u00e9-fabricado para 80 idosos, com apoio domicili\u00e1rio. A aten\u00e7\u00e3o prestada foi a palavra de ordem. 30 anos depois o Lar acolhe 120 idosos dependentes e o apoio domicili\u00e1rio apoio 85 pessoas. No Centro de dia est\u00e3o 60 idosos, que simultaneamente est\u00e3o \u00e0 espera de vaga para entrar no Lar.  <img decoding=\"async\" border=\"1\" src=\"\/pub\/1\/img\/serafina4.jpg\" align=\"left\"> Seguiram-se as crian\u00e7as do pr\u00e9-escolar. \u201cSem dar resposta \u00e0s crian\u00e7as, sobretudo do jardim de inf\u00e2ncia, os pais n\u00e3o podiam trabalhar\u201d, reconhece o C\u00f3n. Francisco Crespo. As instala\u00e7\u00f5es para atendimento de crian\u00e7as em idade escolar foi ent\u00e3o adaptado, provisoriamente a jardim de inf\u00e2ncia. No primeiro ano, para 100 crian\u00e7as. Actualmente a creche tem 65 crian\u00e7as. No jardim de inf\u00e2ncia encontram-se 140 crian\u00e7as. No ATL, com alimenta\u00e7\u00e3o inclu\u00edda, encontram-se 110 crian\u00e7as do 1\u00ba e 2\u00ba ciclo. No ATL, no servi\u00e7o de pontas, est\u00e3o 60 crian\u00e7as.  Vieram depois os jovens e adolescentes que o sacerdote queria tirar da \u201cm\u00e1 vida, alguns j\u00e1 na droga e na prostitui\u00e7\u00e3o\u201d. 30 anos depois s\u00e3o 120 os jovens e adolescentes que usufruem do espa\u00e7o.  Tudo foi nascendo a pouco e pouco. As instala\u00e7\u00f5es provis\u00f3rias iam servindo para os v\u00e1rios servi\u00e7os enquanto as instala\u00e7\u00f5es definitivas n\u00e3o eram constru\u00eddas. Os pr\u00e9-fabricados tinham hist\u00f3ria.   O Centro de dia foi crescendo a par do problema habitacional. As casas foram-se deteriorando \u201ccom humidade e frio\u201d. Aproveitando os subs\u00eddios do Estado para ajudar os idosos, na altura destinado a centros de dia, pois \u201cn\u00e3o se falava ainda em lares\u201d, surgiu a resposta para o acolhimento aos idosos num Lar.   J\u00e1 com o Centro de dia e o apoio domicili\u00e1rio, o acolhimento destinava-se aos que estavam dependentes. O importante \u201c\u00e9 deixar as pessoas nas suas casas para n\u00e3o lhes tirar as ra\u00edzes\u201d, explica o sacerdote. N\u00e3o havendo outra resposta, os idosos v\u00e3o ent\u00e3o para o Lar.   Os deficientes eram outra franja populacional a precisar de acompanhamento. \u201cEncontrei muitos, alguns sem-abrigo\u201d, lembra o sacerdote. Actualmente s\u00e3o 30 as pessoas na actividade ocupacional para deficientes.   <b>Uma grande aldeia<\/b> Quem entra no port\u00e3o do Centro Social e Paroquial n\u00e3o imagina o espa\u00e7o que estas val\u00eancias ocupam. O conjunto parece ter sido criado de uma s\u00f3 vez. Mas as unidades foram nascendo de um sonho passo a passo, resposta a resposta para o que actualmente \u00e9 uma grande aldeia.  S\u00f3 em \u00faltimo surgiu a Igreja. O C\u00f3nego Francisco Crespo desde sempre acreditou que o essencial eram as respostas para \u201co Cristo vivo nas pessoas\u201d. As celebra\u00e7\u00f5es podiam ser feitas num pr\u00e9 fabricado, sem perder de vista o sonho de construir a Igreja \u201cse houvesse dinheiro e for\u00e7as\u201d.  <img decoding=\"async\" border=\"1\" src=\"\/pub\/1\/img\/serafina3.jpg\" align=\"left\"> O espa\u00e7o e a beleza simples da Igreja s\u00e3o vis\u00edveis. Com capacidade para 500 pessoas, mas \u201cj\u00e1 enchemos com 1000 nos dias de festa\u201d.   O C\u00f3nego Crespo n\u00e3o esconde a alegria por ter feito uma obra \u201ccom crit\u00e9rio, mas livre de despesas de constru\u00e7\u00e3o, apenas de manuten\u00e7\u00e3o e conserva\u00e7\u00e3o\u201d.   O Lar para idosos foi aumentado um piso devido aos constantes pedidos para acolher os idosos, n\u00e3o s\u00f3 dos Bairros mas de toda a cidade de Lisboa, que ali chegam.   Mais terreno dispon\u00edvel houvesse para dar resposta aos tantos pedidos, mais o C\u00f3nego Francisco Crespo constru\u00eda. \u201cA cidade de Lisboa est\u00e1 envelhecida e n\u00e3o tem resposta para os idosos\u201d, explica. 1000 pessoas em lista de espera asseguram essa realidade.  Este \u00e9 um trabalho realizado por 150 pessoas, entre t\u00e9cnicos, psic\u00f3logos, terapeutas, fisiatras, enfermeiras, assistentes sociais, m\u00e9dicos, ajudantes de ac\u00e7\u00e3o directa, cozinheiros, ajudantes de cozinha. Uma m\u00e1quina pesada que quer dar primeiro resposta ao desemprego do Bairro, promovendo o desenvolvimento integral da pessoa e dando respostas para uma mudan\u00e7a.   <img decoding=\"async\" border=\"1\" src=\"\/pub\/1\/img\/serafina5.jpg\" align=\"left\"> A trabalhar no Centro est\u00e3o jovens e adultos que cresceram nos Bairros e s\u00e3o o resultado do trabalho ali realizado. Alguns cresceram e ali continuam a morar, outros sa\u00edram, mas as suas liga\u00e7\u00f5es n\u00e3o foram quebradas.    Esta \u00e9 uma forma, explica o C\u00f3nego Crespo, de as pr\u00f3prias pessoas se identificarem com quem est\u00e3o a trabalhar, sendo este tamb\u00e9m um factor importante de reconhecimento. \u201cD\u00e1-me tranquilidade e alegria porque o trabalho n\u00e3o se perde\u201d.  \u201cQuando as pessoas precisam de ser apoiadas n\u00e3o damos dinheiro, mas tentamos arranjar emprego\u201d. Ainda assim, o C\u00f3nego Crespo d\u00e1 conta de uma grande dificuldade em encontrar pessoas \u201ccompetentes e dispon\u00edveis para a realiza\u00e7\u00e3o de tarefas \u00e1rduas, sujeitas a turnos\u201d.   Gerir \u201cesta popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 tarefa f\u00e1cil\u201d. Mas pela afabilidade do C\u00f3nego Crespo, vis\u00edvel no contacto que mant\u00e9m tanto com pessoal como com residentes, n\u00e3o parece ser dif\u00edcil. A vida dos seus funcion\u00e1rios n\u00e3o lhe \u00e9 estranha. Talvez seja por isso que esta \u00e9 uma obra, de Deus, feita de pessoas e de sucesso.  <b>Obra de Deus com dinheiro dos homens<\/b> O terreno onde se encontra o Centro Social a Paroquial, h\u00e1 30 anos atr\u00e1s, estava cedido em direito de superf\u00edcie. A primeira medida a tomar foi comprar o terreno \u00e0 C\u00e2mara Municipal de Lisboa, \u201ce alarg\u00e1-lo o mais que pude\u201d.   De onde foi surgindo a verba para a constru\u00e7\u00e3o, \u201cna realidade n\u00e3o sei responder\u201d. Muitos ajudaram, muitos foram os donativos que foi recebendo. \u201cN\u00e3o fiz milagres, mas fui vendo milagres a acontecer\u201d, explica o C\u00f3nego Crespo.   \u201cPodem fazer-se umas festas para angariar fundos\u201d, mas representam uns poucos milhares de euros que n\u00e3o chegam para tanta necessidade.   \u201cTenho exemplos muito simp\u00e1ticos de benfeitores\u201d. O respons\u00e1vel recorda a generosidade da Igreja Evang\u00e9lica Alem\u00e3 que, atrav\u00e9s de v\u00e1rias comunidades na Alemanha, ajudam a tornar realidade as respostas sociais.   \u201cVou recebendo sinais e atrav\u00e9s deles vou procurando fazer o melhor poss\u00edvel e p\u00f4r-me ao servi\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o\u201d. O Centro possui uma casa na Praia das Ma\u00e7\u00e3s, em Cascais, \u201cque um judeu mandou comprar para uso da institui\u00e7\u00e3o\u201d, e cuja manuten\u00e7\u00e3o \u00e9 feita pelo benfeitor. Este espa\u00e7o serve para retiros e fins-de-semana com os jovens.   Com orgulho e satisfa\u00e7\u00e3o, o C\u00f3nego Crespo diz que no Bairro n\u00e3o h\u00e1 fome, nem ningu\u00e9m que fica sem resposta. \u201cVenha quem vier, o seu caso \u00e9 estudado e solucionado\u201d. A ajuda nunca ser\u00e1 monet\u00e1ria, adianta, mas muitas pessoas que habitam o Bairro \u201cv\u00eam ao Centro buscar a sua \u00fanica alimenta\u00e7\u00e3o\u201d. Adolescentes que chegam de casa \u201ccheios de fome, fazendo no Centro a primeira e \u00faltima refei\u00e7\u00e3o do dia\u201d, explica.   Uma realidade extens\u00edvel por vezes \u201centre funcion\u00e1rios tamb\u00e9m\u201d. O C\u00f3nego Crespo acompanha bem a realidade dos utentes e dos funcion\u00e1rios. Sabe bem as dificuldades por que os seus trabalhadores passam e reconhece o esfor\u00e7o di\u00e1rio do trabalho que ao final do m\u00eas n\u00e3o chega para sustentar a fam\u00edlia desempregada e em dificuldades.   Sem fazer do Centro \u201cum mar de rosas\u201d, o C\u00f3nego Crespo afirma que procuram acompanhar todas as situa\u00e7\u00f5es. \u201cSe soubermos que uma crian\u00e7a \u00e9 negligenciada, n\u00e3o procuramos logo a sua institucionaliza\u00e7\u00e3o, mas antes fazer o processo com a fam\u00edlia\u201d.  Este \u00e9 um trabalho que afirma ser \u201cpermanente\u201d e pr\u00f3ximo. As necessidades s\u00e3o constantes e surgem a toda a hora. H\u00e1 30 anos atr\u00e1s \u201ca droga n\u00e3o estava muito presente, mas havia alcoolismo\u201d. O C\u00f3nego Francisco Crespo sabe que, trabalhando com alco\u00f3licos e toxicodependentes, h\u00e1 situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis de resolver. \u201cMas nem por isso as deixamos de acompanhar\u201d, sublinha.  O p\u00e1roco faz quest\u00e3o de dizer \u201csempre aos funcion\u00e1rios: se n\u00e3o tivermos mais nada para dar que d\u00eamos amor\u201d. O bom atendimento \u00e9 feito atrav\u00e9s do acolhimento que se d\u00e1 na primeira hora. Se n\u00e3o houver resposta no Centro, \u201cprocuramos noutro lugar\u201d.  O Casal Ventoso \u201caparentemente acabou porque foi reconstru\u00eddo com novas habita\u00e7\u00f5es\u201d, mas a popula\u00e7\u00e3o deslocou-se para os Bairros da Serafina e Liberdade, \u201csobretudo para traficar\u201d, apesar de o C\u00f3nego Crespo reconhecer que existe algum consumo \u201cpor vezes mesmo em frente \u00e0 Igreja\u201d.   Situa\u00e7\u00f5es reconhecidas, que n\u00e3o deixam de preocupar, mas que \u201csabemos s\u00f3 podemos intervir at\u00e9 determinado ponto\u201d. N\u00e3o por quest\u00f5es de viol\u00eancia ou conflitos, pois a situa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a j\u00e1 n\u00e3o existe como outrora. A implementa\u00e7\u00e3o do Centro \u201cimp\u00f4s-se e \u00e9 actualmente um ponto de refer\u00eancia\u201d.  O respeito decorrente vem das respostas fornecidas. As pessoas sabendo que \u201caqui s\u00e3o acolhidas, respeitam a institui\u00e7\u00e3o\u201d. Um respeito vis\u00edvel nas paredes brancas que circundam o Centro Paroquial e que contrastam com os grafitis nas paredes vizinhas das habita\u00e7\u00f5es.  <b>Resposta social e eclesial<\/b> <img decoding=\"async\" border=\"1\" src=\"\/pub\/1\/img\/serafina7.jpg\" align=\"left\"> Duas facetas que n\u00e3o se dissociam. Apesar de primeiro ser reconhecida como resposta social, a base do acompanhamento feito no Centro tem um pressuposto evang\u00e9lico, vis\u00edvel na caridade.    Em 2009 a par\u00f3quia prepara o cinquenten\u00e1rio. \u201cVamos mostrar que \u00e9 poss\u00edvel evangelizar atrav\u00e9s da caridade. N\u00e3o basta a catequese, a Palavra, a liturgia ou os sacramentos, mas a primeira grande fonte \u00e9 a caridade e o testemunho\u201d. Aos funcion\u00e1rios pede \u201cluta permanente, n\u00e3o podemos dormir\u201d.   Se aspecto social o p\u00e1roco regista um bom acolhimento, na forma\u00e7\u00e3o catequ\u00e9tica tanto de crian\u00e7as como de pessoas, \u201ca pr\u00e1tica religiosa e o testemunho, deixa muito a desejar\u201d.  \u201cH\u00e1 crian\u00e7as que nunca fizeram o sinal da cruz ou nunca rezaram o Pai Nosso\u201d, explica dando conta do \u201ccontra testemunho em casa\u201d. A forma\u00e7\u00e3o religiosa assumida e comprometida \u201c\u00e9 muito complicada\u201d.  Capacitado em dar respostas sociais, o C\u00f3nego Crespo reconhece uma incapacidade no Centro para reconhecer onde falha no compromisso evang\u00e9lico. \u201cSer\u00e1 da sociedade, do ambiente no bairro ou em casa? N\u00e3o sei dizer.\u201d  Certo \u00e9 que entre a participa\u00e7\u00e3o numa celebra\u00e7\u00e3o penitencial ou na eucaristia \u201cganha, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, a celebra\u00e7\u00e3o penitencial\u201d. Uma necessidade de desabafar ou a alegria pelo encontro com o sacerdote, s\u00e3o hip\u00f3teses levantadas pelo C\u00f3nego, mas sem certezas.   Nas festas organizadas, nas prociss\u00f5es ou via-sacra que decorrem nas ruas, a popula\u00e7\u00e3o recebe com agrado manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas da Igreja. \u201cPercebo estes sinais n\u00e3o porque mo digam mas porque vejo a reac\u00e7\u00e3o das pessoas\u201d. Resultado de um trabalho que lentamente se foi fazendo.   <b>Onde o Estado n\u00e3o entrou<\/b> <img decoding=\"async\" border=\"1\" src=\"\/pub\/1\/img\/serafina6.jpg\" align=\"left\"> O Centro Social e Paroquial de S\u00e3o Vicente de Paulo \u00e9 um edif\u00edcio no meio do Bairro que n\u00e3o deixa ningu\u00e9m indiferente, quer usufrua mais ou menos da institui\u00e7\u00e3o.  A \u00fanica resposta que esta popula\u00e7\u00e3o teve \u201crecebeu-a da Igreja, porque o Estado nunca quis entrar nem nunca se preocupou em entrar\u201d. N\u00e3o h\u00e1 concorr\u00eancia nas respostas sociais nem incompatibilidades. \u201cSinto que h\u00e1 desprezo do Estado\u201d, expressa o C\u00f3nego Crespo.   O sacerdote aponta uma actual situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil entre institui\u00e7\u00f5es e Estado. \u201cSente-se um pessimismo nos deveres do Estado, sobretudo na falta de apoio  \u00e0s institui\u00e7\u00f5es, em vez do sobre posicionamento\u201d.  \u201cO Estado n\u00e3o tem voca\u00e7\u00e3o para o social, nem deve ter. O Estado tem o dever de comparticipar. Quem deve exercer a ac\u00e7\u00e3o s\u00f3cio caritativa \u00e9 a sociedade organizada\u201d.   No bairro, o Estado \u201cn\u00e3o acompanha nem quer perceber a situa\u00e7\u00e3o habitacional\u201d. Esta \u201c\u00e9 uma m\u00e1goa que tenho que talvez n\u00e3o consiga resolver no meu tempo\u201d, lamenta.    Na aus\u00eancia de uma institui\u00e7\u00e3o que cubra as car\u00eancias dos mais necessitados \u201cn\u00e3o sei como se sobrevive\u201d. Esta \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o que o C\u00f3nego Crespo constata entre colegas e percebe as dificuldades que eles partilham por falta de meios.   O problema habitacional \u00e9 um grande entrave ao desenvolvimento num problema de dif\u00edcil solu\u00e7\u00e3o \u201csem ponta por onde pegar\u201d. \u201cPercebo uma maior preocupa\u00e7\u00e3o da autarquia para resolver o problema dos bairros hist\u00f3ricos da Baixa de Lisboa do que do Bairro da Liberdade\u201d.  Um enorme enraizamento da popula\u00e7\u00e3o ao Bairro \u00e9 talvez resposta para o prolongamento do problema habitacional. \u201cAs pessoas preferem ficar em piores condi\u00e7\u00f5es no seu buraco do que ir para fora\u201d, explica o C\u00f3nego Crespo. Mas h\u00e1 outras apontadas.   Sentindo que h\u00e1 uma institui\u00e7\u00e3o que d\u00e1 resposta aos seus problemas, as pessoas n\u00e3o querem sair. \u201cH\u00e1 um sentimento de seguran\u00e7a\u201d. A somar \u00e0s condi\u00e7\u00f5es geogr\u00e1ficas do Bairro \u2013 ar puro que chega de Monsanto, proximidade do centro da cidade, aus\u00eancia de ru\u00eddo urbano conferem \u201cboas condi\u00e7\u00f5es para viver no Bairro\u201d.  O sonho n\u00e3o acabou. A qualidade dos servi\u00e7os \u00e9 uma constante a manter e a procurar. Uma maior parceria e complementaridade na \u00e1rea da sa\u00fade entre o Centro de Sa\u00fade e o Centro S\u00e3o Vicente de Paulo \u00e9 um dos desejos do C\u00f3nego Crespo. O Minist\u00e9rio da Sa\u00fade desafiou-o para a cria\u00e7\u00e3o de uma rede de cuidados continuados, mas \u201cfalta terreno. Muito ainda gostaria de fazer. Facilmente constru\u00eda mais um Lar, mas falta terreno\u201d, desabafa.  O Centro Social e Paroquial S\u00e3o Vicente de Paulo \u00e9 j\u00e1 uma grande aldeia. Ali se cruzam diariamente utentes, funcion\u00e1rios, jovens, crian\u00e7as e idosos que brincam num espa\u00e7o conjunto. Sem hora para se fechar \u00e0s pessoas.  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Numa das encostas da cidade de Lisboa encontram-se dois bairros que cresceram lado a lado. \u00c0 procura de melhores condi\u00e7\u00f5es de vida no centro urbano que era Lisboa nos anos 20, o Bairro da Liberdade foi sendo desenhado a tijolo e cimento pela necessidade de quem n\u00e3o tinha dinheiro nem tecto onde dormir. 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