{"id":31872,"date":"2008-05-13T10:36:02","date_gmt":"2008-05-13T10:36:02","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/05\/13\/ninguem-nasce-sem-abrigo\/"},"modified":"2008-05-13T10:36:02","modified_gmt":"2008-05-13T10:36:02","slug":"ninguem-nasce-sem-abrigo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/ninguem-nasce-sem-abrigo\/","title":{"rendered":"Ningu\u00e9m nasce sem-abrigo"},"content":{"rendered":"<p>Se calhar, para o Estado,  j\u00e1 nem existem. Foram abatidos, como se faz como se faz aos carros antigos que acabaram abandonados <!--more--> Escondem-se em becos, nas sombras das esquinas dos pr\u00e9dios, nos bancos de jardim. A cidade passa por eles e normalmente n\u00e3o os v\u00ea. Tapados por mantas ou apenas por papel\u00f5es, os sem-abrigo atravessam a noite e depois, quando o dia clareia, desaguam novamente nas ruas, quase sempre sem destino certo, quase sempre \u00e0 volta das mesmas ruas, pelos mesmos bairros, com as mesmas roupas. Ser sem-abrigo n\u00e3o \u00e9 uma fatalidade. Ningu\u00e9m nasce sem-abrigo.  Todos aqueles que vagueiam pela cidade de Lisboa, por exemplo, onde est\u00e3o contabilizados cerca de mil sem-abrigo, j\u00e1 foram felizes em tempos. Pode ter sido quase h\u00e1 mil anos, apetece dizer, pode ter sido apenas ontem, mas j\u00e1 foram pessoas integradas na sociedade, com fam\u00edlia, emprego, sonhos e desafios J\u00e1 foram crian\u00e7as e cresceram. Um dia, por\u00e9m, as coisas come\u00e7aram a desmoronar.  A perda de emprego, um div\u00f3rcio, qualquer trag\u00e9dia pessoal e pronto. H\u00e1 os sem-abrigo que vagueiam pelas ruas h\u00e1 tempo demais, que j\u00e1 perderam o sentido do calend\u00e1rio. De qualquer forma, \u00e9 sempre h\u00e1 tempo demais. Mesmo que tenha sido ontem o primeiro dia, a primeira vez que se cobriram com um cobertor e adormeceram num banco de jardim. Lisboa tem muitos destes recantos.  A Pra\u00e7a da Alegria, o Jardim Constantino, a Avenida da Liberdade&#8230; Todas as noites \u2013 sem pausas para s\u00e1bados ou domingos, dias santos ou feriados \u2013 os volunt\u00e1rios da Comunidade Vida e Paz (tal como de outras institui\u00e7\u00f5es de solidariedade) caminham pelas ruas , em trajectos pr\u00e9-definidos, e oferecem a cada sem-abrigo um saco com comida e \u2013 o mais importante de tudo, a sua disponibilidade para ouvir, para dois dedos de conversa, para tentarem encaminhar quem est\u00e1 na rua para alguns dos centros de acolhimento que a institui\u00e7\u00e3o possui.  Desde h\u00e1 cerca de meia d\u00fazia de anos que colaboro com a Comunidade Vida e Paz. Perten\u00e7o \u00e0 Volta B2. H\u00e1, todas as noites, tr\u00eas equipas a percorrer a cidade. A nossa equipa, como qualquer das restantes, efectua duas \u201cvoltas\u201d por m\u00eas. No nosso trajecto, neste conv\u00edvio de tantos anos, j\u00e1 fizemos alguns amigos. H\u00e1 pessoas que j\u00e1 conhecemos de nome e a hist\u00f3ria. H\u00e1 encontros que nos deixam felizes, como quando reencontramos algu\u00e9m que j\u00e1 n\u00e3o v\u00edamos h\u00e1 um par de semanas. O senhor Abel, a dona Rosa, a dona Cremilde, o senhor Ant\u00f3nio&#8230; pod\u00edamos multiplicar estes nomes mil cento e oitenta e sete vezes.  Segundo a autarquia da capital, este \u00e9 o n\u00famero total da popula\u00e7\u00e3o dos sem-abrigo que \u201cvivem\u201d em Lisboa. Muitos destes cidad\u00e3os j\u00e1 n\u00e3o possuem pap\u00e9is, bilhete de identidade, evidentemente que n\u00e3o t\u00eam cart\u00e3o de contribuinte, ou de sa\u00fade. Se calhar, para o Estado, j\u00e1 nem existem. Foram abatidos como se faz aos carros antigos que acabaram abandonados numa rua qualquer. Foram abatidos e perderam a matr\u00edcula. Resta-lhes, tantas vezes, apenas o nome.  Para os volunt\u00e1rios da Comunidade Vida e Paz, por\u00e9m, isso basta. Quando a carrinha chega a um local pr\u00e9 determinado, como \u00e9, por exemplo, o Toni dos Bifes, um caf\u00e9 junto ao Centro Comercial Monumental, logo \u00e9 abordada por alguns sem-abrigo. J\u00e1 ali estive a ajudar a distribuir comida \u2013 e \u00e0s vezes, algumas pe\u00e7as de roupa \u2013 a apenas dez ou 15 pessoas. J\u00e1 l\u00e1 estive um dia ingrato de Inverno carregado a ajudar a minorar a fome a mais de meia centena de pessoas.  Todas as voltas s\u00e3o parecidas e todas s\u00e3o \u00fanicas. Um dia, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel esconder esta mem\u00f3ria, no jardim de S\u00e3o Pedro de Alc\u00e2ntara \u2013 antes das obras de beneficia\u00e7\u00e3o que autarquia promoveu no local \u2013, fui dar uma volta pelo espa\u00e7o, pois sab\u00edamos que por ali costumavam estar algumas pessoas a dormir, alguns deles prov\u00e1veis toxicodependentes. Por mero acaso, fomos at\u00e9 uma das extremidades do jardim. Do pouco que a pouca luz revelava, n\u00e3o se encontrava ali ningu\u00e9m. Apesar disso, fomos. Uma das paredes, repar\u00e1mos ent\u00e3o, estava meio esburacada. Um de n\u00f3s acercou-se do buraco, que n\u00e3o media mais do que uns vinte cent\u00edmetros de di\u00e2metro, mais coisa menos coisa, e gritou l\u00e1 para dentro se estava ali algu\u00e9m. Estava. Eram tr\u00eas homens e precisavam de comida e de alguma roupa. Como esquecer, tamb\u00e9m, a primeira vez, o choque de me aperceber que por baixo da Pra\u00e7a de Espanha, num t\u00fanel que atravessa o largo relvado, \u201cvivem\u201d tr\u00eas homens?!  Nem sei o que mais me marcou. Se o choque daquela realidade, se o cheiro nauseabundo que dali partia, se a confrangedora fragilidade em que aqueles homens estavam mergulhados. \u00c0s vezes, quando voltamos para casa, o rel\u00f3gio marca uma e tal, duas e tal da manh\u00e3, n\u00e3o se consegue esconder algum sobressalto interior. Afinal, voltamos para casa e eles continuam ali, numa esquina qualquer. E eles somos n\u00f3s tamb\u00e9m.  Basta um pequeno trope\u00e7\u00e3o na vida. Uma crise econ\u00f3mica mais prolongada, o espectro do desemprego, a doen\u00e7a, sabe-se l\u00e1 o qu\u00ea&#8230; O mais importante, em cada \u201cvolta\u201d \u00e9 ajudar a devolver a dignidade da pessoa humana a cada um dos sem-abrigo. \u00c9 preciso explicar que n\u00e3o se nasce assim e essa n\u00e3o pode ser a condi\u00e7\u00e3o para o resto dos nossos dias. O saco de comida que oferecemos \u00e9 apenas o pretexto.   <i>Paulo Aido, jornalista  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se calhar, para o Estado, j\u00e1 nem existem. 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