{"id":31722,"date":"2008-05-06T11:45:35","date_gmt":"2008-05-06T11:45:35","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/05\/06\/imperios-e-espirito-santo\/"},"modified":"2008-05-06T11:45:35","modified_gmt":"2008-05-06T11:45:35","slug":"imperios-e-espirito-santo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/imperios-e-espirito-santo\/","title":{"rendered":"Imp\u00e9rios e Esp\u00edrito Santo"},"content":{"rendered":"<p>Pe. Carreira das Neves apresenta um percurso hist\u00f3rico, teol\u00f3gico e eclesial sobre tradi\u00e7\u00e3o particularmente viva nos A\u00e7ores <!--more--> O estudo hist\u00f3rico, teol\u00f3gico e eclesial dos Imp\u00e9rios do Esp\u00edrito Santo, nos povos crist\u00e3os cat\u00f3licos dos A\u00e7ores \u00e9, realmente, interessante e, at\u00e9 certo ponto, \u00fanico. \u00c0 luz da hist\u00f3ria, tudo come\u00e7a com o monge Joaquim de Fiora e a sua doutrina sobre as tr\u00eas idades da Igreja: a idade do Antigo Testamento, com um Deus juiz, mand\u00e3o, guerreiro, a impor o \u201cgenoc\u00eddio\u201d (herem, no hebraico) contra todos os inimigos pag\u00e3os de Israel; a segunda idade, a de Jesus Cristo, cuja doutrina evang\u00e9lica fora adulterada pela Igreja; a terceira idade, a do Esp\u00edrito Santo, a criar no seio da Igreja, vivida e administrada por monges e virgens. Segundo Joaquim de Fiora, as duas primeiras idades estavam ultrapassadas e a terceira surgiria brevemente. Havia que lutar por ela. Nessa Idade M\u00e9dia, &#8211; a do feudalismo &#8211; havia v\u00e1rios movimentos, fundamentados no evangelho, contra a Igreja Cat\u00f3lica do tempo \u2013 c\u00e1taros, albigenses, etc. Ao esp\u00edrito desses movimentos juntou-se tamb\u00e9m um grupo de franciscanos, que faziam de Francisco de Assis, pobre e humilde, um segundo Jesus Cristo. Combatiam a Igreja hier\u00e1rquica de Papas, Cardeais e Bispos, no meio de luxos e vaidades. O pr\u00f3prio S\u00e3o Boaventura, Geral da Ordem Franciscana e grande te\u00f3logo da Igreja, acabou por conden\u00e1-los, afastando-os da Ordem. No c\u00e9lebre livro \u201cO Nome da Rosa\u201d, de Umberto Eco, o leitor pode descobrir, no enredo, este mundo dos s\u00e9culos XI-XIII. Os frades pregavam a era do Esp\u00edrito Santo contra a era do Antigo Testamento e do Novo Testamento. Da verdadeira Igreja, salvava-se apenas Francisco de Assis e os seus seguidores mais radicais. Esta prega\u00e7\u00e3o entrou na espiritualidade do povo, ao longo dos anos, e foi rejeitada pelas autoridades da Igreja e dos respons\u00e1veis da Ordem Franciscana. Os \u201cterceiros franciscanos\u201d (leigo casados, que seguiam o esp\u00edrito de Francisco de Assis), espalharam pela It\u00e1lia, Fran\u00e7a, Espanha e Portugal esta doutrina. Santa Isabel, rainha de Portugal, parece que partilhava esta doutrina, tamb\u00e9m como \u201cterceira franciscana\u201d. As \u201ccondena\u00e7\u00f5es\u201d da Hierarquia da Igreja acabou com esta doutrina, mas fora levada \u00e0s ilhas dos A\u00e7ores pelos franciscanos, onde n\u00e3o chegavam os correios das condena\u00e7\u00f5es. Assim nasceram os Imp\u00e9rios do Esp\u00edrito Santo com o aparecimento duma \u201ccapela\u201d ao lado das grandes Igrejas, onde se colocava e se coloca a coroa do Esp\u00edrito Santo, encimada pela pomba e pela Cruz. O povo a\u00e7oreano bebeu profundamente esta espiritualidade e, por vezes, transformava a Igreja Cat\u00f3lica nos Imp\u00e9rios do Esp\u00edrito Santo. Surgiram festas religiosas e populares, doutrinas e catequeses, paralelas \u00e0s da Igreja. S\u00f3 quem \u00e9 a\u00e7oreano \u00e9 capaz de entender estas \u201cduas\u201d Igrejas, duas culturas, dois sentimentos numa s\u00f3 Igreja, cultura e sentimento. Sempre que as autoridades eclesi\u00e1sticas contrariaram as festas do Imp\u00e9rio do Esp\u00edrito Santo acabaram por perder. Hoje em dia, tudo est\u00e1 mais calmo, reinando o bom senso pastoral de parte a parte. E \u00e9 preciso ajuntar que estas festas tamb\u00e9m subsistem no Portugal continental, duma maneira geral acompanhadas pelo \u201cp\u00e3o do Esp\u00edrito Santo\u201d como s\u00edmbolo da partilha dos dons de Deus \u2013 onde houver o Esp\u00edrito de Deus tem que haver p\u00e3o para todos. Que o digam Tomar, Alenquer, Leiria, Caranguejeira e todas as festas do Esp\u00edrito Santo, desde o Minho ao Algarve. Este assunto p\u00f5e o problema da realidade da for\u00e7a e poder do Esp\u00edrito Santo. H\u00e1 trinta anos a esta parte, os neopentecostais evang\u00e9licos repuseram esta doutrina, confrontando-se com cat\u00f3licos e protestantes hist\u00f3ricos. S\u00e3o mais de trezentos milh\u00f5es (ver a obra de Allan Anderson, El pentecostalismo. El cristianismo carism\u00e1tico mundial, Ed. Akal, Madrid 2007). Dizem, inclusivamente, que entre eles e os carism\u00e1ticos cat\u00f3licos n\u00e3o h\u00e1 qualquer diferen\u00e7a. Quem \u00e9 que est\u00e1 na verdade? A verdade \u00e9 exposta de maneira clara em S. Paulo, na 1\u00aa aos Cor\u00edntios 12, 4-13: \u201cH\u00e1 diversidade de dons, mas o Esp\u00edrito \u00e9 o mesmo; h\u00e1 diversidade de servi\u00e7os, mas o Senhor \u00e9 o mesmo; h\u00e1 diversidade de agir, mas \u00e9 o mesmo Deus que realiza tudo em todos. A cada um \u00e9 dada a manifesta\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito, para proveito comum. A um \u00e9 dada, pela ac\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito, uma palavra de sabedoria; a outro, uma palavra de ci\u00eancia, segundo o mesmo Esp\u00edrito; a outro, a f\u00e9, no mesmo Esp\u00edrito; a outro, o dom das curas, no \u00fanico Esp\u00edrito; a outro, o poder de fazer milagres; a outro, a profecia; a outro, o discernimento dos esp\u00edritos; a outro, a variedade de l\u00ednguas; a outro, por fim, a interpreta\u00e7\u00e3o das l\u00ednguas. Tudo isto, por\u00e9m, o realiza o \u00fanico e o mesmo Esp\u00edrito, distribuindo a cada um, conforme lhe apraz. (\u2026) De facto, num s\u00f3 Esp\u00edrito, fomos todos baptizados para formar um s\u00f3 corpo, judeus e gregos, escravos ou livres, e todos bebemos de um s\u00f3 Esp\u00edrito.\u201d  A variedade de dons e carismas, como se v\u00ea, \u00e9 uma riqueza espiritual desde que seja para formar um s\u00f3 corpo. S\u00e3o Paulo pensa, ao mesmo tempo, no corpo de Cristo e no corpo da Igreja a viver da for\u00e7a do Esp\u00edrito. N\u00e3o existe um sem o outro. \u00c9 com este crit\u00e9rio que devemos entender as diferen\u00e7as entre carism\u00e1ticos cat\u00f3licos e pentecostais evang\u00e9licos. Mas tamb\u00e9m aqui, s\u00f3 o Esp\u00edrito \u00e9 que pode julgar. Apenas referimos os dizeres de S\u00e3o Paulo sobre os muitos dons ou carismas do Esp\u00edrito para a forma\u00e7\u00e3o de um \u201ccorpo de Cristo\u201d.  A doutrina de Paulo \u00e9 mais aprofundada no quarto evangelho ao apresentar cinco vezes a promessa do Esp\u00edrito (Jo 14, 15-16; 14, 25-26; 15, 26-27; 16, 5-11; 16, 12-15). O Esp\u00edrito \u00e9 apresentado como \u201co outro Par\u00e1clito\u201d, \u201cEsp\u00edrito Santo\u201d; Esp\u00edrito da Verdade\u201d (14, 16: \u201ce Eu apelarei ao Pai e Ele vos dar\u00e1 outro Par\u00e1clito\u2026\u201d, 14, 26: \u201cmas o Par\u00e1clito, o Esp\u00edrito Santo que o Pai enviar\u00e1\u2026\u201d; 15, 26: \u201cQuando vier o Par\u00e1clito, o Esp\u00edrito da Verdade, que procede do Pai, e que Eu vos hei-de enviar da parte do Pai\u2026\u201d; 16, 13-15: \u201cQuando Ele vier, o Esp\u00edrito da Verdade, h\u00e1-de guiar-vos para a verdade completa\u2026h\u00e1-de manifestar a minha gl\u00f3ria, porque receber\u00e1 do que \u00e9 meu e vo-lo dar\u00e1 a conhecer\u2026\u201d). Como se trata de \u201cpromessa\u201d a cumprir, os verbos aparecem no futuro temporal. No entanto, em 14, 17, o tempo verbal \u00e9 presente: \u201co Esp\u00edrito da Verdade, que o mundo n\u00e3o pode receber, porque n\u00e3o o v\u00ea nem o conhece; v\u00f3s \u00e9 que o conheceis, porque permanece junto de v\u00f3s, e est\u00e1 em v\u00f3s\u201d.  Acontece, ent\u00e3o, que as promessas do Esp\u00edrito, j\u00e1 presentes no Antigo Testamento (Is 11, 1-2; 61, 1; Jr 31, 31-32; Ez 37, 14; Joel 3, 1-2), acontecem na pessoa de Jesus (Mc 1, 10 e paralelos) e na pessoa dos baptizados crist\u00e3os em nome do Pai, e do Filho e do Esp\u00edrito Santo (Mt 28, 19). A narrativa do Pentecostes, em Actos 2, 1-13, \u00e9 uma espantosa \u201cencena\u00e7\u00e3o\u201d da realidade crist\u00e3 do Esp\u00edrito Santo, que os crist\u00e3os sentem e vivem. O Esp\u00edrito Santo \u00e9 a grande Lei \u2013 nova Lei &#8211; , diante da qual n\u00e3o h\u00e1 nem judeu nem grego, europeu ou africano, homem ou mulher. \u00c9 uma verdade divina que completa, definitivamente, a teologia e a cristologia com a pneuma-tologia. E \u00e9 assim que surge a tens\u00e3o dial\u00e9ctica entre a Igreja hier\u00e1rquica e carism\u00e1tica, tanto no passado, a come\u00e7ar com Montano, j\u00e1 nos princ\u00edpios do s\u00e9culo II, como no presente.  Quem nos deve governar \u00e9 o Imp\u00e9rio do Esp\u00edrito que concilia a utopia com a realidade pol\u00edtica, econ\u00f3mica, democr\u00e1tica do povo de Deus. \u00c9 o Imp\u00e9rio do amor e da partilha, da caridade e solidariedade, que resolve todos os problemas da justi\u00e7a entre trabalhadores e empregadores, mais ricos e mais pobres, crian\u00e7as e idosos, hierarquia e democracia. <i>Pe. Joaquim Carreira das Neves, OFM<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pe. 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