{"id":316746,"date":"2024-03-10T09:31:02","date_gmt":"2024-03-10T09:31:02","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=316746"},"modified":"2024-03-08T15:29:53","modified_gmt":"2024-03-08T15:29:53","slug":"francisco-11-o-aniversario-papa-e-uma-referencia-moral-uma-voz-respeitada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/francisco-11-o-aniversario-papa-e-uma-referencia-moral-uma-voz-respeitada\/","title":{"rendered":"Francisco\/11.\u00ba anivers\u00e1rio: Papa \u00abficou rendido a Portugal\u00bb"},"content":{"rendered":"<p><em>O Papa que veio &#8220;quase do fim do mundo &#8220;foi eleito a 13 de mar\u00e7o de 2013. Nesse momento, era embaixador de Portugal junto da Santa S\u00e9, Ant\u00f3nio Almeida Ribeiro, convidado desta semana na entrevista conjunta Ecclesia\/Renascen\u00e7a<\/em><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_316748\" aria-describedby=\"caption-attachment-316748\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/IMG_20240306_105222_edit_27812797655350.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-316748 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/IMG_20240306_105222_edit_27812797655350.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1280\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/IMG_20240306_105222_edit_27812797655350.jpg 1920w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/IMG_20240306_105222_edit_27812797655350-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/IMG_20240306_105222_edit_27812797655350-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/IMG_20240306_105222_edit_27812797655350-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/IMG_20240306_105222_edit_27812797655350-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/IMG_20240306_105222_edit_27812797655350-1536x1024.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-316748\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA\/OC<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em>Dos contactos iniciais que teve oportunidade de ter com o Santo Padre, com que impress\u00e3o \u00e9 que ficou dele e que imagem \u00e9 a guarda dele?<\/em><\/p>\n<p>Eu cheguei, de facto, a Roma no dia 11 de mar\u00e7o e o conclave elegeu o Papa no dia 13, dois dias depois. Portanto, j\u00e1 estava em fun\u00e7\u00f5es, digamos assim, no Vaticano, nessa altura. Eu estava como muitas pessoas que faziam o mesmo, \u00e0 frente do televisor, aguardando pelo fumo branco sa\u00eddo da chamin\u00e9 da Capela Sistina.<\/p>\n<p>No dia 13, ao fim da tarde, o fumo come\u00e7ou a ser acinzentado, mas depois claramente se tornou um fumo branco, sinal de que o Papa tinha sido escolhido pelos cardeais eleitores.<\/p>\n<p>Uma meia hora depois &#8211; talvez um pouco mais- \u00e9 anunciado o nome do novo Papa na fachada principal da Bas\u00edlica de S\u00e3o Pedro.<\/p>\n<p>Para muitos foi uma surpresa o nome, Bergoglio, era um nome pouco conhecido do p\u00fablico, mas no meu caso concreto, eu tinha sido embaixador em Buenos Aires, e o nome era, para mim, como \u00e9 \u00f3bvio, muito familiar, e imediatamente identifiquei que era o cardeal Arcebispo de Buenos Aires, que tinha acabado de ser eleito Papa.<\/p>\n<p>Depois o novo Papa veio \u00e0 varanda, fez aquela primeira comunica\u00e7\u00e3o aos fi\u00e9is, simples, como caracter\u00edstica sua desde sempre.<\/p>\n<p>O nome escolhido foi tamb\u00e9m uma surpresa para toda a gente, mas percebeu-se nos anos seguintes como o Papa tem uma liga\u00e7\u00e3o muito grande a S\u00e3o Francisco de Assis, e, portanto, tudo faz sentido, embora naquela altura fosse ainda uma surpresa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Entre as v\u00e1rias surpresas que ali estavam, n\u00e3o era?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Exatamente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E a primeiro vez que teve a oportunidade de estar ao vivo com o Papa Francisco j\u00e1 ap\u00f3s a elei\u00e7\u00e3o dele com que impress\u00e3o ficou?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Isso foi quando eu apresentei as credenciais ao Papa Francisco, o que aconteceu umas semanas depois, em abril. Foi um momento muito especial, porque foi um encontro a s\u00f3s.<\/p>\n<p>Por uma coincid\u00eancia extraordin\u00e1ria, fui o primeiro embaixador estrangeiro que apresentou credenciais ao Papa Francisco. Sucedeu ali\u00e1s um epis\u00f3dio curioso, quando eu cheguei a Roma, havia dois embaixadores que tinham chegado antes de mim, um embaixador que era o embaixador do Ir\u00e3o e o embaixador da R\u00fassia, e ambos esperavam para que o novo Papa fosse eleito e eles entregassem ent\u00e3o as credenciais ao novo Papa.<\/p>\n<p>Sucede que eu discretamente fui sondado pelos servi\u00e7os do protocolo do Vaticano. Na altura o chefe do protocolo era um luso-canadiano, D. Jos\u00e9 Bettencourt, atualmente N\u00fancio nos Camar\u00f5es. E perguntaram-me se eu conseguiria rapidamente obter as credenciais dirigidas ao novo Papa, porque se eu conseguisse ser mais r\u00e1pido que os meus colegas do Ir\u00e3o e da R\u00fassia, eu passaria \u00e0 frente deles, fazendo um pouco vista larga para as regras.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E o senhor embaixador n\u00e3o se fez rogado, n\u00e3o \u00e9?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o me fiz rogado, achei mesmo que foi uma defer\u00eancia para com Portugal, porque assim era um embaixador cat\u00f3lico de um pa\u00eds, maioritariamente cat\u00f3lico, que tinha a primazia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E percebeu desde cedo a liga\u00e7\u00e3o a Portugal, que vemos hoje nas duas viagens ao pa\u00eds e na cria\u00e7\u00e3o, por exemplo, de v\u00e1rios cardeais portugueses, ou foi algo que o surpreendeu? <\/em><\/p>\n<p>Surpreendeu-me, porque a impress\u00e3o com que fiquei \u00e9 que o Papa Francisco tinha pouca rela\u00e7\u00e3o com Portugal. Creio que nunca tinha vindo a Portugal, nunca tinha estado em F\u00e1tima, mas eu penso que ele aos poucos foi descobrindo o que era F\u00e1tima, e o que era Portugal. E ele ficou rendido a Portugal. O facto de neste momento termos seis cardeais, dois em\u00e9ritos e quatro mais recentes, faz com que seja uma honra in\u00e9dita para Portugal. Portugal nunca na hist\u00f3ria teve tantos cardeais ao mesmo tempo, e um n\u00famero que realmente ultrapassa aquilo que normalmente seria esperado de um pa\u00eds com a dimens\u00e3o de Portugal.<\/p>\n<p>O Papa foi descobrindo o nosso pa\u00eds. A primeira viagem a F\u00e1tima em 2017, creio que foi para ele de uma felicidade enorme. Ele pr\u00f3prio depois, quando me despedi dele no fim das minhas fun\u00e7\u00f5es, transmitiu-me esse sentimento. O sentimento de ter gostado imenso daquele banho extraordin\u00e1rio de multid\u00e3o que o acompanhou durante toda a visita, e depois as Jornadas Mundiais da Juventude que foram tamb\u00e9m outro momento absolutamente extraordin\u00e1rio que o Papa Francisco p\u00f4de viver no nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Vou fazer-lhe agora uma pergunta sobre o cargo que exerce atualmente de secret\u00e1rio-geral do KAICIID, do Centro de Di\u00e1logo Internacional, que tem a miss\u00e3o de promover o di\u00e1logo inter-religioso e intercultural.\u00a0<\/em><em>Francisco tem sido um dos grandes promotores desse di\u00e1logo, com momentos marcantes, particularmente no M\u00e9dio Oriente. \u00c9 uma preocupa\u00e7\u00e3o que percebeu, desde logo, nos seus contactos?<\/em><\/p>\n<p>Sem d\u00favida nenhuma, isso tem sido uma constante muito clara do atual Papa, mas eu recordo que esta organiza\u00e7\u00e3o de que sou secret\u00e1rio-geral adjunto foi criada ainda no tempo do anterior Papa Bento XVI, e foi uma iniciativa conjunta na altura do Papa Bento XVI e do ent\u00e3o Rei Saudita Abdullah, que fez uma visita hist\u00f3rica e que nunca se repetiu, nem nunca tinha havido antes, ao Vaticano.<\/p>\n<p>O Papa e o Rei Saudita encontraram-se.<\/p>\n<p>Penso que o Papa tinha tido aquela interven\u00e7\u00e3o em Ratisbona que causou tanta controv\u00e9rsia e admito, refletindo sobre a cria\u00e7\u00e3o do KAICIID, admito que esta iniciativa conjunta do Rei e do Papa tenha sido tamb\u00e9m da parte do Papa uma maneira, de certa forma, ultrapassar a controv\u00e9rsia que foi causada com as declara\u00e7\u00f5es que ele fez, que porventura foram mal interpretadas ou n\u00e3o foram corretamente interpretadas. Mas esta iniciativa foi feita, portanto, por o Papa Bento XVI e pelo Rei Saudita. Portanto, h\u00e1 11 anos que foi criada esta organiza\u00e7\u00e3o, este centro internacional de di\u00e1logo, mas n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida nenhuma que o Papa Francisco tem dado um enorme contributo para valorizar o di\u00e1logo entre as religi\u00f5es.<\/p>\n<p>A declara\u00e7\u00e3o de Abu Dhabi sobre a fraternidade humana em 2019 \u00e9 um marco disso, 4 de fevereiro, ali\u00e1s acabamos de celebrar o 5\u00ba anivers\u00e1rio, e \u00e9 uma constante do pontificada, claramente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Essa declara\u00e7\u00e3o de Abu Dhabi ou a Fratelli Tutti ganham particular relev\u00e2ncia neste contexto internacional que \u00e9 cada vez mais marcado por conflitos e por tens\u00f5es, n\u00e3o \u00e9? <\/em><\/p>\n<p>Exatamente, foi uma declara\u00e7\u00e3o absolutamente not\u00e1vel em que tanto o Papa &#8211; l\u00edder da Igreja Cat\u00f3lica- como o principal l\u00edder sunita, o grande im\u00e3 do Al-Azhar no Cairo, ambos declaram que o di\u00e1logo \u00e9 fundamental, e que \u00e9 atrav\u00e9s do di\u00e1logo que as tens\u00f5es se diminuem, que se evitam o agravamento de conflitos, das guerras. Sem di\u00e1logo tudo \u00e9 pior, portanto ambos defendem o di\u00e1logo como um meio, um instrumento absolutamente essencial para a paz e para a conviv\u00eancia entre os homens.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Concluiu o seu servi\u00e7o diplom\u00e1tico como embaixador junto da Santa S\u00e9, mas acredito que, de regresso a Portugal, tenha continuado a acompanhar com aten\u00e7\u00e3o este pontificado e os passos que o Papa Francisco tem dado. O que \u00e9 que destacaria nestes 11 anos, o que \u00e9 que o marcou mais do Papa Francisco?<\/em><\/p>\n<p>Marcou-me talvez a simplicidade deste Papa, a humildade dele, a proximidade das pessoas, dos mais fracos, dos mais vulner\u00e1veis, daqueles que precisam mais de ajuda. Ele \u00e9 uma voz amiga, pr\u00f3xima, simples, fala de uma forma simples para as pessoas, muito diferente do seu antecessor, imediato, ele n\u00e3o \u00e9 um te\u00f3logo, parece-me&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Pelo menos acad\u00e9mico\u2026<\/em><\/p>\n<p>Exatamente, mas fala uma linguagem que todos percebem e isso penso que tamb\u00e9m \u00e9 importante para a Igreja ter esse sentimento de proximidade entre o Papa e os fi\u00e9is, e n\u00e3o s\u00f3 os fi\u00e9is, ali\u00e1s, vai muito mais para l\u00e1 disso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Os apelos \u00e0 paz s\u00e3o uma preocupa\u00e7\u00e3o di\u00e1ria de Francisco, mesmo para alguns dos conflitos esquecidos pela opini\u00e3o p\u00fablica. O Papa tem sido, em muitos casos, uma das poucas refer\u00eancias globais que evoca o sofrimento de milh\u00f5es de pessoas nos cinco continentes? <\/em><\/p>\n<p>Sem d\u00favida nenhuma, \u00e9 uma refer\u00eancia moral, uma voz respeitada, \u00e9 uma personalidade \u00edmpar que pelo seu bom senso, pela sua bondade \u00e9 escutado e respeitado em todo o mundo, muito para al\u00e9m da comunidade dos fi\u00e9is cat\u00f3licos. Ele \u00e9 ouvido por muito mais do que os cat\u00f3licos, do n\u00famero de cat\u00f3licos em todo o mundo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Pergunto-lhe, at\u00e9 pela experi\u00eancia que tem, se a diplomacia da Santa S\u00e9 continua a ser um protagonista essencial para a resolu\u00e7\u00e3o de alguns dos conflitos que est\u00e3o em curso? <\/em><\/p>\n<p>Eu penso que sim. A diplomacia do Vaticano \u00e9 uma diplomacia muito discreta, mas n\u00f3s n\u00e3o podemos esquecer que a Santa S\u00e9 tem ramifica\u00e7\u00f5es em todo o mundo. N\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 as nunciaturas, s\u00e3o os bispos nas v\u00e1rias cidades, nos v\u00e1rios continentes, as congrega\u00e7\u00f5es mission\u00e1rias, as congrega\u00e7\u00f5es religiosas e, portanto, o manancial de informa\u00e7\u00e3o que a Santa S\u00e9 tem, que lhe prov\u00e9m dessa rede \u00fanica, d\u00e1-lhe, logo \u00e0 partida, uma informa\u00e7\u00e3o privilegiada sobre o que se passa em todo o mundo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Permite antecipar problemas\u2026<\/em><\/p>\n<p>Antecipar problemas. A interven\u00e7\u00e3o da Santa S\u00e9 \u00e9 enormemente discreta, mas eu penso que continua a ser respeitada e eficaz e uma palavra da Santa S\u00e9 \u00e9 uma palavra que \u00e9 ouvida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>H\u00e1 quem critique e que diga que, por vezes, \u00e9 discreta demais, n\u00e3o concorda? <\/em><\/p>\n<p>Eu penso que a principal miss\u00e3o da Igreja \u00e9 difundir a f\u00e9 cat\u00f3lica e, portanto, n\u00e3o devemos estar \u00e0 espera que a Santa S\u00e9 fa\u00e7a pol\u00edtica ativa, porque n\u00e3o lhe compete, mas compete sim sensibilizar os governos, os povos, as v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es em todo o mundo para a import\u00e2ncia da paz. A paz \u00e9 um objetivo fundamental da Igreja Cat\u00f3lica e \u00e9 nesse sentido que toda a diplomacia vaticana se move.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Falava ainda pouco do facto de o Papa ter conseguido alargar fronteiras. Eu pergunto-lhe se a enc\u00edclica Laudato Si\u2019, de 2015, a famosa enc\u00edclica do Papa sobre a Ecologia Integral, que surge no contexto at\u00e9 do processo que deveria levar \u00e0 assinatura dos Acordos de Paris sobre as Altera\u00e7\u00f5es Clim\u00e1ticas, recoloca a Igreja em di\u00e1logo com um conjunto de protagonistas diversos e at\u00e9 inesperados, se calhar. Foi um dos passos do Papa Francisco que permitiu alargar estas fronteiras no seu discurso? <\/em><\/p>\n<p>Sem d\u00favida nenhuma. Esta foi a segunda enc\u00edclica do Papa, a primeira era \u2018Lumen Fidei\u2019, Luz da F\u00e9, \u00e9 de 2013, mas que tinha sido ainda iniciada pelo anterior Papa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Basicamente, sintetiza uma s\u00e9rie de reflex\u00f5es do Papa Bento XVI\u2026<\/em><\/p>\n<p>A enc\u00edclica \u2018Laudato Si\u2019 \u00e9 verdadeiramente a enc\u00edclica, a primeira grande enc\u00edclica do Papa Francisco, e tendo escolhido este tema da Casa Comum, do respeito pelo ambiente e pelo mundo que nos rodeia, penso que isso vem muito na sequ\u00eancia daquilo que o Papa Francisco \u00e9, e sem d\u00favida nenhuma que atualmente \u00e9 um tema global, e o Papa \u201cagarrou\u201d muito bem, de forma muito positiva e muito oportuna, esta grande enc\u00edclica que fez.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Este \u00e9 um Papa que tem sabido falar \u00e0s periferias e a todos os que, n\u00e3o sendo cat\u00f3licos, se identificam com as suas preocupa\u00e7\u00f5es sociais e humanit\u00e1rias. Ali\u00e1s, h\u00e1 pouco o Sr. Embaixador dizia que o Papa \u00e9 ouvido por muito mais do que apenas cat\u00f3licos.\u00a0 <\/em><\/p>\n<p>Absolutamente, acho que este Papa conseguiu essa proeza, diria, extraordin\u00e1ria de que \u00e9 ouvido em todo o mundo. Eu conhe\u00e7o pessoas que n\u00e3o s\u00e3o cat\u00f3licas e que me dizem, ah, \u201ceu gosto tanto deste Papa, eu gosto imenso daquilo que ele diz\u201d, portanto \u00e9 muito claro para mim que o Papa Francisco conseguiu ir para al\u00e9m das fronteiras que a sua constitui\u00e7\u00e3o, digamos, de fi\u00e9is poderia imaginar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E o facto de ser ouvido tem tamb\u00e9m a ver com essas preocupa\u00e7\u00f5es sociais e humanit\u00e1rias que ele tamb\u00e9m expressa? <\/em><\/p>\n<p>Sem d\u00favida nenhuma. Vivemos num mundo com cada vez mais problemas sociais, conflitos graves que se arrastam anos e anos e eu creio que a voz do Papa tem sido um referente mundial, global, nestas mat\u00e9rias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Fa\u00e7o-lhe uma pergunta talvez mais interna, sobre a din\u00e2mica da Igreja e daquilo que o Papa Francisco tem procurado implementar na vida das comunidades cat\u00f3licas. Falo do atual processo sinodal que est\u00e1 em curso e pergunto-lhe se \u00e9 tamb\u00e9m, do seu ponto de vista, uma forma que o Papa encontrou de abrir a Igreja ao mundo contempor\u00e2neo e ao di\u00e1logo com as suas necessidades e as suas perguntas?<\/em><\/p>\n<p>Eu penso que sim, que inten\u00e7\u00e3o seria essa, \u00e9 claro que \u00e9 um processo que ainda n\u00e3o terminou, ainda est\u00e1 a decorrer e, portanto, h\u00e1 que esperar para ver que conclus\u00f5es s\u00e3o retiradas, mas \u00e9 um processo inovador, sem d\u00favida, e que reflete muito esta preocupa\u00e7\u00e3o do Papa de abertura, de ouvir o outro, de acolher o outro e, portanto, ao abrir este debate est\u00e1 a ser igual a ele pr\u00f3prio, est\u00e1 a defender aquilo que \u00e9 a sua maneira de ser desde sempre.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A popularidade do Papa em setores tradicionalmente afastados da Igreja contrasta com algumas tens\u00f5es e cr\u00edticas mais a n\u00edvel interno. Isto \u00e9 algo que o surpreende, Sr. Embaixador? <\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o me surpreende totalmente. O Papa, estando integrado, \u00e9 o chefe da C\u00faria Romana e a C\u00faria Romana \u00e9 sabido que, na minha perspetiva, tem um pendor conservador muito forte e, portanto, qualquer mudan\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>At\u00e9 pela sua natureza\u2026<\/em><\/p>\n<p>At\u00e9 pela sua natureza, \u00e9 normal que assim seja, sempre foi assim e, provavelmente, sempre ser\u00e1. Este Papa tentou mexer em algumas tradi\u00e7\u00f5es que estavam muito arraigadas e, portanto, isso \u00e9 normal que crie uma rea\u00e7\u00e3o. Mas o Papa \u00e9 o Papa e foi ele que foi eleito e, portanto, tem a autoridade para poder reorganizar a Igreja e, mesmo com contesta\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tenho d\u00favida que ele tem o apoio maiorit\u00e1rio dos seus pares e dos cardeais da C\u00faria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>H\u00e1 sempre resist\u00eancia \u00e0 mudan\u00e7a?<\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 sempre resist\u00eancia \u00e0 mudan\u00e7a, \u00e9 normal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>N\u00f3s vamos j\u00e1 caminhando para o final desta conversa. O tipo de lideran\u00e7a que o Papa Francisco imprimiu, \u00e0 frente da Igreja Cat\u00f3lica \u00e9 uma inspira\u00e7\u00e3o para o resto da sociedade e, sobretudo, se este tipo de lideran\u00e7a tamb\u00e9m, de certa forma, ajudou a mudar o mundo nestes 11 anos?<\/em><\/p>\n<p>Eu julgo que sim. Ele \u00e9 um l\u00edder, chamemos-lhe assim, um l\u00edder que escuta, n\u00e3o \u00e9 um l\u00edder autorit\u00e1rio. Ele quer saber, quer perceber o que \u00e9 que as outras pessoas pensam e sentem e quer atuar em conformidade e em conson\u00e2ncia com o que as pessoas tamb\u00e9m sentem e precisam. Portanto, eu julgo que \u00e9 uma maneira muito diferente de atuar de outros pontificados, sem d\u00favida nenhuma, em que porventura haveria mais centralismo na figura do Papa. Este Papa n\u00e3o, \u00e9 aberto, ouve, escuta, preocupa-se em saber o que \u00e9 que os outros pensam e querem e precisam. Isso acho que \u00e9 uma mudan\u00e7a significativa e que vai, penso eu, caracterizar este pontificado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E essa preocupa\u00e7\u00e3o justifica tamb\u00e9m esta aten\u00e7\u00e3o social que tem sido t\u00e3o marcante no pontificado, a aten\u00e7\u00e3o ao outro.<\/em><\/p>\n<p>Eu penso que sim. Eu penso que isso tamb\u00e9m seria inevit\u00e1vel, que acontecesse. \u00c9 um Papa com uma maneira de ser diferente, provavelmente inesperada para muitos, mas a verdade \u00e9 que ele \u00e9 aquilo que sempre foi e, portanto, para quem o conhecia do passado na Argentina, ele n\u00e3o \u00e9 uma surpresa, o pontificado n\u00e3o \u00e9 uma surpresa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E esta maneira de ser e de liderar vai criar dificuldades para o pr\u00f3ximo Papa? <\/em><\/p>\n<p>Bom, veremos quem ser\u00e1 o pr\u00f3ximo Papa, \u00e9 muito dif\u00edcil fazer previs\u00f5es, mas evidentemente que o legado do Papa Francisco vai ter certamente um peso grande no futuro da Igreja Cat\u00f3lica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Papa que veio &#8220;quase do fim do mundo &#8220;foi eleito a 13 de mar\u00e7o de 2013. 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