{"id":31624,"date":"2008-04-30T12:13:39","date_gmt":"2008-04-30T12:13:39","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/04\/30\/etty-hillesum-diario\/"},"modified":"2008-04-30T12:13:39","modified_gmt":"2008-04-30T12:13:39","slug":"etty-hillesum-diario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/etty-hillesum-diario\/","title":{"rendered":"Etty Hillesum: \u00abDi\u00e1rio\u00bb"},"content":{"rendered":"<p>\u00abNova certeza: que querem o nosso exterm\u00ednio. Tamb\u00e9m isso eu aceito. Sei-o agora. N\u00e3o vou incomodar outros com os meus medos, n\u00e3o vou ficar amargurada se outras pessoas n\u00e3o entenderem do que se trata, para n\u00f3s, judeus. Esta certeza n\u00e3o vai ser corro\u00edda ou invalidada pela outra. Trabalho e vivo com a mesma convic\u00e7\u00e3o e acho a vida prenhe de sentido, cheia de sentido apesar de tudo, embora j\u00e1 n\u00e3o me atreva a dizer uma coisa dessas em grupo. O viver e o morrer, o sofrimento e a alegria, as bolhas nos meus p\u00e9s gastos e o jasmim atr\u00e1s do quintal, as persegui\u00e7\u00f5es, as incont\u00e1veis viol\u00eancias gratuitas, tudo e tudo em mim \u00e9 como se fosse uma forte unidade, e eu aceito tudo como uma unidade e come\u00e7o a entender cada vez melhor, espontaneamente para mim, sem que ainda o consiga explicar a algu\u00e9m, como \u00e9 que as coisas s\u00e3o. Gostava de viver longamente para no fim, mais tarde, conseguir explicar, e se isso n\u00e3o me for dado, pois bem, nesse caso uma outra pessoa ir\u00e1 faz\u00ea-lo e ent\u00e3o um outro continuar\u00e1 a viver a minha vida, ali onde a minha foi interrompida, e por isso tenho de viver a minha vida t\u00e3o bem e t\u00e3o completa e convincentemente quanto poss\u00edvel at\u00e9 ao meu derradeiro suspiro, para que o que vem a seguir a mim n\u00e3o precise de come\u00e7ar de novo nem tenha as mesmas dificuldades.\u00bb  \u00c9 com este fragmento que abre o s\u00e9timo volume da colec\u00e7\u00e3o \u00abTeofanias\u00bb, \u00abDi\u00e1rio (1941-1943)\u00bb, de Etty Hillersum, apresentada em Lisboa esta Segunda-feira.   <b>A rapariga de Amesterd\u00e3o<\/b>  A 9 de Mar\u00e7o de 1941, quando Esther (Etty) Hillesum come\u00e7ou a escrever, no primeiro dos oito cadernos de papel quadriculado, o texto que viria a ser o seu Di\u00e1rio, estava-se longe de pensar que come\u00e7ava a\u00ed uma das aventuras liter\u00e1rias e espirituais mais significativas do s\u00e9culo. Ela tinha vinte e sete anos de idade e morreria sem ter feito trinta.  Era a mais velha dos tr\u00eas filhos de um casal judeu, urbano, sem especial vincula\u00e7\u00e3o religiosa: Louis Hillesum, professor de l\u00ednguas cl\u00e1ssicas, e Rebecca Hillesum-Bernstein, emigrante russa (na verdade, foragida a um pogrom). Dos irm\u00e3os, Jaap destacou-se como investigador no campo das ci\u00eancias m\u00e9dicas, e Mischa, o mais novo, embora atormentado por crises psicol\u00f3gicas devastantes, vem a afirmar-se como um dos pianistas de refer\u00eancia, na Holanda desse tempo. Etty dir-se-ia de outra esp\u00e9cie. Ela cunhou uma express\u00e3o para descrever o seu estado: \u00abbloqueio espiritual\u00bb. A sua vida escondia-se por detr\u00e1s de um enigma contra o qual ela lutava, mas de forma err\u00e1tica e imprecisa. Durante anos, a sua principal ocupa\u00e7\u00e3o foi uma licenciatura em Direito, que a bem dizer lhe era indiferente, atra\u00edda pelo estudo das l\u00ednguas eslavas e da literatura russa (com gra\u00e7a, conta que, ainda em jejum, come\u00e7ava muitos dos seus dias lendo Dostoi\u00e9vski). Frequentou, esporadicamente, os c\u00edrculos socialistas e libert\u00e1rios de Amesterd\u00e3o. Projectava sem grande empenho um percurso liter\u00e1rio\u2026 Mas a verdade \u00e9 que os seus interesses intelectuais e est\u00e9ticos demoravam a encontrar fluidez: \u00ab\u00e9 como se l\u00e1 bem no fundo houvesse\u2026 algo a prender-me\u00bb. E era assim com tudo o resto. O pr\u00f3prio amor se configurava, nesses anos, a \u00abum jogo\u00bb que a rodeava intensamente, sem conseguir tocar esse fundo secreto e encarcerado que era a sua vida.  Nesse domingo de Mar\u00e7o, em que principia a sua narrativa, ela vive no n\u00famero 6 da Rua Gabri\u00ebl Metsu, j\u00e1 independente dos pais, mas no mesmo fervilhar hesitante entre possibilidades: \u00e9 governanta da casa de Han Wegerif (\u00abpai Han\u00bb, no Di\u00e1rio), um contabilista aposentado, vi\u00favo, com quem manteve uma rela\u00e7\u00e3o sentimental. A\u00ed vivem o filho de Wegerif, Hans, de pouco mais de vinte anos, a cozinheira K\u00e4the, e dois h\u00f3spedes, Bernard Meylink, estudante de bioqu\u00edmica, e Maria Tuinzing, uma enfermeira que se tornar\u00e1 sua confidente e amiga. A Rua Gabri\u00ebl Metsu contorna a esplanada verde do Rijksmuseum, onde est\u00e3o as pinturas de Vermeer, de Pieter de Hooch, de Rembrandt\u2026, e tem alguma coisa da atmosfera delicada e imp\u00e1vida que nessas imagens nos surpreende: \u00aba copa das \u00e1rvores, achei-as ao acordar\u2026 Os bot\u00f5es de tulipas, o vermelho e o branco, inclinados um para o outro\u2026 os ramos negros contrastando com o ar luminoso e, mais longe, o Rijksmuseum\u00bb.  \u00c9 imposs\u00edvel n\u00e3o aproximar o percurso que faz Etty Hillesum daquele vivido tamb\u00e9m por Simone Weil. S\u00e3o contempor\u00e2neas, ambas judias, debatendo-se por salvaguardar o sol interior num s\u00e9culo de horas sombrias, ambas escritoras, ambas consumando at\u00e9 ao fim (ou mais para l\u00e1 do fim) um destino de aniquilamento como se de uma incr\u00edvel aventura espiritual se tratasse. A pr\u00f3pria morte as aproxima, ocorrida no mesmo ano: 1943. Simone morre num hosp\u00edcio ingl\u00eas, como se expirasse entre as v\u00edtimas, na frente mais exposta de um combate, e Etty num campo de concentra\u00e7\u00e3o, para o qual partiu cantando.  Mas h\u00e1 uma diferen\u00e7a na iconografia. Simone de Beauvoir conta que Weil se vestia como quem traja uma farda, cancelando, numa op\u00e7\u00e3o moral implac\u00e1vel, os sinais que a pudessem distinguir a ela, filha de uma Paris burguesa, da mais humilde oper\u00e1ria fabril (coisa que, ali\u00e1s, ela n\u00e3o sossegou enquanto n\u00e3o foi). As imagens de Etty s\u00e3o as de uma mulher bem diferente: elegante, feminina, com um toque de mundaneidade, e uma intelig\u00eancia tamb\u00e9m f\u00edsica\u2026 Isso ilumina, creio, as duas traject\u00f3rias. Simone era, desde o princ\u00edpio, asc\u00e9tica, disciplinada, rigorista: tinha a precis\u00e3o de um diamante, mas quase n\u00e3o tinha corpo. Etty era imprecisa, sensual, dispersa: e \u00e9 isso que ela vai trabalhar, a alt\u00edssimas temperaturas, at\u00e9 tudo se tornar corpo, para depois se tornar chama. A convers\u00e3o de Etty Hillesum, ou melhor, a sua \u00abmudan\u00e7a de raz\u00e3o\u00bb (como o grego do Novo Testamento, com o termo met\u00e1noia, nos ensina a dizer), vai desenvolver-se em tr\u00eas encontros decisivos: o primeiro tem o nome de uma pessoa; o segundo tem o nome de um lugar; o terceiro n\u00e3o tem nome: \u00e9 o encontro com o pr\u00f3prio Inomin\u00e1vel.  <b>O despertar espiritual<\/b> O projecto de um di\u00e1rio pessoal surge a Etty Hillesum como proposta terap\u00eautica feita por Julius Spier (nomeado pela inicial do apelido, S.). A influ\u00eancia deste personagem, de \u00abolhos cinzentos e gastos, espertos, incrivelmente espertos\u00bb, \u00e9 t\u00e3o grande que os primeiros cadernos est\u00e3o-lhe praticamente dedicados: ou com considera\u00e7\u00f5es a seu respeito, ou avaliando a reverbera\u00e7\u00e3o fulgurante que provoca, ou, simplesmente, com transcri\u00e7\u00f5es minuciosas do seu pensamento. Julius Spier \u00e9 um judeu de Frankfurt, refugiado no bairrro judeu de Amesterd\u00e3o, onde tem o seu pequeno consult\u00f3rio (a tr\u00eas ruas, um canal e uma ponte da casa dela). Chegou a ser director de um banco, foi depois editor, estudou canto at\u00e9 que chegou, passados vinte e cinco anos, \u00e0 \u00abpsicoquirologia\u00bb, uma diagnose psicol\u00f3gica que parte da leitura da morfologia da m\u00e3o (que ele considera \u00abo segundo rosto\u00bb). Fez an\u00e1lise com Carl Jung, em Zurique, que lhe escreveu um texto elogioso a recomendar o seu m\u00e9todo. A \u00abpsicoquirologia\u00bb tornou-se, desde a\u00ed, a sua principal ocupa\u00e7\u00e3o. Etty conheceu-o por finais de Janeiro, um m\u00eas antes de come\u00e7ar o seu Di\u00e1rio, num sarau musical, onde o seu irm\u00e3o Mischa tocava piano e Spier cantava.   Etty conta que chegou a ele com um grande sentimento de solid\u00e3o e inseguran\u00e7a: \u00abquem me dera que houvesse algu\u00e9m que me pegasse pela m\u00e3o e se ocupasse de mim\u00bb. Spier representou, na descoberta, na sabedoria e mesmo na desordem, a concretiza\u00e7\u00e3o desse desejo. Ele constitu\u00eda uma mistura, perigosa e deslumbrante como podem essas misturas, de mestre espiritual, psicanalista, quiromante e xam\u00e3. No heterodoxo tratamento que propunha, que inclu\u00eda sess\u00f5es de luta f\u00edsica entre ele e os pacientes, as fronteiras muitas vezes se esbatiam, e Etty n\u00e3o foi certamente a \u00fanica a escrever: \u00absou abafada por essa personalidade e n\u00e3o consigo libertar-me\u00bb. Mas tudo somado, Spier representou indiscutivelmente para Etty Hillesum um verdadeiro iniciador na vida espiritual, o \u00abobstetra da minha alma\u00bb, para utilizar palavras suas. Spier chamava-lhe carinhosamente \u00aba minha secret\u00e1ria russa\u00bb. Ele ensinou-lhe \u00aba pronunciar com naturalidade o nome de Deus\u00bb. Iniciou-a na pr\u00e1tica da ora\u00e7\u00e3o. \u00c9 ele quem lhe aconselha a leitura do Antigo e do Novo Testamento, ou de autores como Santo Agostinho e Tom\u00e1s de Kempis. E, por outro lado, Etty conseguiu progressivamente trabalhar a sua autonomia, revisitar de forma distanciada e original o que recebia dele, defender o seu pr\u00f3prio espa\u00e7o de delibera\u00e7\u00e3o (a dada altura, por exemplo, decide prosseguir o trabalho psicol\u00f3gico com Spier, mas recusa j\u00e1 a abordagem psicoquirol\u00f3gica, que n\u00e3o a convence). \u00c9, de facto, a pensar nele que Etty escrever\u00e1: \u00abeu sei que os mais importantes pioneiros do futuro ser\u00e3o esses homens que t\u00eam uma ampla dose de feminilidade &#8211; e que n\u00e3o deixam de ser homens verdadeiros.\u00bb  Ao longo do Di\u00e1rio encontramos disseminados muitos ensinamentos de Julius Spier: o mais importante de todos, impresso n\u00e3o na letra mas na imensa transforma\u00e7\u00e3o que Etty realiza, foi a f\u00e9 inequ\u00edvoca na possibilidade de vivermos uma vida plena e inteira. Tudo o resto \u00e9 mat\u00e9ria convergente, s\u00e3o cintil\u00e2ncias dessa verdade maior, como os exemplos que aqui se d\u00e3o.  1. A express\u00e3o \u00abPalavra de Deus\u00bb n\u00e3o se restringe unicamente \u00e0 B\u00edblia. \u00c9 antes uma esp\u00e9cie de conhecimento original cuja expans\u00e3o continua, uma inspira\u00e7\u00e3o, em sentido amplo, atrav\u00e9s da qual o Esp\u00edrito Santo continua a sua revela\u00e7\u00e3o no interior dos cora\u00e7\u00f5es.  2. \u00abAjuda-te que o c\u00e9u te ajudar\u00e1.\u00bb \u00c9 quando nos ajudamos a n\u00f3s mesmos, cultivando uma sincera confian\u00e7a em n\u00f3s, que confiar em Deus se torna poss\u00edvel.  3. \u00c9 necess\u00e1rio trazer os outros dentro de si, espiritualmente: esta pode ser uma \u00abmem\u00f3ria orante\u00bb, uma verdadeira ora\u00e7\u00e3o. Para rezar \u00e9-nos requerida a entrega a um profundo recolhimento.  4. No final de cada dia, \u00e9 importante recolhermo-nos, uns dez minutos, a recordar o modo como o vivemos, e o que ele nos trouxe de bem e de mal.  Um dia, e Etty conta-o a 25 de Setembro de 1941, ele ter-lhe-\u00e1 dito:\u00abTenho a impress\u00e3o de ser um \u201cestado preparat\u00f3rio\u201d para um grande amor teu.\u00bb Spier morre em Setembro do ano seguinte, em Amesterd\u00e3o. Ela reentra no campo de Westerbork pouco depois de assistir \u00e0 r\u00e1pida cerim\u00f3nia f\u00fanebre.  O despertar espiritual de Etty liga-se ainda a outra amizade, a de Henny Tideman, uma crist\u00e3 que ela conhece precisamente nos encontros com Spier. Etty lembra-se do coment\u00e1rio que este fazia a seu respeito: \u00abtem a intelig\u00eancia da alma\u00bb. Com Tide, perceber\u00e1 o alcance da ora\u00e7\u00e3o, aprender\u00e1 da \u00absua voz radiosa e afirmativa\u00bb a dirigir-se tamb\u00e9m a Deus por palavras suas, numa abertura misteriosa e total, onde passa a caber, com a maior naturalidade, a alus\u00e3o ao sofrimento, \u00e0 beleza dos ger\u00e2nios ou a um verso de Rilke.  <b>Descobrindo a sua p\u00e1tria<\/b> No tempo em que o Di\u00e1rio avan\u00e7a, a Holanda surge cada vez mais na mira expansionista do nazismo. Desde h\u00e1 um ano que os judeus holandeses vinham sendo discretamente isolados. Mas em Fevereiro de 1941, realiza-se na cidade de Amesterd\u00e3o uma in\u00e9dita greve geral contra o pogrom, e a repress\u00e3o alem\u00e3 torna-se ent\u00e3o declarada: os judeus foram despedidos dos seus empregos, n\u00e3o podiam frequentar os lugares de com\u00e9rcio e lazer, eram empurrados para ghettos e campos ditos \u00abde trabalho\u00bb. A 14 de Junho desse ano, Etty escreve: \u00abMais pris\u00f5es outra vez, terror, campos de concentra\u00e7\u00e3o, o levar indiscriminadamente pais, irm\u00e3s, irm\u00e3os. Uma pessoa procura o sentido da vida e pergunta-se se ela na realidade ainda tem sentido. Mas este \u00e9 um assunto que cada um deve decidir consigo e com Deus.\u00bb \u00c9 a terceira vez que este nome surge no seu escrito.  Na zona oriental da Holanda, n\u00e3o muito longe da fronteira, come\u00e7a a ser constru\u00eddo um campo de concentra\u00e7\u00e3o interm\u00e9dio, donde os judeus eram posteriormente encaminhados para o exterm\u00ednio.   A 29 de Abril de 1942 os judeus foram obrigados a usar a estrela de David. Quase dois meses depois, Etty escreve (\u00e0 meia-noite e meia): \u00abEsta manh\u00e3 passei de bicicleta pelo Stadionkade e desfrutei do vasto c\u00e9u ali nos limites da cidade e inspirei o ar fresco e n\u00e3o racionado. E tabuletas por toda a parte, que impediam aos judeus o livre acesso aos caminhos e ao campo aberto. Mas sobre aquele peda\u00e7o de caminho, que permanece nosso, tamb\u00e9m existe o c\u00e9u total. N\u00e3o nos podem fazer nada, n\u00e3o nos podem fazer realmente nada.\u00bb \u00c9 curioso que, nesse mesmo dia, o s\u00e1bado de 20 Junho de 1942, h\u00e1 em Amesterd\u00e3o outra rapariga, bem mais nova do que ela, tamb\u00e9m a escrever um di\u00e1rio: chama-se Anne Frank.  Gra\u00e7as ao cuidado de alguns amigos, Etty passa, ent\u00e3o, a trabalhar como dactil\u00f3grafa numa das sec\u00e7\u00f5es do Conselho Judaico. Um pouco como nos restantes territ\u00f3rios ocupados, este organismo surge como media\u00e7\u00e3o entre o povo judeu e as autoridades, tornando-se facilmente objecto do interesse e manipula\u00e7\u00e3o nazis. Era dirigido por judeus de condi\u00e7\u00e3o social elevada e mantinha na sua \u00f3rbita centenas de funcion\u00e1rios, que supostamente auxiliavam o destino dos deslocados e prisioneiros. Etty tem o que ela chama a primeira experi\u00eancia de descida ao \u00abinferno\u00bb. D\u00e1-se conta, brutalmente, de que a imensa maioria dos judeus que primeiro estavam destinados \u00e0 deporta\u00e7\u00e3o eram os pobres. Decide ent\u00e3o pedir para acompanh\u00e1-los como volunt\u00e1ria no Campo de Concentra\u00e7\u00e3o de Westerbork. Come\u00e7ava a compreender que aquela hora extrema do seu povo tinha um significado tal, que ela n\u00e3o podia subtrair-se. De Agosto de 1942 at\u00e9 Setembro de 1943 vive a\u00ed, trabalhando no mais que improvisado hospital. Um das vantagens do seu estatuto de volunt\u00e1ria era poder vir algumas vezes a Amesterd\u00e3o, at\u00e9 porque a sua pr\u00f3pria sa\u00fade rapidamente se arruinava. Mas acontece o inaudito. No seu quarto \u00abbelo e tranquilo\u00bb, diante da esplanada que d\u00e1 para o Rijksmuseum, ela sente uma saudade irrecus\u00e1vel de Westerbork. \u00abApaixonei-me tanto por esse Westerbork e tenho saudades de l\u00e1. Estes meses entre o arame farpado foram os meus meses mais intensos e ricos.\u00bb  Uma vez, os seus amigos comunistas e trotskistas que haviam passado \u00e0 resist\u00eancia quiseram que ela entrasse na clandestinidade, tendo-lhe j\u00e1 preparado um ref\u00fagio. Expuseram-lhe todos os perigos que corria, tiveram quase de for\u00e7\u00e1-la, mas ela respondeu queeles n\u00e3o a entendiam. \u00abMuita gente me acusa de indiferen\u00e7a e passividade e diz que me rendo de m\u00e3o beijada. E dizem: \u201cCada pessoa que consiga escapar \u00e0s garras deles deve tentar faz\u00ea-lo e \u00e9 uma obriga\u00e7\u00e3o. E eu tenho de fazer alguma coisa por mim mesma.\u201d Esta \u00e9 uma frase que n\u00e3o bate certo. Neste momento toda a gente anda, com efeito, ocupada a tratar da vidinha a fim de se safar, e no entanto \u00e9 preciso que um certo n\u00famero, um grande n\u00famero at\u00e9, v\u00e1. E o esquisito \u00e9 o seguinte: eu n\u00e3o tenho a sensa\u00e7\u00e3o de estar presa nas garras deles\u2026 N\u00e3o sinto que esteja nas garras de ningu\u00e9m, s\u00f3 sinto estar nos bra\u00e7os de Deus.\u00bbMas \u00e9 preciso entender at\u00e9 que ponto crucificante, at\u00e9 que despojamento espiritual Etty viveu este seu \u00abestar nos bra\u00e7os de Deus\u00bb. Nada \u00e9 evitado. E na atordoante infelicidade que abra\u00e7a \u00e9 que se encontra.  Um dos aspectos mais comoventes \u00e9 perceber o lugar da Literatura na viagem imensa que Etty realiza. Ela come\u00e7a por chamar-lhe \u00aba minha segunda p\u00e1tria\u00bb. E \u00e9, a princ\u00edpio, uma esp\u00e9cie de outra vida que a ocupa, uma terra prometida para a qual se inclina. O Di\u00e1rio est\u00e1 cheio de refer\u00eancias a essas horas de leitura compulsiva, mesmo antes do pequeno-almo\u00e7o, horas de explicitado prazer: de Santo Agostinho a Hegel, aos seus amados russos (Dostoi\u00e9vski, Tolst\u00f3i, Lermontov, Puschkin\u2026), que ela anota com profundidade, em quem est\u00e1 sempre a pensar e que sonha traduzir. Mas depois, quando parte para o Campo de Concentra\u00e7\u00e3o tem apenas uma pequena mochila. Faz ent\u00e3o as escolhas decisivas. Escreve: \u00abQuero memorizar uma coisa para os meus momentos mais dif\u00edceis e tamb\u00e9m a quero ter sempre \u00e0 m\u00e3o: que Dostoievski passou quatro anos em desterro na Sib\u00e9ria tendo a B\u00edblia por \u00fanica leitura.\u00bb E leva consigo a B\u00edblia. Al\u00e9m desta, dois livros mais a acompanhar\u00e3o sempre, ambos de Rainer Maria Rilke: O Livro das Horas e Cartas a um Jovem Poeta.  \u00abTrago sempre o Rilke \u00e0 baila. \u00c9 t\u00e3o estranho, ele era um homem fr\u00e1gil e escreveu muito da sua obra dentro dos muros de castelos hospitaleiros e talvez tivesse ficado completamente destro\u00e7ado em circunst\u00e2ncias como aquelas em que vivemos actualmente.  Mas n\u00e3o demonstrar\u00e1 boa economia que, em \u00e9pocas tranquilas e em circunst\u00e2ncias favor\u00e1veis, artistas sens\u00edveis possam procurar livremente as formas mais belas e adequadas para as suas convic\u00e7\u00f5es mais profundas, que d\u00e3o \u00e0s pessoas em \u00e9pocas mais agitadas e extenuantes um apoio e um abrigo para confus\u00f5es e perguntas que ainda n\u00e3o tomaram uma forma e uma solu\u00e7\u00e3o pr\u00f3prias, por que as energias di\u00e1rias s\u00e3o reclamadas pelas afli\u00e7\u00f5es di\u00e1rias?\u00bb  Em Westerbork, Etty irrompe finalmente como escritora. Ela que h\u00e1 muito buscava a sua voz vem encontr\u00e1-la aqui, neste lugar de tamanho silenciamento, munida apenas de um caderno quadriculado e de um l\u00e1pis. H\u00e1 um texto de Anna Akhm\u00e1tova que pode ser um paralelo iluminador para o caso de Etty:  \u00ab\u00c0 laia de pref\u00e1cio: Nos terr\u00edveis anos de ejovismo passei dezassete meses nas bichas da cadeia de Leninegrado. Uma vez, at\u00e9 algu\u00e9m me \u201creconheceu\u201d. Por essa altura, uma mulher de l\u00e1bios azul\u00e1ceos que estava atr\u00e1s de mim, e que de certeza nunca ouvira sequer pronunciar o meu nome, despertou da letargia pr\u00f3pria de todas n\u00f3s e perguntou-me ao ouvido (ali toda a gente sussurrava): &#8211; Pode contar isto? Respondi: &#8211; Posso. Ent\u00e3o, uma esp\u00e9cie de sorriso deslizou por aquilo que outrora fora o rosto da mulher.\u00bb  Etty Hillesum tamb\u00e9m escreve: \u00abN\u00e3o existe um poeta dentro de mim, h\u00e1 sim um peda\u00e7o de Deus em mim que poderia desenvolver-se at\u00e9 se tornar um poeta. Num campo assim tem de haver contudo um poeta que experimenta a vida l\u00e1, e l\u00e1 tamb\u00e9m a poder\u00e1 cantar\u00bb. Foi este o modo de atravessar a vida que ela escolheu. Mas a\u00ed a Literatura j\u00e1 n\u00e3o era a segunda p\u00e1tria: coincidia com aquela, \u00fanica, que ela em plena escurid\u00e3o encontrou.  <b>A eleita de Deus<\/b> Aqueles que disseram que a poesia e a possibilidade de Deus cessaram com Auschwitz levantavam quest\u00f5es muito s\u00e9rias, que marcaram intensamente o debate filos\u00f3fico e teol\u00f3gico da segunda metade do s\u00e9culo XX. E, de facto, dentro de um determinado quadro de compreens\u00e3o foi o colapso. O que Etty intui fulgurantemente \u00e9 que a experi\u00eancia daquele inferno hist\u00f3rico exige a necessidade de uma nova gram\u00e1tica. \u00abVou ter de achar uma linguagem nova\u00bb, escreveu ela. E achou.  Olhamos para ela em Westerbork e vemos a eleita do Senhor, passeando-se na solid\u00e3o e na lama, escrevendo algumas das ora\u00e7\u00f5es mais extraordin\u00e1rias que um ser humano pode proferir, mas n\u00e3o na amplid\u00e3o majestosa de um templo, antes no espa\u00e7o putrescente da latrina comum, onde se refugiava de madrugada em busca de um instante de sil\u00eancio e de concentra\u00e7\u00e3o. Vemos a enamorada de Deus esgotar-se em aten\u00e7\u00f5es aos deportados, curando, intercedendo, ela pr\u00f3pria ferida por dores violentas, sempre \u00e0 procura de uma janela donde se alcance um fragmento de c\u00e9u, ou de uma t\u00e1bua onde, por fim, possa sentar-se a ler umas frases de Rilke. Seguimo-la na leitura que faz do Evangelista Mateus, \u00abo meu bom Mateus\u00bb, nos coment\u00e1rios aos textos de Paulo e de Santo Agostinho como se de uma mestra experimentada nos caminhos do esp\u00edrito se tratasse. Lemos \u00abGostaria muito de viver como os l\u00edrios do campo. Se as pessoas entendessem esta \u00e9poca, seriam capazes de aprender com ela a viver como os l\u00edrios do campo\u00bb, e \u00e9 dif\u00edcil recordar que quem nos fala \u00e9 aquela rapariga de Amesterd\u00e3o que ali chegou h\u00e1 poucos meses.  No meio da tortura absoluta, \u00e9 ela quem se preocupa com Deus. \u00abVou ajudar-te, Deus, a n\u00e3o me abandonares\u00bb, escreve. Ou ent\u00e3o: \u00abSe eu estivesse encarcerada numa cela acanhada e uma nuvem passasse ao longo da minha janela gradeada, ent\u00e3o eu iria trazer-te essa nuvem, meu Deus, se pelo menos tivesse for\u00e7as para isso.\u00bb A sua ora\u00e7\u00e3o \u00e9 de agradecimento e de mil pequenas aten\u00e7\u00f5es: o perfume de uma flor, a musicalidade de uma palavra, a beleza indiz\u00edvel de um encontro: \u00abGostaria de falar sobre o que temos em comum, num tom de voz baixo e suave, mas ininterrupto e convincente. D\u00e1-me palavras e a for\u00e7a.\u00bb  Claro que \u00e9 tamb\u00e9m uma prece nocturna, povoada de dilacerantes interroga\u00e7\u00f5es: \u00ab\u00c0s vezes pergunto-me, num momento dif\u00edcil como esta noite, quais s\u00e3o os planos que tens para mim, tu Deus.\u00bb Mas o tra\u00e7o mais forte \u00e9 o de uma impressionante e inexplic\u00e1vel confian\u00e7a: \u00abQuando ontem, \u00e0s duas da manh\u00e3, finalmente cheguei l\u00e1 acima ao quarto da Dicky e me ajoelhei quase nua, no meio do quarto, totalmente deprimida, eu disse de repente: \u201cHoje, vendo bem, vivi coisas grandiosas e esta noite tamb\u00e9m, meu Deus, agrade\u00e7o-te por eu poder suportar tudo e por haver poucas coisas que n\u00e3o ponhas no meu caminho.\u201d\u00bb  A 30 de Novembro de 1943, a Cruz Vermelha comunicou a sua morte em Auschwitz.  <i>Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a<\/i>  (Foto inclu\u00edda no livro) <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00abNova certeza: que querem o nosso exterm\u00ednio. 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