{"id":315838,"date":"2024-03-03T09:30:56","date_gmt":"2024-03-03T09:30:56","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=315838"},"modified":"2024-03-02T22:36:33","modified_gmt":"2024-03-02T22:36:33","slug":"legislativas-2024-bispos-tem-de-por-o-dedo-na-ferida-sobre-problema-da-pobreza-em-portugal-jose-luis-da-ponte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/legislativas-2024-bispos-tem-de-por-o-dedo-na-ferida-sobre-problema-da-pobreza-em-portugal-jose-luis-da-ponte\/","title":{"rendered":"Legislativas 2024: Bispos t\u00eam de \u00abp\u00f4r o dedo na ferida\u00bb sobre problema da pobreza em Portugal \u2013 Jos\u00e9 Lu\u00eds da Ponte"},"content":{"rendered":"<p><em>A uma semana das elei\u00e7\u00f5es legislativas e numa altura em que v\u00e1rios organismos da Igreja apelam \u00e0 participa\u00e7\u00e3o no ato eleitoral, \u00e9 convidado da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia o presidente da Comiss\u00e3o Justi\u00e7a e Paz de Viana do Castelo, distrito a que pertence o Concelho de Melga\u00e7o e que vem registando os mais elevados n\u00edveis de absten\u00e7\u00e3o<\/em><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_316037\" aria-describedby=\"caption-attachment-316037\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/jose_luis_ponte.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-316037 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/jose_luis_ponte.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1280\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/jose_luis_ponte.jpg 1920w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/jose_luis_ponte-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/jose_luis_ponte-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/jose_luis_ponte-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/jose_luis_ponte-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/jose_luis_ponte-1536x1024.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-316037\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Comiss\u00e3o Diocesana Justi\u00e7a e Paz &#8211; Viana do Castelo<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia<\/em>)<\/p>\n<p><em>V\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es irrespons\u00e1veis t\u00eam manifestado preocupa\u00e7\u00e3o com os n\u00edveis de absten\u00e7\u00e3o de elei\u00e7\u00f5es anteriores. Como \u00e9 que \u00e9 poss\u00edvel alterar este ciclo, 50 anos depois da conquista das democracias?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Pois, eu penso que essa \u00e9 a pergunta do milh\u00e3o. Isto n\u00e3o se altera, em meu entender, e dramaticamente, numas elei\u00e7\u00f5es. Isto \u00e9 um trabalho que tem de ser feito de formiguinha, atrav\u00e9s dos anos. E Portugal n\u00e3o tem feito esse trabalho, n\u00e3o sei se outros pa\u00edses tamb\u00e9m n\u00e3o t\u00eam feito. As pessoas est\u00e3o desencantadas com os pol\u00edticos. Est\u00e3o claramente desencantadas com os pol\u00edticos e com os sistemas que cada vez t\u00eam feito aumentar as bolsas de pobreza, porque a pobreza \u00e9 sin\u00f3nimo de injusti\u00e7a e, portanto, as bolsas de mal-estar p\u00fablico, porque a injusti\u00e7a promove naturalmente a aus\u00eancia de paz, promove naturalmente os pequenos focos de dist\u00farbio. Isto \u00e9 um trabalho que tem de ser feito a longo prazo.\u00a0 De qualquer forma, eu n\u00e3o acredito muito, e desculpem-me que o diga assim, eu n\u00e3o acredito muito que os nossos pol\u00edticos, numas elei\u00e7\u00f5es, consigam inverter completamente este processo.<\/p>\n<p>Contudo, \u00e0 Igreja compete, como outros organismos, aconselhar os cidad\u00e3os a participarem ativamente no processo de escolha dos seus dirigentes para um quadri\u00eanio ou quinqu\u00e9nio, ou quer que seja o seguinte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>N\u00f3s fal\u00e1mos no in\u00edcio desta conversa do caso concreto de Melga\u00e7o. Em 2015, dois entre tr\u00eas eleitores n\u00e3o foram \u00e0s urnas. Nas presidenciais de 2021 mais de 78% dos eleitores n\u00e3o votaram. A emigra\u00e7\u00e3o pode explicar tudo ou \u00e9 de facto algo mais que \u00e9 preciso pensar?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o, h\u00e1 algo mais que \u00e9 preciso pensar, porque a emigra\u00e7\u00e3o n\u00e3o abrange toda a gente. \u00c9 claro que Melga\u00e7o \u00e9 um concelho muito pequeno. Melga\u00e7o tem menos popula\u00e7\u00e3o que a minha freguesia, deve ter 5 mil habitantes, mais ou menos, todo o concelho de Melga\u00e7o.\u00a0 De qualquer forma, n\u00e3o est\u00e1 toda a gente emigrada, n\u00e3o \u00e9 apenas a emigra\u00e7\u00e3o. \u00c9 o desencanto que gra\u00e7a em todas as pessoas, em toda a gente. Eu conhe\u00e7o aqui em Viana, gente com forma\u00e7\u00e3o superior, gente muito bem informada, que diz que n\u00e3o sei se vale a pena votar, provavelmente n\u00e3o vou, ou ent\u00e3o se vou, vou votar em branco. Os nossos pol\u00edticos, por culpa pr\u00f3pria ou n\u00e3o, perderam alguma credibilidade ou perderam-na toda. E as pessoas menos informadas, n\u00e3o s\u00f3, mas as menos informadas, acabam por desistir, dizendo que n\u00e3o vale a pena.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>A Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa alertou para um momento dif\u00edcil e a crise de confian\u00e7a que se vive no pa\u00eds. Teme que se crie um clima pol\u00edtico prop\u00edcio a solu\u00e7\u00f5es, digamos, mais radicais?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Temo, temo, temo, temo claramente. O exemplo que vou dar \u00e9 um exemplo radical, mas foi assim que pessoas como Hitler subiram ao poder.\u00a0 Provavelmente isto tem de come\u00e7ar nas escolas, tem de come\u00e7ar na catequese, e \u00e9 bom que os catequistas ou as catequistas tamb\u00e9m se incomodem com isto e v\u00e3o sensibilizando as suas crian\u00e7as e depois os jovens, a catequese dos jovens, etc., e a catequese familiar tamb\u00e9m, que tamb\u00e9m se fale disto, e tamb\u00e9m se diga da imperiosa necessidade de sermos parte agente na escolha dos nossos l\u00edderes pol\u00edticos. E depois, claro, obrig\u00e1-los a pagarem a fatura se eles n\u00e3o cumprirem minimamente aquilo que era suposto cumprirem em termos nacionais. Agora, que \u00e9 perigoso, \u00e9. \u00c9 porque os populismos, as demagogias, proliferam precisamente neste tipo de ambientes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E pergunto-lhe se as recentes pol\u00e9micas judiciais podem agravar esse ambiente?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>S\u00e3o v\u00e1rias sim, as judiciais sim, e essencialmente aquelas que incluem pol\u00edticos que, corretamente ou n\u00e3o, porque at\u00e9 provem contr\u00e1rios, ser\u00e3o inocentes, mas que se fala de corrup\u00e7\u00e3o, se fala de desvios, se fala disso tudo, e \u00e9 claro que isto interfere tamb\u00e9m. Mas interfere tudo, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isto, interfere tudo. Interfere tamb\u00e9m a falta de emprego, interfere tamb\u00e9m a falta de professores nas escolas, interfere tudo.<\/p>\n<p>Como diz o Papa Francisco, os pol\u00edticos t\u00eam de estar atentos, a sociedade tem de estar atenta a uma leitura global do homem e n\u00e3o apenas a uma leitura parcelar. A pr\u00f3pria utiliza\u00e7\u00e3o apenas da pol\u00edtica como economia, e eu lembro-me que o Papa Francisco na \u2018Fratelli Tutti\u2019, a dado momento, diz mesmo que n\u00e3o podemos apenas olhar para uma pol\u00edtica apenas baseada na economia. E n\u00f3s temos feito isso muito neste pa\u00eds e noutros pa\u00edses tamb\u00e9m na Europa. E tamb\u00e9m n\u00e3o podemos apenas estar atentos \u00e0 tecnocracia. \u00c9 preciso ter uma aten\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica ao homem no seu todo, com o global. E, portanto, os aspetos jur\u00eddicos interferem? interferem. Mas interferem tamb\u00e9m as outras coisas.\u00a0 Interfere a falta de confian\u00e7a, interfere a falta de professores, a falta de m\u00e9dicos. Tudo isso interfere quando n\u00f3s n\u00e3o entendemos porque \u00e9 que isso acontece.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>O contexto de polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que vivemos representa um sinal de imaturidade democr\u00e1tica? <\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 quem diga que sim, mas eu n\u00e3o sei se isso \u00e9 imaturidade democr\u00e1tica ou se \u00e9 afastamento das pessoas dos mecanismos democr\u00e1ticos. Eu vejo gente a suspirar, neste momento, a suspirar pelo 24 de abril. Eu n\u00e3o sei se as pessoas percebem o salto que nestes 50 anos se deu. Ou percebem, s\u00f3 que est\u00e3o mais pobres, est\u00e3o com os bolsos mais vazios, est\u00e3o com acesso \u00e0 sa\u00fade mais complicado, e provavelmente dizem: eu antigamente sempre tinha isto ou aquilo.\u00a0 N\u00e3o \u00e9 verdade, n\u00e3o \u00e9 verdade de todo, mas facilmente&#8230;<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>E isso remete para a B\u00edblia e hist\u00f3ria das \u201ccebolas do Egito\u201d, a tend\u00eancia de olhar para o passado de uma certa forma mais romantizada?<\/em><\/p>\n<p>Claro, clar\u00edssimo, e acontece isso muitas vezes. Se era para isto, para que \u00e9 que n\u00f3s sa\u00edmos da escravatura? Ent\u00e3o mais valia estarmos na escravatura e t\u00ednhamos algu\u00e9m que nos defendia. \u00c9 verdade isso. \u00c9 verdade, mas \u00e9 um perigo. \u00c9 um perigo muito grande e a culpa \u00e9 dos pol\u00edticos. E \u00e9 de todos n\u00f3s que acab\u00e1mos por n\u00e3o votar. 40% de absten\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se aceita. N\u00e3o pode ser.\u00a0 Como \u00e9 que quase metade do pa\u00eds abdica de escolher os seus representantes? N\u00e3o d\u00e1.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Pergunto tamb\u00e9m se a campanha eleitoral deve ser mais um debate de ideias &#8211; at\u00e9 dentro daquilo que acabou de dizer &#8211; e n\u00e3o tanto um confronto alimentado sistematicamente por pol\u00e9micas e fait-divers?<\/em><\/p>\n<p>Eu ouvi um determinado l\u00edder partid\u00e1rio, que apenas se falou no nome dos outros l\u00edderes partid\u00e1rios. Ideias, o que \u00e9 que defende o seu partido, o que \u00e9 que o seu partido pretende para Portugal, fica em segundo plano. E isso pode traduzir uma de duas coisas, em meu entender, e \u00e9 sempre subjetivo. Mas pode traduzir por um lado uma certa pequenez pol\u00edtica, em termos intelectuais, e at\u00e9 uma certa desonestidade pol\u00edtica, ou pode apenas traduzir a ideia de que o que importa \u00e9 eu dizer mal do outro e quanto \u00e0s ideias, depois, quando estiver no poder, logo vemos como \u00e9 que fazemos. E de qualquer forma \u00e9 desonestidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E como \u00e9 que enquadra manifesta\u00e7\u00f5es de protesto mais extremistas como a\u00e7\u00f5es que visam diretamente os candidatos?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>A\u00ed eu penso que n\u00e3o h\u00e1 segundas opini\u00f5es. H\u00e1 sempre duas opini\u00f5es, h\u00e1 a opini\u00e3o de quem faz isso e de quem o apoia, mas ao contr\u00e1rio. Isso \u00e9 nitidamente um ato, por um lado, de cobardia democr\u00e1tica, de cobardia pol\u00edtica, como quisermos. E um ato de alguma ditadura do pensamento. As minhas ideias \u00e9 que est\u00e3o bem, as tuas n\u00e3o, portanto, toma l\u00e1 com a tinta pela cabe\u00e7a abaixo, ou ent\u00e3o, como aqui h\u00e1 uns anos largos, agrediram M\u00e1rio Soares na Marinha Grande, ou agrediram outros candidatos em outros s\u00edtios. N\u00e3o faz sentido tamb\u00e9m.\u00a0 A sociedade est\u00e1 um pouco encrespada. Eu fui aluno da Cat\u00f3lica de Braga, tinha um professor que dizia que quando o est\u00f4mago est\u00e1 vazio, nem os fil\u00f3sofos filosofam, nem as pessoas s\u00e3o capazes de ser coerentes.<\/p>\n<p>A \u00fanica raz\u00e3o que h\u00e1 \u00e9 pegar numa pedra e atirar, e ele dizia isso assim. Eu n\u00e3o concordo com isso, naturalmente, mas o que \u00e9 verdade \u00e9 que a sociedade est\u00e1 um pouco nisso, e, portanto, atiram-se l\u00e1 com a tinta, insulta-se o nome das pessoas, inventam-se, propositadamente ou n\u00e3o, situa\u00e7\u00f5es, muitas vezes, jur\u00eddicas. E eu n\u00e3o sei at\u00e9 que ponto \u00e9 que muitos dos casos jur\u00eddicos s\u00e3o mesmo reais e verdadeiros: A justi\u00e7a o dir\u00e1 depois. N\u00e3o sei se, \u00e0s vezes, n\u00e3o s\u00e3o instigados por este ou aquele partido que pretende que o partido A, B, ou C v\u00e1-se entretendo com os problemas de justi\u00e7a e, portanto, v\u00e1-se descuidando das quest\u00f5es que s\u00e3o fundamentais, que s\u00e3o as quest\u00f5es que t\u00eam a ver com a educa\u00e7\u00e3o, que t\u00eam a ver com a sa\u00fade, que t\u00eam a ver com a alimenta\u00e7\u00e3o, t\u00eam a ver com o alojamento, com a habita\u00e7\u00e3o. Esses sim s\u00e3o problemas dram\u00e1ticos e, se n\u00e3o forem resolvidos, n\u00e3o h\u00e1 justi\u00e7a, e n\u00e3o havendo justi\u00e7a n\u00e3o h\u00e1 paz.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Ainda assim, n\u00e3o \u00e9 mais compreens\u00edvel a pratica destes atos, quando os seus dinamizadores dizem que se n\u00e3o radicarem o seu protesto n\u00e3o s\u00e3o ouvidos?<\/em><\/p>\n<p>As pessoas que pensam assim, ou que dizem isso, por um lado n\u00e3o ter\u00e3o grande esp\u00edrito democr\u00e1tico. N\u00f3s em democracia discutimos, apresentamos os nossos argumentos, que podem n\u00e3o ser ouvidos. Podem ser ouvidos outros, porque t\u00eam mais for\u00e7a, t\u00eam mais atualidade. \u00c9 claro que, se eu fosse por a\u00ed, eu teria de dar raz\u00e3o aos movimentos radicais que dizem que isto s\u00f3 \u00e0 lei da bala \u00e9 que se resolve, mas n\u00e3o \u00e9. Tem de ser \u00e0 lei do di\u00e1logo, \u00e0 lei do argumento, \u00e0 lei do aceitar o contradit\u00f3rio. E quem n\u00e3o sabe aceitar o contradit\u00f3rio vai pela lei da bala.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Neste caso pela lei da tinta\u2026. <\/em><\/p>\n<p>Sim, neste caso pela lei da tinta. Agora, o que \u00e9 fundamental nisto tudo, para n\u00f3s que estamos ligados \u00e0 igreja e que somos membros, no meu caso, de uma comiss\u00e3o de justi\u00e7a e paz, o que \u00e9 importante \u00e9 perceber quem s\u00e3o os candidatos que, de alguma forma, t\u00eam, defendem aquilo que s\u00e3o os valores do homem visto no seu todo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A Comiss\u00e3o Justi\u00e7a e Paz, entre as suas fun\u00e7\u00f5es, entre os seus objetivos, tem o estudo e a divulga\u00e7\u00e3o da doutrina social da Igreja, e eu pergunto-lhe se eleitores e eleitos conhecem os princ\u00edpios deste pensamento social crist\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o. Se eu falar globalmente, n\u00e3o, \u00e9 claro. N\u00e3o tenho d\u00favida nenhuma, e at\u00e9 lhe digo mais, haver\u00e1 muitos de n\u00f3s, muito enfarinhados na estrutura das Igrejas locais, que n\u00e3o t\u00eam conhecimento dos documentos da doutrina social, que v\u00eam desde Le\u00e3o XIII e todos os outros. Bastaria para o caso estarem atentos, por exemplo, \u00e0 \u2018Fratelli Tutti\u2019, \u00e0 \u2018Evangelii Gaudium\u2019, \u00e0s \u00faltimas enc\u00edclicas onde a doutrina social da Igreja est\u00e1 perfeitamente plasmada; ou ent\u00e3o, um documento mais antigo, mas muito interessante, de Paulo VI, a \u2018Populorum Progressio\u2019, por exemplo. S\u00e3o documentos onde a doutrina social est\u00e1 muito bem plasmada, e est\u00e1 muito claro: todo homem \u00e9 meu irm\u00e3o, come\u00e7a por a\u00ed. Ent\u00e3o, se todo homem \u00e9 meu irm\u00e3o, como \u00e9 que eu posso ostracizar judeus ou mu\u00e7ulmanos, ciganos, pretos, brancos ou amarelos? N\u00e3o posso, n\u00e3o devo faz\u00ea-lo. \u00c9 claro que isso n\u00e3o se incute por decreto, isso trabalha-se desde a catequese, tem de ser trabalhado desde a catequese. Se deixam crescer os homens at\u00e9 aos 20 anos, 20 e tal, sem trabalhar estes conceitos de fraternidade universal, ent\u00e3o quando chegam aos 20, 30 anos e t\u00eam decis\u00e3o de votar, a hip\u00f3tese de votar, s\u00e3o \u00e1rvores j\u00e1 que cresceram com alguma defici\u00eancia, e ser\u00e1 mais dif\u00edcil p\u00f4-las direitas. Se quisermos trabalhar isto, temos de come\u00e7ar j\u00e1 na catequese, e ent\u00e3o, talvez daqui a uns 15, 20 anos, tenhamos uma sociedade mais fraterna e, portanto, menos afastada das decis\u00f5es pol\u00edticas. As pessoas esquecem que ser pol\u00edtico \u00e9 mesmo isso\u2026 eu estou preocupado com tudo o que tem a ver com a minha cidade, eu estou preocupado com tudo o que tem a ver com a minha aldeia, com a minha envolvente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Os temas da pobreza e da exclus\u00e3o deveriam merecer uma maior aten\u00e7\u00e3o e prop\u00f3sitos mais firmes por parte de quem se apresenta como candidato \u00e0 Assembleia e tamb\u00e9m ao Governo?<\/em><\/p>\n<p>De todos os pol\u00edticos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>N\u00e3o estranha que o tema da pobreza tenha passado \u00e0 margem?<\/em><\/p>\n<p>Como \u00e9 que pode haver uma sociedade justa quando h\u00e1 pessoas que, antes de sair a cabe\u00e7a do ventre materno, saiu a m\u00e3o aberta \u00e0 caridade? N\u00e3o pode haver justi\u00e7a social\u2026 eu nasci, n\u00e3o pedi para nascer, mas nasci, estou feliz por ter nascido, mas desde pequenino, desde o ber\u00e7o j\u00e1, eu s\u00f3 sobrevivo se algu\u00e9m caritativamente me der de comer, porque eu n\u00e3o vou ser capaz de forma alguma de ganhar o meu pr\u00f3prio sustento. Isto \u00e9 a aus\u00eancia da dignidade, da pr\u00f3pria dignidade da pessoa em termos sociais. Portanto, se eu me sinto \u00e0 margem de tudo, se para sobreviver tenho de comer as migalhas que caem da mesa dos outros, eu tenho duas hip\u00f3teses: posso encostar-me na berma do passeio, \u00e0 espera que me deem de comer ou de morrer; ou posso reagir e entrar em luta com a pr\u00f3pria sociedade onde me insiro, posso tornar-me, inclusive, um marginal, no sentido de que eu n\u00e3o concordo com esta sociedade, estou \u00e0 margem dela. Da\u00ed que a Igreja tenha de, continuamente, batalhar neste ponto, os nossos bispos t\u00eam de batalhar neste ponto e t\u00eam, provavelmente, de p\u00f4r o dedo na ferida e dizer aos pol\u00edticos: olhem para a quest\u00e3o da pobreza, porque essa \u00e9 fundamental.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, a mensagem do Papa Francisco, desde que foi eleito, \u00e9: vamos estar atentos aos pobres.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Outra mensagem fundamental do Papa Francisco tem a ver com a aten\u00e7\u00e3o aos migrantes e refugiados. O tema da imigra\u00e7\u00e3o, que acaba por entrar na campanha atr\u00e1s de declara\u00e7\u00f5es mais ou menos pol\u00e9micas, n\u00e3o vamos comentar essas declara\u00e7\u00f5es, mas pergunto-lhe se sente que em Portugal continua a faltar uma verdadeira pol\u00edtica de integra\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>Claro que falta. E tanto que falta que n\u00f3s, de repente, vamos descobrindo focos de escravatura em v\u00e1rias partes do pa\u00eds. Que me envergonham, estive h\u00e1 15 dias na Guin\u00e9 e soube de coisas que aconteciam com guineenses c\u00e1 em Portugal &#8211; j\u00e1 estou a tentar dar andamento ao processo &#8211; que fico envergonhado com isso. Pessoas que, numa casa onde para seis pessoas, vivem 20 ou 30. H\u00e1 duas coisas aqui que me parecem importantes: os pa\u00edses n\u00e3o podem fechar a porta aos imigrantes, \u00e0queles que fogem \u00e0s guerras, que fogem \u00e0 fome, fogem ao desemprego; mas tamb\u00e9m n\u00e3o podem, em meu entender, abandon\u00e1-los. \u201cDesenrasquem-se\u201d. N\u00e3o podem. \u00c9 preciso uma real pol\u00edtica de integra\u00e7\u00e3o dos imigrantes na nossa sociedade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/329075142_5881703878572691_1604944371022201568_n.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-316036 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/329075142_5881703878572691_1604944371022201568_n-359x260.jpg\" alt=\"\" width=\"359\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/329075142_5881703878572691_1604944371022201568_n-359x260.jpg 359w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/329075142_5881703878572691_1604944371022201568_n-768x556.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/329075142_5881703878572691_1604944371022201568_n.jpg 957w\" sizes=\"(max-width: 359px) 100vw, 359px\" \/><\/a>E na regi\u00e3o a\u00ed, encontra problemas de integra\u00e7\u00e3o id\u00eanticos, por exemplo, \u00e0queles que s\u00e3o noticiados, em particular no Alentejo?<\/em><\/p>\n<p>Que se saiba, n\u00e3o acontece tanto isso. H\u00e1 muitos imigrantes, muitos mesmo, essencialmente brasileiros, mas n\u00e3o s\u00f3. Tamb\u00e9m indianos, paquistaneses, h\u00e1 muitos. A Comiss\u00e3o de Justi\u00e7a e Paz est\u00e1 agora, este ano, vamos tentar fazer um levantamento, perceber, em termos de diocese, se h\u00e1 alguns problemas desses. Que se saiba, n\u00e3o temos problemas desses com a gravidade daqueles que acontecem no Alentejo e noutros s\u00edtios. Tamb\u00e9m n\u00e3o temos tantos imigrantes quanto tem o Alentejo, ou Algarve, ou outras zonas do pa\u00eds. Tamb\u00e9m \u00e9 verdade\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Vamos olhar para o territ\u00f3rio do Alto Minho, tamb\u00e9m para lhe fazer esta pergunta. Em Viana, com a nova distribui\u00e7\u00e3o dos c\u00edrculos eleitorais, houve a perda de um deputado. A representa\u00e7\u00e3o dos interesses da popula\u00e7\u00e3o fica menos assegurada, assim?<\/em><\/p>\n<p>Havendo mais deputados, em teoria, h\u00e1 mais vozes a defenderem os interesses da regi\u00e3o. Mas vou-lhe dar uma resposta que eu ouvi um dia destes: \u201cmenos um deputado? at\u00e9 podia ficar s\u00f3 um, que chegava, custava menos ao Estado, assim como assim eles n\u00e3o fazem nada\u201d. N\u00e3o \u00e9 verdade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas \u00e9 um discurso populista\u2026<\/em><\/p>\n<p>\u00c9. N\u00e3o \u00e9 verdade isto. Mas \u00e9 o discurso que este tipo de pol\u00edtica est\u00e1 a gerar, e n\u00e3o \u00e9 verdade. Os deputados s\u00e3o necess\u00e1rios. Portanto, nesta perspetiva, \u00e9 claro que perdemos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Espera que das pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es surja um quadro pol\u00edtico capaz de assegurar a estabilidade governativa ou poderemos estar perante uma crise pol\u00edtica nos pr\u00f3ximos meses?<\/em><\/p>\n<p>Tenho muito medo do empate t\u00e9cnico. Tenho muito medo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas porqu\u00ea?<\/em><\/p>\n<p>Porque pode acontecer um charco, durante uns meses. Tenho muito medo disso. E o nosso pa\u00eds, em meu entender, n\u00e3o sou economista, mas n\u00e3o tem uma estrutura que lhe permita viver meses sobre meses sem uma lideran\u00e7a pol\u00edtica. Ent\u00e3o tenho algum medo disso. Tudo aponta para que isso possa acontecer, que haja um empate t\u00e9cnico entre a AD e o PS. Vamos ver. \u00c9 claro que, j\u00e1 se fazem contas, j\u00e1 se dizem que a esquerda, juntando todos os partidos menos o PAN, poderia equiparar a direita sem o Chega. \u00c9 complicado. Eu tenho medo do empate t\u00e9cnico, tenho muito medo.<\/p>\n<p>N\u00e3o gostaria que houvesse uma maioria absoluta, mas tamb\u00e9m tenho muito medo do empate t\u00e9cnico. Quando estava na tropa, n\u00f3s diz\u00edamos \u201cesquerda direita 1, 2; esquerda direita 1, 2\u201d e algu\u00e9m dizia, em tom de brincadeira: \u201cno Brasil diz-se, faz que anda, mas n\u00e3o anda\u201d. Tenho muito medo disso, do que \u201cfaz que anda, mas n\u00e3o anda\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A uma semana das elei\u00e7\u00f5es legislativas e numa altura em que v\u00e1rios organismos da Igreja apelam \u00e0 participa\u00e7\u00e3o no ato eleitoral, \u00e9 convidado da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia o presidente da Comiss\u00e3o Justi\u00e7a e Paz de Viana do Castelo, distrito a que pertence o Concelho de Melga\u00e7o e que vem registando os mais elevados [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":316037,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[630],"tags":[182,229],"class_list":["post-315838","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas-ecclesia-rr","tag-diocese-de-viana-do-castelo","tag-igreja-politica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/315838","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=315838"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/315838\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/316037"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=315838"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=315838"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=315838"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}