{"id":31456,"date":"2008-04-21T11:17:57","date_gmt":"2008-04-21T11:17:57","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/04\/21\/bispo-do-porto-avalia-actuacao-do-papa\/"},"modified":"2008-04-21T11:17:57","modified_gmt":"2008-04-21T11:17:57","slug":"bispo-do-porto-avalia-actuacao-do-papa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/bispo-do-porto-avalia-actuacao-do-papa\/","title":{"rendered":"Bispo do Porto avalia actua\u00e7\u00e3o do Papa"},"content":{"rendered":"<p>Homilia de D. Manuel Clemente no \u00abTe Deum\u00bb pelo terceiro anivers\u00e1rio do pontificado de Bento XVI <!--more--> Naquele dia, \u201cpara os lados de Cesareia de Filipe\u201d, Jesus perguntou aos seus disc\u00edpulos: \u201cQuem dizeis v\u00f3s que Eu sou?\u201d. Sim\u00e3o Pedro tomou a palavra e disse: \u201cTu \u00e9s o Messias [= Cristo], o Filho de Deus vivo\u201d.  Nestes dias, nestes \u00faltimos dias, o sucessor de Pedro, Bento XVI agora, entre Washington e Nova Iorque, n\u00e3o tem dito outra coisa: Jesus \u00e9 \u201cCristo, nossa esperan\u00e7a\u201d. E neste lema, que escolheu para a sua viagem apost\u00f3lica aos Estados Unidos da Am\u00e9rica, resume-se bem o tri\u00e9nio que leva de pontificado, tal como as preenchidas d\u00e9cadas da sua vida, ensino e magist\u00e9rio. Dias antes de iniciar esta viagem, Bento XVI dirigiu uma Mensagem aos norte-americanos, cat\u00f3licos e n\u00e3o s\u00f3, onde encontramos os t\u00f3picos essenciais da sua convic\u00e7\u00e3o e proposta, no que ao papel da Igreja no mundo diz respeito. J\u00e1 os encontrar\u00edamos nos seus textos acad\u00e9micos a seguir ao Conc\u00edlio, como nas posi\u00e7\u00f5es que manteve como bispo e cardeal, desde os finais de setenta; e logo depois, como prefeito da Congrega\u00e7\u00e3o da Doutrina da F\u00e9.  Partindo desta \u00faltima Mensagem, apuremos alguns. Em primeiro lugar, sobre os destinat\u00e1rios da ac\u00e7\u00e3o pastoral, come\u00e7ando pela protagonizada pelo Papa. Nestes termos e em alargamento sucessivo, quando pretende \u201cabra\u00e7ar espiritualmente todos os cat\u00f3licos\u201d; exprimir a \u201cfraternidade para com todas as Comunidades eclesiais\u201d e testemunhar a \u201camizade a todos os crentes e aos homens e mulheres de boa vontade\u201d (BENTO XVI \u2013 Mensagem para a viagem aos Estados Unidos da Am\u00e9rica. L\u2019Osservatore Romano, ed. port., 12 de Abril de 2008, p. 1 e 3). Foi especialmente com Jo\u00e3o XXIII e os documentos conciliares, que se acentuou este alargamento dos destinat\u00e1rios da proposta eclesial. Porque a Igreja foi mais articulada com o mundo, at\u00e9 em termos de m\u00fatua potencia\u00e7\u00e3o. Acolhendo o mundo que ela pr\u00f3pria integra, enquanto partilha das alegrias e das esperan\u00e7as, das tristezas e das ang\u00fastias da humanidade contempor\u00e2nea (cf. Gaudium et Spes, 1), a Igreja oferece-lhe a Boa Nova que a faz e refaz a si mesma, isto \u00e9, a P\u00e1scoa de Cristo, esperan\u00e7a de todos, dos que a v\u00e3o conhecendo e dos que a almejam tamb\u00e9m.    Neste sentido, a Igreja activa a esperan\u00e7a. Melhor dito, neste sentido, a esperan\u00e7a torna-se \u201cperformativa\u201d, como escreveu Bento XVI na enc\u00edclica que dedicou \u00e0 segunda virtude teologal. E explicando: \u201cSignifica isto que o Evangelho n\u00e3o \u00e9 apenas uma comunica\u00e7\u00e3o de realidades que se podem saber, mas uma comunica\u00e7\u00e3o que gera factos e muda a vida [\u2026]. Quem tem esperan\u00e7a, vive diversamente; foi-lhe dada uma vida nova\u201d (Spe Salvi, 2). Bento XVI, abra\u00e7a espiritualmente os cat\u00f3licos, expressa a fraternidade que o une aos outros crist\u00e3os e testemunha a amizade aos seguidores de outros credos e a todos os homens e mulheres de boa vontade. Esta amizade universal \u00e9 absolutamente inclusiva. Mas acontece \u2013 como Ratzinger \/ Bento XVI repetidamente o tem lembrado \u2013 que pode ser transformada em fraternidade aut\u00eantica nos que, pelo Esp\u00edrito de Cristo, renascem como filhos de Deus. Fraternidade e filia\u00e7\u00e3o que Deus destina a toda a humana criatura; mas que, por serem oferecidas a pessoas livres e respons\u00e1veis, t\u00eam de ser propostas e aceites. Quer isto dizer \u2013 e di-lo o Papa no endere\u00e7o da sua Mensagem \u2013 que esta sucess\u00e3o de refer\u00eancias, da amizade \u00e0 fraternidade, vai muito al\u00e9m da mera cortesia, transformando-se em pedagogia e convite. Pedagogia e convite, que s\u00e3o outros nomes da responsabilidade pastoral, tal como Bento XVI a sente e realiza. H\u00e1 uma verdade recebida que tem de ser oferecida. Di-lo de seguida: \u201cO Senhor ressuscitado confiou aos Ap\u00f3stolos e \u00e0 Igreja o seu Evangelho de amor e de paz, e confiou-o para que fosse levado a todos os povos\u201d. Nem o relativismo p\u00f3s-moderno nem um multiculturalismo desistente abrandar\u00e3o no cat\u00f3lico a urg\u00eancia do testemunho, Como Pedro escrevia nos prim\u00f3rdios da Igreja, repeti-lo-\u00e1 hoje Bento XVI: \u201cno \u00edntimo do vosso cora\u00e7\u00e3o, confessai Cristo como Senhor, sempre dispostos a dar a raz\u00e3o da vossa esperan\u00e7a a todo aquele que vo-la pe\u00e7a\u201d (1 Pe 3, 15). N\u00e3o o tomemos como privil\u00e9gio, mas como encargo. Como o tomaram Pedro e o seu presente sucessor. Outra convic\u00e7\u00e3o, forte e constante, de Bento XVI \u00e9 a da condi\u00e7\u00e3o soteriol\u00f3gica da Igreja, que s\u00f3 com a gra\u00e7a e pela gra\u00e7a divina se sustenta, no seu ser e no seu agir. Teve de o lembrar muito antes de ser Papa, quando na Alemanha e em tantas outras partes foi frequente uma quase redu\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica da Igreja e da evangeliza\u00e7\u00e3o. Volta a lembr\u00e1-la \u2013 \u00e0quela aut\u00eantica condi\u00e7\u00e3o eclesial e apost\u00f3lica \u2013 a prop\u00f3sito da sua visita \u00e0 Am\u00e9rica, para servir a esperan\u00e7a duma na\u00e7\u00e3o e duma realidade eclesial onde n\u00e3o faltaram graves contrafac\u00e7\u00f5es, nem se extinguiram as respectivas sequelas. Por isso escreveu na sua Mensagem: \u201cEstou convencido [\u2026] que sem a for\u00e7a da ora\u00e7\u00e3o, sem a uni\u00e3o \u00edntima com o Senhor, as nossas iniciativas humanas serviriam muito pouco. \u00c9 Deus que nos salva a n\u00f3s, ao mundo e \u00e0 hist\u00f3ria, \u00c9 Ele o Pastor do seu Povo, eu vou enviado por Jesus Cristo, levar a sua palavra de vida\u201d.  Creio que todos os que o seguimos televisivamente nestes dias podemos depreender que s\u00f3 com tal consci\u00eancia e consist\u00eancia espiritual \u00e9 poss\u00edvel ao \u201cjovem octogen\u00e1rio\u201d que \u00e9 Bento XVI manter e infundir tanta serenidade e esperan\u00e7a, numa t\u00e3o r\u00e1pida sucess\u00e3o de cen\u00e1rios, por vezes particularmente dif\u00edceis e melindrosos, do mundo pol\u00edtico ao eclesial. \u00c9 dessa consist\u00eancia que brota o desassombro, \u00e9 com essa verdade que se refunda a paz. Oi\u00e7amo-lo ainda a ele, noutro passo da Mensagem, transitando da soteriologia \u00e0 cristologia: \u201cJuntamente com os vossos Bispos, escolhi como tema da minha viagem tr\u00eas palavras simples mas essenciais: \u2018Cristo nossa esperan\u00e7a\u2019 [\u2026]: Jesus Cristo \u00e9 a esperan\u00e7a para os homens e as mulheres de todas as l\u00ednguas, ra\u00e7as, culturas e condi\u00e7\u00e3o social. Sim, Cristo \u00e9 o rosto de Deus que apareceu entre n\u00f3s. Gra\u00e7as a Ele a nossa vida encontra a sua plenitude e juntos podemos formar uma fam\u00edlia de pessoas e de povos que vivem em fraternidade, segundo o perene des\u00edgnio de Deus Pai\u201d. Parece simples, o credo de Bento XVI. E realmente \u201csimplifica\u201d aos cat\u00f3licos de hoje o que Pedro simplificara j\u00e1 na resposta de Cesareia de Filipe: \u201cTu \u00e9s o Cristo, o Filho de Deus vivo!\u201d. Messias, Cristo, era para Sim\u00e3o Pedro e os crentes do antigo Israel o nome da esperan\u00e7a e da promessa, quando se realizassem por fim. \u00c0 mesma esperan\u00e7a e da humanidade inteira, responde hoje Bento XVI, com um a linearidade que s\u00f3 o Esp\u00edrito possibilita, quando Lhe abrimos a intelig\u00eancia e o cora\u00e7\u00e3o: \u201cCristo \u00e9 o rosto de Deus que apareceu entre n\u00f3s!\u201d. Mas j\u00e1 neste \u00faltimo trecho Bento XVI alargava o \u00e2mbito da sua viagem de esperan\u00e7a. Pois se em Cristo temos Deus, \u00e9 \u00e0 humanidade inteira que Deus se oferece e destina. E o Papa sabe e ensina que, tendo em Cristo \u2013 verdadeiro Deus e verdadeiro homem &#8211; a sua figura\u00e7\u00e3o perfeita, Deus tem em cada criatura o seu sinal e na humanidade inteira a sua expectativa, essa mesma a que responde em Cristo. \u00c9 esta a raz\u00e3o teol\u00f3gica que refor\u00e7a e confirma a convic\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica duma humanidade comum e da afinidade geral de todas as consci\u00eancias. Podemos falar de direitos humanos, como de valores e deveres: do que nos devemos uns aos outros, para prosseguirmos juntos e solid\u00e1rios, da unidade de princ\u00edpio para a unidade do fim. Foi esta ordem de ideias que levou Bento XVI \u00e0 Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas, para sublinhar a import\u00e2ncia da Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos Humanos, por ela proclamada h\u00e1 sessenta anos. Reparemos, como muito importa, nos termos em que o Papa o anunciava na sua Mensagem, referindo o car\u00e1cter universal e como que pr\u00e9-confessional destes direitos, ponto important\u00edssimo para compartilharmos com todos, crentes e n\u00e3o crentes, as causas comuns e urgentes que esses mesmo direitos inculcam e tutelam: \u201cLevarei a mensagem da esperan\u00e7a crist\u00e3 tamb\u00e9m \u00e0 grande Assembleia das Na\u00e7\u00f5es Unidas [\u2026]. De facto, o mundo tem necessidade de paz, de justi\u00e7a, de liberdade, mas n\u00e3o poder\u00e1 realizar esta esperan\u00e7a sem obedecer \u00e0 lei de Deus, que Cristo levou a cumprimento no mandamento de nos amarmos uns aos outros. Fazei aos outros o que quereis que seja feito a v\u00f3s, n\u00e3o fa\u00e7ais o que n\u00e3o quereis que eles vos fa\u00e7am. Esta \u2018regra de ouro\u2019 encontra-se na B\u00edblia mas \u00e9 v\u00e1lida para todos; tamb\u00e9m para os n\u00e3o crentes. \u00c9 a lei inscrita na consci\u00eancia humana, e sobre ela todos podemos estar de acordo, de modo que o encontro das diferen\u00e7as seja positivo e construtivo para toda a comunidade humana\u201d. N\u00e3o se poderia ser mais claro, nem mais simples, nem mais oportuno. A grande aclama\u00e7\u00e3o que o Papa ouviu na sala das Na\u00e7\u00f5es Unidas trazia-lhe a concord\u00e2ncia e o reconhecimento da generalidade dos povos. Remontemo-la agora, em louvor, alegria e compromisso renovados, ao perene Criador de todas as coisas, ao constante Benfeitor da Humanidade inteira: a Deus, que na vida, sabedoria e dedica\u00e7\u00e3o pastoral de Bento XVI, nos concede mais uma magn\u00edfica prova do seu cuidado e provid\u00eancia! S\u00e9 do Porto, 20 de Abril de 2008 <i>+ Manuel Clemente, Bispo do Porto <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homilia de D. 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