{"id":3141,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/o-que-e-um-escola-catolica\/"},"modified":"2022-09-14T16:14:51","modified_gmt":"2022-09-14T15:14:51","slug":"o-que-e-um-escola-catolica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-que-e-um-escola-catolica\/","title":{"rendered":"O que \u00e9 um Escola Cat\u00f3lica?"},"content":{"rendered":"<p>Entrevista ao Pe. Jo\u00e3o M\u00f3nica, Presidente da Associa\u00e7\u00e3o Portuguesa de Escolas Cat\u00f3licas. <!--more--> Que \u00e9 uma escola cat\u00f3lica?<\/p>\n<p>\u00c9 uma escola da Igreja Cat\u00f3lica, de diocese de congrega\u00e7\u00e3o religiosa. Mas por que h\u00e1-de a Igreja Cat\u00f3lica ter escolas? E por que n\u00e3o as h\u00e1-de ter? Se como qualquer outra entidade social est\u00e1 devidamente constitu\u00edda, e tem entre os seus objectivos fundamentais ensinar, por que n\u00e3o? Do ponto de vista legal a escola cat\u00f3lica tem tanto direito a existir como qualquer outra institui\u00e7\u00e3o que tenha como objecto da sua ac\u00e7\u00e3o o servi\u00e7o p\u00fablico de Educa\u00e7\u00e3o. Para a Igreja, fundar escolas \u00e9 um direito, n\u00e3o um privil\u00e9gio. N\u00e3o quer mais, mas tamb\u00e9m n\u00e3o aceita menos.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 miss\u00e3o da Igreja ensinar Matem\u00e1tica, L\u00ednguas ou Ci\u00eancias? N\u00e3o seria melhor deixar \u00e0 sociedade esse papel?<\/p>\n<p>Esta pergunta suscita duas quest\u00f5es: 1. A da laicidade, isto \u00e9, da autonomia da sociedade perante o poder religioso. Ela \u00e9 um dado adquirido pela consci\u00eancia colectiva actual. A Igreja aceita esta emancipa\u00e7\u00e3o e reconhece-a como factor de crescimento humano global. 2. A da democracia, isto \u00e9, da autonomia da sociedade perante o poder do estado. \u00c9 tamb\u00e9m uma conquista da consci\u00eancia colectiva moderna, hoje absolutamente irrecus\u00e1vel. N\u00e3o pode expulsar-se a igreja do mundo da escola, em nome da laicidade, assim como n\u00e3o pode expulsar-se o estado, em nome da democracia. A igreja deve estar no mundo da escola, n\u00e3o como um poder, mas como um servi\u00e7o, e o estado tem de saber estar tamb\u00e9m como um servi\u00e7o e n\u00e3o como um poder. O sacro Imp\u00e9rio teve o seu tempo. Ficou para a Hist\u00f3ria. Tamb\u00e9m o seu substituto, o Estado provid\u00eancia, patr\u00e3o e gestor universal da sociedade, faliu nas suas vers\u00f5es mais r\u00edgidas (o comunismo e o fascismo) e sofre profundas metamorfoses na sua vers\u00e3o benigna (a social democracia).<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, de que forma \u00e9 que preconiza a liga\u00e7\u00e3o da Igreja com a escola?<\/p>\n<p>De todas as igrejas, de todos os credos. \u00c9 que os portadores de mensagens religiosas trazem \u00e0 escola uma mais-valia de orienta\u00e7\u00e3o e finalidade de vida. Uma escola neutra \u00e9 um deserto. Mas \u00e9 a escola que a Constitui\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica Portuguesa ainda preconiza como a sua escola. Metamorfose dif\u00edcil. Um p\u00e9 ainda na lama (escola neutra) e outro no sapato (escola com projecto educativo). A igreja est\u00e1 no mundo da escola atrav\u00e9s dos leigos, em todas as escolas e tamb\u00e9m nas escolas como organiza\u00e7\u00f5es. A escola da Igreja, como organiza\u00e7\u00e3o, \u00e9 designada por escola cat\u00f3lica: tem modelos de gest\u00e3o e clima educativo muito pr\u00f3prios, oferece aos jovens e seus educadores e familiares uma vis\u00e3o harmoniosa do cosmos, da vida e do homem e um projecto de vida com valores e horizontes em que a f\u00e9 marca a nascente e o limite.<\/p>\n<p>Mas acha que as escolas cat\u00f3licas, no seu dia a dia, exprimem esse perfil que acaba de definir?<\/p>\n<p>N\u00e3o. H\u00e1 muitas coisas que todos n\u00f3s, da escola cat\u00f3lica, sabemos que precisam de ajustara-se \u00e0 pureza do projecto. Muitas vezes, a nossa pr\u00e1tica, fica-se pelo esbo\u00e7o que esconde mais do que revela, desse projecto mobilizador.<\/p>\n<p>Que impede essa express\u00e3o fiel?<\/p>\n<p>Em primeiro lugar a limita\u00e7\u00e3o humana. N\u00f3s somos sempre peregrinos do sonho. Depois, h\u00e1 as contamina\u00e7\u00f5es mundanas das tenta\u00e7\u00f5es do poder, do ser, do ter. Todos temos de fazer, permanentemente, a reciclagem do poder para o servi\u00e7o, do ser para a abertura, do ter para a partilha. A Associa\u00e7\u00e3o de Escolas Cat\u00f3licas \u00e9 mais um espa\u00e7o e oportunidade de reciclagem. E tamb\u00e9m o I Congresso Nacional da Escola Cat\u00f3lica. Atr\u00e1s falou do Estado patr\u00e3o e gestor.<\/p>\n<p>Acha que, em Portugal, o Estado se comporta como patr\u00e3o e gestor?<\/p>\n<p>O Estado como legislador aprovou em 1976 uma Constitui\u00e7\u00e3o, por maioria simples, mas deixou estabelecido que qualquer altera\u00e7\u00e3o \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o deveria ser aprovada por uma maioria de dois ter\u00e7os. T\u00eam-se feito algumas altera\u00e7\u00f5es muito penosas, mas, mesmo assim, ainda hoje h\u00e1 quem defenda que a Constitui\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica Portuguesa considera o Estado como \u00fanico detentor do direito e dever de ter escola, como servi\u00e7o p\u00fablico. Nesta \u00e1rea da educa\u00e7\u00e3o, permanecem ainda na C.R.P. uns restos do esp\u00edrito convulsivo do p\u00f3s 25 de Abril. O D.L.9\/79, aprovado com os votos do P.S.D., P.S. e C.D.S., \u00e9 uma verdadeira carta magna do direito do ensino privado como prestador de servi\u00e7o p\u00fablico, do direito dos pais escolherem a escola e da obriga\u00e7\u00e3o do Estado de prestar apoio financeiro \u00e0s fam\u00edlias. Mas os governos est\u00e3o sempre em crise financeira e l\u00eaem sempre as leis com cifr\u00f5es nos \u00f3culos e n\u00e3o respeitam as leis que eles pr\u00f3prios fizeram e que a Assembleia da Rep\u00fablica aprovou. De facto, os v\u00e1rios governos, nesta quest\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o, sem qualquer pacto de regime, t\u00eam sido fracos. As leis n\u00e3o s\u00e3o claras e permitem uma instabilidade social a que nenhum governo resiste. Por isso, \u00e9 minha opini\u00e3o que n\u00e3o haver\u00e1 escola-para-os-alunos, enquanto o quadro legal que estabelece e organiza a escola em Portugal, n\u00e3o for claro. Com leis fracas, s\u00f3 os d\u00e9spotas subsistem. Nem sequer de leis precisam. Os outros caem ou saem, feridos ou desiludidos.<\/p>\n<p>Por que h\u00e1-de a Igreja querer que o Estado financie as suas escolas?<\/p>\n<p>E porque n\u00e3o? E por que h\u00e1-de financiar os partidos? Fazer pol\u00edtica constr\u00f3i mais a Na\u00e7\u00e3o do que fazer cultura? Sem partidos n\u00e3o h\u00e1 democracia? E sem cultura n\u00e3o h\u00e1 mem\u00f3ria, nem presente, nem futuro, nem Na\u00e7\u00e3o. Mas esta \u00e9 uma resposta correcta a uma pergunta mal formulada. A igreja n\u00e3o quer que o Estado financie as suas escolas. Quer que financie os seus alunos. Reclama para os seus alunos e respectivos educadores o direito de escolher escola e poder usufruir dos financiamentos do Estado, provenientes tamb\u00e9m dos seus impostos, conforme dizem as leis.<\/p>\n<p>Qual a raz\u00e3o de ser de um Congresso, agora?<\/p>\n<p>Fa\u00e7o primeiro a contextualiza\u00e7\u00e3o; e posso sumariamente descrev\u00ea-la assim: &#8211; O Congresso realiza-se num tempo em que a neutralidade e o relativismo s\u00e3o o ambiente educativo que, da sociedade, passa para as escolas. Os jovens est\u00e3o mergulhados numa onda de inseguran\u00e7a, individualismo, consumismo, isolamento e at\u00e9, marginalidade. Os modelos organizacionais da sociedade e os comportamentos manifestam alguma decomposi\u00e7\u00e3o e v\u00e3o-se desacreditando. N\u00f3s vemos que o mundo dos pobres cresce cada vez mais e as riquezas acumulam-se nas m\u00e3os de cada vez menos. E a corrup\u00e7\u00e3o chega \u00e0s nossas casas, todos os dias, atrav\u00e9s da comunica\u00e7\u00e3o social. O sistema de ensino, em Portugal, que deveria ser um servi\u00e7o inequ\u00edvoco \u00e0s comunidades, est\u00e1 nas m\u00e3os de muitos interesses que relegam o bem dos alunos para um plano secund\u00e1rio. E o insucesso escolar parece um mal inultrapass\u00e1vel, que vai resistindo a reformas sucessivas. O servi\u00e7o p\u00fablico de ensino merece muito mais. Depois desta contextualiza\u00e7\u00e3o feita, torna-se claro que a escola cat\u00f3lica n\u00e3o pode ficar indiferente a estes sinais de crise. Por isso mesmo, ela tem de aprofundar e partilhar a sua proposta educativa na sua universalidade, na sua liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Pessoa e Mensagem de Jesus Cristo, na sua inser\u00e7\u00e3o na Miss\u00e3o Evangelizadora da Igreja, aberta a todos, na sua participa\u00e7\u00e3o na miss\u00e3o societ\u00e1ria de educar privilegiando e promovendo o direito e responsabilidade da fam\u00edlia no processo educativo; na sua for\u00e7a, como proposta e desafio a todos os sujeitos educativos. \u00c9 neste contexto e por todas estas raz\u00f5es que surge este Congresso.<\/p>\n<p>S\u00f3 mais uma quest\u00e3o: que mais desejaria para a Escola Cat\u00f3lica em Portugal?<\/p>\n<p>Que fosse cada vez mais cat\u00f3lica, na sua capacidade de acolhimento, isto \u00e9, aberta a todos, sobretudo aos mais carecidos de p\u00e3o e afecto, exigindo de si pr\u00f3pria aquilo que reclama de todos: acesso livre e gratuito \u00e0s suas ofertas e propostas educativas. Que acrescentasse \u00e0 sua especificidade de ser escola de vida, com os seus valores e horizontes, a qualidade t\u00e9cnica e pedag\u00f3gica que leve cada crian\u00e7a e jovem at\u00e9 ao limite do seu crescimento poss\u00edvel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista ao Pe. 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