{"id":313780,"date":"2024-02-12T10:41:27","date_gmt":"2024-02-12T10:41:27","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=313780"},"modified":"2024-02-12T10:41:27","modified_gmt":"2024-02-12T10:41:27","slug":"primeiro-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/primeiro-deus\/","title":{"rendered":"Primeiro, Deus!"},"content":{"rendered":"<p><em>Maria de F\u00e1tima Moreira Martins, Diocese de Lamego<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Celebr\u00e1mos, recentemente, a 2 de fevereiro, Festa da Apresenta\u00e7\u00e3o do Senhor, o XXVIII Dia Mundial da Vida Consagrada. Pelo Batismo todos somos consagrados a Deus, ungidos pelo Esp\u00edrito de Cristo, tornando-nos sua perten\u00e7a. \u00abSomos de Deus\u00bb (1 Jo 4,6a). Por\u00e9m, \u00abdesde os princ\u00edpios da Igreja existiram homens e mulheres que, pela pr\u00e1tica dos conselhos evang\u00e9licos [castidade, pobreza, obedi\u00eancia], se propuseram seguir a Cristo com maior liberdade e imit\u00e1-lo mais de perto, vivendo cada um a seu modo, uma vida consagrada a Deus\u00bb (C. Vaticano II<em>, Perfectae Caritatis<\/em>, 1). No contexto global e eclesial que habitamos, que sentido tem propor a Vida Consagrada como caminho plaus\u00edvel, capaz de preencher o cora\u00e7\u00e3o humano?<\/p>\n<p>A reflex\u00e3o em torno da Vida Consagrada remete-nos, sempre, para a sua raiz, para a sua fonte e meta: Deus. Esta chave de leitura \u00e9 condi\u00e7\u00e3o <em>sine qua non<\/em> para interpretar tal dedica\u00e7\u00e3o [a Deus] de cora\u00e7\u00e3o indiviso. Afinal, que restaria de uma Vida Consagrada sem Deus ou sem Cristo? Talvez o altru\u00edsmo, a busca por um mundo mais humano, mas faltar-lhe-ia a ess\u00eancia, a sua raz\u00e3o teol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Como faz quest\u00e3o de sublinhar o nosso bispo, D. Ant\u00f3nio Couto, os Consagrados s\u00e3o pessoas chamadas pelo nome, a quem compete viver na passiva, viver para responder e testemunhar. N\u00e3o lhes pertence a iniciativa, nem a primeira palavra. A primeira palavra, o primeiro dizer \u00e9 de Deus. Sim! \u00abDeus \u00e9 amor. N\u00f3s amamos, porque Ele nos amou primeiro\u00bb (1 Jo 4, 16b.19). \u00c0 palavra primeira, que vem de fora, nos \u2018assalta\u2019 e faz estremecer, ou seja, ao puro dom divino, s\u00f3 nos cabe responder, tornando-nos suas testemunhas. E porque sem Deus n\u00e3o pode haver chamados, vocacionados, temos que saber entregar Deus a este mundo e anunciar Cristo por todo o lado (cf. Ant\u00f3nio Couto, <em>Homilia<\/em> de 04.02.2024).<\/p>\n<p>A verdadeira miss\u00e3o dos Consagrados \u00e9, por conseguinte, seguir os passos de Jesus, colocar-se atr\u00e1s de Jesus, permanecer com Ele, aprender com Ele, alimentar-se dele, ser ungido para O anunciar (cf. Mc 1,16-20). Desta sorte, embora se denomine \u2018consagra\u00e7\u00e3o\u2019 a oferta inteira da vida toda a Deus, nunca \u00e9 demais sublevar que, hoje como outrora aos profetas e ao pr\u00f3prio Jesus, \u00e9 Deus que consagra e envia. Qual \u00e9, ent\u00e3o, a tarefa primordial dos que se devotam a Cristo nesta forma de vida? Adorar. \u00abAdorar a Deus \u00e9 o afazer dos Consagrados\u00bb, sendo que por adorar se entende a orienta\u00e7\u00e3o da vida toda para Deus, em resposta filial, reconhecendo em tudo o primado de Deus (Ant\u00f3nio Couto, <em>Fundamenta\u00e7\u00e3o B\u00edblica da Vida Consagrada<\/em>, in <em>A ess\u00eancia da Vida Consagrada<\/em>, p. 17ss).<\/p>\n<p>Seria imposs\u00edvel percorrer em t\u00e3o poucas linhas o manancial riqu\u00edssimo de documentos do Magist\u00e9rio Pontif\u00edcio e Eclesial acerca da Vida Consagrada, sobremaneira desde o II Conc\u00edlio do Vaticano aos nossos dias. Contudo, importa notar que a mesma \u00e9, ami\u00fade, apontada \u00abcomo um sinal luminoso do Reino dos C\u00e9us\u00bb (C. Vaticano II, <em>Perfectae Caritatis<\/em>, 1), e tanto mais brilhar\u00e1, para gl\u00f3ria do Pai, quanto mais os Consagrados, individual e comunitariamente, forem fi\u00e9is aos compromissos assumidos, que se condensam no compromisso de seguir Jesus, que \u00e9 o mesmo que dizer, viver o Evangelho, segundo a sua \u00edndole carism\u00e1tica.<\/p>\n<p>S\u00e3o profundos os desafios da sociedade hodierna \u00e0 Vida Consagrada, os quais t\u00eam ocupado estudos, assembleias, cap\u00edtulos e decis\u00f5es dos Institutos. Desses desafios versa, por exemplo, o 39\u00ba Encontro Nacional da Vida Consagrada em Portugal (10 a 13\/02\/2024). Que sinal ou sinais pode a Vida Consagrada oferecer, hoje? De entre os muitos que poder\u00edamos enunciar, aponto quatro, atravessados pelo sinal da superabund\u00e2ncia da gratuidade (cf. Jo\u00e3o Paulo II, <em>Vita Consecrata<\/em>, 104).<\/p>\n<p><em>O sinal da fraternidade:<\/em> Numa era em que a paz mundial e a conviv\u00eancia comum est\u00e3o fortemente feridas e amea\u00e7adas, os Consagrados, enquanto membros de uma comunidade concreta e de uma fam\u00edlia alargada, fundada sobre os la\u00e7os do Esp\u00edrito (n\u00e3o nos da consanguinidade ou da afinidade superficial), podem ser sinal da fraternidade humana querida por Deus. Experimentando, no seu seio, a beleza e as dores da comunh\u00e3o intercultural e intergeracional, testemunhar\u00e3o que uma conviv\u00eancia sadia \u00e9 poss\u00edvel, que \u00e9 poss\u00edvel tecer la\u00e7os de irmandade e de amizade aut\u00eanticas, aproximando-se, escutando, respeitando e crescendo com as diferen\u00e7as. A pergunta \u00abonde est\u00e1 o teu irm\u00e3o?\u00bb (Gn 4,9a) n\u00e3o pode ficar sem resposta. S\u00f3 assumindo os riscos da hospitalidade se derrubar\u00e3o as barreiras da globaliza\u00e7\u00e3o da indiferen\u00e7a da qual tanto tem falado o Papa Francisco (cf. Francisco, <em>Mensagem para a Quaresma 2024<\/em>).<\/p>\n<p><em>O sinal da comunh\u00e3o eclesial:<\/em> Membros de uma Igreja sinodal em sa\u00edda, os Consagrados s\u00e3o convocados a um renovado <em>sentire cum ecclesia, <\/em>para l\u00e1 da ades\u00e3o aos modos e m\u00e9todos antigos de evangelizar. Convocados a fortalecer a f\u00e9 no Deus das surpresas e, atentos ao sussurro dos irm\u00e3os, ir \u00e0s periferias existenciais, onde os \u2018milagres\u2019 humildes e pequenos acontecem. Parte integrante do corpo org\u00e2nico que \u00e9 a Igreja, a Vida Consagrada ser\u00e1 tanto mais sinal da Luz quanto mais comungar com o que o Esp\u00edrito diz \u00e0 Igreja, mesmo que essa comunh\u00e3o s\u00f3 se expresse pela simples presen\u00e7a, pelo ser e estar \u2018a\u00ed\u2019, por vezes com risco para a pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p><em>O sinal do servi\u00e7o:<\/em> Nos tradicionais campos de miss\u00e3o (escolas, hospitais, casas de acolhimento, catequese, etc.) ou nos novos are\u00f3pagos (cuidado da cria\u00e7\u00e3o, di\u00e1logo inter-religioso e ecum\u00e9nico, meios digitais, refugiados e migrantes, escravaturas modernas, etc.), os Consagrados, enviados pelo Esp\u00edrito, d\u00e3o largas ao seu \u00edmpeto evangelizador, amando e servindo. Desta forma, a ousadia de inclinar-se \u00abem presen\u00e7a do irm\u00e3o ferido\u00bb (Francisco, <em>Mensagem para a Quaresma 2024<\/em>), isto \u00e9, perante os mais pobres e desprotegidos, ser\u00e1 um sinal eloquente. O cuidado, o sil\u00eancio, a escuta, a palavra, o gesto, a ora\u00e7\u00e3o e at\u00e9 a impot\u00eancia para intervir, tamb\u00e9m, construir\u00e3o o Reino.<\/p>\n<p><em>O sinal da esperan\u00e7a: <\/em>Seduzidos pela contempla\u00e7\u00e3o da beleza do Esposo, que se apresenta com mil rostos (cf. Jo\u00e3o Paulo II, <em>Mulieris Dignitatem<\/em>, 21), os Consagrados s\u00e3o convidados \u00e0 profecia de uma esperan\u00e7a alegre e confiante, que alarga horizontes e conduz ao Eterno. \u00abA vis\u00e3o da esperan\u00e7a \u00e9 geradora, adere com alegria ao que o Esp\u00edrito est\u00e1 a realizar, hoje. [\u2026] O acolhimento do Esp\u00edrito torna-nos capazes de criatividade e aud\u00e1cia, enquanto vivermos a nossa <em>sequela Christi<\/em>\u00bb (CIVCSVA, <em>Anunciai<\/em>, 90). Nesta linha se orienta o tema do jubileu a celebrar em 2025, \u00abPeregrinos da Esperan\u00e7a\u00bb, j\u00e1 em prepara\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima pelo \u00abAno da Ora\u00e7\u00e3o\u00bb em curso.<\/p>\n<p>Nos dias dram\u00e1ticos que enfrentamos, os Consagrados, conscientes da sua fragilidade e pecado, \u00abvoltados para Deus em expetativa\u00bb, cultivar\u00e3o um cora\u00e7\u00e3o vigilante, apto para perscrutar os g\u00e9rmenes de vida nova, e experimentar\u00e3o, como diz Francisco, \u00abo lampejar duma nova esperan\u00e7a\u00bb como se de um parto se tratasse. Ademais, todos os dias nos visita o Senhor de modo imprevis\u00edvel. A salvaguarda de uma vida interior rica e intensa e a coer\u00eancia com o estilo do Evangelho falar\u00e3o por si (cf. Francisco, <em>Homilia<\/em> de 02.02.2024; <em>Mensagem para a Quaresma 2024<\/em>). Primeiro, Deus!<\/p>\n<p><em>Maria de F\u00e1tima Moreira Martins (CONFHIC), Diocese de Lamego<\/em><\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-313782 size-large\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/religiosos-lamego-1024x683.jpeg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/religiosos-lamego-1024x683.jpeg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/religiosos-lamego-390x260.jpeg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/religiosos-lamego-768x512.jpeg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/religiosos-lamego-391x260.jpeg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/religiosos-lamego-1536x1024.jpeg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/religiosos-lamego.jpeg 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