{"id":31352,"date":"2008-04-15T11:25:04","date_gmt":"2008-04-15T11:25:04","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/04\/15\/arte-com-simplicidade-e-harmonia\/"},"modified":"2008-04-15T11:25:04","modified_gmt":"2008-04-15T11:25:04","slug":"arte-com-simplicidade-e-harmonia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/arte-com-simplicidade-e-harmonia\/","title":{"rendered":"Arte com simplicidade e harmonia"},"content":{"rendered":"<p>No Dia Internacional dos Monumentos e S\u00edtios, \u00e9 oportuno que a Igreja, entre n\u00f3s respons\u00e1vel por vast\u00edssimo patrim\u00f3nio cultural edificado (monumental ou n\u00e3o), reflicta sobre esse tema intencionalmente relembrado. O mesmo se diga quanto aos s\u00edtios cultural e pastoralmente significativos. Tomemos um s\u00edtio de todos conhecido: F\u00e1tima. \u00c9 um imenso santu\u00e1rio consagrado ao culto mariano, no interior do qual e ao longo dos tempos foram sendo erigidos v\u00e1rios monumentos que, formalmente, nada t\u00eam de comum entre si: a chamada Capelinha das Apari\u00e7\u00f5es, mais tarde a Bas\u00edlica e recentemente a Igreja da Sant\u00edssima Trindade. Cada um destes elementos a seu modo justifica a designa\u00e7\u00e3o de monumento. A Capelinha, porque \u00e9 evocativa e perpetua uma mem\u00f3ria transcendente. A Bas\u00edlica, pela sua arquitectura majestosa e singular que manifesta o car\u00e1cter sagrado quer do seu espa\u00e7o Interior, quer do s\u00edtio em que est\u00e1, e com o qual se relaciona fisicamente pela colunata. No topo oposto, a grande nave do novo templo que, no santu\u00e1rio mariano congrega e convida os peregrinos \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o do grande mist\u00e9rio fundamental da Sant\u00edssima Trindade. Outros pequenos monumentos de diferente car\u00e1cter se poderiam apontar, como seja a est\u00e1tua de Jo\u00e3o Paulo II, ou a pr\u00f3pria azinheira com toda a sua carga simb\u00f3lica. Assim entendido, o conceito de monumento n\u00e3o se caracteriza tanto pelo que habitualmente designamos por monumentalidade, mas muito mais peta carga simb\u00f3lica que possa estar na sua g\u00e9nese e que desejavelmente se reflecte na sua forma. No caso de F\u00e1tima, o local e os acontecimentos nele vividos, foram o motivo determinante da sua progressiva \u201cmonumentaliza\u00e7\u00e3o\u201d. E F\u00e1tima tornou-se um S\u00edtio. Monumentos e S\u00edtios integram aquilo a que vulgarmente chamamos Patrim\u00f3nio com \u201cP\u201d e que justifica cuidados de protec\u00e7\u00e3o e preserva\u00e7\u00e3o. Classificados ou n\u00e3o, s\u00e3o valores culturais que nos conferem uma identidade pr\u00f3pria em que nos reconhecemos e pela qual nos damos a conhecer. H\u00e1 Patrim\u00f3nio que vem de tr\u00e1s e deste somos \u201cfi\u00e9is deposit\u00e1rios\u201d. \u00c9 uma responsabilidade muito exigente. N\u00e3o menor nem menos exigente \u00e9 a responsabilidade, que tamb\u00e9m nos cabe, de gerarmos novos valores patrimoniais, culturalmente fecundos, nomeadamente ao edificarmos novas igrejas. Mas tamb\u00e9m ao compormos novos c\u00e2nticos ou ao procurarmos novas iconografias. Que todos os nossos gestos lit\u00fargicos sejam tocados pela beleza, que todos sejam obra de arte, desde a arquitectura at\u00e9 \u00e0 alfaia, da escultura ao vitral, passando pela m\u00fasica e pela paramentaria at\u00e9 \u00e0 simples toalha de altar ou ao arranjo de uma jarra de flores. No seu conjunto, e no pressuposto da sua efectiva qualidade art\u00edstica, esses gestos ser\u00e3o testemunhos do nosso tempo e do modo como nele nos situamos. O que nos \u00e9 pedido, n\u00e3o ser\u00e1 a produ\u00e7\u00e3o de arte sacra para um qualquer museu. \u00c9-nos exigido anunciar a Boa Nova tamb\u00e9m por essa via das artes. Isso empenha quem faz e quem pede que seja feito. Neste contexto, e retomando ao exemplo de F\u00e1tima, bem nos podemos interrogar onde encaixar toda a quinquilharia de barro, pl\u00e1stico, trapo, pau ou vidro que por l\u00e1 se encontra e se apresenta como artesanato religioso. Como \u00e9 evidente, a responsabilidade a que acima nos referimos n\u00e3o \u00e9 exclusivamente imput\u00e1vel \u00e0 Igreja, nem respeita exclusivamente aos Monumentos e S\u00edtios e ao Patrim\u00f3nio dos Bens Culturais da Igreja. Mas a Igreja ter\u00e1 responsabilidade acrescida, n\u00e3o s\u00f3 enquanto propriet\u00e1ria de vasto e muito significativo Patrim\u00f3nio, mas tamb\u00e9m enquanto geradora de novos valores culturais ou, pelo menos enquanto sua \u201cconsumidora\u201d. A Igreja usou desde sempre a linguagem das artes para se exprimir. A linguagem da pr\u00f3pria liturgia \u00e9 de natureza art\u00edstica. Essa mesma natureza n\u00e3o se compadece com modelos estereotipados e meramente convencionais. Quando isso acontece, \u00e9 a pr\u00f3pria viv\u00eancia lit\u00fargica que entra em rotina, e com ela estiola o esp\u00edrito criador que a F\u00e9 e o Amor exigem. O nosso tempo poder\u00e1 n\u00e3o ser o mais estimulante para as artes sacras, como tamb\u00e9m o n\u00e3o ser\u00e1 para outras manifesta\u00e7\u00f5es das artes profanas (se \u00e9 que isto existe). Simplesmente, a Igreja n\u00e3o pode hoje abdicar delas e, para isso, n\u00e3o pode e n\u00e3o deve ficar dependente das dificuldades circunstanciais que a possam afectar, como sejam a eventual imprepara\u00e7\u00e3o dos artistas ou do pr\u00f3prio clero. H\u00e1 que promover o interesse e a prepara\u00e7\u00e3o de uns e outros. Que as habituais dificuldades econ\u00f3micas n\u00e3o sejam motivo de recurso a expedientes de crit\u00e9rio duvidoso, mas antes incentivo para maior exig\u00eancia de sensata, modesta e humilde procura da simplicidade reveladora do esplendor de Deus (\u201cOlhai os l\u00edrios do campo&#8230;\u201d). Nos nossos dias, n\u00e3o ser\u00e1 pela ostenta\u00e7\u00e3o, ou pelo triunfalismo, que daremos o testemunho que nos \u00e9 pedido. Ser\u00e1 sim pela harmonia que formos capazes de encontrar no uso das formas, dos materiais ou dos gestos, por mais simples e despojados que sejam, tornando-os assim capazes de revelarem a verdadeira fonte de toda a beleza. Ser\u00e1 da\u00ed que poder\u00e3o nascer novos \u201cmonumentos\u201d.  <i>Arquitecto Diogo Pimentel, Departamento das Novas Igrejas do Patriarcado de Lisboa<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No Dia Internacional dos Monumentos e S\u00edtios, \u00e9 oportuno que a Igreja, entre n\u00f3s respons\u00e1vel por vast\u00edssimo patrim\u00f3nio cultural edificado (monumental ou n\u00e3o), reflicta sobre esse tema intencionalmente relembrado. O mesmo se diga quanto aos s\u00edtios cultural e pastoralmente significativos. 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