{"id":31314,"date":"2008-04-14T10:34:38","date_gmt":"2008-04-14T10:34:38","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/04\/14\/o-movimento-dos-cursilhos-de-cristandade-na-nova-evangelizacao-da-europa\/"},"modified":"2008-04-14T10:34:38","modified_gmt":"2008-04-14T10:34:38","slug":"o-movimento-dos-cursilhos-de-cristandade-na-nova-evangelizacao-da-europa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-movimento-dos-cursilhos-de-cristandade-na-nova-evangelizacao-da-europa\/","title":{"rendered":"O Movimento dos Cursilhos de Cristandade na nova evangeliza\u00e7\u00e3o da Europa"},"content":{"rendered":"<p>1. O estado actual da Europa quanto \u00e0 evangeliza\u00e7\u00e3o  Para tratar o tema que me deram para esta Ultreia Europeia, procurei antes de mais um texto do Magist\u00e9rio que o situasse devidamente. E olhando para as publica\u00e7\u00f5es pontif\u00edcias destes primeiros anos do s\u00e9culo XXI, n\u00e3o encontrei nenhum t\u00e3o claro e expressivo como o seguinte:  \u201cEm v\u00e1rias partes da Europa, h\u00e1 necessidade do primeiro an\u00fancio do Evangelho: aumenta o n\u00famero das pessoas n\u00e3o baptizadas, seja pela consistente presen\u00e7a de imigrantes que pertencem a outras religi\u00f5es, seja tamb\u00e9m porque fam\u00edlias de tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 n\u00e3o baptizaram os filhos devido ao jugo comunista ou a uma generalizada indiferen\u00e7a religiosa. Com efeito, a Europa faz parte j\u00e1 daqueles espa\u00e7os tradicionalmente crist\u00e3os, onde, para al\u00e9m duma nova evangeliza\u00e7\u00e3o, se requer em determinados casos a primeira evangeliza\u00e7\u00e3o. A Igreja n\u00e3o pode subtrair-se ao dever dum corajoso diagn\u00f3stico, que lhe permita predispor as terapias mais oportunas. Mesmo no \u2018velho\u2019 continente existem extensas \u00e1reas sociais e culturais onde se torna necess\u00e1ria uma verdadeira e pr\u00f3pria missio ad gentes\u201d (Jo\u00e3o Paulo II, Exorta\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica p\u00f3s-sinodal Ecclesia in Europa [\u2026] sobre Jesus Cristo, vivo na sua Igreja, fonte de esperan\u00e7a para a Europa, 28 de Junho de 2003, n\u00ba 46).    Basta-nos desfiar uma a uma as sucessivas afirma\u00e7\u00f5es deste n\u00famero da exorta\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica para termos a percep\u00e7\u00e3o viva, quer do estado actual do nosso continente \u2013 que n\u00e3o mudou sensivelmente nos \u00faltimos cinco anos quanto ao ponto em an\u00e1lise -, quer do que h\u00e1 a fazer com maior aplica\u00e7\u00e3o e urg\u00eancia. Para notar, mais ainda, que esta aplica\u00e7\u00e3o e urg\u00eancia coincidem muito bem com o que \u00e9 pr\u00f3prio dos Cursilhos de Cristandade e do seu m\u00e9todo. Se h\u00e1 parte do mundo em que n\u00e3o deveria urgir um primeiro an\u00fancio do Evangelho, seria precisamente a Europa. Na verdade, embora nascido na \u00c1sia, o cristianismo rapidamente chegou \u00e0 Europa e aqui encontrou, entre a Gr\u00e9cia e Roma, algumas das suas primeiras e mais definitivas express\u00f5es, comunit\u00e1rias e evangelizadoras. E, se \u00e9 verdade que a Igreja dos primeiros s\u00e9culos foi igualmente asi\u00e1tica e norte-africana, tamb\u00e9m \u00e9 verdade que, depois da expans\u00e3o \u00e1rabe e mu\u00e7ulmana, do s\u00e9culo VII e seguintes, foi sobretudo o cristianismo europeu (bizantino, romano, etc) que mais se afirmou. Afirmou-se primeiro nessa longa s\u00e9rie de iniciativas mission\u00e1rias que, at\u00e9 ao s\u00e9culo X, iam convertendo os povos \u201cb\u00e1rbaros\u201d que se tinham sobreposto ao Imp\u00e9rio Romano, extravasando ali\u00e1s a sua antiga geografia. E afirmou-se depois, a partir do s\u00e9culo XV, com a expans\u00e3o mar\u00edtima dos reinos ib\u00e9ricos e outros. Indubitavelmente, grande parte das Igrejas crist\u00e3s e cat\u00f3licas que hoje se espalham pelos cinco continentes s\u00e3o directa ou indirectamente oriundas da antiga Cristandade ib\u00e9rica e europeia. E, no entanto, a exorta\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica \u00e9 perempt\u00f3ria: \u201cEm v\u00e1rias partes da Europa, h\u00e1 necessidade do primeiro an\u00fancio do Evangelho\u201d. Apresenta de seguida duas raz\u00f5es: a presen\u00e7a de imigrantes com outras religi\u00f5es e a inconsequ\u00eancia de fam\u00edlias tradicionalmente crist\u00e3s que, tocadas pelo ate\u00edsmo ou pelo indiferentismo religioso, j\u00e1 n\u00e3o baptizaram os filhos.  S\u00e3o duas causas maiores, de facto, e com ra\u00edzes que v\u00eam de tr\u00e1s. No Leste europeu, especialmente, o ate\u00edsmo militante, que a\u00ed imperou durante sete longas e duras d\u00e9cadas ou depois da Segunda Guerra Mundial, \u00e9 herdeiro, por via das filosofias em que assentou, da rejei\u00e7\u00e3o positivista e materialista da religi\u00e3o, aliada \u00e0 inconsequ\u00eancia pr\u00e1tica de muitos governantes e agentes econ\u00f3micos, que esqueceram ou rejeitaram os ditames evang\u00e9licos que incidem nesses campos. Ao longo do s\u00e9culo XIX, desarticulou-se profundamente a antiga sociedade rural e tradicional em que a vida assentara durante s\u00e9culos e onde a religi\u00e3o crist\u00e3 \u2013 mesmo dividida entre cat\u00f3licos, ortodoxos e protestantes \u2013 garantia um fundo de ideias, sentimentos e pr\u00e1ticas geralmente aceites e integradoras.  N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida tamb\u00e9m de que muito do sucesso que o ate\u00edsmo encontrou na Europa dos \u00faltimos cem anos proveio da demora dos crentes em encontrar respostas te\u00f3ricas e pr\u00e1ticas para esses enormes desafios da sociedade e da cultura. Como igualmente se pode dizer que a Europa crist\u00e3 resistiu a tal repto onde encontrou crentes que, exactamente nesses campos, nem desistiram de ser socialmente consequentes nem deixaram de procurar as melhores raz\u00f5es para comunicarem a sua esperan\u00e7a. Com eles nasceu, por exemplo, essa enorme contribui\u00e7\u00e3o que, desde o papa Le\u00e3o XIII vem alargando a \u201cDoutrina Social da Igreja\u201d. Mas n\u00e3o foi apenas o ate\u00edsmo ideol\u00f3gico e de Estado que quase obnubilou a tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 de grandes zonas do nosso continente. Como a exorta\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica constata, fam\u00edlias houve que se deixaram contaminar \u201cpor uma generalizada indiferen\u00e7a religiosa\u201d, ao ponto de nem se preocuparem em passar aos descendentes uma heran\u00e7a crist\u00e3 propriamente dita, em termos de catequese e sacramentos. Pessoalmente desmotivadas, essas pessoas perderam a pr\u00e1tica e tamb\u00e9m n\u00e3o acharam importante integrar os seus filhos na vida da Igreja. O Baptismo passou, quando muito, a ser uma possibilidade, deixada \u00e0 escolha dos filhos quando crescerem\u2026  Indiferen\u00e7a religiosa, agora poss\u00edvel, mesmo se n\u00e3o desej\u00e1vel. Poss\u00edvel, porque a defini\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica deixou de ser feita em termos religiosos, o que em si mesmo \u00e9 um ganho, como democracia e s\u00e3 laicidade. N\u00e3o desej\u00e1vel \u00e9 que, por n\u00e3o ser politicamente vinculativa, a convic\u00e7\u00e3o religiosa passe a ser algo de relativo, subjectivo e irrelevante. Ali\u00e1s, o sentido da vida, a avalia\u00e7\u00e3o e a escolha face \u00e0s propostas religiosas, a coer\u00eancia entre f\u00e9 e vida s\u00e3o valores pessoais e indispens\u00e1veis, para quem n\u00e3o desista de si e dos outros. N\u00e3o se trata de fanatismo ou intoler\u00e2ncia, mas sim de levar a vida a s\u00e9rio, tamb\u00e9m nesta dimens\u00e3o do sentido transcendente dela. Tamb\u00e9m n\u00e3o se trata de impor a pr\u00f3pria cren\u00e7a, mas de n\u00e3o desistir de a aprofundar e de a partilhar com os outros e as respectivas cren\u00e7as tamb\u00e9m, com um crit\u00e9rio de avalia\u00e7\u00e3o geral e seguro, face aos respectivos resultados mais ou menos humanizantes. No entanto, a realidade est\u00e1 a\u00ed, significando demasiadas vezes a secundariza\u00e7\u00e3o, a indiferen\u00e7a e o esquecimento, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s convic\u00e7\u00f5es religiosas. Para que a assun\u00e7\u00e3o moderna da cren\u00e7a sucedesse \u00e0 sua viv\u00eancia tradicional, precisaria de est\u00edmulo pessoal e comunit\u00e1rio, gosto de catequese continuada, ocasi\u00e3o de progresso e partilha. Ora, demasiadas vezes, nada disso se verificou: saiu-se da aldeia para a cidade, perdendo-se a liga\u00e7\u00e3o paroquial; defrontaram-se novos ambientes e ideias, sem apoio intelectual e moral; encontraram-se contrastes e aparentes desmentidos em rela\u00e7\u00e3o ao que se fazia e acreditava, e tudo abalou mais e mais\u2026 Ficou algum fundo ou apego, sobretudo em ocasi\u00f5es de luto ou necessidade; mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 com isto se mant\u00e9m uma f\u00e9 viva e activa, nem pessoal, nem familiarmente. O documento menciona tamb\u00e9m a \u201cconsistente presen\u00e7a de imigrantes que pertencem a outras religi\u00f5es\u201d. \u00c9 natural que, no ambiente acima descrito, se sintam pouco atra\u00eddos por um \u201ccristianismo\u201d t\u00e3o dilu\u00eddo, quando n\u00e3o contrariado por alguns que ainda lhe usam o nome. Importaria que, pelos menos, tivessem oportunidade de conhecer a heran\u00e7a crist\u00e3 europeia, quer no pensamento como na f\u00e9, na arte como na caridade: quando tal acontece \u00e9 um ganho certo do di\u00e1logo inter-religioso e da constru\u00e7\u00e3o da paz.  \u00c9 neste quadro que a exorta\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica adianta: \u201ca Europa faz parte j\u00e1 daqueles espa\u00e7os tradicionalmente crist\u00e3os, onde, para al\u00e9m duma nova evangeliza\u00e7\u00e3o, se requer em determinados casos a primeira evangeliza\u00e7\u00e3o\u201d. S\u00e3o conceitos distintos e ambos necess\u00e1rios. Recorrentes nos documentos de Jo\u00e3o Paulo II, importa retom\u00e1-los aqui. Na sua enc\u00edclica Redemptoris Missio, sobre a permanente validade do mandato mission\u00e1rio, de 7 de Dezembro de 1990, n\u00ba 33, encontramos uma refer\u00eancia fundamental:  \u201cOlhando o mundo de hoje, do ponto de vista da evangeliza\u00e7\u00e3o, podemos distinguir tr\u00eas situa\u00e7\u00f5es distintas. Antes de mais, temos aquela a que se dirige a actividade mission\u00e1ria da Igreja: povos, grupos humanos, contextos s\u00f3cio-culturais onde Cristo e o seu Evangelho n\u00e3o \u00e9 conhecido, onde faltam comunidades crist\u00e3s suficientemente amadurecidas para poderem encarnar a f\u00e9 no pr\u00f3prio ambiente e anunci\u00e1-la a outros grupos. Esta \u00e9 a miss\u00e3o ad gentes. Aparecem depois as comunidades crist\u00e3s que possuem s\u00f3lidas e adequadas estruturas eclesiais, s\u00e3o fermento de f\u00e9 e de vida, irradiando o testemunho do Evangelho no seu ambiente, e sentindo o compromisso da miss\u00e3o universal. Nelas se desenvolve a actividade ou cuidado pastoral da Igreja. Finalmente, existe a situa\u00e7\u00e3o interm\u00e9dia, especialmente nos pa\u00edses de antiga tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3, mas, por vezes, tamb\u00e9m nas Igrejas mais jovens, onde grupos inteiros de baptizados perderam o sentido vivo da f\u00e9, n\u00e3o se reconhecendo j\u00e1 como membros da Igreja e conduzindo uma vida distante de Cristo e do seu Evangelho. Neste caso, torna-se necess\u00e1ria uma \u2018nova evangeliza\u00e7\u00e3o\u2019, ou re-evangeliza\u00e7\u00e3o\u2019\u201d.  O texto \u00e9 de 1990, 13 anos anterior ao primeiro que analis\u00e1mos. Interessante \u00e9 notar que na exorta\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica p\u00f3s-sinodal sobre a Europa, esta j\u00e1 \u00e9 considerada, ao menos em parte, como objecto da miss\u00e3o ad gentes! \u00c9 for\u00e7oso verific\u00e1-lo, bem como ao facto de, hoje em dia, a vitalidade do cristianismo, quantitativa e qualitativamente falando, ser mais not\u00f3ria na \u00c1frica, na Am\u00e9rica Latina e na \u00c1sia (da Indon\u00e9sia \u00e0 China, da Coreia ao Vietnam, etc) do que na nossa Europa. E isto quanto a indicadores b\u00e1sicos, como os baptismos, os seminaristas, as ordena\u00e7\u00f5es ou as consagra\u00e7\u00f5es religiosas.   2. Nova evangeliza\u00e7\u00e3o: aten\u00e7\u00e3o ao residual, ultrapassagem de mal-entendidos e revitaliza\u00e7\u00e3o de tudo  Seja como for, para a generalidade do continente europeu, tratar-se-\u00e1 de \u201cnova evangeliza\u00e7\u00e3o\u201d propriamente dita, com as suas caracter\u00edsticas e exig\u00eancias espec\u00edficas, tratando-se de \u201crecome\u00e7ar\u201d, com o que isso implica de aten\u00e7\u00e3o ao residual, ultrapassagem de mal-entendidos e revitaliza\u00e7\u00e3o de tudo. Aten\u00e7\u00e3o ao residual, porque n\u00e3o se apaga numa ou duas gera\u00e7\u00f5es o que durante tantos s\u00e9culos esteve presente na sociedade e na cultura europeias: monumentos religiosos, certamente; mas tamb\u00e9m e sobretudo in\u00fameras refer\u00eancias simb\u00f3licas, morais e espirituais aos principais t\u00f3picos do cristianismo. H\u00e1 uma base que suporta muitas aspira\u00e7\u00f5es, condutas e projectos comuns, por toda a Europa, e se define facilmente em termos de heran\u00e7a crist\u00e3, mesmo heterodoxamente. Podemos at\u00e9 dizer que nada se prop\u00f5e ou contradiz na Europa, em termos de ide\u00e1rio, que n\u00e3o tenha a ver, directa ou indirectamente com a tradi\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica. A\u00ed temos o brasido em que \u00e9 preciso soprar\u2026 \u00c9 necess\u00e1rio igualmente ultrapassar muitos mal-entendidos. Tantos s\u00e9culos de presen\u00e7a crist\u00e3 na Europa significam grandes rasgos e excelentes empreendimentos, especialmente na espiritualidade e na caridade; mas suportaram tamb\u00e9m muitas contrafac\u00e7\u00f5es e infidelidades ao Evangelho. Quando no Jubileu de 2000 o papa Jo\u00e3o Paulo II nos exortou a \u201cpurificar a mem\u00f3ria\u201d, era a isso que se referia. E todos os que se dedicam mais intensamente \u00e0 evangeliza\u00e7\u00e3o sabem muito bem como \u00e9 frequente \u201ctrope\u00e7aram\u201d com objec\u00e7\u00f5es, mais ou menos justas, referentes ao passado eclesial: Cruzadas, Inquisi\u00e7\u00e3o, conflitos \u201cIgreja \u2013 Ci\u00eancia\u201d, querelas entre crist\u00e3os, etc, v\u00eam sempre ao de cima, pedindo elucida\u00e7\u00e3o s\u00e9ria e abertura paciente. O certo \u00e9 que, para progredirmos um pouco em termos de evangeliza\u00e7\u00e3o de pessoas e ambientes, temos frequentemente de recuar muito para desfazer mal-entendidos e corrigir hist\u00f3rias mal-contadas. Digamos ent\u00e3o que o que se pretende \u00e9 a revitaliza\u00e7\u00e3o de tudo o que seja cristianismo aut\u00eantico, para o presente e para o futuro da nossa Europa. Mas de que falamos ao certo, quando dizemos nova evangeliza\u00e7\u00e3o? Procuremos um texto que nos ajude a compreend\u00ea-la. \u00c9 bom encontr\u00e1-lo no magist\u00e9rio de Jo\u00e3o Paulo II e num trecho dirigido particularmente aos leigos: foi ele, sobretudo, o autor e propagador da ideia e n\u00f3s estamos num \u201crolho\u201d de cursilhistas, predominantemente leigos e ap\u00f3stolos. Tomemos este, da exorta\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica p\u00f3s-sinodal Christifideles Laici, sobre a voca\u00e7\u00e3o e miss\u00e3o dos leigos na Igreja e no mundo, de 1988, n\u00ba 34:  \u201cPa\u00edses inteiros e na\u00e7\u00f5es, onde a religi\u00e3o e a vida crist\u00e3 foram em tempos t\u00e3o pr\u00f3speras e capazes de dar origem a comunidade de f\u00e9 viva e operosa, encontram-se hoje sujeitos a dura prova e, por vezes, at\u00e9 s\u00e3o radicalmente transformados pela cont\u00ednua difus\u00e3o do indiferentismo, do secularismo e do ate\u00edsmo. \u00c9 o caso, em especial, dos pa\u00edses e das na\u00e7\u00f5es do chamado Primeiro Mundo, onde o bem-estar econ\u00f3mico e o consumismo, embora \u00e0 mistura com tremendas situa\u00e7\u00f5es de pobreza e de mis\u00e9ria, inspiram e permitem viver \u2018 como se Deus n\u00e3o existisse\u2019. [\u2026] E tamb\u00e9m a f\u00e9 crist\u00e3, mesmo sobrevivendo em algumas manifesta\u00e7\u00f5es tradicionais e ritualistas, tende a desaparecer nos momentos mais significativos da exist\u00eancia, como s\u00e3o os momentos do nascer, do sofrer e do morrer. [\u2026] Noutras regi\u00f5es ou na\u00e7\u00f5es, por\u00e9m, conservam-se bem vivas ainda tradi\u00e7\u00f5es de piedade e de religiosidade popular crist\u00e3; mas esse patrim\u00f3nio moral e espiritual corre hoje o risco de esbater-se sob o impacto de m\u00faltiplos processos, entre os quais sobressaem a seculariza\u00e7\u00e3o e a difus\u00e3o das seitas. S\u00f3 uma nova evangeliza\u00e7\u00e3o poder\u00e1 garantir o crescimento de uma f\u00e9 l\u00edmpida e profunda, capaz de converter tais tradi\u00e7\u00f5es numa for\u00e7a de liberdade aut\u00eantica\u201d.  O texto \u00e9 de 1988 e, por isso, ainda fala do Primeiro Mundo, para designar especialmente os pa\u00edses europeus n\u00e3o comunistas; comunistas seriam os do Segundo Mundo, como do Terceiro Mundo os afro-asi\u00e1ticos e latino-americanos. Nos anos seguintes, o desmoronamento do bloco sovi\u00e9tico poria em causa estas designa\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o tanto o quadro religioso que divis\u00e1mos. Indiferentismo, secularismo e ate\u00edsmo, continuaram bem presentes no nosso continente; o esvaziamento da f\u00e9 crist\u00e3 e o seu desaparecimento dos momentos axiais da exist\u00eancia, tamb\u00e9m; sobreviv\u00eancia da religiosidade popular, mas com riscos de se alterar e esbater, igualmente. Ou seja, a nova evangeliza\u00e7\u00e3o h\u00e1-de responder aos reptos da descren\u00e7a e converter a pr\u00f3pria religiosidade costumeira. Mas \u00e9 logo a seguir, no mesmo n\u00famero da Christifideles Laici, que Jo\u00e3o Paulo II nos deixa uma das defini\u00e7\u00f5es program\u00e1ticas mais sugestivas do que deve ser a nova evangeliza\u00e7\u00e3o:  \u201c\u00c9 urgente, sem d\u00favida, refazer em toda a parte o tecido crist\u00e3o da sociedade humana. Mas, a condi\u00e7\u00e3o \u00e9 a de se refazer o tecido crist\u00e3o das pr\u00f3prias comunidades eclesiais que vivem nesses pa\u00edses e nessas na\u00e7\u00f5es\u201d.  \u00c9 muito importante reter o car\u00e1cter social e comunit\u00e1rio da (nova) evangeliza\u00e7\u00e3o. Porque o cristianismo n\u00e3o se vive individualmente; bem pelo contr\u00e1rio, refor\u00e7a a sociabilidade humana e inspira-lhe uma alma nova, na caridade de Cristo. E \u00e9 exactamente assim que as comunidades crist\u00e3s se revelam como fermenta\u00e7\u00e3o dum mundo novo.  Vida comunit\u00e1ria que, ali\u00e1s, n\u00e3o esbate, antes potencia o testemunho pessoal dos leigos, que s\u00e3o chamados a dar novamente o seu contributo espec\u00edfico e situado, nos diversos meios e ambientes:  \u201cOra, os fi\u00e9is leigos, por for\u00e7a da sua participa\u00e7\u00e3o no m\u00fanus prof\u00e9tico de Cristo, est\u00e3o plenamente envolvidos nessa tarefa da Igreja. Pertence-lhes, em particular, dar testemunho de como a f\u00e9 crist\u00e3, mais ou menos conscientemente ouvida e invocada por todos, seja a \u00fanica resposta plenamente v\u00e1lida para os problemas e as esperan\u00e7as que a vida p\u00f5e a cada homem e a cada sociedade. Ser\u00e1 isso poss\u00edvel, se os fi\u00e9is leigos souberem ultrapassar em si mesmos a ruptura entre o Evangelho e a vida, refazendo na sua quotidiana actividade em fam\u00edlia, no trabalho e na sociedade, a unidade de uma vida que no Evangelho encontra inspira\u00e7\u00e3o e for\u00e7a para se realizar em plenitude\u201d.    E ainda, mais \u00e0 frente, no mesmo n\u00famero, refor\u00e7ando a nota vital e apost\u00f3lica do cristianismo laical:   \u201cA s\u00edntese vital que os fi\u00e9is leigos souberem fazer entre o Evangelho e os deveres quotidianos da vida ser\u00e1 o testemunho mais maravilhoso e convincente de que n\u00e3o \u00e9 o medo, mas a procura e a ades\u00e3o a Cristo, que s\u00e3o o factor determinante para que o homem viva e cres\u00e7a, e para que se alcancem novas formas de viver mais conformes com a dignidade humana\u201d        Ou este trecho sint\u00e9tico e esclarecedor:  \u201cEsta nova evangeliza\u00e7\u00e3o, dirigida n\u00e3o apenas aos indiv\u00edduos mas a inteiras faixas de popula\u00e7\u00e3o, nas suas diversas situa\u00e7\u00f5es, ambientes e culturas, tem por fim formar comunidades eclesiais maduras, onde a f\u00e9 desabroche e realize todo o seu significado origin\u00e1rio de ades\u00e3o \u00e0 pessoa de Cristo e ao seu Evangelho, de encontro e de comunh\u00e3o sacramental com Ele, de exist\u00eancia vivida na caridade e no servi\u00e7o. Os fi\u00e9is leigos t\u00eam a sua parte a desempenhar na forma\u00e7\u00e3o de tais comunidades eclesiais, n\u00e3o s\u00f3 com uma participa\u00e7\u00e3o activa e respons\u00e1vel na vida comunit\u00e1ria e, portanto, com o seu insubstitu\u00edvel testemunho, mas tamb\u00e9m com o entusiasmo e com a ac\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria dirigida a quantos n\u00e3o cr\u00eaem ainda ou j\u00e1 n\u00e3o vivem a f\u00e9 recebida no Baptismo\u201d.   3. Cursilhos para a nova evangeliza\u00e7\u00e3o  Tudo o que acabamos de ouvir, definindo, j\u00e1 h\u00e1 vinte anos, o que seja nova evangeliza\u00e7\u00e3o, como objectivo e como metodologia, define de algum modo os Cursilhos de Cristandade desde os seus come\u00e7os. J\u00e1 ent\u00e3o, em Espanha ou em tantas outras partes da Europa, a sair da Segunda Guerra Mundial, n\u00e3o apenas os indiv\u00edduos mas inteiras faixas de popula\u00e7\u00e3o, requeriam uma quase refunda\u00e7\u00e3o crist\u00e3. J\u00e1 ent\u00e3o urgiam comunidades eclesiais maduras, n\u00e3o apenas remanescentes ou residuais, onde a f\u00e9 significasse realmente e para cada um a ades\u00e3o a Cristo, na comunh\u00e3o sacramental e na caridade. E j\u00e1 ent\u00e3o se contava com a participa\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel dos leigos, quer para a revitaliza\u00e7\u00e3o das comunidades quer para a irradia\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica e mission\u00e1ria.  Podemos hoje constatar que os Cursilhos de Cristandade responderam generosamente a esta aut\u00eantica voca\u00e7\u00e3o eclesial e apost\u00f3lica. Assim o far\u00e3o agora, num contexto porventura mais complexo e urgente, em termos de nova evangeliza\u00e7\u00e3o, propriamente dita.  Hoje estar\u00e1 mais dilu\u00edda ainda a tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 europeia, pelos diversos factores s\u00f3cio-culturais acima apontados. Hoje ser\u00e3o ainda mais indefinidos os contornos comunit\u00e1rios, especialmente das par\u00f3quias, atingidas que s\u00e3o pela mobilidade demogr\u00e1fica e a individualiza\u00e7\u00e3o dos percursos existenciais. Hoje acumulam-se perplexidades e interroga\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o a um futuro porventura mais imprevis\u00edvel&#8230; Com tudo isto permanece absolutamente na \u201cordem do dia\u201d o apelo \u00e0 nova evangeliza\u00e7\u00e3o, lan\u00e7ado por Jo\u00e3o Paulo II no Haiti em 1983. A uma evangeliza\u00e7\u00e3o que seja \u201cnova no ardor, nos m\u00e9todos e nas express\u00f5es\u201d.  Significativamente, foi a bispos daquelas paragens que o papa Bento XVI lan\u00e7ou muito recentemente um id\u00eantico apelo. Disse assim o pont\u00edfice, aos bispos da Costa Rica, no passado dia 8 de Fevereiro \u00faltimo:   \u201cTendes diante de v\u00f3s a tarefa de procurar novas formas de anunciar Cristo numa situa\u00e7\u00e3o de r\u00e1pidas e muitas vezes profundas transforma\u00e7\u00f5es, acentuando o car\u00e1cter mission\u00e1rio de toda a actividade pastoral. [\u2026] Compete tamb\u00e9m aos fi\u00e9is leigos participar nessa miss\u00e3o segundo a sua voca\u00e7\u00e3o espec\u00edfica\u201d.     Outrora, foi da Europa que partiram iniciativas e indica\u00e7\u00f5es apost\u00f3licas. Ultimamente s\u00e3o lan\u00e7adas tamb\u00e9m desses espa\u00e7os ultramarinos, onde a vitalidade crist\u00e3 se manifesta porventura mais. Mas, no que ao nosso continente respeita, h\u00e1 ouvidos e cora\u00e7\u00f5es prontos e dispon\u00edveis para as acolher e levar por diante, com criatividade e entusiasmo. E os Cursilhos est\u00e3o a\u00ed, felizmente, espalhados pelo continente europeu, como ocasi\u00e3o de an\u00fancio e testemunho de Cristo vivo, como princ\u00edpio ou recome\u00e7o de vida comunit\u00e1ria, como escola e partilha de ardor mission\u00e1rio para o espa\u00e7o envolvente.  &#8211; E \u00e9 por tudo isto que o Movimentos dos Cursilhos de Cristandade est\u00e1 e continuar\u00e1 a estar, com determina\u00e7\u00e3o e criatividade, na primeira linha da nova evangeliza\u00e7\u00e3o!  Ultreia Europeia, F\u00e1tima, 12 de Abril de 2008  <i>Manuel Clemente <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. O estado actual da Europa quanto \u00e0 evangeliza\u00e7\u00e3o Para tratar o tema que me deram para esta Ultreia Europeia, procurei antes de mais um texto do Magist\u00e9rio que o situasse devidamente. E olhando para as publica\u00e7\u00f5es pontif\u00edcias destes primeiros anos do s\u00e9culo XXI, n\u00e3o encontrei nenhum t\u00e3o claro e expressivo como o seguinte: \u201cEm [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[101,104,120,127,167,199,203,206,207,335,237,268,285,292,294],"class_list":["post-31314","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-africa","tag-america","tag-bento-xvi","tag-catequese","tag-dialogo-inter-religioso","tag-espiritualidade","tag-europa","tag-familia","tag-fatima","tag-haiti","tag-joao-paulo-ii","tag-nova-evangelizacao","tag-patrimonio","tag-religiosidade-popular","tag-sacramentos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31314","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=31314"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31314\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=31314"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=31314"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=31314"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}