{"id":312972,"date":"2024-02-04T09:31:43","date_gmt":"2024-02-04T09:31:43","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=312972"},"modified":"2024-02-03T10:43:33","modified_gmt":"2024-02-03T10:43:33","slug":"fraternidade-humana-compete-aos-democratas-aos-humanistas-aos-homens-e-mulheres-de-boa-vontade-construir-solucoes-que-reduzam-o-medo-rui-marques","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/fraternidade-humana-compete-aos-democratas-aos-humanistas-aos-homens-e-mulheres-de-boa-vontade-construir-solucoes-que-reduzam-o-medo-rui-marques\/","title":{"rendered":"Fraternidade Humana: \u00ab Compete aos democratas, aos humanistas, aos homens e mulheres de boa vontade construir solu\u00e7\u00f5es que reduzam o medo\u00bb &#8211; Rui Marques"},"content":{"rendered":"<p><em>Com uma resolu\u00e7\u00e3o especial, as Na\u00e7\u00f5es Unidas declararam o dia 4 de fevereiro como o &#8220;Dia Internacional da Fraternidade Humana&#8221;. A celebra\u00e7\u00e3o remete para a data em que, h\u00e1 cinco anos, se assinava em Abu Dhabi o Documento sobre a Fraternidade Humana em prol da Paz Mundial e da Conviv\u00eancia Comum, com a presen\u00e7a do Papa. Neste anivers\u00e1rio, conversamos com Rui Marques, presidente do Instituto Padre Ant\u00f3nio Vieira<\/em><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_312863\" aria-describedby=\"caption-attachment-312863\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/IMG_20240201_175626.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-312863 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/IMG_20240201_175626.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1440\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/IMG_20240201_175626.jpg 1920w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/IMG_20240201_175626-347x260.jpg 347w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/IMG_20240201_175626-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/IMG_20240201_175626-768x576.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/IMG_20240201_175626-1536x1152.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-312863\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em>Cinco anos depois, que inspira\u00e7\u00e3o representa esta declara\u00e7\u00e3o de Abu Dhabi em prol da Fraternidade Humana? <\/em><\/p>\n<p>Eu creio que esta declara\u00e7\u00e3o constituiu um marco important\u00edssimo naquilo que \u00e9 um des\u00edgnio cada vez mais dif\u00edcil nos nossos dias. A capacidade de encontrarmos caminho, de di\u00e1logo, de encontro fraterno, de respeito e toler\u00e2ncia pelas diferen\u00e7as, mas procurar tamb\u00e9m aquilo que nos une. Esta declara\u00e7\u00e3o \u00e9 completamente hist\u00f3rica. Ali\u00e1s, na sua refer\u00eancia inicial, remete para uma experi\u00eancia 800 anos antes de S\u00e3o Francisco de Assis. E, na senda desses gestos prof\u00e9ticos, o Papa Francisco e o Grande Im\u00e3 da Mesquita do Cairo assinaram um documento que tem uma riqueza extraordin\u00e1ria, que constitui um grande alerta, mas tamb\u00e9m um sinal de esperan\u00e7a para o mundo do nosso tempo. E cinco anos depois, claro, muito est\u00e1 por cumprir. Diremos que em algumas dimens\u00f5es os sinais de preocupa\u00e7\u00e3o s\u00e3o ainda maiores do que h\u00e1 cinco anos. Mas temos aqui um marco, uma refer\u00eancia, que vale a pena olhar com aten\u00e7\u00e3o, com detalhe, que nos inspira para o nosso quotidiano.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E olhando para o nosso contexto atual, \u00e9 importante que as religi\u00f5es sejam vistas como uma for\u00e7a que rejeita o terrorismo e a intoler\u00e2ncia? N\u00e3o como uma for\u00e7a que justifica a viol\u00eancia?<\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 uma confus\u00e3o que \u00e9 cl\u00e1ssica e que esta declara\u00e7\u00e3o desmonta, desmistifica, mas \u00e9 muito comum haver uma confus\u00e3o entre din\u00e2micas pol\u00edticas e din\u00e2micas religiosas.<\/p>\n<p>H\u00e1, muitas vezes, um uso e abuso de protagonistas pol\u00edticos de argumentos religiosos. Quando se comete um determinado ato terrorista, muitas vezes, faz-se o abuso de invocar raz\u00f5es de natureza religiosa. O que esta declara\u00e7\u00e3o vem dizer de uma forma inequ\u00edvoca entre cat\u00f3licos e mu\u00e7ulmanos \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 nenhuma justifica\u00e7\u00e3o, em nenhuma circunst\u00e2ncia, para ser aceite algum ato terrorista mais a mais &#8211; e a declara\u00e7\u00e3o diz isso de uma forma muito clara &#8211; usando de uma forma totalmente inaceit\u00e1vel e in\u00edqua o nome de Deus nesse contexto. Esta declara\u00e7\u00e3o \u00e9 muito clara, tanto mais, que \u00e9 dita\u00a0por um l\u00edder mu\u00e7ulmano de grande responsabilidade e com grande respeitabilidade no mundo mu\u00e7ulmano, e dita por um l\u00edder cat\u00f3lico com todo o seu peso e toda a sua especificidade. Chamar a aten\u00e7\u00e3o para o tema da condena\u00e7\u00e3o ao terrorismo \u00e9 uma das riquezas desta declara\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o a \u00fanica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Evocando a sua experi\u00eancia no trabalho junto dos refugiados, \u00e9 necess\u00e1ria esta promo\u00e7\u00e3o da fraternidade para ver no outro algu\u00e9m com a mesma dignidade?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 fundamental, \u00e9 fundamental. Eu recordo uma das experi\u00eancias mais bonitas que tive, que d\u00e3o corpo a esta ideia da fraternidade humana. Eu, quando estava como coordenador da Plataforma de Apoio aos Refugiados, em 2015 e anos seguintes, tive a ocasi\u00e3o de visitar o L\u00edbano e visitar mesmo a fronteira, onde a guerra j\u00e1 estava ali a poucos metros, na fronteira com a S\u00edria. E um dos projetos mais extraordin\u00e1rios que visitei acontecia numa Mesquita, no r\u00e9s dp ch\u00e3o de uma Mesquita, a poucas centenas de metros da fronteira da S\u00edria, do lado do L\u00edbano. Ora, quem estava a dinamizar essa escola, era uma escola, era o Servi\u00e7os Jesu\u00edta aos Refugiados (JRS). Vou repetir, no piso zero de uma Mesquita.<\/p>\n<p>Num exemplo extraordin\u00e1rio, num dos s\u00edtios mais dif\u00edceis de conflito naquele tempo, servindo milhares e milhares de refugiados; mu\u00e7ulmanos e cat\u00f3licos eram capazes de trabalhar juntos com esta dimens\u00e3o que \u00e0s vezes nos falta e que precisamos sublinhar, de respeito pelas nossas diferen\u00e7as, reconhecimento dessas diferen\u00e7as e respeito por essas diferen\u00e7as, mas sabendo que a dignidade humana, a prote\u00e7\u00e3o da vida, a promo\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o, neste caso destas crian\u00e7as que beneficiavam da interven\u00e7\u00e3o do JRS naquele contexto, s\u00e3o um valor que nos une e n\u00f3s precisamos saber fortalecer os valores que nos unem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Desse ponto de vista e at\u00e9 pela hist\u00f3ria, a hist\u00f3ria que nos acabou de contar,<\/em><\/p>\n<p><em>s\u00e3o demasiado preocupantes aqueles discursos que demonizam quem chega de outras terras, de outras paragens? <\/em><\/p>\n<p>\u00c9 verdade. E repare, este fim de semana \u00e9 um fim de semana triste nesse contexto.<\/p>\n<p>O discurso de \u00f3dio, seja face \u00e0quele que \u00e9 estrangeiro, face \u00e0quele que \u00e9 de outra religi\u00e3o, face \u00e0quele que tem outra identidade \u00e9tnica ou cultural, \u00e9 terr\u00edvel e, infelizmente, vai ganhando espa\u00e7o cada vez mais crescente nas sociedades europeias. Porque ignora esta dimens\u00e3o essencial da fraternidade humana, da no\u00e7\u00e3o de que somos irm\u00e3os, neste sentido de que a fraternidade traz-nos a dimens\u00e3o de que somos irm\u00e3os, independentemente da nossa convic\u00e7\u00e3o religiosa, pol\u00edtica ou cultural.<\/p>\n<p>Atualmente, a Europa corre s\u00e9rios riscos de perder a sua identidade, n\u00e3o por ter em si a diversidade, mas por perder a fidelidade a um dos seus valores fundamentais. O projeto europeu nasceu entre inimigos capazes de se encontrarem para construir um futuro comum. Falo, no caso, da Fran\u00e7a e da Alemanha, s\u00f3 para lembrar.<\/p>\n<p>Ora, n\u00f3s n\u00e3o podemos perder na Europa essa capacidade de encontro entre perspetivas diferentes, em que fazemos da diversidade uma for\u00e7a capaz de nos mobilizar para a constru\u00e7\u00e3o, um futuro comum.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E olhando para Portugal, at\u00e9 a partir da experi\u00eancia que nos relatava \u00e0 pouco, do contacto com outras religi\u00f5es, com outras culturas, como \u00e9 que avalia o esfor\u00e7o de integra\u00e7\u00e3o de imigrantes e refugiados no nosso pa\u00eds? <\/em><\/p>\n<p>Eu acho que ao longo dos anos, Portugal tem feito um trabalho importante neste dom\u00ednio. \u00c9 de acentuar que na dimens\u00e3o do di\u00e1logo inter-religioso, que tem, evidentemente, tamb\u00e9m uma componente relacionada com a imigra\u00e7\u00e3o, Portugal tem feito um caminho muit\u00edssimo interessante. \u00c9 um pa\u00eds, at\u00e9 agora, com uma paz social em torno do di\u00e1logo inter-religioso muito assinal\u00e1vel. J\u00e1 nas quest\u00f5es de imigra\u00e7\u00e3o, hoje vivemos tempos mais dif\u00edceis, mais complexos, e que precisamos ter a coragem de os olhar. E a\u00ed, gostava de deixar um alerta, que as pol\u00edticas de acolhimento e integra\u00e7\u00e3o de imigrantes precisam de ser pol\u00edticas robustas, sustent\u00e1veis, que sabem trabalhar&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Est\u00e1 a querer dizer que n\u00e3o s\u00e3o neste momento?<\/em><\/p>\n<p>Estou a dizer que n\u00e3o s\u00e3o, neste momento. Neste sentido, por exemplo, n\u00f3s precisamos de ter pol\u00edticas de acolhimento e integra\u00e7\u00e3o de imigrantes que gerem seguran\u00e7a na opini\u00e3o p\u00fablica, que gerem a no\u00e7\u00e3o de fronteiras controladas e, sobretudo, que promovam o acolhimento e a integra\u00e7\u00e3o, n\u00e3o deixando, por exemplo, pessoas no limbo quanto \u00e0 sua situa\u00e7\u00e3o documental durante meses infinitos. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas esse sentimento de inseguran\u00e7a tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 despoletado por declara\u00e7\u00f5es, por vezes, pol\u00edticas que raiam o extremismo e o populismo?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Claro, tem toda a raz\u00e3o. Ali\u00e1s, um dos tra\u00e7os t\u00edpicos dos populistas \u00e9 insuflarem o medo e procurarem fazer pol\u00edtica em cima de um sentimento de medo, ainda que injustificado, ainda que exagerado.\u00a0Claro que os populistas, que constituem uma amea\u00e7a muito s\u00e9ria \u00e0 democracia, exploram todas as oportunidades que t\u00eam para gerar um sentimento de medo.<\/p>\n<p>Compete aos democratas, aos humanistas, aos homens e mulheres de boa vontade, construir solu\u00e7\u00f5es que reduzam o medo, que tragam para toda a comunidade aut\u00f3ctone e imigrante, um sentimento de seguran\u00e7a, um sentimento de encontro, um sentimento de di\u00e1logo. E, voltando \u00e0 nossa declara\u00e7\u00e3o da Fraternidade Humana, \u00e9 um excelente documento para orientar pol\u00edticas p\u00fablicas de acolhimento e integra\u00e7\u00e3o de imigrantes, por exemplo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O presidente da entidade que substitui o SEF (Servi\u00e7o de Estrangeiros e Fronteiras), confessou em entrevista \u00e0 Renascen\u00e7a e ao Jornal P\u00fablico que h\u00e1 pouco que a AIMA (Ag\u00eancia para a Integra\u00e7\u00e3o, Migra\u00e7\u00f5es e Asilo), que \u00e9 a nova ag\u00eancia, possa fazer pelos migrantes que dormem no aeroporto.<\/em><\/p>\n<p><em>E tivemos, por exemplo, a Provedora de Justi\u00e7a a pedir aten\u00e7\u00e3o para este fen\u00f3meno. <\/em><\/p>\n<p><em>N\u00e3o seria necess\u00e1ria maior proatividade por parte de quem dirige?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Eu estou fora da esfera de interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, e a minha voz \u00e9 sempre uma voz a favor de solu\u00e7\u00f5es, e n\u00e3o simplesmente de cr\u00edtica. Est\u00e3o reconhecidos os problemas, as dificuldades. O que me parece fundamental, neste momento, sem mais perda de tempo, \u00e9 que todas as institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas envolvidas neste processo do acolhimento e da integra\u00e7\u00e3o de imigrantes, come\u00e7ando desde logo pela sua regulariza\u00e7\u00e3o, sejam mais eficazes, cumpram as regras que elas pr\u00f3prias estabeleceram, como, por exemplo, os prazos, e sejam capazes de criar condi\u00e7\u00f5es para que quem \u00e9 acolhido em Portugal reconhe\u00e7a no Estado pessoa de bem. Por exemplo, cumpre o Estado, em primeiro lugar, as regras que ele pr\u00f3prio imp\u00f5e? N\u00e3o importa encontrar culpados, nem apontar bodes expiat\u00f3rios, importa sim colocar todos os recursos que estejam ao nosso alcance para poder tornar vi\u00e1vel esse primeiro passo, porque n\u00e3o h\u00e1 acolhimento e integra\u00e7\u00e3o sem a correspondente estrutura legal, de regulariza\u00e7\u00e3o estar a funcionar bem nos prazos devidos. Porque n\u00e3o \u00e9 aceit\u00e1vel que um Estado n\u00e3o cumpra as regras, nomeadamente os prazos que ele pr\u00f3prio imp\u00f4s.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Voltando a uma reflex\u00e3o que lan\u00e7ou ainda h\u00e1 pouco, em que falava do impacto das migra\u00e7\u00f5es na reconfigura\u00e7\u00e3o, vou-lhe chamar assim, do puzzle religioso em Portugal. Para manter este clima de paz e de di\u00e1logo que tamb\u00e9m referimos, \u00e9 fundamental, voltando ao tema de hoje, que se aprofunda esta reflex\u00e3o e esta pr\u00e1tica inspirada na fraternidade humana?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 fundamental, \u00e9 fundamental fazer o que o Papa Francisco fez. \u00c9 s\u00f3 isso, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p>O nosso Papa Francisco \u00e9 um homem prof\u00e9tico, com uma vis\u00e3o extraordin\u00e1ria e com uma coragem inaudita. Realmente, todos os Santos Padres deram contributos fundamentais, cada um com o seu contexto e com o seu tempo, mas o Papa Francisco, por exemplo, com a assinatura desta declara\u00e7\u00e3o, d\u00e1 um sinal muito importante do que precisamos fazer. N\u00f3s precisamos ser capazes de dialogar, nomeadamente no di\u00e1logo inter-religioso, para encontrar plataformas comuns de trabalho conjunto, baseadas no respeito m\u00fatuo, num conjunto de princ\u00edpios fundamentais, e vejam como n\u00e3o houve dificuldade entre cat\u00f3licos e mu\u00e7ulmanos em subscrever uma carta que, n\u00e3o s\u00f3 h\u00e1 pouco se referiu a quest\u00e3o da condena\u00e7\u00e3o do terrorismo, mas que \u00e9 uma carta que defende a vida e que diz que em nenhuma circunst\u00e2ncia uma vida pode ser retirada e cada vez que se salva uma vida, se salva a humanidade, que defende o direito e a dignidade das mulheres, que defende a dignidade dos mais velhos\u00a0e o respeito pela etapa de vida que t\u00eam. Portanto, constitui um roteiro extraordin\u00e1rio. O Papa Francisco deu-nos, desde logo aos cat\u00f3licos, com maior responsabilidade, mas deu a todo o mundo, conjuntamente com o grande im\u00e3 da Mesquita do Cairo, esta carta como linhas de orienta\u00e7\u00e3o que me parecem absolutamente centrais e que correspondem \u00e0s necessidades do nosso tempo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E imagino que tamb\u00e9m por isso, ela tenha sido acolhida pela ONU, que acabou por declarar um dia da fraternidade humana?<\/em><\/p>\n<p>Claro. \u00c9 muito interessante esse ponto, o acolhimento da ONU. E j\u00e1 agora, uma coisa que \u00e9 muito pouco conhecida. Eu assisti ao momento hist\u00f3rico, muito bonito, em que Timor-Leste acolheu esta carta, esta declara\u00e7\u00e3o, como documento nacional.<\/p>\n<p>Ou seja, no dia da tomada de posse do atual presidente da Rep\u00fablica de Timor-Leste, Dr Ramos Horta, o Estado de Timor, por decis\u00e3o un\u00e2nime da Assembleia, assumiu esta carta como um documento nacional.<\/p>\n<p>Ora, esta vis\u00e3o, esta coragem, precisa de ser robustecida na voz de cada um de n\u00f3s, na a\u00e7\u00e3o de cada um de n\u00f3s, e n\u00e3o nos deixarmos manipular, quer por uma cultura de medo,<\/p>\n<p>quer pelas profundas e in\u00edquas a\u00e7\u00f5es de desinforma\u00e7\u00e3o, de manipula\u00e7\u00e3o, que nos procuram controlar, e sobretudo fazer crescer no \u00f3dio ao outro.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>A declara\u00e7\u00e3o de Abu Dhabi sublinha a import\u00e2ncia da promo\u00e7\u00e3o da conviv\u00eancia comum. Um dos projetos em que o Rui Marques est\u00e1 envolvido, mais recentemente, aponta a import\u00e2ncia de criar novas rela\u00e7\u00f5es a v\u00e1rios n\u00edveis. Que ideia \u00e9 esta?<\/em><\/p>\n<p>Enfim, nos \u00faltimos anos de trabalho, tenho tido a oportunidade, em v\u00e1rias dimens\u00f5es, de centrar-me muito na dimens\u00e3o relacional. E se quisermos, a Academia de L\u00edderes Ubuntu, que \u00e9 um projeto que hoje est\u00e1 em todo o mundo e que nasceu em Portugal, centrado nesta ideia de que eu sou porque tu \u00e9s, ou s\u00f3 sou pessoa atrav\u00e9s das outras pessoas, tem uma experi\u00eancia muito bonita, que \u00e9 a concretiza\u00e7\u00e3o deste documento da fraternidade humana.<\/p>\n<p>Por exemplo, \u00e9 um projeto onde crentes e n\u00e3o-crentes, e dentro dos crentes, crist\u00e3os e mu\u00e7ulmanos, trabalham lado a lado, com os mesmos valores, com os mesmos instrumentos de interven\u00e7\u00e3o, como irm\u00e3os.<\/p>\n<p>E isso permitiu-me ver que \u00e9 poss\u00edvel, n\u00e3o s\u00f3 o sonho e a vis\u00e3o prof\u00e9tica que est\u00e1 no documento da fraternidade humana, mas que \u00e9 poss\u00edvel concretizar isso. Mais recentemente estou muito focado, porque creio que um dos grandes desafios do nosso tempo, e se quisermos tamb\u00e9m interpretar aquilo que \u00e9 o desafio do Papa Francisco a todos n\u00f3s, \u00e9 procurar olhar para as periferias e olhar para o desafio de como construir capital relacional, como fazer das rela\u00e7\u00f5es uma for\u00e7a que nos une, que nos torna pr\u00f3ximos, desenvolvendo esta proximidade, que torna vis\u00edveis os invis\u00edveis, que reconhece cada pessoa por um lado a sua singularidade, mas ao mesmo tempo a complementaridade que todos temos uns para com os outros,\u00a0e que nos traz esta grande aposta que precisamos de olhar, acima de tudo, para a nossa realidade humana, como uma realidade relacional. E por isso aplicamos o relacional \u00e0 educa\u00e7\u00e3o relacional, ou \u00e0 sa\u00fade relacional, ou \u00e0 cidade relacional, procurando chamar a aten\u00e7\u00e3o para perceber, por exemplo, quando olhamos para uma cidade, o que \u00e9 uma cidade, se n\u00e3o um conjunto de rela\u00e7\u00f5es que se estabelecem. Rela\u00e7\u00f5es que devem ser cuidadas, robustecidas, potenciadas no sentido positivo, de rela\u00e7\u00f5es de conviv\u00eancia, de rela\u00e7\u00f5es de cuidado m\u00fatuo, de rela\u00e7\u00f5es de solidariedade e de rela\u00e7\u00f5es de complementaridade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Eu volto ao projeto tamb\u00e9m das lideran\u00e7as para lhe perguntar se a capacita\u00e7\u00e3o das novas gera\u00e7\u00f5es neste campo \u00e9 fundamental para a sociedade?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 fundamental. \u00c9 completamente fundamental e, nesse sentido, h\u00e1 alguns sinais preocupantes. H\u00e1 alguns sinais preocupantes. Ao contr\u00e1rio do que at\u00e9 poderia ser de esperar por alguns, n\u00f3s encontramos alguns sinais preocupantes junto das novas gera\u00e7\u00f5es no acolhimento, por exemplo, a argumentos xen\u00f3fobos, a argumentos racistas, a argumentos de intoler\u00e2ncia face ao outro. Mas eu quero-me centrar no positivo e a Academia de L\u00edderes Ubuntu, que est\u00e1 em todo o mundo, permitiu-me agora tamb\u00e9m recentemente ter estado no Qu\u00eania. No Qu\u00eania \u00e9 onde existe a Academia. \u00c9 uma comunidade com diversidade religiosa e onde at\u00e9 agora o conv\u00edvio entre crist\u00e3os e mu\u00e7ulmanos foi muito pac\u00edfico. Hoje tem dificuldades em v\u00e1rias \u00e1reas do pa\u00eds, pela presen\u00e7a de jihadistas, por aqueles que querem incitar ao \u00f3dio e manipular esse sentido, mas o que eu encontrei nos jovens Ubuntu crist\u00e3os e mu\u00e7ulmanos foi uma capacidade extraordin\u00e1ria de trabalharem juntos, a partir do respeito m\u00fatuo e da sua identidade.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, a declara\u00e7\u00e3o da fraternidade humana fala-nos de algo que \u00e9 novo e que \u00e9 importante situar a partir das duas perspetivas religiosas, crist\u00e3 e mu\u00e7ulmana, do respeito pelo outro muito mais do que a convers\u00e3o do outro, da conquista do outro. E o que eu vi foi no Qu\u00eania jovens crist\u00e3os e jovens mu\u00e7ulmanos a trabalharem juntos em fun\u00e7\u00e3o desta vis\u00e3o da fraternidade humana com um sucesso assinal\u00e1vel, mas com uma experi\u00eancia tamb\u00e9m muito dura, particularmente face \u00e0queles que n\u00e3o querem que isso aconte\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O Papa Francisco e o Secret\u00e1rio-Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas s\u00e3o talvez as personalidades que mais esfor\u00e7o fazem na procura de solu\u00e7\u00f5es para a guerra ou para as guerras.<\/em><\/p>\n<p><em>E no final do ano de 2023, tr\u00eas vencedores do Pr\u00e9mio Nobel entregaram ao Papa uma declara\u00e7\u00e3o sobre a fraternidade humana em que, em nome da fraternidade, deixaram um grito: &#8220;Chega de guerra. A paz, a justi\u00e7a e a igualdade, \u00e9 que guiam o destino de toda a humanidade&#8221;. Na sua opini\u00e3o, Rui Marques, porqu\u00ea \u00e9 que n\u00e3o temos uma maior mobiliza\u00e7\u00e3o na procura de caminhos justos de paz?<\/em><\/p>\n<p>Eu creio que, em certa medida, estamos anestesiados, adormecidos, por um ru\u00eddo que nos vai anestesiando espantosamente, parece uma contradi\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 verdade, que nos vai afastando de um caminho de constru\u00e7\u00e3o de paz e que tantas vezes tamb\u00e9m nos torna at\u00e9 sequer insens\u00edveis a essa quest\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>H\u00e1 alguma indiferen\u00e7a?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Eu creio que sim. A certa altura, eu direi que n\u00e3o temos sequer a consci\u00eancia, ou se a temos, baixamos os bra\u00e7os em algumas circunst\u00e2ncias, dos riscos que est\u00e3o no horizonte e da necessidade, mais do que nunca, de agirmos. E os dois exemplos que nos d\u00e1, o Papa Francisco e o engenheiro Ant\u00f3nio Guterres, s\u00e3o excelentes exemplos.<\/p>\n<p>Por exemplo, o caso do Estado-Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas, neste conflito na Terra Santa, entre Israel, e o Hamas, tem sido uma voz incans\u00e1vel, permanentemente com uma coragem extraordin\u00e1ria, a defender a paz, mas n\u00e3o uma paz a qualquer custo, uma paz justa, uma paz que permita que termine o que est\u00e1 a acontecer, quer em rela\u00e7\u00e3o aos ref\u00e9ns que se mant\u00eam detidos, quer em rela\u00e7\u00e3o aos ataques indiscriminados a civis palestinianos. Mas \u00e9 claro que existem muitas outras raz\u00f5es de esperan\u00e7a, e por exemplo, os vencedores do Pr\u00e9mio Zayed para a Fraternidade Humana, um deles foi o engenheiro Ant\u00f3nio Guterres, mas no ano em que o engenheiro Ant\u00f3nio Guterres ganhou, ganhou uma senhora chamada Latifa Ziatan, que era uma senhora mu\u00e7ulmana, cujo filho foi assassinado num atentado terrorista em Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Sim, e o testemunho dela foi muito impressionante&#8230;<\/em><\/p>\n<p>E o que ela disse foi: eu sou mu\u00e7ulmana, eu perdi o meu filho num atentado supostamente jihadista, e eu estou aqui para o futuro para construir a paz, porque n\u00e3o quero que mais ningu\u00e9m perca o seu filho por causa do terrorismo.<\/p>\n<p>Era uma voz mu\u00e7ulmana, era uma voz de uma m\u00e3e, era uma voz que nos tocou e nos toca profundamente, no sentido de dizer, a linha que separa o bem e o mal, n\u00e3o divide grupos, n\u00e3o divide pa\u00edses, n\u00e3o divide religi\u00f5es, divide o cora\u00e7\u00e3o de cada um de n\u00f3s.<\/p>\n<p>E depende de cada um de n\u00f3s fazer crescer o seu lado bom e minimizar o seu lado mau,<\/p>\n<p>mas nunca cair nesta vis\u00e3o manique\u00edsta, de achar que uns s\u00e3o bons e outros s\u00e3o maus, quando h\u00e1 tantos exemplos no mundo, de pessoas conhecidas e menos conhecidas,<\/p>\n<p>que d\u00e3o a sua vida naquilo que \u00e9 uma luta decisiva nesta altura, que \u00e9 a luta pela paz.<\/p>\n<p>Eu creio que n\u00f3s, portugueses, precisamos de colocar na nossa agenda este tema.<\/p>\n<p>Durante muito tempo vivemos a paz, em grande medida assegurada por um desenvolvimento econ\u00f3mico, no contexto europeu, por uma paz pol\u00edtica e social muito assinal\u00e1vel. Mas eu creio que h\u00e1 muitos sinais de preocupa\u00e7\u00e3o no mundo contempor\u00e2neo, ao qual n\u00f3s n\u00e3o devemos ser alheios e nos devemos comprometer, nomeadamente na vis\u00e3o da fraternidade humana, para encontrar caminhos para vivermos juntos em paz.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com uma resolu\u00e7\u00e3o especial, as Na\u00e7\u00f5es Unidas declararam o dia 4 de fevereiro como o &#8220;Dia Internacional da Fraternidade Humana&#8221;. 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