{"id":311124,"date":"2024-01-21T09:30:36","date_gmt":"2024-01-21T09:30:36","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=311124"},"modified":"2024-01-22T15:26:46","modified_gmt":"2024-01-22T15:26:46","slug":"ecumenismo-somos-o-ecumenismo-do-povo-nao-somos-o-ecumenismo-dos-teologos-luis-parente-martins","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/ecumenismo-somos-o-ecumenismo-do-povo-nao-somos-o-ecumenismo-dos-teologos-luis-parente-martins\/","title":{"rendered":"Ecumenismo: \u00abSomos o ecumenismo do povo, n\u00e3o somos o ecumenismo dos te\u00f3logos\u00bb &#8211; Lu\u00eds Parente Martins"},"content":{"rendered":"<p class=\"western\"><i>Em plena Semana de Ora\u00e7\u00e3o pela Unidade dos Crist\u00e3os, \u00e9 convidado da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia o cardiologista Lu\u00eds Parente Martins, da organiza\u00e7\u00e3o do Encontro Crist\u00e3o, que decorre a 27 de janeiro, em Sintra, que h\u00e1 14 anos junta diversas Igrejas e comunidades em ora\u00e7\u00e3o ecum\u00e9nica<\/i><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_311092\" aria-describedby=\"caption-attachment-311092\" style=\"width: 1500px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/luis-parente-martins4.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-311092 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/luis-parente-martins4.jpg\" alt=\"\" width=\"1500\" height=\"1000\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/luis-parente-martins4.jpg 1500w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/luis-parente-martins4-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/luis-parente-martins4-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/luis-parente-martins4-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/luis-parente-martins4-391x260.jpg 391w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-311092\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA\/MC<\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"western\" style=\"text-align: right;\"><span style=\"font-family: georgia, palatino, serif;\"><i>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e <\/i><i>L\u00edgia Silveira<\/i><i> (Ecclesia)<\/i><\/span><\/p>\n<p class=\"western\"><i>S\u00e3o 14 edi\u00e7\u00f5es de Encontro Crist\u00e3o. Que caminho \u00e9 que tem sido feito e que novos horizontes importa afirmar conjuntamente? <\/i><\/p>\n<p class=\"western\">Penso que isto vale sempre a pena voltar \u00e0s origens. N\u00f3s somos o ecumenismo do povo, n\u00e3o somos o ecumenismo dos te\u00f3logos. E, portanto, este ecumenismo e estas rela\u00e7\u00f5es nasceram de um contexto familiar onde foram caindo muitos preconceitos que existiam entre Igrejas diferentes, onde as nossas fam\u00edlias pertenciam. Descobrimos que, de facto, o muito importante, aquilo que nos unia, era Jesus Cristo. E, portanto, descobrir este Jesus Cristo, louvar este Jesus Cristo em comum e poder fazer um encontro onde mais crist\u00e3os pudessem faz\u00ea-lo, foi a iniciativa que lan\u00e7\u00e1mos h\u00e1 14 anos &#8211; na altura com um pequeno grupo de pessoas, ainda em Algueir\u00e3o-Mem Martins.<\/p>\n<p class=\"western\">Progressivamente, temos vindo a aumentar o n\u00famero das pessoas e a abrang\u00eancia do encontro. Eu penso que este encontro \u00e9 muito importante porque envolve n\u00e3o s\u00f3 o Conselho Portugu\u00eas das Igrejas Crist\u00e3s, a Igreja Cat\u00f3lica Romana, a Alian\u00e7a Evang\u00e9lica, que \u00e9 muito pujante, como se sabe, e cada vez mais. E, portanto, h\u00e1 um n\u00famero enorme de crist\u00e3os que vivem nestas comunidades evang\u00e9licas e que tamb\u00e9m j\u00e1 v\u00e3o participando nesta din\u00e2mica.<\/p>\n<p class=\"western\"><i><br \/>\n\u00abDecidir amar\u00bb \u00e9 o tema do encontro este ano, que, neste contexto atual, n\u00e3o deixa de ser interessante olharmos para ele, uma vez que o Papa fala de uma terceira guerra mundial aos peda\u00e7os e muitos utilizam a religi\u00e3o para justificar a guerra. Q<\/i><i>ue atitude podemos e devemos tamb\u00e9m esperar dos crist\u00e3os na defesa da unidade e da constru\u00e7\u00e3o da paz? <\/i><\/p>\n<p class=\"western\">Li h\u00e1 pouco tempo um artigo de uma crist\u00e3 de Berlim, de Beirute, que viveu exatamente num contexto de guerra onde tudo desmoronava. Faz-me lembrar um bocadinho aquele movimento a que eu estou ligado, o movimento dos Folclores, em que Chiara Lubich (fundadora) viveu num contexto muito semelhante. Mais recentemente, h\u00e1 15 ou 20 anos, esta nossa irm\u00e3, de Beirute, dizia que quando perdia a casa, quando perdia os projetos, quando parecia que tudo desmoronava, s\u00f3 uma coisa fazia sentido &#8211; era amar a Deus, que n\u00e3o passa, e amar o pr\u00f3ximo de uma forma muito concreta.<\/p>\n<p class=\"western\">E, portanto, n\u00f3s, e penso que isto \u00e9 uma das partes belas do encontro, \u00e9 que h\u00e1 tr\u00eas meses nos juntamos uma pequena comiss\u00e3o ecum\u00e9nica que vai meditando e que vai partilhando a palavra. E, portanto, esta quest\u00e3o do \u00abAmar\u00e1s o Senhor teu Deus sobre todas as coisas e ao pr\u00f3ximo como a ti mesmo\u00bb, eu penso que isto j\u00e1 foi muito digerido com o contributo de cada sensibilidade crist\u00e3 e, resultou neste t\u00edtulo, mais impactante.<\/p>\n<p class=\"western\">No fundo, aquilo que podemos fazer no contexto atual, que \u00e9 um contexto extremamente dif\u00edcil, \u00e9 cada um de n\u00f3s decidir amar e convidar os outros a decidir amar.<\/p>\n<p class=\"western\"><i><br \/>\nPara al\u00e9m deste tempo da Semana de Ora\u00e7\u00e3o, pela Unidade dos Crist\u00e3os, que rela\u00e7\u00e3o existe entre as Igrejas?<\/i><\/p>\n<p class=\"western\">Existe uma rela\u00e7\u00e3o de grande fraternidade. J\u00e1 tivemos durante estes 14 anos, um espa\u00e7o comum, a chamada plataforma Comunidade, onde acolhemos refugiados durante dois anos de uma forma conjunta. Mas este ano, e j\u00e1 agora para desvendar um bocadinho o que vai ser este encontro, este ano n\u00f3s queremos, com este \u00abDecidir Amar\u00bb, por um lado, durante a tarde, fazer uma caminhada pelas ruas de Sintra, onde os jovens v\u00e3o convidar os turistas e as pessoas que passam, a um desafio, um bocadinho que est\u00e1 fora de moda, de decidir amar e n\u00e3o s\u00f3 usufruir, porque h\u00e1 muito, penso eu, este conceito que enquanto n\u00e3o vem a tal guerra, enquanto n\u00e3o se perde tudo, ent\u00e3o vamos desfrutar de tudo, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p class=\"western\">Mas h\u00e1 outra maneira que para n\u00f3s nos parece mais retributiva, que \u00e9 de facto este preocupar-se com o outro, este viver com o outro, e quando n\u00f3s fazemos esta proposta e a experimentamos, descobrimos que vale a pena este caminho, que este \u00e9 um caminho v\u00e1lido.<b><\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"western\"><i>N\u00e3o h\u00e1, portanto, aqui um risco de se cumprir um ritual de uma semana de ora\u00e7\u00e3o, que depois n\u00e3o tem sequ\u00eancia? <\/i><\/p>\n<p class=\"western\">N\u00e3o. Aqui este ano, exatamente, n\u00f3s com o \u00abDecidir Amar\u00bb \u00e0 noite, vamos lan\u00e7ar uma iniciativa que nos parece muito importante. O contexto \u00e9 a par\u00e1bola do bom samaritano, e quando estivemos a refletir todos n\u00f3s, os crist\u00e3os, temos esta inten\u00e7\u00e3o de ser um bom samaritano, mas este samaritano que de facto olha e v\u00ea, este samaritano que se aproxima e n\u00e3o passa para o pr\u00f3ximo, n\u00e3o passa de lado, este samaritano que quer cuidar.<\/p>\n<p class=\"western\">Mas isto \u00e9 muito complicado no nosso dia-a-dia. Eu estou-me a lembrar de uma experi\u00eancia de um de n\u00f3s, que todos os dias vinha um arrumador e que lhe dava uma moeda. Mas isto ficamos um bocadinho pela caridadezinha, pela esmolas, enfim, tem pouca consequ\u00eancia.<\/p>\n<p class=\"western\">E portanto, n\u00f3s este ano vamos lan\u00e7ar e j\u00e1 reunimos onze institui\u00e7\u00f5es de uma coisa que se chama o ponto de encontro. O ponto de encontro vai ser na Tapada das Merc\u00eas, e vai ser, sobretudo, online, onde n\u00f3s descobrimos aquelas pessoas que est\u00e3o com dificuldades na vida, n\u00e3o s\u00f3 no conceito estritamente social, mas no conceito psicol\u00f3gico, pessoas que est\u00e3o sem sentido de vida, pessoas que perderam o sentido de vida, pessoas que est\u00e3o com dificuldade em pagar os empr\u00e9stimos ao banco, pessoas que est\u00e3o com dificuldades nos relacionamentos entre c\u00f4njuges.<\/p>\n<p class=\"western\">Portanto, n\u00f3s vamos ter uma s\u00e9rie de associa\u00e7\u00f5es que s\u00e3o \u2018expert\u2019. E vamos convidar cada um de n\u00f3s que quer ser bom samaritano, a levar essas pessoas at\u00e9 este ponto de encontro, onde as pomos em contacto com a institui\u00e7\u00e3o que melhor pode ajudar naquele problema que eles t\u00eam. E depois n\u00f3s vamos continuar a seguir mensalmente a situa\u00e7\u00e3o, mas o ponto de encontro \u00e9 exatamente s\u00f3 um local onde fazemos a jun\u00e7\u00e3o entre aquele que quer ser bom samaritano, aquele que precisa de ser cuidado, e aquele que s\u00e3o os cuidadores, numa rela\u00e7\u00e3o que eu acho que vai ser terap\u00eautica para todos. Porque, de facto, n\u00e3o beneficia s\u00f3 aquele que \u00e9 cuidado, beneficiemos n\u00f3s, porque passaremos a ser mais aquilo que queremos ser, que \u00e9 bom samaritano.<\/p>\n<p><i>Pergunto-lhe, Lu\u00eds, Par<\/i><i>e<\/i><i>nte Martins, come\u00e7ou esta nossa conversa dizendo que s\u00e3o o ecumenismo do povo. Pergunto-lhe se o movimento ecum\u00e9nico, na realidade, se concretiza mais por estas a\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas, quase at\u00e9 de rela\u00e7\u00e3o pessoal, mais at\u00e9 do que a n\u00edvel institucional. <\/i><\/p>\n<p class=\"western\">N\u00f3s temos muito esta convic\u00e7\u00e3o, que \u00e9 um bocadinho a convic\u00e7\u00e3o que vem um bocadinho da nossa experi\u00eancia. Eu, para dizer a verdade, fico um bocadinho perplexo, porque quando Jesus Cristo, no Evangelho, diz que todos sejam um para que o mundo creia, e, portanto, faz depender a f\u00e9 da unidade dos crist\u00e3os, esta frase n\u00e3o tem um impacto dentro das Igrejas, das comunidades. Mas tem em algumas minorias. E n\u00f3s percebemos que, quando passamos da solidariedade a uma fraternidade, quando de facto nos conhecemos, quando de facto percebemos que temos diferen\u00e7as, mas temos imenso cuidado em procurar aquela frase ou aquela iniciativa onde todos se sentem envolvidos. No fundo, \u00e9 uma din\u00e2mica sinodal.<b><\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"western\"><i>Mas isso vai acontecendo de facto? <\/i><\/p>\n<p class=\"western\">Olha, n\u00f3s temos sempre tr\u00eas meses de prepara\u00e7\u00e3o deste encontro, que para n\u00f3s \u00e9 muito gratificante, porque \u00e9 um encontro semanal de encontro das v\u00e1rias comunidades crist\u00e3s. E depois, quando lan\u00e7amos uma destas iniciativas, tentamos mant\u00ea-la durante o ano e continuamos a manter rela\u00e7\u00f5es de amizade, que muitas vezes passam por um jantar com um membro de outra Igreja, de uma visita \u00e0 casa, \u00e0s nossas casas. Enfim, \u00e9 isto que alimenta o relacionamento fraterno e que de facto nos faz acreditar que n\u00e3o existe uma diferen\u00e7a substancial entre a f\u00e9 do outro e a minha f\u00e9.<\/p>\n<p class=\"western\"><i>Que <\/i><i>contributo podem os crist\u00e3os dar, na constru\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, na interven\u00e7\u00e3o e at\u00e9 no apelo \u00e0 participa\u00e7\u00e3o neste tempo pr\u00e9-eleitoral que estamos a viver? <\/i><\/p>\n<p class=\"western\">No fundo o importante \u00e9 n\u00e3o desmoralizar, quer dizer, o importante \u00e9 n\u00e3o desmoralizar e perceber que os crist\u00e3os t\u00eam como mira a eternidade. E n\u00e3o perder este foco na eternidade que se constr\u00f3i no dia-a-dia. Eu penso que o contributo que n\u00f3s podemos com certeza dar \u00e9 nos empenharmos naquelas situa\u00e7\u00f5es que est\u00e3o perto de n\u00f3s.<\/p>\n<p class=\"western\"><i>E sermos tamb\u00e9m exigentes para com os partidos, nomeadamente?<\/i><\/p>\n<p class=\"western\">Sim, \u00e9 muito importante perceber quais s\u00e3o os caminhos que cada um dos partidos prop\u00f5e e como \u00e9 que prop\u00f5e de facto um mundo com mais esperan\u00e7a e com mais vida. Saber exatamente nos programas o que \u00e9 que consta como caminho para chegar a uma meta, porque enfim, a meta \u00e9 um bocadinho sempre uma meta de uma situa\u00e7\u00e3o melhor, um mundo melhor, mas os caminhos s\u00e3o importantes e que sejam caminhos realistas.<\/p>\n<p class=\"western\">E eu diria que mesmo para as nossas institui\u00e7\u00f5es, e isso \u00e9 outra coisa que vamos fazer, j\u00e1 o combin\u00e1mos &#8211; as nossas institui\u00e7\u00f5es crist\u00e3s v\u00e3o-se encontrar de tr\u00eas em tr\u00eas meses num espa\u00e7o de comunh\u00e3o. Porqu\u00ea? Porque estas boas inten\u00e7\u00f5es que todos n\u00f3s temos sozinhos n\u00e3o conseguimos levar para a frente. E portanto, juntos vamos fazer um encontro trimestral onde partilharemos experi\u00eancias, faremos um momento de ora\u00e7\u00e3o, porque as institui\u00e7\u00f5es crist\u00e3s focam-se muito no social, acabam por ser institui\u00e7\u00f5es de solidariedade social, e perdem a dimens\u00e3o da fraternidade. E \u00e9 uma perda enorme para a ontologia da pr\u00f3pria institui\u00e7\u00e3o. De facto, \u00e9 necess\u00e1rio que cada um v\u00e1 \u00e0s ra\u00edzes e perceba a raz\u00e3o porque est\u00e1 nesta miss\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"western\"><i>Neste tempo em que a amea\u00e7a dos populismos e dos extremismos \u00e9 crescente, tamb\u00e9m se exige aos crist\u00e3os uma maior participa\u00e7\u00e3o c\u00edvica e pol\u00edtica?<\/i><\/p>\n<p class=\"western\">Sem d\u00favida, mas a participa\u00e7\u00e3o, penso eu, que passa muito pela consciencializa\u00e7\u00e3o e dinamiza\u00e7\u00e3o das comunidades crist\u00e3s de tal forma que cada um saiba dar raz\u00f5es da sua esperan\u00e7a. E ao dar raz\u00f5es da sua esperan\u00e7a, de facto, percebe que n\u00e3o pode haver incongru\u00eancias. Eu acho que temos a gra\u00e7a de ter o Papa Francisco que orienta exatamente para a inclus\u00e3o de todos, que orienta no sentido de fazermos este caminho. Eu penso que, quando ele diz que vai no meio do rebanho \u2013 uns v\u00e3o l\u00e1 mais \u00e0 frente, outros v\u00e3o mais c\u00e1 atr\u00e1s &#8211; ele tenta unir, de facto, estas pessoas. E eu penso que at\u00e9 as comunidades evang\u00e9licas valorizam muito este papel.<\/p>\n<p class=\"western\">\u00c9 muito interessante que, por exemplo, durante a Jornada Mundial da Juventude (JMJ) Lisboa 2023, houve um encontro no Est\u00e1dio da Luz organizado por organiza\u00e7\u00f5es evang\u00e9licas, onde passou um v\u00eddeo do Papa. Quer dizer, o Papa \u00e9 uma voz que, atualmente, \u00e9 ouvida por toda a gente, inclusivamente pelos evang\u00e9licos.<\/p>\n<p class=\"western\"><i>Precisamente nesse encontro da JMJ o Papa Francisco recebeu na Nunciatura Apost\u00f3lica diferentes l\u00edderes religiosos a quem pediu que a presen\u00e7a das religi\u00f5es no espa\u00e7o p\u00fablico continue a assegurar, na sociedade, uma abertura \u00e0 transcend\u00eancia, assegure tamb\u00e9m a dignidade da pessoa humana e o cuidado dos mais fr\u00e1geis. Eu pergunto-lhe de que forma \u00e9 que a pr\u00e1tica dos crist\u00e3os, no seu compromisso pol\u00edtico e c\u00edvico, tem de passar por aqui? <\/i><\/p>\n<p class=\"western\">Eu pessoalmente estou particularmente preocupado com esta abertura \u00e0 transcend\u00eancia. Porque, de facto, penso eu, e isto \u00e9 uma opini\u00e3o muito pessoal, que n\u00f3s tivemos aqui um pico com a JMJ, em que, de facto, houve um pico de entusiasmo, mas, de facto, h\u00e1 que dar continuidade \u00e0 JMJ. E, nesse aspeto, eu penso que a forma\u00e7\u00e3o de pequenas comunidades, quer dentro da Igreja Cat\u00f3lica, e valorizar estas pequenas comunidades que fazem um caminho de discipulado em rela\u00e7\u00e3o a Jesus Cristo, depois leva um empenho na sociedade.<\/p>\n<p class=\"western\">Quer dizer, n\u00e3o vale de nada haver um misticismo que aflora em muitas circunst\u00e2ncias, mas que, de facto, depois separa completamente a alma da vida do quotidiano. E isto \u00e9 uma tend\u00eancia. Eu penso que hoje em dia, nas alturas de crise, h\u00e1 muito a tend\u00eancia da polariza\u00e7\u00e3o. Ou focar-se muito ou no social ou muito no m\u00edstico. No fundo, s\u00e3o ref\u00fagios. E ser capaz de fazer a s\u00edntese entre as duas coisas, estar alimentados e alicer\u00e7ados na raiz, para depois ser a express\u00e3o deste amor de Jesus Cristo, concretamente naquele que \u00e9 o outro. Eu penso que \u00e9 por a\u00ed o caminho.<\/p>\n<p class=\"western\"><i>Pedia o seu olhar agora para este processo de sinodalidade que a Igreja Cat\u00f3lica est\u00e1 a viver.\u00a0Aqui mesmo, na Renascen\u00e7a, o D. Jorge Pina Cabral, da Igreja Lusitana, sublinhou que o processo em curso, se for enriquecedor para a Igreja Cat\u00f3lica, naturalmente ser\u00e1 tamb\u00e9m para o movimento ecum\u00e9nico em geral. Este processo da sinodalidade \u00e9 tamb\u00e9m um desafio para as outras Igrejas?\u00a0<\/i><\/p>\n<p class=\"western\">Eu penso que sim. As Igrejas do COPIC j\u00e1 s\u00e3o Igrejas sinodais. Elas j\u00e1 n\u00e3o decidem o bispo, por si s\u00f3, n\u00e3o podem tomar decis\u00f5es sem consultar de facto a sua Igreja. \u00c9 uma realidade tanto na Igreja Metodista como a Igreja Presbiteriana. E eu penso que esse processo \u00e9 um processo valioso no sentido em que envolve todos e ajuda todos a caminhar.<\/p>\n<p class=\"western\">Agora, s\u00e3o Igrejas que em termos num\u00e9ricos n\u00e3o t\u00eam uma express\u00e3o t\u00e3o grande. \u00c9 mais f\u00e1cil fazer s\u00ednodo numa Igreja mais pequena do que numa Igreja maior. Nas Igrejas evang\u00e9licas, o que eu tenho visto \u00e9 que, de facto, tamb\u00e9m t\u00eam o mesmo problema de todos se ouvirem. Penso que \u00e9 uma quest\u00e3o cultural. Atualmente, a autonomia \u00e9 um valor que est\u00e1 perfeitamente empolgado, levando-o a uma certa autocracia em que eu s\u00f3 fa\u00e7o aquilo que eu acho. E o s\u00ednodo, o escutar o outro, como o Papa Francisco nos prop\u00f5e, penso que \u00e9 um desafio grande e \u00e9 um desafio que temos de desenvolver em cada uma das comunidades e depois nas comunidades em geral.<\/p>\n<p class=\"western\"><i>Recorrendo \u00e0 sua experi\u00eancia profissional, como \u00e9 que v\u00ea as atuais dificuldades no Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade?\u00a0<\/i><\/p>\n<p class=\"western\">Pois, eu penso que tem muito a ver com esta quest\u00e3o monet\u00e1ria e a quest\u00e3o relacional. Em termos de respostas h\u00e1 uma discrep\u00e2ncia enorme entre aquele Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade que presta aux\u00edlio a todos, e em que os m\u00e9dicos e os profissionais de sa\u00fade trabalham l\u00e1 por uma causa.\u00a0 E, de facto, quando se perde a rela\u00e7\u00e3o, quando, n\u00e3o h\u00e1 um projeto em conjunto, quando se perde a raz\u00e3o de estar e, do outro lado, o dinheiro \u00e9 tr\u00eas vezes ou quatro vezes mais, as pessoas perdem este empenho no Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade.<\/p>\n<p class=\"western\">E, sinceramente, eu confesso, que se tivesse a obriga\u00e7\u00e3o de apresentar solu\u00e7\u00f5es, infelizmente, n\u00e3o tenho nenhuma maneira de resolver (o problema). Percebo que h\u00e1 enorme falta de recursos e percebo que o caminho, provavelmente, tem a ver com a medicina relacional, ou seja, com o cultivar da rela\u00e7\u00e3o, de forma que as institui\u00e7\u00f5es que agora emergem em grandes quantidades, no fundo s\u00e3o f\u00e1bricas de produ\u00e7\u00e3o ou t\u00eam este risco de se tornarem f\u00e1bricas de produ\u00e7\u00e3o de t\u00e9cnicas e de cuidados de sa\u00fade.<\/p>\n<p class=\"western\"><i>Mas, no dia-a-dia, sente que, de facto, h\u00e1 limita\u00e7\u00f5es no acesso \u00e0 sa\u00fade, como defendem alguns?\u00a0<\/i><\/p>\n<p class=\"western\">Eu trabalho no Centro Hospitalar de Lisboa Norte, e n\u00f3s temos filas enormes tanto para as consultas como para as realiza\u00e7\u00f5es dos exames complementares diagn\u00f3sticos. Antes da pandemia, \u00e9ramos 20, agora somos quatro ou cinco. Portanto, h\u00e1, de facto, no Hospital Pulido Valente particularmente, um deficit, uma incapacidade da resposta. Agora, h\u00e1 tamb\u00e9m um empenho e, j\u00e1 agora tamb\u00e9m lhe posso dizer, que apesar de sermos poucos, cri\u00e1mos h\u00e1 cinco anos, uma din\u00e2mica, que se chama a Unidade Mais Sentido &#8211; e \u00e9 uma coisa inovadora. \u00c9 a presta\u00e7\u00e3o de cuidados, segundo a metodologia dos cuidados paliativos, profundamente relacional, com os doentes card\u00edacos.<\/p>\n<p class=\"western\">Normalmente as pessoas associam aos cuidados paliativos ao fim de vida, a doen\u00e7a oncol\u00f3gica, e os card\u00edacos e pessoas com doen\u00e7as de \u00f3rg\u00e3o, tamb\u00e9m beneficiam imenso de ser cuidados, n\u00e3o s\u00f3 no aspeto t\u00e9cnico, porque n\u00f3s n\u00e3o somos mec\u00e2nicos do cora\u00e7\u00e3o, somos pessoas que tratam pessoas. E nesta rela\u00e7\u00e3o entre m\u00e9dico e doente, que envolve o cuidador, e em que nada \u00e9 m\u00e9rito nosso, \u00e9 tudo m\u00e9rito da metodologia dos cuidados paliativos, mas aplicado ao Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade \u00e9 muito retribuinte. Apesar das dificuldades, n\u00f3s vivemos a nossa miss\u00e3o e a nossa profiss\u00e3o com grande entusiasmo, porque percebemos que somos \u00fateis e percebemos que as pessoas nos veem com grande utilidade.<\/p>\n<p class=\"western\"><i>Mas, perante essas filas que descreve, como \u00e9 que fica a rela\u00e7\u00e3o m\u00e9dico-paciente?<\/i><\/p>\n<p class=\"western\">Tenho a sorte de ter um excelente diretor e arranjamos um m\u00e9todo onde, de facto, o nosso problema \u00e9 n\u00e3o conseguir dar uma resposta muito global, pelo contr\u00e1rio, \u00e9 uma resposta muito restrita, mas, de facto, n\u00f3s temos imenso tempo com cada doente, n\u00f3s podemos ver cada doente numa hora. Exatamente porque aqueles doentes que, al\u00e9m da patologia grave que t\u00eam no cora\u00e7\u00e3o, t\u00eam um conjunto de outras comorbidades, e portanto, desde o ponto de vista psicol\u00f3gico ao ponto de vista relacional, \u00e0 sobrecarga do cuidador, todas estas dimens\u00f5es s\u00e3o avaliadas e n\u00f3s temos tempo para isso. E isto \u00e9 muito bom, em termos de fazer a carreira profissional e de estar no hospital, porque n\u00f3s vivemos rodeados de gente que est\u00e1 contente com os cuidados que recebe e de gente que est\u00e1 contente com os cuidados que presta.<\/p>\n<p class=\"western\"><i>Deixe-me recorrer, por \u00faltimo, a uma das outras experi\u00eancias de vida do Lu\u00eds Parente Martins para lhe perguntar porqu\u00ea \u00e9 que estamos a falhar, se \u00e9 que estamos a falhar, ao n\u00edvel da rede de cuidados paliativos?<\/i><\/p>\n<p class=\"western\">Bom, existem, de facto, duas coisas que me parecem importantes. Por um lado, a pouca forma\u00e7\u00e3o e, do meu ponto de vista, existe uma afeta\u00e7\u00e3o cultural. Quer dizer, a um dado momento ainda existem, e era preciso procurar aquelas pessoas que est\u00e3o nos cuidados paliativos, com esta miss\u00e3o e esta vontade de querer ajudar, mas j\u00e1 come\u00e7a a haver tamb\u00e9m interesses econ\u00f3micos. Ou seja, \u00e9 uma oportunidade de trabalho, \u00e9 uma oportunidade tamb\u00e9m de criar rentabilidade e, portanto, a genuidade que eu encontrei quando comecei nos cuidados paliativos de pessoas que eram, de facto, pessoas extraordin\u00e1rias em termos humanos, hoje em dia pode perder-se.<\/p>\n<p class=\"western\">E isto \u00e9 tamb\u00e9m uma das maneiras de voltar \u00e0 genuidade. \u00c9 uma quest\u00e3o cultural, portanto, voltar \u00e0 genuidade e convidar cada um a fazer parte deste processo dos cuidados paliativos de forma a que isso seja compensador em termos humanos, porque \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o que se estabelece e n\u00f3s somos, de facto, seres de rela\u00e7\u00e3o. Acho que \u00e9 o caminho para implementar tamb\u00e9m os cuidados paliativos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em plena Semana de Ora\u00e7\u00e3o pela Unidade dos Crist\u00e3os, \u00e9 convidado da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia o cardiologista Lu\u00eds Parente Martins, da organiza\u00e7\u00e3o do Encontro Crist\u00e3o, que decorre a 27 de janeiro, em Sintra, que h\u00e1 14 anos junta diversas Igrejas e comunidades em ora\u00e7\u00e3o ecum\u00e9nica<\/p>\n","protected":false},"author":9,"featured_media":311092,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[630],"tags":[192,277],"class_list":["post-311124","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas-ecclesia-rr","tag-ecumenismo","tag-pastoral-da-saude"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/311124","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/9"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=311124"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/311124\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/311092"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=311124"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=311124"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=311124"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}