{"id":310271,"date":"2024-01-15T09:35:20","date_gmt":"2024-01-15T09:35:20","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=310271"},"modified":"2024-01-19T10:49:53","modified_gmt":"2024-01-19T10:49:53","slug":"lusofonias-carolina-a-favelada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/lusofonias-carolina-a-favelada\/","title":{"rendered":"LUSOFONIAS &#8211; Carolina, a favelada!"},"content":{"rendered":"<p><em>Tony Neves, nas favelas de S. Paulo<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-310272 size-large\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Lusofonias-FavelaS-Paulo11-01-2024-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Lusofonias-FavelaS-Paulo11-01-2024-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Lusofonias-FavelaS-Paulo11-01-2024-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Lusofonias-FavelaS-Paulo11-01-2024-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Lusofonias-FavelaS-Paulo11-01-2024-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Lusofonias-FavelaS-Paulo11-01-2024.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p>\u2018<em>Carolina Maria de Jesus. Uma biografia nas margens da literatura\u2019<\/em> \u00e9 um livro de Rita Ciotta que me abalou por dentro e me \u2018obrigou\u2019 a reler o \u2018<em>Quarto de despejo. Di\u00e1rio de uma favelada<\/em>\u2019, obra mais emblem\u00e1tica desta senhora brasileira que narra a sua sofrida vida quotidiana na ex-favela de Canind\u00e9, junto \u00e0s margens do Tiet\u00e9, em S. Paulo, entre 1955 e 1960.<\/p>\n<p>Tudo come\u00e7ou assim, no que diz respeito \u00e0 vida liter\u00e1ria de Carolina Maria de Jesus (1914-1977), negra, uma ex-favelada de S. Paulo: \u2018<em>os primeiros cadernos de Carolina de Jesus s\u00e3o derivados das lixeiras onde, ao recolher o lixo, a escritora separa caderno com folhas em branco, pap\u00e9is de p\u00e3o, revistas, jornais e livros usados; bem como romances com grafia do s\u00e9culo XIX onde se inspirava e desenvolvia seu processo autodid\u00e1tico\u2019<\/em> \u2013 conta Raffaela Fernandez, na introdu\u00e7\u00e3o a esta obra de Rita Ciotta sobre Carolina de Jesus.<\/p>\n<p>Maria Raquel Andrade, no pref\u00e1cio, apresenta a \u2018favelada\u2019 Carolina como \u2018<em>uma voz que fala para o mundo sobre o seu universo e sobre a absoluta aus\u00eancia de condi\u00e7\u00f5es sociais, culturais e ecol\u00f3gicas dignas, desejosa de o transformar. Desafia preconceitos, raciais ou de g\u00e9nero, apela para a justi\u00e7a no mundo que a rodeia e para a aten\u00e7\u00e3o aos pobres, estimulando todos os moradores das favelas a ter coragem para contar as suas hist\u00f3rias e, deste modo, mudar o mundo\u2019. <\/em>As obras principais foram publicadas em tempos dif\u00edceis, sendo \u2018<em>Quarto de despejo: di\u00e1rio de uma favelada\u2019 <\/em>(1960), uma obra traduzida em treze l\u00ednguas, dando a volta ao mundo, transformada num cl\u00e1ssico da literatura brasileira.<\/p>\n<p>Rita Ciotta, a autora desta biografia, tenta resumir o Brasil do s\u00e9c. XX a saltar de ditadura em ditadura, sempre a esmagar os mais pobres com opress\u00e3o e fome, como Carolina e a sua fam\u00edlia, primeiro em Minas Gerais e, mais tarde, na favela, onde \u2018<em>se deitam fora as pessoas<\/em>\u2019. Carolina pensa que na enorme cidade de S. Paulo \u2018<em>h\u00e1 o sal\u00e3o onde vivem os ricos e, nas periferias, h\u00e1 o quarto de despejo dos pobres\u2019<\/em>. Defende a autora que Carolina ser\u00e1 sempre \u2018<em>uma exilada, uma exclu\u00edda. Por ser mulher, negra, m\u00e3e solteira e, sobretudo, favelada\u2019.<\/em> Ela grita <em>\u2018a mis\u00e9ria, a dor e sobretudo a fome cuja cor ela v\u00ea: a fome \u00e9 amarela\u2019<\/em>. Fala \u2018<em>de si pr\u00f3pria e dos miser\u00e1veis que vivem em torno de si, tamb\u00e9m eles dilacerados e atormentados<\/em>\u2019. Acabaria por sair da favela, \u2018<em>mas morreu pobre como sempre foi\u2019<\/em>.<\/p>\n<p>O livro termina em grande com uma entrevista exclusiva feita a Vera Jesus Lima, filha de Carolina. Conta como era a vida miser\u00e1vel nas favelas, como conseguiu estudar e ser hoje professora. Fala da m\u00e3e com orgulho e promete continuar a investir para que as obras dela sejam mais conhecidas e as suas lutas mais assumidas. De facto, \u2018Quarto de despejo\u2019 reflecte \u2018<em>um certo Brasil moderno, a qual que ainda n\u00e3o venceu a batalha da injusti\u00e7a social e da mis\u00e9ria\u2019<\/em>. Ou, como diz o escritor italiano Alberto Moravia, \u2018<em>a escritora tem a for\u00e7a dos pobres que n\u00e3o t\u00eam nada a perder, sen\u00e3o os seus grilh\u00f5es\u2019<\/em>.<\/p>\n<p>Estou aqui em S. Paulo e tenho passado alguns dias em diversas favelas onde a vida quotidiana de milh\u00f5es de pessoas \u00e9 muito id\u00eantica \u00e0quela que Carolina de Jesus partilhou nos anos 50 do outro s\u00e9culo. O tempo passa, mas o mundo teima em n\u00e3o melhorar. Continua a haver muita gente \u2013 milh\u00f5es e milh\u00f5es &#8211; a passar ao lado de uma vida digna, sem casa, sem p\u00e3o na mesa, sem acesso a cuidados de sa\u00fade e sem educa\u00e7\u00e3o de qualidade. O mundo continua a aprofundar o fosso entre ricos e pobres, pois, quem tem muito ganha mais, quem tem pouco fica com cada vez menos. Esta injusti\u00e7a estrutural deve ser combatida e ultrapassada, como tantas vezes e de tantas maneiras o Papa Francisco tem defendido, apresentando propostas que os pol\u00edticos e agentes econ\u00f3micos n\u00e3o tomam devidamente a s\u00e9rio.<\/p>\n<p>Termino com a \u00faltima p\u00e1gina do Di\u00e1rio de Carolina, escrita no derradeiro dia de 1959: <em>\u201931 de dezembro\u2026 Levantei \u00e0s tr\u00eas e meia e fui carregar \u00e1gua. Despertei os filhos, eles tomaram caf\u00e9. Sa\u00edmos. O Jo\u00e3o foi catando papel porque quer dinheiro para ir no cinema. Que supl\u00edcio carregar tr\u00eas sacos de pap\u00e9is. Ganhamos 80 cruzeiros. Dei 30 ao Jo\u00e3o\u2026 Eu fui fazer compras, porque amanh\u00e3 \u00e9 dia de Ano. Comprei arroz, sab\u00e3o, querosene e a\u00e7\u00facar. O Jo\u00e3o e a Vera deitaram-se. Eu fiquei escrevendo. O sono surgiu, eu adormeci. Despertei com o apito da Gazeta anunciando o Ano Novo.(\u2026). Espero que 1960 seja melhor que 1959. Sofremos tanto no 1959, que d\u00e1 para a gente dizer: \u2018Vai, vai mesmo! Eu n\u00e3o quero voc\u00ea mais. Nunca mais!\u2019<\/em>.<\/p>\n<p><em>Tony Neves, nas favelas de S. Paulo<\/em><\/p>\n<div class=\"ast-oembed-container \" style=\"height: 100%;\"><iframe title=\"Spotify Embed: LUSOFONIAS - Carolina, a favelada!\" style=\"border-radius: 12px\" width=\"100%\" height=\"152\" frameborder=\"0\" allowfullscreen allow=\"autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/open.spotify.com\/embed\/episode\/1AYbQFIkkqWt28Vd5QTFwP?si=VkjxKF3GRXS6ShYm1xON_g&#038;utm_source=oembed\"><\/iframe><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tony Neves, nas favelas de S. 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