{"id":310222,"date":"2024-01-11T09:43:25","date_gmt":"2024-01-11T09:43:25","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=310222"},"modified":"2024-01-10T11:45:13","modified_gmt":"2024-01-10T11:45:13","slug":"aporofobia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/aporofobia\/","title":{"rendered":"Aporofobia"},"content":{"rendered":"<p><em>Ant\u00f3nio Salvado Morgado, Diocese da Guarda<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-271042 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/>Estamos em tempo de \u201cpalavras do ano\u201d. Por vezes, uma vez eleitas, passam rapidamente para a hist\u00f3ria do esquecimento. Todavia, seria conveniente que nem sempre fosse assim.<\/p>\n<p>Em Espanha, \u201caporofobia\u201d foi a palavra do ano de 2017 na sequ\u00eancia de um livro intitulado <em>\u00abAporofobia &#8211; A avers\u00e3o ao pobre um desafio para a democracia<\/em>\u00bb publicado nesse ano pela fil\u00f3sofa espanhola Adela Cortina, catedr\u00e1tica em\u00e9rita de \u00c9tica e Filosofia Pol\u00edtica da Universidade de Val\u00eancia. O subt\u00edtulo se, por um lado, nos informa sobre o significado do termo \u201caporofobia\u201d, defende, por outro, que a aporofobia constitui um \u00ab<em>desafio para a democracia<\/em>\u00bb. Ali\u00e1s, quanto possa saber, havia sido Adela Cortina a usar aquela palavra pela primeira vez em 1995 e, naquele ano de 2017, dada a utiliza\u00e7\u00e3o que se foi fazendo do termo no pa\u00eds vizinho o que, de algum modo, evidenciava o \u00abpoder explicativo e comunicativo\u00bb do novo termo, a Real Academia Espanhola decidiu inclu\u00ed-lo no seu dicion\u00e1rio.<\/p>\n<p>Embora j\u00e1 com quase tr\u00eas d\u00e9cadas de utiliza\u00e7\u00e3o por aquela fil\u00f3sofa, encontramo-nos, mesmo assim, perante um neologismo recente. Ali\u00e1s, \u201caporofobia\u201d \u00e9 um termo que ainda n\u00e3o aparece nos nossos dicion\u00e1rios da L\u00edngua Portuguesa, mas ela j\u00e1 anda por a\u00ed, \u00e0 mistura com outras fobias, como elemento de caracteriza\u00e7\u00e3o da paisagem social e pol\u00edtica em que nos movimentamos. A difus\u00e3o da palavra ter\u00e1 contribu\u00eddo para dar visibilidade a um fen\u00f3meno que se vinha mantendo difusamente escondido e ignorado.<\/p>\n<p>Como muitos outros da nossa l\u00edngua, o termo \u201caporofobia\u201d fala grego. Ele tem origem na jun\u00e7\u00e3o de duas palavras gregas: \u201c\u00e1poros\u201d [pobre, destitu\u00eddo, desvalido] e \u201cphobos\u201d [medo, avers\u00e3o]. Literalmente \u201caporofobia\u201d significa \u00ab<em>avers\u00e3o ao pobre\u00bb<\/em>, tal como aparece no subt\u00edtulo do livro da fil\u00f3sofa espanhola acima citada.<\/p>\n<p>Passou a 19 de Novembro do ano transacto o VII Dia Mundial dos Pobres e o Papa Francisco, com data de 13 de Junho, dia de Santo Ant\u00f3nio, patrono dos pobres, divulgou a habitual mensagem evocativa, encimando-a com o conselho imperativo retirado do livro de Tobias: <em>\u00abNunca afastes de algum pobre o teu olhar<strong>\u00bb<\/strong><\/em> (<em>Tb<\/em> 4, 7). Significativo contraste entre este apelo papal e a realidade significada por aquela palavra de nascimento recente. E, Adela Cortina, n\u00e3o deixa de salientar o que tamb\u00e9m n\u00f3s, neste Portugal do S\u00e9culo XXI, vamos constatando diariamente ou vamos admitindo como se se tratasse de uma normalidade \u00e9tico-pol\u00edtica: \u00ab<em>\u00c9 imposs\u00edvel n\u00e3o comparar o acolhimento entusi\u00e1stico e hospitaleiro com que se recebem os estrangeiros que v\u00eam como turistas, com a rejei\u00e7\u00e3o sem miseric\u00f3rdia da onda de estrangeiros pobres. Fecha-se-lhes as portas, levantam-se-lhes muralhas, impede-se que atravessem fronteiras<\/em>.\u00bb<\/p>\n<p>Este texto ficou na minha agenda de cronista ing\u00e9nuo desde Novembro do ano passado. Retomo-o agora sobretudo pela converg\u00eancia de tr\u00eas elementos. Social, pol\u00edtico e eclesial.<\/p>\n<p>N\u00e3o vivendo em Lisboa, por raz\u00f5es de ordem familiar, vou frequentemente \u00e0 capital e constato que vem aumentando nos \u00faltimos anos o n\u00famero de pessoas a aconchegarem-se em cart\u00f5es e cobertores ru\u00eddos pelo uso em recantos de algumas art\u00e9rias da cidade. No subterr\u00e2neo da gare do Oriente a situa\u00e7\u00e3o perturba o mais empedernido dos cora\u00e7\u00f5es. Confrangido e impotente passo a caminho do autom\u00f3vel estacionado no parque superior ao subterr\u00e2neo e lembro o imperativo papal atrav\u00e9s do livro de Tobias: <em>\u00abNunca afastes de algum pobre o teu olhar<strong>\u00bb<\/strong><\/em> (<em>Tb<\/em> 4, 7). Os olhos da cara n\u00e3o se afastar\u00e3o, at\u00e9 porque n\u00e3o podem. Os pobres, cidad\u00e3os do meu pa\u00eds e cidad\u00e3os do mundo, ali se encontram para vergonha minha e da nossa comunidade c\u00edvica a que perten\u00e7o, a que pertencemos. Mas os olhos da alma ficam a sangrar clamando pela responsabilidade pol\u00edtica de cada um e de todos. E assim a dimens\u00e3o social transforma-se em dimens\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>H\u00e1 tempos os meios de comunica\u00e7\u00e3o social falaram e denunciaram a situa\u00e7\u00e3o, mas a situa\u00e7\u00e3o de tanta gente sem abrigo, para al\u00e9m de muita outra que se envergonha da situa\u00e7\u00e3o, parece ter ficado depressa esquecida. Andamos j\u00e1 em campanha para as elei\u00e7\u00f5es legislativas que se realizar\u00e3o daqui a dois meses. Talvez por desaten\u00e7\u00e3o minha, ainda n\u00e3o encontrei nos partidos e agentes pol\u00edticos a apresenta\u00e7\u00e3o vis\u00edvel de uma pol\u00edtica real para a pobreza que tem vindo a aumentar no nosso pa\u00eds. E n\u00e3o importa s\u00f3 uma vaga pol\u00edtica social de que sempre se fala nestas ocasi\u00f5es com voz grossa e altissonante. Trata-se da necessidade de uma pol\u00edtica clara e estruturada de combate \u00e0 pobreza que respeite a dignidade do ser humano. Ficarei atento. Fiquemos, todos, atentos e saibamos, com a clarivid\u00eancia poss\u00edvel, at\u00e9 onde vai a aporofobia dos nossos agentes pol\u00edticos, sabendo n\u00f3s, na companhia da fil\u00f3sofa espanhola, que ela \u00e9 <em>\u00abum \u00abdesafio para a democracia<\/em>\u00bb.<\/p>\n<p>\u00c9 eclesial o terceiro elemento que desejaria aqui salientar. N\u00e3o para referir a dimens\u00e3o caritativa e fraterna da Igreja, nem o muito que as suas institui\u00e7\u00f5es t\u00eam vindo a fazer neste dom\u00ednio para superar tantas situa\u00e7\u00f5es de pobreza e injusti\u00e7a social com que diariamente nos deparamos. Vou por outro caminho e a ideia foi-me sugerida por uma not\u00edcia que acabo de receber. E vem dos Estados Unidos [EUA], onde a sinodalidade da Igreja tem vindo a ser questionada com alguma veem\u00eancia. Pois acaba de ser noticiado que os bispos dos EUA decidiram que, durante a pr\u00f3xima Quaresma, o caminho sinodal de cada diocese estaria virado, particularmente, para os \u00abpobres\u00bb e \u00abmigrantes\u00bb. N\u00e3o sei se a ideia \u00e9 centrar a reflex\u00e3o nos \u00abpobres\u00bb e nos \u00abmigrantes\u00bb ou se se pretende dar-lhes efectivamente a palavra. Seja como for, importa trazer \u00abpobres\u00bb e \u00abmigrantes\u00bb para o centro da sinodalidade. Importa ouvi-los, dar-lhe voz activa na Igreja. Porque uma \u00ab<em>op\u00e7\u00e3o preferencial pelos pobres<\/em>\u00bb n\u00e3o pode ser uma express\u00e3o meramente vazia ou ret\u00f3rica. E o S\u00ednodo \u00e9 uma oportunidade para lhes ser dada voz efectiva.<\/p>\n<p>Porque o crist\u00e3o n\u00e3o pode ser o aporof\u00f3bico que tem medo e avers\u00e3o ao pobre, mas ser\u00e1 mestre de aporofilia, de estima e amor pelos pobres. A aporofobia \u00e9 preconceito que alimenta a desigualdade. A aporofilia \u00e9 fraternidade e raiz da conc\u00f3rdia entre os humanos.<\/p>\n<p>Guarda, 9 de Janeiro de 2024<\/p>\n<p><em>Ant\u00f3nio Salvado Morgado<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ant\u00f3nio Salvado Morgado, Diocese da Guarda<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":271042,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-310222","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/310222","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=310222"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/310222\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/271042"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=310222"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=310222"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=310222"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}