{"id":30995,"date":"2008-03-28T12:15:58","date_gmt":"2008-03-28T12:15:58","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/03\/28\/preparando-o-sinodo-dos-bispos-um-biblista-responde\/"},"modified":"2008-03-28T12:15:58","modified_gmt":"2008-03-28T12:15:58","slug":"preparando-o-sinodo-dos-bispos-um-biblista-responde","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/preparando-o-sinodo-dos-bispos-um-biblista-responde\/","title":{"rendered":"Preparando o S\u00ednodo dos Bispos: Um biblista responde"},"content":{"rendered":"<p>Pe. Armindo Vaz fala ao Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura <!--more--> Armindo dos Santos Vaz, Professor de Escritura na Faculdade de Teologia e Presidente da Associa\u00e7\u00e3o dos Biblistas portugueses, aborda algumas das proposi\u00e7\u00f5es dos \u201cLineamenta\u201d.   <b>Entre B\u00edblia e Tradi\u00e7\u00e3o mant\u00e9m-se uma correcta rela\u00e7\u00e3o no estudo exeg\u00e9tico-teol\u00f3gico e nos encontros com o Livro Sagrado? <\/b>  A rela\u00e7\u00e3o entre B\u00edblia e Tradi\u00e7\u00e3o da Igreja \u00e9 um dado de facto, quase exigido para se entender, quer uma, quer a outra. Toda a B\u00edblia nasce da Tradi\u00e7\u00e3o precedente e consigna por escrito uma tradi\u00e7\u00e3o din\u00e2mica e progressiva, onde se podem distinguir diversas correntes. A Escritura \u00e9 fruto da elabora\u00e7\u00e3o da Tradi\u00e7\u00e3o e at\u00e9 o seu momento privilegiado; a Tradi\u00e7\u00e3o continua mesmo depois da Escritura e esta constitui o primeiro crit\u00e9rio de validade para julgar o sucessivo desenvolvimento da Tradi\u00e7\u00e3o. Pode-se dizer que a pr\u00f3pria Tradi\u00e7\u00e3o da Igreja foi matriz das suas Sagradas Escrituras, ao reconhecer nelas a sua narrativa fundadora, a sua f\u00e9 e a sua regra de vida (1). A Tradi\u00e7\u00e3o at\u00e9 teve grande peso para determinar que livros deveriam ser aceites como can\u00f3nicos\/b\u00edblicos: foi a sua ampla recep\u00e7\u00e3o durante um longo per\u00edodo no juda\u00edsmo ou no cristianismo &#8211; e n\u00e3o um decreto formal &#8211; que teve como resultado a sua inclus\u00e3o definitiva no c\u00e2none. O c\u00e2none da Escritura est\u00e1 profundamente enraizado na Tradi\u00e7\u00e3o. Reconhecer a autoridade do c\u00e2none b\u00edblico \u00e9 reconhecer a autoridade da Tradi\u00e7\u00e3o. O c\u00e2none b\u00edblico \u00e9 uma express\u00e3o da Grande Tradi\u00e7\u00e3o da Igreja.  Aprofundando essa rela\u00e7\u00e3o, constatamos que a Tradi\u00e7\u00e3o da Igreja \u00e9 anterior \u00e0 Escritura do Novo Testamento, situando-se, por outro lado, em linha de continuidade com o \u201cAntigo Testamento\/alian\u00e7a\u201d divino-humano testemunhado em Escritura, refer\u00eancia autorizada para a f\u00e9 e para a vida da comunidade crist\u00e3, pois o pr\u00f3prio Jesus se referia com grande respeito a livros desse conjunto: \u201ccomo diz a Escritura\u201d.  Ali\u00e1s, foi o recurso \u00e0s \u201cEscrituras\u201d do Antigo Testamento, recebidas na Tradi\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica, que facilitou aos disc\u00edpulos de Jesus a compreens\u00e3o do seu mist\u00e9rio, da sua morte e ressurrei\u00e7\u00e3o. De facto, a apresenta\u00e7\u00e3o da sua vida &#8211; oral e, depois, escrita &#8211; por parte da Tradi\u00e7\u00e3o da Igreja era feita interpretando as Escrituras: \u201ca tradi\u00e7\u00e3o que vos fiz chegar em primeiro lugar\u2026 foi que Cristo morreu pelos nossos pecados de acordo com as Escrituras, e que foi sepultado e ao terceiro dia ressuscitou para a vida de acordo com as Escrituras\u201d (1Cor 15,3-4). Por outro lado, s\u00f3 a f\u00e9 e a Tradi\u00e7\u00e3o da Igreja em Jesus ressuscitado como Cristo lhe permitiram receber e reconhecer essa miscel\u00e2nea de textos como Sagrada Escritura para ela.  A esta ideia de recorte cat\u00f3lico at\u00e9 os protestantes prestam hoje maior aten\u00e7\u00e3o, num esfor\u00e7o de m\u00fatua aproxima\u00e7\u00e3o, num toque de ecumenismo. Os estudos hist\u00f3rico-cr\u00edticos da exegese moderna puseram em relevo que os livros do c\u00e2none s\u00e3o produto de uma Tradi\u00e7\u00e3o anterior, deitando por terra a distin\u00e7\u00e3o n\u00edtida entre Escritura e Tradi\u00e7\u00e3o; mostram que a Escritura e a Tradi\u00e7\u00e3o n\u00e3o eram categorias separadas mas realidades imbricadas uma na outra e indissoci\u00e1veis entre si.  At\u00e9 seria apropriado falar de tradi\u00e7\u00e3o escrita e de tradi\u00e7\u00e3o n\u00e3o escrita, pois ambas s\u00e3o, afinal, duas formas de transmitir a Revela\u00e7\u00e3o divina. Especialmente no caso do Novo Testamento, os primeiros crist\u00e3os conseguiram transmitir e ensinar a boa nova de Jesus sem Escrituras crist\u00e3s oficiais, diferentes das dos judeus, e s\u00f3 gradual-mente consignaram por escrito a sua literatura distintiva. Esta realidade apoia a posi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica de que a f\u00e9 crist\u00e3 n\u00e3o est\u00e1 totalmente contida na Escritura: existiu antes e paralelamente \u00e0 Escritura que a transmitiu. \u00c9 o problema hermen\u00eautico de saber se a Escritura se pode interpretar a si pr\u00f3pria ou se a sua interpreta\u00e7\u00e3o requer o complemento de um princ\u00edpio externo, a Tradi\u00e7\u00e3o. Consequentemente, o estudo recente do c\u00e2none tem sido percebido por muitos te\u00f3logos como tendente a minar o princ\u00edpio da sola Scriptura da ortodoxia protestante. No s\u00e9c. III a Igreja acreditava ter recebido n\u00e3o s\u00f3 a B\u00edblia dos judeus e o Novo Testamento da Tradi\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica, mas tamb\u00e9m uma forma de \u00abler\u00bb que desvelava o mist\u00e9rio de ambos: do Antigo e do Novo Testamento. Os bispos n\u00e3o eram as \u00fanicas pessoas a transmitir esta segunda \u00ableitura\u00bb de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o. Mas eram os garantes de que tinha sido transmitida a correcta forma de \u00abler\u00bb.  Foi nessa forma de \u00abler\u00bb que o cristianismo se auto-definiu, nos fins do s\u00e9c. II, pelos desafios fundamentais que lhe foram postos pelo gnosticismo (que produziu grande profus\u00e3o de escritos pretensamente inspirados que intentavam ampliar o \u00e2mbito das Escrituras Sagradas), bem como por Marci\u00e3o e Taciano (que pretendiam reduzir a colec\u00e7\u00e3o de livros pouco a pouco formada pela Tradi\u00e7\u00e3o das Igrejas).  O paradoxo da hist\u00f3ria e das rela\u00e7\u00f5es entre Escritura e Tradi\u00e7\u00e3o da Igreja v\u00ea-se neste virtuoso c\u00edrculo hermen\u00eautico: a soberania da Igreja \u00e9 que define quais os livros que constituem o c\u00e2none das Escrituras inspiradas; todavia, o m\u00fanus de ensinar da Igreja n\u00e3o est\u00e1 por cima da Palavra de Deus e recorre \u00e0 pr\u00f3pria Escritura, n\u00e3o s\u00f3 como guia decisiva para se demarcar de livros que deveriam ficar fora do c\u00e2none, mas tamb\u00e9m para orientar a sua f\u00e9 e a sua vida. Escritura e Tradi\u00e7\u00e3o unem-se efectivamente no Esp\u00edrito de Deus, implicado em ambas: inspira uma e transporta a for\u00e7a da outra no passado para o presente.  Precisamente porque a Tradi\u00e7\u00e3o \u00e9, n\u00e3o uma realidade est\u00e1tica, petrificada, s\u00f3 do passado, nem um dep\u00f3sito est\u00e1tico, mas uma realidade viva e din\u00e2mica, novas interpreta\u00e7\u00f5es de textos b\u00edblicos n\u00e3o deveriam causar receio de falta de respeito pela Tradi\u00e7\u00e3o. A Tradi\u00e7\u00e3o, ao mesmo tempo que \u00e9 recebida do passado, continua a ser constru\u00edda no presente: obriga-nos a repensar de novo para o presente o que nos transmitiram do passado as fontes de conhecimento da Revela\u00e7\u00e3o de Deus. \u00c9 natural que seja no campo da exegese b\u00edblica que se tornem mais vis\u00edveis as inova\u00e7\u00f5es, porque foi ela que mudou bastante e contribuiu para a mudan\u00e7a noutras \u00e1reas da Teologia. Mas a B\u00edblia d\u00e1-nos o exemplo de como fazer Tradi\u00e7\u00e3o\/transmiss\u00e3o da f\u00e9: \u00e9 continuar a pensar Deus sempre de novo, em cada circunst\u00e2ncia hist\u00f3rica; \u00e9 a fidelidade ao melhor passado, com criatividade para explor\u00e1-lo e faz\u00ea-lo progredir no presente; \u00e9 fidelidade criativa.  <b>A Palavra de Deus \u00e9 a alma do trabalho exeg\u00e9tico e teol\u00f3gico? <\/b>  O trabalho exeg\u00e9tico n\u00e3o est\u00e1 em tens\u00e3o com crit\u00e9rios teol\u00f3gicos e dogm\u00e1ticos, nem est\u00e1 propriamente limitado por eles. Sente-se em estreito e constante di\u00e1logo com eles. A exegese, mais do que ser aut\u00f3noma, tem a fun\u00e7\u00e3o de interpretar os textos que s\u00e3o testemunhos da revela\u00e7\u00e3o divina. E mais do que ser pr\u00e9via \u00e0 reflex\u00e3o teol\u00f3gico-sistem\u00e1tica, toca-lhe trabalhar em di\u00e1logo com ela. \u00c9 realizada em comunh\u00e3o com a Igreja, sem esquecer que Igreja e Escritura como Palavra de Deus n\u00e3o s\u00e3o duas realidades justapostas ou subordinadas mas interactivas. Ali\u00e1s, n\u00e3o deveria existir um antes e um depois entre exegese cient\u00edfica e teologia, ultrapassando a situa\u00e7\u00e3o de uma exegese \u00e0 margem da teologia que se praticou desde a \u00e9poca cl\u00e1ssica.  Aprovado e recomendado pelo magist\u00e9rio eclesial, o trabalho exeg\u00e9tico exclui tanto a compreens\u00e3o ingenuamente fundamentalista como a compreens\u00e3o dogm\u00e1tica da B\u00edblia. O te\u00f3logo n\u00e3o recorre \u00e0 Escritura simplesmente para justificar ou confirmar o ensino do magist\u00e9rio, como acontecia na teologia cat\u00f3lica at\u00e9 pouco antes do Vaticano II. \u00c9 antes a nossa leitura da Escritura a que nos leva a uma reinterpreta\u00e7\u00e3o dos enunciados dogm\u00e1ticos. \u201cA palavra de Deus exprimiu-se na obra de autores humanos. Pensamento e palavras s\u00e3o ao mesmo tempo de Deus e do homem\u2026 N\u00e3o se segue, todavia, que Deus tenha dado valor absoluto ao condicionamento hist\u00f3rico da sua mensagem\u201d (2).     <b>Respeita-se adequadamente a sua natureza de Palavra revelada? <\/b>  Porque o texto b\u00edblico inspirado goza de todas as caracter\u00edsticas liter\u00e1rias de qualquer texto humano e os seus autores se comportam como qualquer outro &#8211; como \u201cverdadeiros autores\u201d (3) -, o exegeta, tomando a s\u00e9rio o car\u00e1cter humano da B\u00edblia, com todas as suas riquezas e condicionantes liter\u00e1rias, interpreta-a com os mesmos m\u00e9todos liter\u00e1rios, diacr\u00f3nicos e sincr\u00f3nicos, o mais cient\u00edficos poss\u00edvel, que hoje est\u00e3o ao servi\u00e7o da an\u00e1lise de qualquer outro livro e, nos seus aspectos t\u00e9cnicos, s\u00e3o partilhados por outras disciplinas. Nem se exclui o recurso a ci\u00eancias auxiliares (4). Mas esse trabalho hermen\u00eautico n\u00e3o p\u00f5e minimamente em causa a natureza de Palavra revelada pr\u00f3pria da B\u00edblia.   <b>Uma pr\u00e9-compreens\u00e3o de f\u00e9 anima e apoia a pesquisa cient\u00edfica? <\/b>  Para realizar a tarefa da exegese, n\u00e3o pomos provisoriamente a f\u00e9 entre par\u00eantesis: a pr\u00f3pria f\u00e9 requer aten\u00e7\u00e3o aos factos sobre os quais est\u00e1 fundada e requer um fundamentado contacto com os textos inspirados que s\u00e3o a sua norma suprema.  As aulas de Sagrada Escritura s\u00e3o um lugar privilegiado para fazer a articula\u00e7\u00e3o da Tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 entre o ontem e o hoje, para ela ser vivida e elaborada hoje, na linguagem da Igreja e dos jovens de hoje. Assim os jovens alunos s\u00e3o colocados em rela\u00e7\u00e3o expl\u00edcita com a Tradi\u00e7\u00e3o da Igreja. Em tudo isto, exorta-nos S. Paulo a exercer os minist\u00e9rios eclesiais \u201cat\u00e9 chegarmos todos \u00e0 unidade da f\u00e9 e do conhecimento do Filho de Deus, \u00e0 idade adulta, \u00e0 maturidade da estatura de Cristo na sua plenitude. Assim j\u00e1 n\u00e3o seremos crian\u00e7as, andando \u00e0 deriva e levados ao sabor de qualquer vento de doutrina, \u00e0 merc\u00ea da mal\u00edcia humana e da ast\u00facia que habilmente leva ao erro. Sendo, ao inv\u00e9s, aut\u00eanticos no amor, crescemos em todos os aspectos em direc\u00e7\u00e3o \u00c0quele que \u00e9 a cabe\u00e7a, Cristo\u201d (Ef 4,13-15).  <b>Qual \u00e9 a metodologia habitual de aproxima\u00e7\u00e3o ao texto b\u00edblico? <\/b>  \u00c9 a metodologia recomendada por Pio XII na \u00abDivino afflante Spiritu\u00bb, pela \u00abDei Verbum\u00bb em geral, especialmente pelo n\u00ba 12, e pelos dois grandes documentos da Comiss\u00e3o B\u00edblica Pontif\u00edcia, \u00abA interpreta\u00e7\u00e3o da B\u00edblia na Igreja\u00bb e \u00abO povo hebraico e as suas Sagradas Escrituras na B\u00edblia crist\u00e3\u00bb. As interpreta\u00e7\u00f5es, eventualmente inovadoras, de textos b\u00edblicos n\u00e3o se desviam da metodologia indicada pelo magist\u00e9rio nem contrariam a Tradi\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica e eclesial. Tornam-se base para uma nova reflex\u00e3o sobre alguns temas teol\u00f3gicos. Nem os avan\u00e7os da exegese fazem perder ou falseiam o dom da f\u00e9; s\u00f3 a purificam de fundamentalismos prejudiciais para ela.  NOTAS:  (1) Cf. PAULO VI, Discurso aos membros da Comiss\u00e3o B\u00edblica Pontif\u00edcia, a 14.3.1974: AAS 66 (1974) 235-239.  (2) A interpreta\u00e7\u00e3o da B\u00edblia na Igreja, III, D, 2.  (3) Dei Verbum, 11.  (4) Cf. LE\u00c3O XIII, Providentissimus Deus: EB 109; PIO XII, Divino afflante Spiritu, 15; e a alocu\u00e7\u00e3o de JO\u00c3O PAULO II para a publica\u00e7\u00e3o do documento \u201cA interpreta\u00e7\u00e3o da B\u00edblia na Igreja\u201d.  <i>P. Armindo Vaz, Professor da Faculdade de Teologia, UCP  Fonte: www.snpcultura.org <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pe. 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