{"id":309425,"date":"2024-01-03T11:43:20","date_gmt":"2024-01-03T11:43:20","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=309425"},"modified":"2024-01-03T11:43:20","modified_gmt":"2024-01-03T11:43:20","slug":"temos-de-falar-disso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/temos-de-falar-disso\/","title":{"rendered":"Temos de falar disso"},"content":{"rendered":"<p><em>Jorge Pires Ferreira, Diocese de Aveiro<\/em><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Jorge-Pires-Ferreira.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-270080 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Jorge-Pires-Ferreira-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Jorge-Pires-Ferreira-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Jorge-Pires-Ferreira-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Jorge-Pires-Ferreira-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Jorge-Pires-Ferreira-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Jorge-Pires-Ferreira.jpg 900w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>A declara\u00e7\u00e3o (\u201cFiducia supplicans\u201d) que possibilita aben\u00e7oar, dentro de certas condi\u00e7\u00f5es, casais em situa\u00e7\u00f5es irregulares e casais do mesmo sexo causou v\u00e1rias rea\u00e7\u00f5es entre cat\u00f3licos e n\u00e3o cat\u00f3licos.<\/p>\n<p>Entre estes \u00faltimos, indiferentes na sua grande maioria para a quest\u00e3o, as opini\u00f5es que se ouviram foram de apre\u00e7o. Parecia, a julgar pelas primeiras not\u00edcias na comunica\u00e7\u00e3o social generalista, que finalmente a Igreja aceitava a homossexualidade.<\/p>\n<p>Entre os cat\u00f3licos, as rea\u00e7\u00f5es foram \u2013 e s\u00e3o \u2013 de dois tipos. Para uns, \u00e9 um passo em frente, e positivo, na abordagem da homossexualidade (os \u201ccasais em situa\u00e7\u00f5es irregulares\u201d pouco interessam para o caso). Estes, que consideram o documento como algo positivo, subdividem-se entre os que acham que h\u00e1 novidade na pr\u00e1tica e os que dizem que n\u00e3o h\u00e1 propriamente novidade porque \u201cn\u00e3o se pretende sancionar nem legitimar nada\u201d (n.\u00ba 34).<\/p>\n<p>Para os outros, os que receberam negativamente a declara\u00e7\u00e3o, h\u00e1 novidade, mas \u00e9 uma contradi\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao que a Igreja sempre pensou e disse sobre a homossexualidade e o casamento cat\u00f3lico.<\/p>\n<p>Talvez todos tenham raz\u00e3o. Lendo o documento, que me perece que procura um equil\u00edbrio entre o rigor da doutrina (como deve ser) e o acolhimento pastoral (como as pessoas s\u00e3o), podem-se apontar algumas ambival\u00eancias. \u00c9 mesmo poss\u00edvel aben\u00e7oar pares homossexuais sem danificar \u201co ensinamento perene da Igreja sobre o Matrim\u00f3nio\u201d? Quando um par homossexual pede uma b\u00ean\u00e7\u00e3o, n\u00e3o est\u00e1 precisamente a desejar ser aceite como \u00e9, como vivendo a afetividade e sexualidade de um modo condenado pela Igreja? \u201cDe um ponto de vista estritamente lit\u00fargico, a b\u00ean\u00e7\u00e3o requer que aquilo que se bendiz seja conforme \u00e0 vontade de Deus manifestada nos ensinamentos da Igreja\u201d, diz a declara\u00e7\u00e3o no n.\u00ba 9, mesmo que pouco depois adiante que \u201cexiste o perigo de que um gesto pastoral, t\u00e3o querido e difundido, se submeta a demasiados requisitos morais pr\u00e9vios que, sob a pretens\u00e3o de controlo, poderia eclipsar a forma incondicional do amor de Deus, em que se baseia o gesto da b\u00ean\u00e7\u00e3o\u201d (n.\u00ba 12). E, mais para o final, afirma que os que pedem a b\u00ean\u00e7\u00e3o \u201cn\u00e3o pretendem a legitimidade do seu pr\u00f3prio status, mas rogam que tudo o que h\u00e1 de verdadeiro, bom e humanamente v\u00e1lido nas suas vidas e rela\u00e7\u00f5es, seja investido, santificado e elevado pela presen\u00e7a do Esp\u00edrito Santo\u201d (n.\u00ba 31). Mesmo que assim seja, isto \u00e9, que quem pede a b\u00ean\u00e7\u00e3o n\u00e3o pretende a legitimidade do status, o que \u00e9 de duvidar, est\u00e1 a confus\u00e3o assumida, porque tal status ileg\u00edtimo d\u00e1 coisas santific\u00e1veis.<\/p>\n<p>O documento ainda h\u00e1 de fazer correr muita tinta. Compreende-se melhor se olharmos para um dos princ\u00edpios propostos na \u201cEvangelli Gaudium\u201d, que diz \u201cA realidade \u00e9 mais importante do que a ideia\u201d: \u201cExiste tamb\u00e9m uma tens\u00e3o bipolar entre a ideia e a realidade: a realidade simplesmente \u00e9, a ideia elabora-se. Entre as duas, deve estabelecer-se um di\u00e1logo constante, evitando que a ideia acabe por separar-se da realidade. \u00c9 perigoso viver no reino s\u00f3 da palavra, da imagem, do sofisma. Por isso, h\u00e1 que postular um terceiro princ\u00edpio: a realidade \u00e9 superior \u00e0 ideia. Isto sup\u00f5e evitar v\u00e1rias formas de ocultar a realidade: os purismos ang\u00e9licos, os totalitarismos do relativo, os nominalismos declaracionistas, os projetos mais formais que reais, os fundamentalismos anti-hist\u00f3ricos, os eticismos sem bondade, os intelectualismos sem sabedoria\u201d (n.\u00ba 231).<\/p>\n<p>Ora, a realidade \u00e9 que h\u00e1 casais homossexuais que s\u00e3o cat\u00f3licos e vivem em amor e fidelidade e n\u00e3o sentem como pecado a vida que assumem.<\/p>\n<p>A realidade \u00e9 que homossexualidade deixou de ser \u201cdesordem\u201d para a Associa\u00e7\u00e3o Americana de Psiquiatria em 1973 e deixou de ser doen\u00e7a mental para a OMS em 1990, mas continua a ser para a Igreja algo \u201cintrinsecamente desordenado\u201d. \u201cEvitar-se-\u00e1, em rela\u00e7\u00e3o a eles [homossexuais] \u2013 diz o Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica (CIC) \u2013 qualquer sinal de discrimina\u00e7\u00e3o injusta\u201d (sobram as descrimina\u00e7\u00f5es justas, depreende-se). Mas, quanto \u00e0 vida afetiva e sexual, \u201cas pessoas homossexuais s\u00e3o chamadas \u00e0 castidade\u201d (n.\u00bas 2358 e 2359). Se n\u00e3o aplicarmos os \u201cpurismos ang\u00e9licos\u201d do n.\u00ba 231 da EG a estes par\u00e1grafos do CIC, n\u00e3o os podemos aplicar a mais nada.<\/p>\n<p>A \u201cFiducia supplicans\u201d, no meu ponto de vista, \u00e9 uma declara\u00e7\u00e3o confusa e contradit\u00f3ria. Diz que n\u00e3o quer alterar \u201co ensino perene da Igreja sobre o Matrim\u00f3nio\u201d (se o ensino \u00e9 mesmo \u201cperene\u201d desde os tempos apost\u00f3licos ou s\u00f3 \u00e9 perene a partir do segundo mil\u00e9nio e apenas numa parte da cristandade, \u00e9 muito question\u00e1vel), mas n\u00e3o o harmoniza com a realidade dos casais homossexuais cat\u00f3licos. N\u00e3o seria esse o objetivo, \u00e9 certo. Mas a b\u00ean\u00e7\u00e3o, ainda que recatada e sem paramentos, \u00e9 uma disson\u00e2ncia. Ainda bem. Talvez seja um bom motivo para come\u00e7armos a falar de homossexualidade, catolicismo e matrim\u00f3nio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jorge Pires Ferreira, Diocese de Aveiro<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":270080,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[170],"class_list":["post-309425","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao","tag-diocese-de-aveiro"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/309425","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=309425"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/309425\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/270080"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=309425"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=309425"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=309425"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}