{"id":30881,"date":"2008-03-24T10:59:58","date_gmt":"2008-03-24T10:59:58","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/03\/24\/homilia-do-bispo-do-porto-na-vigilia-pascal\/"},"modified":"2008-03-24T10:59:58","modified_gmt":"2008-03-24T10:59:58","slug":"homilia-do-bispo-do-porto-na-vigilia-pascal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-bispo-do-porto-na-vigilia-pascal\/","title":{"rendered":"Homilia do Bispo do Porto na Vig\u00edlia Pascal"},"content":{"rendered":"<p>Amados irm\u00e3os e irm\u00e3s, car\u00edssimos catec\u00famenos:  &#8211; Que poderemos dizer ainda e acrescentar, depois de tanta li\u00e7\u00e3o b\u00edblica, resumida a hist\u00f3ria da nossa salva\u00e7\u00e3o? Pouco, na verdade, t\u00e3o eloquentes foram as palavras ouvidas e as ora\u00e7\u00f5es rezadas, t\u00e3o sugestivos os gestos lit\u00fargicos que iluminaram a nossa catedral e ainda mais as nossas consci\u00eancias e cora\u00e7\u00f5es. Mas alguma coisa direi, apesar disso. A todos os que aqui estamos, com especial\u00edssima refer\u00eancia aos que v\u00e3o ser baptizados. E em torno do Prec\u00f3nio pascal, que n\u00e3o poderia ser mais esplendente de verdade, da verdade fundamental da ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo. Mar Vermelho poderia ser apenas o de Mois\u00e9s com o seu povo, atravessado h\u00e1 tantos s\u00e9culos atr\u00e1s\u2026 Mas o Prec\u00f3nio v\u00ea-o a outra luz e em contraste com outras sombras, que j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o as dos ex\u00e9rcitos do fara\u00f3, mas as do pecado e cegueira espiritual. Como o ouvimos: \u201cEsta \u00e9 a noite, em que a coluna de fogo dissipou as trevas do pecado\u201d. Trevas do pecado\u2026 Sim, irm\u00e3os, da cegueira espiritual de quando n\u00e3o quis\u00e9ssemos ver, nem sequer \u00e0 n\u00e3o verdade ou mentira completa em que se tornasse a nossa vida. \u00c9 antiga a frase, mas n\u00e3o menos actual, tristemente actual: \u201cquem n\u00e3o vive como pensa, acaba por pensar como vive\u201d. Verdadeira como estoutra: \u201ca decad\u00eancia tamb\u00e9m tem a sua l\u00f3gica\u201d. Triste l\u00f3gica de quem procurasse extinguir o que lhe resta de luz, apagando-a ainda mais em escurid\u00e3o impenetr\u00e1vel.   &#8211; Esta noite \u00e9 mais para falar de luz! Mas sem esquecer que, depois da primeira luz em que o mundo foi criado, cantamos uma nova luz, em que ele mesmo foi recriado. E esta, irm\u00e3os e irm\u00e3s, brilha sobre outras trevas, que n\u00e3o s\u00e3o as iniciais e ing\u00e9nuas da primeira cria\u00e7\u00e3o, mas as acumuladas por muita anti-cria\u00e7\u00e3o, infelizmente acrescentada.  Quando Deus criou a luz, nada lhe custou sen\u00e3o quer\u00ea-lo; mas, para que a luz rebrilhasse nesta noite santa, foi-Lhe preciso atravessar as trevas dens\u00edssimas da morte que o pecado originara. N\u00e3o o esque\u00e7amos nunca, para o agradecermos sempre: o Ressuscitado \u00e9 o Crucificado, refulge-lhe gloriosa a cruz, brilham-lhe salvadoras as chagas.  N\u00e3o o esque\u00e7amos todos, e muito especialmente os que se abeiram da \u00e1gua do Baptismo. A hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o, de que lembr\u00e1mos os essenciais momentos, est\u00e1 conclu\u00edda em Cristo e, no seu Esp\u00edrito, \u00e9-nos oferecida a todos. Mas cumpre-nos acolh\u00ea-la persistentemente, para que, com a Palavra e os sacramentos, v\u00e1 dissolvendo muita sombra persistente que ainda nos ret\u00e9m na antemanh\u00e3 do dia.  A \u00e1gua nov\u00edssima do Baptismo brota nos nossos cora\u00e7\u00f5es como uma fonte divina, \u201cpara a vida eterna\u201d. Por isso mesmo \u00e9 sacramento irrepet\u00edvel. Mas cada um dos que renovaremos nesta vig\u00edlia as promessas baptismais sabe certamente que n\u00e3o lhe \u00e9 f\u00e1cil \u2013 a essa \u00e1gua do Esp\u00edrito de Cristo \u2013 cumprir em n\u00f3s toda a promessa da sua novidade, toda a irradia\u00e7\u00e3o da sua luz. Nem em n\u00f3s, nem no ambiente e na mentalidade que integramos. Deixai-me concretizar com a grande rarefac\u00e7\u00e3o cultural que se verifica em torno da P\u00e1scoa. \u00c9 muita a dificuldade dos comunicadores sociais, por exemplo, em acertarem com o tema pascal na sua ess\u00eancia, ficando-se em geral no acidental ou insignificante. Da Primavera \u00e0s am\u00eandoas e das am\u00eandoas aos ovos e por a\u00ed fora\u2026 E da pr\u00f3pria Igreja, que transporta a mem\u00f3ria viva da P\u00e1scoa de Cristo, mais facilmente se retiram a cenografia do que a liturgia propriamente dita, alguma disson\u00e2ncia do que a afirma\u00e7\u00e3o essencial e comum, algum pormenor do que o acontecimento em si mesmo. Mais complexo ainda seria o caso de n\u00f3s pr\u00f3prios, crentes que nos dizemos e queremos, darmos pouca import\u00e2ncia e compar\u00eancia \u2013 de corpo e esp\u00edrito &#8211; \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o pascal, ficando-nos mais pela ocasi\u00e3o festiva e exterior, de conviv\u00eancia e folga. E o caso \u00e9 que, se j\u00e1 \u00e9 dif\u00edcil passar o aut\u00eantico sentido do Natal, da incarna\u00e7\u00e3o de Cristo, Deus connosco realmente, mais dif\u00edcil ser\u00e1 transmitir o da P\u00e1scoa, vida ressuscitada de Cristo, ess\u00eancia da nossa f\u00e9. H\u00e1 muito a fazer e refazer neste ponto, em premente \u201cnova evangeliza\u00e7\u00e3o\u201d, nossa e alheia! Felizmente, muito felizmente, estamos aqui esta noite, car\u00edssimos irm\u00e3os. E nem foi precisa muita imagina\u00e7\u00e3o para atravessarmos todos os mares necess\u00e1rios, desde que guiados pela coluna do fogo divino. Por isso e s\u00f3 por isso, j\u00e1 aqui mesmo chegastes, j\u00e1 muito longe enxergais, dentro e fora do vosso universo.  Cantou de seguida o Prec\u00f3nio a vida nova dos baptizados, como luminosa torrente de gra\u00e7a: \u201cEsta \u00e9 a noite, que liberta das trevas do pecado e da corrup\u00e7\u00e3o do mundo aqueles que hoje por toda a terra cr\u00eaem em Cristo, noite que os restitui \u00e0 gra\u00e7a e os re\u00fane na comunh\u00e3o dos santos\u201d.  Estaremos ent\u00e3o conscientes do absoluto contraste entre corrup\u00e7\u00e3o do mundo e comunh\u00e3o dos santos. O mundo \u00e9 bom como cria\u00e7\u00e3o; mas, deixado a si mesmo, corrompe-se, quando se corrompe primeiro o homem, que antes lhe deveria nomear as coisas, para lhes dar sentido. Infelizmente, em vez de as nomear com linguagem aprendida de Deus, acontece por vezes desnome\u00e1-las, alterando o sentido das palavras mais belas e desvirtuando o efeito que poderiam ter. Vida e morte, juventude e velhice, casamento e amor, liberdade e verdade: quantas acep\u00e7\u00f5es divergentes e at\u00e9 contradit\u00f3rias acabam por anular-lhes a nomea\u00e7\u00e3o, redundando tudo em insignific\u00e2ncia geral, contrafazendo a cria\u00e7\u00e3o e dificultando gravemente a civiliza\u00e7\u00e3o, ou seja, a vida em comum sobre uma base \u00fanica de humanidade geral e respons\u00e1vel. \u00c9 \u00f3bvio que, avan\u00e7ando a hist\u00f3ria, a realidade se torna mais complexa; mas complexidade n\u00e3o pode significar desist\u00eancia de valores comuns, esses mesmos que a pr\u00f3pria evolu\u00e7\u00e3o decanta e confirma.  Mas o Prec\u00f3nio cantou outra realidade, mais compensadora e subida, a comunh\u00e3o dos santos. Na verdade, onde h\u00e1 pecado e ego\u00edsmo, n\u00e3o haver\u00e1 lugar para os outros e o mundo extingue-se por n\u00e3o-conviv\u00eancia. Mas onde os outros continuam a valer, abre-se a comunh\u00e3o dos santos, em que a vida circula e a unidade acontece.  Deixemo-lo ressoar: \u201cEsta \u00e9 a noite, que liberta das trevas do pecado e da corrup\u00e7\u00e3o do mundo aqueles que hoje por toda a terra cr\u00eaem em Cristo, noite que os restitui \u00e0 gra\u00e7a e os re\u00fane na comunh\u00e3o dos Santos\u201d. Crer em Cristo, como felizmente nos acontece, \u00e9 integrar uma fam\u00edlia onde todos cabemos por nos unir no essencial, isto \u00e9, na palavra de Deus, que tudo cria e recria. Nascemos, naturalmente, segundo o sangue e a terra, segundo a gente e a cultura. Basta para nascer, mas n\u00e3o chega para ultimar. Ultimamo-nos sim num nascimento mais alto, na paternidade divina que a todos acolhe, nas imensas moradas em que todos s\u00e3o esperados.  Esta fam\u00edlia, inaugurou-a Cristo no mundo, com uma declara\u00e7\u00e3o a reter: \u201cMinha m\u00e3e e meus irm\u00e3os s\u00e3o aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a p\u00f5em em pr\u00e1tica\u201d (Lc 8, 21). \u2013 Queridos catec\u00famenos, porque acolhestes a Palavra de Deus e estais dispostos a p\u00f4-la em pr\u00e1tica, integrareis a fam\u00edlia de Cristo e a comunh\u00e3o dos santos. E oxal\u00e1 que igual disposi\u00e7\u00e3o e pr\u00e1tica concreta nos permita, aos j\u00e1 baptizados, dizer-vos com propriedade e coer\u00eancia: \u201cBem-vindos!\u201d. Sirva-nos a todos, de penhor e est\u00edmulo a luz purificadora desta noite salutar. Cantava tamb\u00e9m o Prec\u00f3nio: \u201cEsta \u00e9 a noite, em que Cristo, quebrando as cadeias da morte, Se levanta vitorioso do t\u00famulo\u201d. Precisamente irm\u00e3os, catec\u00famenos e baptizados, \u00e9 de morte e vida que se trata, nada menos do que isso e tudo novo a partir da\u00ed. Ganhemos nesta sant\u00edssima vig\u00edlia, plena de ressurrei\u00e7\u00e3o e de Esp\u00edrito, a consci\u00eancia certa de que o cristianismo que integramos n\u00e3o \u00e9 algo mais a acrescentar ao que j\u00e1 havia ou ainda perdura, naturalmente falando. &#8211; Absolutamente n\u00e3o! Trata-se de novidade inteira, outra vida, outros h\u00e1bitos e crit\u00e9rios, outras atitudes fundamentais e pr\u00e1ticas. Assim o entenderam os primeiros que o viveram, percebendo bem que o convite de Jesus era geral, na particularidade de cada um: \u201cJesus disse, ent\u00e3o aos disc\u00edpulos: \u2018Se algu\u00e9m quiser vir comigo, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Quem quiser salvar a sua vida, vai perd\u00ea-la; mas, quem perder a sua vida por minha causa, h\u00e1-de encontr\u00e1-la\u201d (Mt 16, 2425). Com Cristo, levantamo-nos vitoriosos do t\u00famulo em que a nossa vida ficaria se o n\u00e3o encontr\u00e1ssemos l\u00e1, quando fez sua a nossa morte para nos dar a sua vida. Vida de filhos de Deus, que s\u00f3 Cristo nos poderia dar, por ser unicamente sua. Vida de irm\u00e3os, seus e de todos, no Esp\u00edrito de comunh\u00e3o universal, que s\u00f3 de Deus pode porvir. Morte e vida, o sacramento desta noite, que imediatamente foi compreendido e explicado por S\u00e3o Paulo, em frases de fogo, como as ouvidas: \u201cTodos n\u00f3s que fomos baptizados em Jesus Cristo fomos baptizados na sua morte. Fomos sepultados com Ele pelo Baptismo na sua morte, para que, assim como Cristo ressuscitou dos mortos pela gl\u00f3ria do Pai, tamb\u00e9m n\u00f3s vivamos uma vida nova. [\u2026] Assim v\u00f3s tamb\u00e9m. Considerai-vos mortos para o pecado e vivos para Deus, em Cristo Jesus\u201d (Rm 6, 3 ss). Entendemos certamente o essencial: baptizados \u2013 que somos ou seremos dentro em pouco \u2013 j\u00e1 n\u00e3o temos vida que n\u00e3o seja com Cristo, morrendo por isso em n\u00f3s tudo o que n\u00e3o era seu. Agora, cresce-nos na alma e em todas as concretiza\u00e7\u00f5es da exist\u00eancia exactamente e s\u00f3 aquilo que n\u00e3o morre mais, a caridade de Deus.  &#8211; Vida verdadeira, esta, que custou a Deus Pai e entrega do Filho, para nos vir buscar onde jaz\u00edamos; e nos faz cantar de novo com o Prec\u00f3nio pascal: \u201cOh admir\u00e1vel condescend\u00eancia da vossa gra\u00e7a! Oh incompar\u00e1vel predilec\u00e7\u00e3o do vosso amor! Para resgatar o escravo, entregastes o Filho!\u201d.  Tudo est\u00e1 aqui presente, nesta esplendorosa noite: o amor criador do Pai, que nos recupera em Cristo, renovando-nos como filhos no Filho, no seu Esp\u00edrito filial. Daqui a pouco, queridos catec\u00famenos, direis pela primeira vez, com inteira verdade, a ora\u00e7\u00e3o dos filhos de Deus, o Pai Nosso. \u2013 Que a vossa frescura e convic\u00e7\u00e3o nos contagiem a todos, para uma P\u00e1scoa sempre reencontrada. Essa mesma porque o mundo espera.  Disse-o tamb\u00e9m S. Paulo: \u201cPois at\u00e9 a cria\u00e7\u00e3o se encontra em expectativa ansiosa, aguardando a revela\u00e7\u00e3o dos filhos de Deus!\u201d (Rm 8, 19). E que a luz da manh\u00e3 que se avizinha tenha em cada um de n\u00f3s o seu renovado esplendor!         S\u00e9 do Porto, 22-23 de Abril de 2008 <i>+ Manuel Clemente, Bispo do Porto           <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Amados irm\u00e3os e irm\u00e3s, car\u00edssimos catec\u00famenos: &#8211; Que poderemos dizer ainda e acrescentar, depois de tanta li\u00e7\u00e3o b\u00edblica, resumida a hist\u00f3ria da nossa salva\u00e7\u00e3o? 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