{"id":30879,"date":"2008-03-24T10:56:16","date_gmt":"2008-03-24T10:56:16","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/03\/24\/tumulo-vazio-e-vida-nova\/"},"modified":"2008-03-24T10:56:16","modified_gmt":"2008-03-24T10:56:16","slug":"tumulo-vazio-e-vida-nova","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/tumulo-vazio-e-vida-nova\/","title":{"rendered":"T\u00famulo vazio e vida nova"},"content":{"rendered":"<p>Homilia do Bispo do Porto no Domingo de P\u00e1scoa centrada no caminho da ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo e da nova sabedoria que dela nasce <!--more--> Car\u00edssimos irm\u00e3os e irm\u00e3s, aqui reunidos na ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo:    Deixai-me deter um pouco na sauda\u00e7\u00e3o que vos fiz: \u201caqui reunidos na ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo\u2026\u201d. Diziam os antigos que a sabedoria come\u00e7ava pelo espanto, a admira\u00e7\u00e3o diante da realidade. Sabedoria nova \u00e9 a nossa agora, que nunca nos admiraremos bastante com esta realidade inaudita de estarmos aqui reunidos pela ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo! No Evangelho que ouvimos, eram muito poucos, naquela manh\u00e3zinha de Jerusal\u00e9m: Maria Madalena, depois Pedro e outro disc\u00edpulo\u2026 Muito poucos, num alvoro\u00e7o repentino. Um t\u00famulo vazio, as ligaduras no ch\u00e3o, o sud\u00e1rio enrolado \u00e0 parte: sinais bastantes para que o disc\u00edpulo acreditasse. Assim foi, apenas; e assim \u00e9 agora, com a multid\u00e3o dos que tamb\u00e9m acreditamos e traduzimos o espanto que nos transporta num som maior do que as palavras: Aleluia! Mas, neste passo, toda a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 pouca. Porque \u00e9 importante o t\u00famulo, ainda que j\u00e1 vazio; importantes s\u00e3o os sinais duma vida nova, que saiu daqueles panos que a envolviam sem os desalinhar sequer; ou seja, que deles saiu, brotando outra. \u00c9 precisamente assim que tudo verificamos e acreditamos, como disc\u00edpulos predilectos. Um t\u00famulo vazio, mortalhas feitas sinas de vida nova\u2026 E por esta ordem tamb\u00e9m, indispensavelmente por esta ordem. Quer dizer, da morte e dos seus sinais mais pesados \u2013 sepulcro, ligaduras \u2013 \u00e0 vida e \u00e0 sua realiza\u00e7\u00e3o total, que s\u00f3 entrevemos por enquanto. \u00c9 este o \u00e2mago do cristianismo, irredut\u00edvel a qualquer conjectura humana, passada, presente ou futura. Com estas refer\u00eancias temporais, porque s\u00e3o sempre f\u00e1ceis as reedi\u00e7\u00f5es de velhos devaneios\u2026 Como seria, por exemplo, reduzir a ressurrei\u00e7\u00e3o a uma \u201cmera\u201d reanima\u00e7\u00e3o dum cad\u00e1ver, com os muitos contornos da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica; ou reduzi-la ainda mais, \u00e0 pura persist\u00eancia duma hist\u00f3ria ou duma moral da hist\u00f3ria, sen\u00e3o mesmo duma lenda piedosa\u2026 Tudo isto e muito mais ser\u00e1 poss\u00edvel, se nos desviarmos da estrada estreita, indicada pelos imprescind\u00edveis sinais que escut\u00e1mos. Antes de mais o t\u00famulo, local de tenebrosas coisas e at\u00e9 da destrui\u00e7\u00e3o delas. A morte foi o caminho da ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo. A morte tal e qual, sem mitiga\u00e7\u00f5es nem fugas. Com requintes de crueza at\u00e9, como a coroa de espinhos e os cravos.  Como humanidade, tanto sofremos a morte como somos tristemente capazes de a infligir aos outros, com crueldade ou displic\u00eancia&#8230; Entretanto, a morte que aquele t\u00famulo e todos os t\u00famulos assinalam, \u00e9 a face mais oculta da realidade inevit\u00e1vel, que a todos nos toca e quase nos define, precisamente como \u201cmortais\u201d. Desde que a detectamos \u2013 no caminho existencial de cada um ou da humanidade inteira \u2013 tememos-lhe o rosto sombrio ou tentamos afast\u00e1-lo da ideia. E sucedem-se os escapes, grosseiros ou requintados. Desde o famoso \u201ccomamos e bebamos que amanh\u00e3 morreremos\u201d, j\u00e1 biblicamente referido, at\u00e9 a um manique\u00edsmo que apresse a autodestrui\u00e7\u00e3o material para libertar n\u00e3o sei que \u201calma\u201d, ou \u00e0 nega\u00e7\u00e3o mais trabalhosa do eu e do desejo, para atingir a \u201cpaz\u201d da inconsist\u00eancia\u2026 A algo disto, n\u00e3o somos completamente alheios. Mas, como crist\u00e3os, s\u00f3 poderemos encarar a morte como Cristo o fez: de frente e por dentro. Significa assumir de facto a nossa actualidade mortal \u2013 de todos e de cada um -, com os sinais dessa mesma mortalidade, sem fechar os olhos nem virar o rosto. E encontrar nessa mesma condi\u00e7\u00e3o a reden\u00e7\u00e3o que Cristo lhe outorgou, ao assumi-la e ressuscit\u00e1-la, por inteiro. Vai isto muito ao contr\u00e1rio da mentalidade corrente. Pelo menos da que alguns querem fazer passar por tal, porventura para legitimar desist\u00eancias; e aos mais variados n\u00edveis, dos pr\u00e1ticos aos legais. A vida humana \u00e9 um bem total, ainda que fr\u00e1gil e sempre dependente, mesmo quando parece segura e realizada. Transporta desde a concep\u00e7\u00e3o os sinais duma e outra coisa, quer da maior potencialidade quer do maior risco. E, tendo uma acep\u00e7\u00e3o individual e pessoal indiscut\u00edvel, tem tamb\u00e9m uma dimens\u00e3o solid\u00e1ria indispens\u00e1vel.  Quer isto dizer que, sendo fr\u00e1gil em cada um de n\u00f3s, da concep\u00e7\u00e3o \u00e0 morte natural, depende do apoio de todos; sendo mortal, desde que come\u00e7a a existir, s\u00f3 pode ser restaurada pelo seu pr\u00f3prio Autor divino. Quanto ao fim, est\u00e1 garantido na ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo, precisamente de entre os mortos. Quanto ao seu curso terreno, do ventre materno ao leito da enfermidade, n\u00e3o pode prescindir do nosso concurso positivo. E isto em todo o arco da exist\u00eancia de cada um. Mais ou menos desejado e previsto, mais ou menos indesejado e imprevisto, cada momento da nossa vida igualmente nos constitui e constitui os outros: uns com os outros, uns para os outros. Quando desistimos de algum item desta essencial solidariedade, a\u00ed sim, j\u00e1 perdemos a luta contra a morte, porque nos torn\u00e1mos aliados dela; tristes aliados, que ela, mais forte, descartar\u00e1 de seguida. Uma sociedade que despreze a vida, mesmo quando alega raz\u00f5es humanit\u00e1rias para o fazer, cede \u00e0 morte um espa\u00e7o que esta se apressar\u00e1 a alargar. N\u00e3o h\u00e1 qualquer racioc\u00ednio de consequ\u00eancia que possa sustentar a vida como um todo, quando lhe debilita alguma das etapas.  O sepulcro est\u00e1 vazio e a ressurrei\u00e7\u00e3o acontece, n\u00e3o porque Jesus evitasse a morte, mas porque a olhou de frente e a assumiu por dentro, (con)vencendo-a pela caridade, em si e nos outros, todos os outros. Dificuldades n\u00e3o faltaram a Maria, da concep\u00e7\u00e3o ao nascimento de Jesus. Nem faltariam depois \u00e0quela Fam\u00edlia, de Bel\u00e9m ao Egipto e do Egipto a Nazar\u00e9. Nem a Jesus, nos tr\u00eas anos de vida p\u00fablica, indo directamente ao encontro da morte, como em Naim (o filho da vi\u00fava) e em Bet\u00e2nia (o seu amigo L\u00e1zaro), ou deixando-se abordar por ela (os leprosos). Por fim, n\u00e3o fugiu \u00e0 sua, porque nos tinha de salvar na nossa. \u00c0 cruz, temo-la agora como sinal de gl\u00f3ria, devolvida que foi e triunfante pela ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo. Por isso mesmo, quando a morte se avizinhar, imprimindo-nos porventura os seus tra\u00e7os mais deformantes, a\u00ed mesmo encontramos aquele que n\u00e3o os alheou de si.  \u00c9 impressionante o realismo desta antiga profecia, que os disc\u00edpulos de Cristo logo verificaram nele: \u201cOlhai, o meu servo ter\u00e1 \u00eaxito, ser\u00e1 muito engrandecido e exaltado. Assim como muitos ficaram espantados diante dele, ao verem o seu rosto desfigurado e o seu aspecto disforme, agora far\u00e1 com que muitos povos fiquem bem impressionados. Os reis ficar\u00e3o de boca aberta, ao verem coisas inenarr\u00e1veis, e ao contemplarem coisas inauditas\u201d (Is 52, 13-15). Voltemos por instantes ao espanto de que nasce a sabedoria. \u2013 N\u00e3o \u00e9 espantoso, irm\u00e3os e irm\u00e3s, que tenhamos vivido o Tr\u00edduo Pascal em torno de um condenado, de um homem destru\u00eddo pela lei daquele tempo, injusta e mal aplicada, e pela tremenda adversidade f\u00edsica e ps\u00edquica, que se abateu sobre ele em crudel\u00edssima paix\u00e3o?! Condenado, desfigurado e por fim exangue numa cruz?! E igualmente espantoso \u00e9 n\u00e3o desviarmos os olhos dessa mesma cruz e do seu condenado, vendo em cada um dos sinais da sua morte outros tantos sinais de vida, porque tudo foi assumido e entregue, ao Pai e a n\u00f3s, na caridade do Esp\u00edrito.   E n\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m espantoso que, a partir da\u00ed, tantos e tantas se aproximem dos seus irm\u00e3os mais fracos ou doentes, em todo o percurso da respectiva exist\u00eancia, activando neles a mesma vit\u00f3ria em que o Calv\u00e1rio redundou?! Esta e s\u00f3 esta pode ser a vit\u00f3ria sobre a morte, n\u00e3o a chamando nem alheando, antes percorrendo-a na senda estreita e vitoriosa do Crucificado-Ressuscitado. Esta e s\u00f3 esta, pode e deve ser a atitude de quem soube interpretar os sinais de vida no sepulcro vazio e nas ligaduras despejadas. Esta e s\u00f3 esta dar\u00e1 \u00e0 sociedade actual, na P\u00e1scoa de Cristo, a esperan\u00e7a necess\u00e1ria para n\u00e3o desistir de si mesma. &#8211; Dificuldades? Resist\u00eancias e oposi\u00e7\u00f5es? Decerto as encontramos, e nem precisaremos de sair de n\u00f3s pr\u00f3prios, se porventura n\u00e3o formos t\u00e3o consequentes quanto devemos ser, neste ponto primordial de ver e promover a vida \u00e0 luz da P\u00e1scoa de Cristo, que n\u00e3o ilude o sofrimento e a morte, antes os preenche e salva na caridade concreta. \u2013 Outras resist\u00eancias e oposi\u00e7\u00f5es? Ultrapassemo-las com serenidade e coer\u00eancia, quer por elucida\u00e7\u00e3o te\u00f3rica quer por ac\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria. Como nos dizia um Ap\u00f3stolo: \u201cN\u00e3o vos deixeis perturbar; mas no \u00edntimo do vosso cora\u00e7\u00e3o, confessai Cristo como Senhor, sempre dispostos a dar a raz\u00e3o da vossa esperan\u00e7a a todo aquele que vo-la pe\u00e7a; com mansid\u00e3o e respeito, mantendo limpa a consci\u00eancia\u2026\u201d (1 Pe 3, 15-16). Diante de tantos sinais da morte, celebremos irm\u00e3os e irm\u00e3s, em P\u00e1scoa verdadeira, a ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo, que preencha e renove o mundo inteiro!        S\u00e9 do Porto, 23 de Mar\u00e7o de 2008 <i>+ Manuel Clemente, Bispo do Porto<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homilia do Bispo do Porto no Domingo de P\u00e1scoa centrada no caminho da ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo e da nova sabedoria que dela nasce<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[187,206,275,314],"class_list":["post-30879","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-diocese-do-porto","tag-familia","tag-pascoa","tag-solidariedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30879","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=30879"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30879\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=30879"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=30879"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=30879"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}