{"id":30866,"date":"2008-03-22T16:30:17","date_gmt":"2008-03-22T16:30:17","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/03\/22\/homilia-do-bispo-do-porto-na-celebracao-da-paixao-do-senhor\/"},"modified":"2008-03-22T16:30:17","modified_gmt":"2008-03-22T16:30:17","slug":"homilia-do-bispo-do-porto-na-celebracao-da-paixao-do-senhor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-bispo-do-porto-na-celebracao-da-paixao-do-senhor\/","title":{"rendered":"Homilia do Bispo do Porto na celebra\u00e7\u00e3o da Paix\u00e3o do Senhor"},"content":{"rendered":"<p>Amados irm\u00e3os e irm\u00e3s, todos reunidos no G\u00f3lgota deste dia:  Depois de tudo quanto ouvimos, a atitude certa seria o sil\u00eancio, contemplativo e contrito. E nem alguma coisa que eu diga agora o quer perturbar, antes confirmar, para o tempo que se segue, hoje e amanh\u00e3, at\u00e9 \u00e0 vig\u00edlia pascal.  Deixai-me concentrar a reflex\u00e3o no momento definitivo, como o evangelista o narrou: \u201csabendo que tudo estava consumado [\u2026] Jesus disse: \u2018Tenho sede\u2019. Estava ali um vaso cheio de vinagre. Prenderam a uma vara uma esponja embebida em vinagre e levaram-Lha \u00e0 boca. Quando Jesus tomou o vinagre, exclamou: \u2018Tudo est\u00e1 consumado\u2019. E, inclinando a cabe\u00e7a, expirou\u201d. Tudo aqui importa, sem excluir nenhum detalhe. A vida resumida numa inextingu\u00edvel sede, um vinagre que n\u00e3o poderia alivi\u00e1-la, a morte como entrega do Esp\u00edrito, em que Jesus se retribui ao Pai, e nos salva nessa mesma retribui\u00e7\u00e3o, porque nela nos inclui. Sequioso de n\u00f3s, j\u00e1 Jesus se mostrara, surpreendendo a samaritana. Recordemos o epis\u00f3dio, em que todos os pormenores igualmente contam: \u201cTinha de atravessar a Samaria. [\u2026] Ficava ali o po\u00e7o de Jacob. Ent\u00e3o Jesus, cansado da caminhada, sentou-se, sem mais, na borda do po\u00e7o. [\u2026] Entretanto, chegou certa mulher samaritana para tirar \u00e1gua. Disse-lhe Jesus: \u2018D\u00e1-me de beber\u2019. [\u2026] Disse-lhe ent\u00e3o a samaritana: \u2018Como \u00e9 que tu, sendo judeu, me pedes de beber a mim que sou samaritana?\u2019. \u00c9 que os judeus n\u00e3o se d\u00e3o bem com os samaritanos. Respondeu-Lhe Jesus: \u2018Se conhecesses o dom que Deus tem para te dar e quem \u00e9 que te diz: \u2018d\u00e1-me de beber\u2019, tu \u00e9 que lhe pedirias, e Ele havia de dar-te \u00e1gua viva!\u201d (Jo 4, 4 ss). Todo o trecho se realiza agora, no alto do Calv\u00e1rio. Cansativamente atravessada \u2013 sempre e s\u00f3 por Ele &#8211; a Samaria da nossa imensa dist\u00e2ncia de Deus, magnanimamente ultrapassadas longu\u00edssimas hist\u00f3rias de dissen\u00e7\u00e3o e estranheza \u2013 sempre e s\u00f3 nossas -, Jesus resume-se na sede que tem de n\u00f3s, na sede que Deus tem de cada um de n\u00f3s. Diz-nos que quer trocar a \u00e1gua que lhe dermos, duma antiga e nunca saciada expectativa, na \u00e1gua viva que, recebida do Pai como eterna fonte, nos comunica a todos como vida nova do Esp\u00edrito. Tudo se consuma assim: a sede que Deus tem de n\u00f3s e a sede que n\u00f3s temos de Deus. Tudo consumado em Deus humanado; e humanado para nos divinizar na \u00e1gua viva do Esp\u00edrito, tornada a cruz em fonte. Mas, por enquanto, a sede\u2026 A sede de Jesus, que o leva a buscar-nos no mais long\u00ednquo de n\u00f3s mesmos, na secura absoluta da pr\u00f3pria morte, po\u00e7o realmente sem fundo. Daqui a instantes, esta celebra\u00e7\u00e3o concentra-se na cruz do Redentor. Iremos ador\u00e1-la, cantaremos c\u00e2nticos a prop\u00f3sito. Mas ser\u00e1 importante que continuemos a ouvir d\u2019Ele o brado que nos salva: \u201cTenho sede!\u201d. E que cada um de n\u00f3s, abeirando-se da Cruz, o oi\u00e7a na sua pr\u00f3pria pessoa: \u201cTenho sede de ti!\u201d. Entretanto, para sabermos mais da sede de Deus, da sede de Jesus na cruz, temos de aprender com quem a conhe\u00e7a muito. Aprendamos ent\u00e3o, para que esta celebra\u00e7\u00e3o tenha em n\u00f3s o sentido obrigat\u00f3rio e salutar que deve ter.  Saiu recentemente em edi\u00e7\u00e3o portuguesa um extraordin\u00e1rio livro com escritos pessoais de Madre Teresa de Calcut\u00e1 (Madre Teresa \u2013 Vem, s\u00ea minha luz. Os escritos privados da \u2018Santa de Calcut\u00e1\u2019. Lisboa: Al\u00e9theia, 2007). Suscitou alguma pol\u00e9mica, entre os que ainda n\u00e3o sabem o que a reden\u00e7\u00e3o custou a Cristo e necessariamente custa aos que est\u00e3o com Ele na \u00fanica reden\u00e7\u00e3o do mundo. A quem julga que h\u00e1 ressurrei\u00e7\u00e3o sem cruz, ou saciedade sem sede. A n\u00f3s mesmos, se ainda n\u00e3o despert\u00e1mos do sono\u2026 A certa altura, Madre Teresa conta-nos como se radicalizou a sua voca\u00e7\u00e3o: \u201cFoi neste dia [10 de Setembro1946] no comboio para Darjeeling que Deus me fez o \u2018chamamento no interior do chamamento\u2019 para saciar a sede de Jesus servindo-O nos mais pobres entre os pobres\u201d (p. 58). E explica depois \u00e0s Mission\u00e1rias da Caridade: \u201c \u2018Tenho sede\u2019, disse Jesus na cruz, quando estava privado de todas as consola\u00e7\u00f5es, morrendo em Pobreza absoluta, abandonado, desprezado, vencido de corpo e alma. [\u2026] Jesus \u00e9 Deus; portanto, o Seu amor, a Sua sede \u00e9 infinita. O nosso objectivo \u00e9 saciar esta sede infinita de um Deus encarnado. [\u2026] E [Jesus] n\u00e3o vos ama apenas, mais do que isso \u2013 anseia por v\u00f3s. Sente a vossa falta quando n\u00e3o vos aproximais. Tem sede de v\u00f3s\u201d (p. 59). Uma vez que a sua sede \u00e9 tanta, n\u00e3o se sacia enquanto n\u00e3o for totalmente reconhecida e correspondida. Quem conhece a sede que Deus tem de si, dedica-se necessariamente a saci\u00e1-la nos outros. Por isso, Teresa de Calcut\u00e1 se transformou \u2013 a si e \u00e0s suas seguidoras \u2013 em \u201cMission\u00e1ria da Caridade\u201d. Explica-o desta maneira: \u201cMinhas queridas filhas \u2013 sem o nosso sofrimento [a participa\u00e7\u00e3o na sede de Cristo, afinal], o trabalho que fazemos mais n\u00e3o seria do que um trabalho social, muito bom e muito \u00fatil, mas n\u00e3o seria obra de Jesus Cristo, n\u00e3o faria parte da reden\u00e7\u00e3o. \u2013 Jesus quis ajudar-nos partilhando a nossa vida, a nossa solid\u00e3o, a nossa agonia e a nossa morte. Tudo isso tomou Ele sobre Si, carregando-o na noite mais escura. S\u00f3 pelo facto de estar unido a n\u00f3s \u00e9 que Ele nos redimiu. N\u00f3s podemos fazer a mesma coisa. A desola\u00e7\u00e3o dos pobres, n\u00e3o apenas a sua pobreza material, mas tamb\u00e9m a sua indig\u00eancia espiritual, tudo isso tem de ser redimido e n\u00f3s temos de partilhar isso. [\u2026] \u2013 Sim, minhas queridas filhas \u2013 partilhemos os sofrimentos dos nossos Pobres pois s\u00f3 se estivermos unidos a eles poderemos redimi-los, isto \u00e9, levar Deus \u00e0 vida deles e lev\u00e1-los a Deus\u201d (p. 226). Contemplar a cruz do Redentor, absorver algo da sede divina que s\u00f3 a explica, \u00e9 passar em definitivo para o lado de Deus e dos seus sentimentos, \u00e9 viver de modo absolutamente crist\u00e3o, para com Deus e para com os outros. E importa compreender que, para a\u00ed chegar, \u00e9 preciso morrer para si, de modo igualmente absoluto e definitivo. O peso todo que estas palavras transportam traduz-se geralmente, nos m\u00edsticos e nos santos, como trevas e dores, mas salutares as duas.  Tamb\u00e9m para Madre Teresa se abriu um caminho de trevas, onde esteve muito com Cristo na cruz. Finalmente, compreendeu e disse: \u201cPela primeira vez ao longo destes 11 anos cheguei a amar a escurid\u00e3o. Pois estou agora convencida de que \u00e9 parte, uma parte muito, muito pequena da escurid\u00e3o e da dor de Jesus neste mundo. [\u2026] Hoje senti realmente uma profunda alegria \u2013 que Jesus j\u00e1 n\u00e3o pode passar por aquela agonia mas que quer passar por ela em mim\u201d (p. 221). \u201cHoje senti realmente uma profunda alegria\u2026\u201d, diz Teresa de Calcut\u00e1. Exactamente a alegria nova que s\u00f3 em Deus se pode ter, a de Cristo, como que desistindo de si para que os outros possam ser. Como fora a de Paulo, tamb\u00e9m plenamente identificado com a cruz redentora: \u201cAgora, alegro-me nos sofrimentos que suporto por v\u00f3s e completo na minha carne o que falta \u00e0s tribula\u00e7\u00f5es de Cristo, pelo seu Corpo, que \u00e9 a Igreja\u201d (Cl 1, 24). \u00c9 realmente outra vida, a que na cruz se revela e os verdadeiros disc\u00edpulos aprendem. Assim foi sempre, quando se descobriu a Cristo. Exemplos repetidos dos santos, que s\u00e3o para continuar em n\u00f3s, para que muitos outros renas\u00e7am da cruz. Alegria, alegria celeste, \u00e9 partilhar a sede e os trabalhos de Jesus Cristo pastor, que transporta aos ombros \u2013 como \u00e0 pr\u00f3pria cruz \u2013 toda a \u201covelha perdida\u201d, sempre encontrada pelo seu amor. Trabalhosa alegria, que Cristo reparte com os seus verdadeiros amigos, contando-a em par\u00e1bolas de sempre: \u201cQual \u00e9 o homem dentre v\u00f3s que, possuindo cem ovelhas e tendo perdido uma delas, n\u00e3o deixa as noventa e nove no deserto e vai \u00e0 procura da que se tinha perdido, at\u00e9 a encontrar? Ao encontr\u00e1-la, p\u00f5e-na alegremente aos ombros e, ao chegar a casa, convoca os amigos e vizinhos e diz-lhes: \u2018Alegrai-vos comigo, porque encontrei a minha ovelha perdida\u2019. Digo-vos Eu: \u2018Haver\u00e1 mais alegria no C\u00e9u por um s\u00f3 pecador que se converte, do que por noventa e novo justos que n\u00e3o necessitam de convers\u00e3o\u2019\u201d. E podemos dizer ainda que, al\u00e9m da alegria na recupera\u00e7\u00e3o de cada um, que nos deve tocar evangelicamente a todos, h\u00e1 tamb\u00e9m alegria em participar na pr\u00f3pria cruz, para nos encontrarmos e coincidirmos com o amor que a\u00ed mesmo nos salvou. Souberam-no sempre os verdadeiros penitentes, inteiramente rendidos ao amor de Deus, na cruz manifestado.  Evoquemos, pela especial sugest\u00e3o que tem, a crucificada alegria do hum\u00edlimo e enorme Francisco de Assis, numa c\u00e9lebre p\u00e1gina das suas Florinhas. Iam S\u00e3o Francisco e Frei Le\u00e3o estrada fora, de Per\u00fasia para Santa Maria dos Anjos. O frio era muito e Francisco dissertava sobre o que ainda n\u00e3o fosse a \u201cperfeita alegria\u201d, sempre muito al\u00e9m de qualquer satisfa\u00e7\u00e3o corrente, mesmo em mat\u00e9ria espiritual. \u201cE continuando a falar assim pelo espa\u00e7o de duas milhas, perguntou frei Le\u00e3o muito enleado: &#8211; \u2018Padre, da parte de Deus te pe\u00e7o que me digas onde est\u00e1 a perfeita alegria\u2019. E S. Francisco respondeu-lhe assim: &#8211; \u2018Se quando n\u00f3s chegarmos a Santa Maria dos Anjos, repassados de chuva, tiritando de frio, cobertos de lama e aflitos com fome, batermos \u00e0 porta, e vier de l\u00e1 o porteiro, todo irado e nos disser: \u2018- Quem sois v\u00f3s?\u2019, e n\u00f3s lhe respondermos: &#8211; \u2018Somos dois dos vossos irm\u00e3os\u2019; e ele replicar: \u2018 \u2013 N\u00e3o dizeis verdade: sois mas \u00e9 dois vagabundos que andais enganando o mundo e roubando as esmolas dos pobres; ponde-vos daqui para fora!\u2019; e n\u00e3o nos abrir, mas nos fizer passar a noite \u00e0 neve, \u00e0 chuva, com frio e com fome; e n\u00f3s ent\u00e3o suportarmos tanta inj\u00faria, tanta crueldade, tantos vitup\u00e9rios, com paci\u00eancia, sem perturba\u00e7\u00e3o nem murmurar, humilde e caritativamente pensando que, em verdade, aquele porteiro nos tinha conhecido e que Deus o movera a falar contra n\u00f3s: \u00f3 frei Le\u00e3o, escreve que nisto est\u00e1 a perfeita alegria\u2019\u201d.  E, continuando a imaginar contrariedades que sofressem em tal transe, Francisco esclareceu o disc\u00edpulo, como nos esclarecer\u00e1 agora n\u00f3s: \u201cse tudo isto lev\u00e1ssemos com paci\u00eancia e satisfa\u00e7\u00e3o, pensando nos trabalhos de Cristo bendito: e que por seu amor dev\u00edamos suportar estes trabalhos: \u00f3 frei Le\u00e3o, escreve que est\u00e1 nisso a perfeita alegria. E agora ouve a conclus\u00e3o. \u2013 Sobre todas as gra\u00e7as e dons do Esp\u00edrito Santo que aos seus amigos Cristo concede, est\u00e1 o de se vencer cada um a si mesmo, e o de, voluntariamente e por seu amor, sofrer penas, inj\u00farias, desprezos e opr\u00f3brios; e dos dons de Deus n\u00e3o nos podemos gloriar, porque nossos n\u00e3o s\u00e3o mas seus [\u2026]. Na cruz, por\u00e9m, e na tribula\u00e7\u00e3o, nos podemos gloriar, que isto \u00e9 nosso, e assim diz o Ap\u00f3stolo: \u2018N\u00e3o me quero gloriar, sen\u00e3o na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo\u2019\u201d (S\u00e3o Francisco de Assis. Escritos \u2013 Biografias \u2013 Documentos. Fontes franciscanas. Braga: Editorial Franciscana, 1982, p. 1045-1046).   Como se dissesse que s\u00f3 na tribula\u00e7\u00e3o poderemos oferecer algo de relativamente nosso, para a salva\u00e7\u00e3o do mundo no amor de Cristo. E a pr\u00f3pria experi\u00eancia nos vai mostrando que cria\u00e7\u00e3o significa sempre supera\u00e7\u00e3o de si mesmo, auto-doa\u00e7\u00e3o e amor comprovado. Ainda mais quando se trata de recria\u00e7\u00e3o.   Meditemos por fim \u2013 e n\u00e3o apenas no decurso desta celebra\u00e7\u00e3o \u2013 que no centro da sociedade e do mundo, com as dilacera\u00e7\u00f5es que n\u00e3o lhes faltam e tamb\u00e9m lembraremos na grande ora\u00e7\u00e3o universal que se segue, se ergue triunfadora a cruz de Cristo. Sendo o seu triunfo a caridade de Deus. Sendo a participa\u00e7\u00e3o nela a nossa heran\u00e7a e encargo. Que gostosamente \u2013mesmo quando custosamente \u2013 assumiremos decerto!     S\u00e9 do Porto, 21 de Mar\u00e7o de 2008 + Manuel Clemente, Bispo do Porto       <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Amados irm\u00e3os e irm\u00e3s, todos reunidos no G\u00f3lgota deste dia: Depois de tudo quanto ouvimos, a atitude certa seria o sil\u00eancio, contemplativo e contrito. E nem alguma coisa que eu diga agora o quer perturbar, antes confirmar, para o tempo que se segue, hoje e amanh\u00e3, at\u00e9 \u00e0 vig\u00edlia pascal. 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