{"id":30855,"date":"2008-03-21T00:44:34","date_gmt":"2008-03-21T00:44:34","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/03\/21\/eucaristia-dar-se-para-dar\/"},"modified":"2008-03-21T00:44:34","modified_gmt":"2008-03-21T00:44:34","slug":"eucaristia-dar-se-para-dar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/eucaristia-dar-se-para-dar\/","title":{"rendered":"Eucaristia, dar-se para dar"},"content":{"rendered":"<p>Homilia de D. Jorge ORtiga na celebra\u00e7\u00e3o da Ceia do Senhor <!--more--> <b>1 \u2013 Eucaristia, doa\u00e7\u00e3o de Deus<\/b> \u201cTomai e comei, isto \u00e9 o meu corpo, que \u00e9 para v\u00f3s\u201d. Express\u00e3o m\u00e1xima de entrega e doa\u00e7\u00e3o total. A Eucaristia \u00e9, por isso, o acontecimento m\u00e1ximo da doa\u00e7\u00e3o de Deus. Nela, reactualiza-se aquele salto, pelo qual Deus n\u00e3o apenas nos cumula de bens, mas se d\u00e1 a si mesmo, como fonte de todo o bem. Na Eucaristia torna-se-nos realmente presente o facto de que a gra\u00e7a de Deus n\u00e3o \u00e9, simplesmente, um conjunto de favores que n\u00e3o merecemos, mas sim o pr\u00f3prio Deus, presente como corpo, que se nos d\u00e1. E \u00e9 nessa doa\u00e7\u00e3o de si que nos salva. A liberta\u00e7\u00e3o dos cativos, anunciada por Isa\u00edas, enquanto manifesta\u00e7\u00e3o do ano da gra\u00e7a, realiza-se, de forma plena e insuper\u00e1vel, na medida em que o pr\u00f3prio Deus, feito cativo dos humanos, se nos entrega at\u00e9 ao fim. E a Eucaristia mais n\u00e3o \u00e9 do que a presen\u00e7a real dessa entrega. Bento XVI, na Sacramentum Caritatis, diz: \u201cO primeiro conte\u00fado da f\u00e9 eucar\u00edstica \u00e9 o pr\u00f3prio mist\u00e9rio de Deus, amor trinit\u00e1rio. No di\u00e1logo de Jesus com Nicodemos, encontramos uma afirma\u00e7\u00e3o esclarecedora a tal respeito: \u201cDeus amou tanto o mundo que entregou o Seu Filho Unig\u00e9nito, para que todo o homem que acredita n&#8217;Ele n\u00e3o pere\u00e7a, mas tenha a vida eterna. Porque Deus n\u00e3o enviou o Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele\u00bb (Jo 3, 16-17). Estas palavras revelam a raiz \u00faltima do dom de Deus. Na Eucaristia, Jesus n\u00e3o d\u00e1 \u00abalguma coisa\u00bb, mas d\u00e1-Se a Si mesmo; entrega o Seu corpo e derrama o Seu sangue. Deste modo d\u00e1 a totalidade da Sua pr\u00f3pria vida, manifestando a fonte origin\u00e1ria deste amor: Ele \u00e9 o Filho eterno que o Pai entregou por n\u00f3s\u201d. (7) O modo fundamental de acolhimento deste dom \u00e9, precisamente, a sua celebra\u00e7\u00e3o. Celebrar \u00e9, para n\u00f3s, fazer memorial, tornando realmente presente a pr\u00f3pria ac\u00e7\u00e3o de Deus que se entrega por n\u00f3s; mas \u00e9, ao mesmo tempo, celebrar esse dom acolhendo-o como tal, ou seja, reconhecendo que \u00e9 um dom que nos salva, muito para al\u00e9m de qualquer m\u00e9rito nosso. Celebrar significa acolher, jubilosamente, esse dom salv\u00edfico, pois s\u00f3 ele nos d\u00e1 a verdadeira vida. E, na medida em que o acolhemos, ele \u00e9-nos dado gratuitamente. Celebrar significa, ainda, acolher o facto de que o dom de Deus n\u00e3o \u00e9 propriedade privada, nem de cada crist\u00e3o nem da comunidade eclesial, no seu conjunto. O dom de Deus \u00e9 para ser dado a todos os humanos que o acolham. E se esse dom de Deus \u00e9 o dom da sua pr\u00f3pria vida, ent\u00e3o a doa\u00e7\u00e3o aos outros \u00e9 a doa\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria vida. Celebrar a eucaristia \u00e9 comprometer-se a dar a pr\u00f3pria vida pelos outros, tal como Deus a d\u00e1 por n\u00f3s, em Jesus Cristo. S\u00f3 assim o dom de Deus ser\u00e1 libertador para toda a humanidade. \u00c9 essa a nossa miss\u00e3o, o nosso servi\u00e7o aos humanos de todos os tempos, pois fomos enviados a servir e n\u00e3o a ser servidos. Servi\u00e7o esse que \u00e9 mais profundo que qualquer servilismo, porque n\u00f3s fomos enviados a lavar os p\u00e9s, em nome de Deus, a purificar, n\u00e3o propriamente a subjugar-nos perante os humanos. Por isso, o nosso servi\u00e7o humilde aos humanos \u00e9 um servi\u00e7o \u00e0 sua salva\u00e7\u00e3o, pela gra\u00e7a de Deus: porque \u201conde h\u00e1 caridade verdadeira, a\u00ed habita Deus\u201d. Assim, o servi\u00e7o aos humanos s\u00f3 faz sentido se for um servi\u00e7o a Deus ou \u00abservi\u00e7o divino\u00bb. \u00c9 uma Liturgia permanente: a liturgia sacerdotal e prof\u00e9tica de quem anuncia a boa nova sem medos, aben\u00e7oando e denunciando os percursos da humanidade. <b>2 \u2013 A doa\u00e7\u00e3o na fam\u00edlia<\/b> Coloquemos esta maravilhosa doutrina no \u00e2mbito da Fam\u00edlia. A P\u00e1scoa judaica era celebrada em fam\u00edlia, abrindo-se, em casos concretos, a outras fam\u00edlias. \u201cProcure cada qual um cordeiro por fam\u00edlia, um r\u00e9s para cada casa. Se a fam\u00edlia for pequena demais para comer o cordeiro, junte-se ao vizinho mais pr\u00f3ximo&#8230; (Ex 12, 1-8). O pr\u00f3prio Jesus Cristo quis celebrar a P\u00e1scoa com a Sua fam\u00edlia, n\u00e3o j\u00e1 a de sangue mas a comunidade dos Ap\u00f3stolos. Nestes tempos novos, teremos de rever as nossas celebra\u00e7\u00f5es e interrogar-nos se, efectivamente, s\u00e3o um encontro de fam\u00edlia no conhecimento m\u00fatuo e no amor rec\u00edproco. O caminho para que isso se experimente passa por motivar as fam\u00edlias para uma participa\u00e7\u00e3o familiar onde antes se efectua uma prepara\u00e7\u00e3o pr\u00e9via e depois se verifica os compromissos que a Eucaristia deixa na comunidade familiar. Para as fam\u00edlias crist\u00e3s, a participa\u00e7\u00e3o na Eucaristia n\u00e3o pode ser um mero preceito rigoroso e penoso de cumprir. Deve ser, pelo contr\u00e1rio, um dom que a Igreja oferece \u00e0 fam\u00edlia para que ela seja o que deve ser, ou seja, comunh\u00e3o de vida entre todos numa abertura aos valores perenes que se v\u00e3o assimilando no conv\u00edvio quotidiano. Sim, a Eucaristia \u00e9 o sacramento que constr\u00f3i a fam\u00edlia e lhe d\u00e1 consist\u00eancia e for\u00e7a para que seja fiel aos seus compromissos. Sem ela dificilmente a fam\u00edlia consegue ultrapassar as dificuldades e contratempos. \u00c9 for\u00e7a. \u00c9 luz norteadora. \u00c9 coes\u00e3o entre todos. Enfim, \u00e9 um dom maravilhoso que todas as fam\u00edlias devem descobrir. Da\u00ed que o domingo com a Eucaristia deveria tornar-se normal na certeza de que ainda ficar\u00e1 muito tempo para outras coisas. Se muitos dizem que a fam\u00edlia crist\u00e3 est\u00e1 em crise, uma das causas poder\u00e1 ser esta. N\u00e3o basta, conviver juntos para ser fam\u00edlia. \u00c9 necess\u00e1ria uma energia que congregue no amor e proporcione alimento capaz de retemperar energias e oferecer for\u00e7as para prosseguir a caminhada. Como seria bom que as nossas fam\u00edlias acolhessem com alegria quanto nos \u00e9 referido na primeira leitura: \u201cEsse dia ser\u00e1 para v\u00f3s uma data memor\u00e1vel que haveis de celebrar com uma festa em honra do Senhor\u201d (Ex 12, 14). Se a Eucaristia \u00e9 a for\u00e7a para ser fam\u00edlia, ela \u00e9 tamb\u00e9m a proposta do caminho a seguir. A fam\u00edlia vale pelo amor vivido n\u00e3o nas palavras mas nos actos concretos e a Eucaristia indica-nos que o amor n\u00e3o pode ficar a meio do caminho, contentando-se com algumas atitudes e comportamentos. Amar \u00e9 comprometer-se a dar tudo, sem reservas e condi\u00e7\u00f5es. Assim Cristo o fez: \u201cEle, que amara os Seus que estavam no mundo amou-os at\u00e9 ao fim\u201d (Jo 13, 3). Ir at\u00e9 ao fim, num amor indissol\u00favel e nos comportamentos de quem n\u00e3o se det\u00e9m perante as dificuldades mas se oferece, sempre, para ser amor numa auto-doa\u00e7\u00e3o at\u00e9 \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias. <b>3 \u2013 Servi\u00e7o na Fam\u00edlia e pelas fam\u00edlias<\/b> Tamb\u00e9m aqui a Eucaristia ensina a interpretar a fam\u00edlia como dom e compromisso. Mas, a fantasia do amor de Cristo manifestada no cen\u00e1culo, leva-nos mais longe: \u201cV\u00f3s chamais-me Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque o sou. Se Eu, que sou Mestre e Senhor, vos lavei os p\u00e9s, tamb\u00e9m v\u00f3s deveis lavar os p\u00e9s uns aos outros. Dei-vos o exemplo, para que, assim como Eu fiz, v\u00f3s fa\u00e7ais tamb\u00e9m (Jo 13, 1-15). Em Jesus Cristo o lavar os p\u00e9s teve um significado muito realista. Para n\u00f3s reveste-se doutras propostas dizendo-nos que, seguindo o seu exemplo, teremos de ser servos. A Igreja sempre teve este cart\u00e3o de identidade; hoje marcar\u00e1 presen\u00e7a na sociedade se ousar acreditar que o seu, \u00fanico e exclusivo, caminho \u00e9 o servi\u00e7o, sempre e em qualquer lugar, dentro da fam\u00edlia e no encontro com os contextos mais variados. Importa que cada um pretenda e se empenhe na atitude de ser dom atrav\u00e9s dum servi\u00e7o de delicadeza e ternura. Um servi\u00e7o que nunca pode ser um mero repartir de tarefas mas que deve acontecer nas surpresas que a vida proporciona. H\u00e1 coisas que parecem pequenas e que se desconsideram como algo sem  valor. No amor tudo vale e o que parece pequeno \u00e9 aquilo que o pr\u00f3ximo mais pr\u00f3ximo necessita e espera. Pode nem sequer agradecer, mas um gesto de dedica\u00e7\u00e3o e doa\u00e7\u00e3o d\u00e1 beleza ao quotidiano das fam\u00edlias. A felicidade na fam\u00edlia nem sempre est\u00e1 no ter. Pelo contr\u00e1rio, num mundo de consumismo gerador de tantos problemas, os lares crist\u00e3os devem mostrar que a felicidade depende do dar-se nas coisas mais insignificantes do dia a dia. Mais ainda, se parece que se perdeu o sentido da sobriedade e duma vida frugaz onde cada um se contenta com o essencial, teremos de voltar a um estilo de vida mais simples a come\u00e7ar pela educa\u00e7\u00e3o a dar \u00e0s crian\u00e7as. Muitas nascem e caminham longe de qualquer dificuldade. Da\u00ed que, mais tarde, se tornem revoltadas e fujam aos contratempos, desistindo de prosseguir a vida como uma luta e nunca como um dado adquirido. Este sentido de solidariedade n\u00e3o humilha mas exalta, n\u00e3o torna menos importantes mas d\u00e1 a dignidade \u00e0 vida desde que esteja dotada daquilo que n\u00e3o tem pre\u00e7o e est\u00e1 ao alcance de todos, ou seja, o amor sol\u00edcito e desinteressado que todos, dentro das capacidades pr\u00f3prias, oferecem. O lavar os p\u00e9s como atitude de amor servi\u00e7al, n\u00e3o passando pela l\u00f3gica do ter, tamb\u00e9m considera esta dimens\u00e3o. Da\u00ed que a Eucaristia, como fam\u00edlia, nos leve a pensar nas fam\u00edlias que n\u00e3o usufruem das condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas para uma vida digna. Houve um tempo em que se pensava na fam\u00edlias necessitadas; hoje parece que se esqueceu este elemento e ignoram-se situa\u00e7\u00f5es dram\u00e1ticas e alucinantes de muitos lares. As car\u00eancias voltam a acontecer, situa\u00e7\u00f5es de fome proliferam no anonimato e inconsci\u00eancia; falta de dinheiro para encarar as despesas necess\u00e1rias com  a alimenta\u00e7\u00e3o, habita\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, escola encontram-se ao lado das nossas casas. Urge voltar a reinventar formas de solidariedade activa pois muitos irm\u00e3os nossas reclamam que fa\u00e7amos da Eucaristia frac\u00e7\u00e3o e partilha do p\u00e3o. O desemprego alastra e n\u00e3o descortinamos igualdade de oportunidades para muitos. H\u00e1 situa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o podem esperar e que n\u00e3o vivem de promessas. A Eucaristia \u00e9 o dom por excel\u00eancia. Importa que, acolhendo-o, o tornemos vis\u00edvel atrav\u00e9s de compromissos de maior solidariedade. Se o dar-se \u00e9 o grande compromisso, o encontrar solu\u00e7\u00f5es para que as l\u00e1grimas n\u00e3o se tornem p\u00e3o de cada dia para muitas fam\u00edlias \u00e9 imperativo de consci\u00eancia. A eucaristia assim o exige. <i>S\u00e9 Catedral \u2013 Quinta-feira Santa, 20-03-2008 D. Jorge Ortiga, A.P.<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homilia de D. 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