{"id":308070,"date":"2023-12-20T12:22:35","date_gmt":"2023-12-20T12:22:35","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=308070"},"modified":"2023-12-20T12:22:35","modified_gmt":"2023-12-20T12:22:35","slug":"a-indiferenca-religiosa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-indiferenca-religiosa\/","title":{"rendered":"A indiferen\u00e7a religiosa"},"content":{"rendered":"<div><em>Padre V\u00edtor Pereira, Diocese de Vila Real\u00a0<\/em><\/div>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-268285 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real.jpg 900w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/>Sobretudo na Europa, estamos a viver tempos de grande indiferen\u00e7a religiosa. Apesar da pandemia, onde se proclamou apressadamente que poder\u00edamos assistir a um regresso a Deus, pelo profundo impacto nos alicerces e raz\u00f5es mais profundas da vida, a verdade \u00e9 que perdura a convic\u00e7\u00e3o de que se pode viver perfeitamente sem uma refer\u00eancia divina e sem qualquer rela\u00e7\u00e3o com o transcendente. Para muitos, a religi\u00e3o \u00e9 uma perda de tempo ou at\u00e9 um adorno desnecess\u00e1rio, ainda assim \u00fatil, dir\u00e3o alguns, para se ir enterrando os mortos e para se ir tendo algum consolo nas agruras da vida. Sinais dessa indiferen\u00e7a \u00e9 a facilidade com que hoje muitos se dizem agn\u00f3sticos ou cat\u00f3licos n\u00e3o praticantes, que s\u00e3o a esmagadora maioria da sociedade. H\u00e1 o agn\u00f3stico que anda \u00e0 procura, e por este tenho um grande respeito, mas h\u00e1 o agn\u00f3stico que se est\u00e1 nas tintas, que habilmente usa a palavra para n\u00e3o dizer que n\u00e3o se importa nada com Deus nem com a religi\u00e3o. \u00c9 o caso da maioria dos ditos agn\u00f3sticos. Quanto aos cat\u00f3licos n\u00e3o praticantes, \u00e9 uma f\u00f3rmula c\u00f3moda e incoerente que se criou para se dizer o mesmo, mas mais grave ainda, porque n\u00e3o se vive aquilo que se professa, no sentido em que o Cristianismo \u00e9 um seguimento e uma rela\u00e7\u00e3o viva com Jesus Cristo e com a Igreja. Isto vive-se e pratica-se, n\u00e3o se fica a ver viver e praticar. Para que \u00e9 que serve uma f\u00e9 num Deus a quem n\u00e3o dou import\u00e2ncia nenhuma na minha vida do dia-a-dia, com quem n\u00e3o falo e a quem n\u00e3o escuto? Enfim, est\u00e1 a\u00ed a indiferen\u00e7a religiosa, em v\u00e1rios sentidos e com v\u00e1rios rostos.<\/p>\n<p>S\u00e3o muitas as causas que apontam para a indiferen\u00e7a religiosa: as m\u00e1s pr\u00e1ticas das religi\u00f5es, que, por vezes, parecem contribuir mais para o obscurantismo e a escravid\u00e3o do que para a liberdade e a verdadeira realiza\u00e7\u00e3o das pessoas; o contratestemunho e as a\u00e7\u00f5es imundas das religi\u00f5es e seus seguidores, que, de facto, existiram e existem; o seu imobilismo, resist\u00eancia \u00e0 mudan\u00e7a e desfasamento face \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o da vida e dos tempos; o pensamento d\u00e9bil e o comodismo do mundo atual, que n\u00e3o quer saber de grandes ideais e compromissos, nem de grandes inquieta\u00e7\u00f5es e destinos, que n\u00e3o busca as raz\u00f5es mais profundas da vida; a liga\u00e7\u00e3o das religi\u00f5es com a viol\u00eancia, que est\u00e1 infelizmente na ordem do dia e n\u00e3o deixa de ser uma escandalosa incoer\u00eancia e um doloroso contratestemunho, entre outras. Aceito que tudo isto gere alguma resist\u00eancia \u00e0 religi\u00e3o e n\u00e3o convide muito \u00e0 viv\u00eancia religiosa. Mas n\u00e3o justifica tudo. Os clubes de futebol t\u00eam muitos maus exemplos e muitos atos reprov\u00e1veis e n\u00e3o param de ter adeptos aguerridos e ululantes. Bem pelo contr\u00e1rio. Os partidos pol\u00edticos fartam-se de acumular incoer\u00eancias e imoralidades e n\u00e3o deixam de ter seguidores. Se as pessoas deixam de ser cat\u00f3licas por causa das desonestidades e das incongru\u00eancias do catolicismo, ent\u00e3o t\u00eam de deixar de ser muita coisa, mas, pelos vistos, s\u00f3 deixam o que lhes interessa e selecionam sem grande racionalidade.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 que a causa para muita indiferen\u00e7a religiosa \u00e9 bem mais profunda. O homem \u00e9 um ser religioso. Sente a necessidade de procurar e de se relacionar com algu\u00e9m que o sacie e lhe mate as suas sedes e as suas fomes. Algu\u00e9m totalmente outro que d\u00ea consist\u00eancia \u00e0 vida e que a torne uma experi\u00eancia plena, eterna e fecunda. Tem vida interior que apela para viv\u00eancias mais profundas e para a busca de sentido e de esp\u00edrito. O homem atual deixou de sentir isto? \u00c9 claro que n\u00e3o. Isto est\u00e1 \u00e9 anestesiado e adormecido nas pessoas. A religi\u00e3o seguiu um caminho errado, caminho que ainda est\u00e1 muito longe de ser corrigido. O ser humano tem tend\u00eancia a fabricar materialismos religiosos e religi\u00f5es materialistas. Com o tempo, contagiando tudo e todos, o ser humano \u00e9 levado a materializar a sua religi\u00e3o e a sacralizar os seus materialismos. Repare-se, por exemplo, segundo o que ouvimos, no que as pessoas v\u00e3o buscar a F\u00e1tima: cura de uma doen\u00e7a, sucesso de um empreendimento, triunfo nos exames, vit\u00f3ria do seu clube, sucesso na vida e nos neg\u00f3cios, emprego, entre outros. Como dizia D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes, bispo do Porto, \u00abpara muitos crist\u00e3os cat\u00f3licos a religi\u00e3o n\u00e3o tem nada de transcendente\u00bb. \u00c9 \u00fatil para resolver problemas e dificuldades. S\u00f3 andamos de roda de Deus para termos proveitos materiais. \u00c9 o que \u00e9 mais frequente na viv\u00eancia religiosa. Pouco a pouco, fomos limitando a religi\u00e3o a esta pr\u00e1tica materialista e interesseira. Muitos cat\u00f3licos, possivelmente, rezam porque t\u00eam interesse em obter coisas de Deus. Sinal claro disto mesmo \u00e9 que quando h\u00e1 guerra, as igrejas est\u00e3o cheias de fi\u00e9is, que esquecem imediatamente esse caminho logo que regressa a paz ou a abund\u00e2ncia, a prosperidade e a riqueza.<\/p>\n<p>O facto de a religi\u00e3o se apresentar como conquistadora e distribuidora de vantagens materiais contribuiu muito para a indiferen\u00e7a religiosa. Alguns perguntar\u00e3o: mas ent\u00e3o Deus n\u00e3o \u00e9 Pai e n\u00e3o tem prazer em dar coisas? Certamente que tem. Mas abusou-se e abusa-se desta pr\u00e1tica, de tal forma que a religi\u00e3o se imp\u00f4s pelo seu car\u00e1cter utilit\u00e1rio e a pr\u00e1tica religiosa tornou-se um fazer isto para ter aquilo ou dar tanto para ter tanto, uma negociata e jogo de interesses, em que s\u00f3 se busca a realiza\u00e7\u00e3o dos interesses materiais. S\u00f3 que a religi\u00e3o n\u00e3o pode reduzir-se nem degenerar num conjunto de pedidos materiais, fazendo-se de Deus um grande distribuidor sobrenatural de vantagens materiais. A ora\u00e7\u00e3o torna-se, assim, um discurso interesseiro. A busca de aspirinas celestes. Foi este caminho errado que as religi\u00f5es trilharam. Ora, adquirindo-se as vantagens materiais, Deus torna-se um Deus in\u00fatil, um Deus que sabemos estar ali, mas ao qual n\u00e3o damos nenhum lugar, nenhuma atribui\u00e7\u00e3o na nossa vida. Um Deus a quem j\u00e1 n\u00e3o se reza ou quase j\u00e1 se n\u00e3o reza. Depois que se desenvolveram os meios t\u00e9cnicos, o homem pede aos t\u00e9cnicos muitas coisas que outrora pedia a Deus. Repentinamente, deixou de se ocupar com Deus. Parece-lhe desnecess\u00e1rio para a sua vida quotidiana, a n\u00e3o ser para quando todos os meios t\u00e9cnicos falhem.<\/p>\n<p>As religi\u00f5es, t\u00eam, assim, de sanar este grande equ\u00edvoco, esta grave deturpa\u00e7\u00e3o da viv\u00eancia religiosa, t\u00eam de proceder \u00e0 desmaterializa\u00e7\u00e3o do seu discurso e das suas promessas e da sua configura\u00e7\u00e3o utilit\u00e1ria, que as desfigura, e que, infelizmente, ainda a\u00ed anda muito na prega\u00e7\u00e3o religiosa. A grandeza da religi\u00e3o est\u00e1 na rela\u00e7\u00e3o m\u00edstica com Deus que ela oferece aos crentes, onde o homem verdadeiramente se realiza e satisfaz, porque o homem realiza-se no seu estar e ser e n\u00e3o no seu ter.<\/p>\n<p>A celebra\u00e7\u00e3o de mais um natal acalenta em mim a esperan\u00e7a de que este Deus menino incarnado vai conquistar o cora\u00e7\u00e3o de mais alguns. Mas continuam a verificar-se as resist\u00eancias do seu nascimento hist\u00f3rico: teve de nascer num est\u00e1bulo, sem grandes meios e sem grande aten\u00e7\u00e3o, visitado, primeiro que tudo, pelos mais simples e humildes da terra. Ainda hoje, est\u00e1 a passar ao lado de muitos, os grandes est\u00e3o muito ocupados com os seus projetos de poder e de riqueza, de viol\u00eancia e opress\u00e3o. Se muitos soubessem o quanto Ele tem para oferecer\u2026Bom Natal.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre V\u00edtor Pereira, Diocese de Vila Real\u00a0<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":268285,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-308070","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/308070","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=308070"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/308070\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/268285"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=308070"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=308070"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=308070"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}